<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616</id><updated>2011-09-28T15:28:36.180-03:00</updated><category term='Cuba'/><category term='Socialismo'/><category term='Futebol'/><category term='Coisas alheias'/><category term='Saúde'/><category term='Religião'/><category term='Europa. comportamento'/><category term='Mídia'/><category term='Brasil'/><category term='Poemas'/><category term='Questão social'/><category term='Meio Ambiente'/><category term='América Latina'/><category term='Comportamento'/><category term='Esquerda'/><category term='Ciência e Razão'/><category term='Política'/><category term='EUA'/><category term='China e Extremo Oriente'/><category term='Oriente Médio'/><category term='África'/><category term='Economia'/><title type='text'>Utopia concreta</title><subtitle type='html'>Um blog que ainda emite uma luz de esperança em meio à tenebrosa escuridão de nosso mundo. Não passa de um desencargo de consciência de um esquerdista que acredita que a Humanidade ainda pode ser salva.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>96</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7840846051637571089</id><published>2011-09-25T21:57:00.003-03:00</published><updated>2011-09-25T22:04:01.234-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ciência e Razão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Manifesto da Ciência Tropical - Miguel Nicolelis</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como este blog anda meio às moscas, aí vai um texto muito interessante que encontrei por aí. O médico neurocientista brasileiro - e cotado para o Nobel em Medicina por suas pesquisas em interação cérebro-máquina - lançou um manifesto a favor do desenvolvimento da ciência em nosso país. Como podem ver, não sou o único a defender a preservação e o estímulo ao pleno desenvolvimento do potencial humano.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Vale a pena ler!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso  democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e  econômica no Brasil&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;por Miguel Nicolelis&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;É hora da ciência brasileira assumir definitivamente um compromisso  mais central perante toda a sociedade e oferecer o seu poder criativo e  capacidade de inovação para erradicar a miséria, revolucionar a educação  e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;É hora de agarrar com todas as forças a oportunidade de contribuir  para a construção da nação que sonhamos um dia ter, mas que por muitas  décadas pareceu escapar pelos vãos dos nossos dedos.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;É hora de aproveitar este momento histórico e transformar o Brasil,  por meio da prática cotidiana do sonho, da democracia e da criação  científica, num exemplo de nação e sociedade, capaz de prover a  felicidade de todos os seus cidadãos e contribuir para o futuro da  humanidade.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;No intuito de contribuir para o início desse processo de libertação  da energia potencial de criação e inovação acumulada há séculos no  capital humano do genoma brasileiro, eu gostaria de propor &lt;strong&gt;15 metas centrais para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A implementação delas nos permitirá acelerar exponencialmente o  processo de inclusão social e crescimento econômico, que culminará, na  próxima década, com o banimento da miséria, a maior revolução  educacional e ambiental da nossa história e a decolagem irrevogável e  irrestrita da indústria brasileira do conhecimento.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Estas 15 metas visam a desencadear a massificação e a democratização  dos meios e mecanismos de geração, disseminação, consumo e  comercialização de conhecimento de ponta por todo o Brasil.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O objetivo é proporcionar a 1 milhão de crianças, nos próximos 4  anos,  acesso a um programa de educação científica pública, protagonista  e cidadã de alto nível. Esse programa utilizará o método científico  como ferramenta pedagógica essencial, combinando a filosofia de vida de  dois grandes brasileiros: Paulo Freire e Alberto Santos-Dumont.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Ao unir a educação como forma de alcançar a cidadania plena com a  visão de que ciência se aprende e se faz “pondo a mão na massa”, sugiro a  criação do &lt;strong&gt;Programa Educação para Toda a Vida&lt;/strong&gt;, do qual faria parte o &lt;strong&gt;Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont&lt;/strong&gt;  (veja abaixo). A porta de entrada se daria nos serviços de pré-natal  para as mães dos futuros alunos do programa. Após o nascimento, essas  crianças seriam atendidas no berçário e na creche, depois na escola de  educação científica que os serviria dos 4-17 anos, para que esses  brasileiros e brasileiras possam desenvolver toda a sua potencialidade  intelectual e criativa nas duas próximas décadas de suas vidas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O programa de educação científica seria implementado no turno oposto  ao da escola pública regular, criando um regime de educação em tempo  integral para crianças de 4-17 anos, por meio de parceria do governo  federal com governos estaduais e municipais. Cada unidade da rede de  universidades federais poderia ser responsável pela gestão de um núcleo  do &lt;strong&gt;Programa Educação para Toda Vida&lt;/strong&gt;, voltado para a população do entorno de cada campus.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O governo federal poderia ainda incentivar a participação da  iniciativa privada, oferecendo estímulos fiscais e tributários para as  empresas que estabelecessem unidades de educação científica  infanto-juvenil, ao longo do território nacional. Por exemplo, o novo  centro de pesquisas da Petrobras poderia criar uma das maiores unidades  do &lt;strong&gt;Educação para Toda Vida&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A implementação do &lt;strong&gt;Programa Educação para Toda Vida&lt;/strong&gt;  geraria uma demanda inédita para professores especializados no ensino de  ciência e tecnologia. Para supri-la, o governo federal poderia  estabelecer o &lt;strong&gt;Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont&lt;/strong&gt;,  que seria o responsável pela gestão dos centros nacionais de formação  de professores de ciências, espalhados por todo território nacional. As  universidades federais, os &lt;strong&gt;Institutos Federais de Tecnologia&lt;/strong&gt; (antigos CEFETs) e uma futura cadeia de &lt;strong&gt;Institutos Brasileiros de Tecnologia &lt;/strong&gt;(veja abaixo) poderiam estabelecer programas de formação de professores de ciências e tecnologia em todo o país.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Esses novos programas capacitariam uma nova geração de professores a  ensinar conceitos fundamentais da ciência, através de aulas práticas em  laboratórios especializados, tecnologia da informação e utilização de  métodos, processos e novas ferramentas para investigação científica. Os  alunos que se graduassem no programa &lt;strong&gt;Educação para Toda Vida &lt;/strong&gt;teriam  capacitação, antes mesmo do ingresso na universidade, para se integrar  ao trabalho de laboratórios de pesquisa profissionais, tanto públicos  como privados, através do &lt;strong&gt;Programa Nacional de Iniciação Científica e do Bolsa Ciência&lt;/strong&gt; (veja abaixo).&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Seria em paralelo à tradicional carreira de docente. Ela nos  permitiria recrutar uma nova geração de cientistas que se dedicaria  exclusivamente à pesquisa científica, com carga horária de aulas  correspondente a 10% do seu esforço total. Sem essa mudança não há como  esperar que pesquisadores das universidades federais possam dar o salto  científico qualitativo necessário para o desenvolvimento da ciência de  ponta do país.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Eles serviriam para suprir a demanda de engenheiros, tecnólogos e  cientistas de alto nível e promover a inclusão social por meio do  desenvolvimento da indústria brasileira do conhecimento. Atualmente o  Brasil apresenta um déficit imenso desses profissionais.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Para sanar essa situação, o Brasil poderia reproduzir o modelo criado  pela Índia, que, desde a década de 1950, construiu uma das melhores  redes de formação de engenheiros e cientistas do mundo, constituída pela  cadeia de Institutos Indianos de Tecnologia.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Para tanto, o governo federal deveria criar nos próximos oito anos uma rede de 16 &lt;strong&gt;Institutos Brasileiros de Tecnologia&lt;/strong&gt;  (IBT) e espalhá-los em bolsões de miséria do território nacional,  especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Cada IBT  poderia admitir até 5.000 alunos por ano.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;5) Criação de 16 Cidades da Ciência&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Localizadas nas regiões com baixo índice de desenvolvimento humano,  como o Vale do Ribeira, Jequitinhonha, interior do Nordeste, Amazônia,  as &lt;strong&gt;Cidades da Ciência&lt;/strong&gt; ficariam no entorno dos novos IBTs.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;As &lt;strong&gt;Cidades da Ciência&lt;/strong&gt; seriam, na prática, o  componente final da nova cadeia de produção do conhecimento de ponta no  Brasil. Acopladas aos novos IBTs e à rede de universidades federais,  criariam o ambiente necessário para a transformação do conhecimento de  ponta, gerado por cientistas brasileiros, em tecnologias e produtos de  alto valor agregado que dariam sustentação à indústria brasileira do  conhecimento.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Nas &lt;strong&gt;Cidades da Ciência&lt;/strong&gt; seriam criadas e  estabelecidas as grandes empresas do conhecimento nacional, onde o  potencial científico do povo brasileiro poderia se transformar em novas  fontes de riqueza a serem aplicadas na gênese de um sistema nacional  autossustentável. Tal iniciativa permitiria a inserção do Brasil na era  da economia do conhecimento que dominará o século XXI.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Esse verdadeiro cinturão de defesa, formado por um arco contínuo de &lt;strong&gt;Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia&lt;/strong&gt;,  seria disposto em paralelo ao chamado “Arco de Fogo”, formado em  decorrência do agronegócio predatório e da indústria madeireira ilegal,  responsáveis pelo desmatamento da região. Essa iniciativa visa a fincar  uma linha de defesa permanente contra o avanço do desmatamento ilegal,  modificando a estratégia das unidades de conservação a fim de colocá-las  a serviço de um &lt;strong&gt;Programa Nacional de Mapeamento dos Biomas Brasileiros&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Uma série de unidades de conservação poderia ser transformada em  unidades híbridas. Assim, além da conservação, poderiam incluir grandes  projetos de pesquisa que possibilitem ao Brasil mapear a riqueza e a  magnitude dos serviços ecológicos e climáticos encontrados nos diversos  biomas nacionais.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Para incentivar a participação de populações autóctones nesse esforço, o governo federal poderia criar o programa &lt;strong&gt;Bolsa Ciência Cidadã&lt;/strong&gt;.  Homens, mulheres e adolescentes, que vivem na floresta amazônica e  conhecem seus segredos melhor do que qualquer professor doutor,  receberiam uma bolsa, similar ao bolsa família, para integrarem as  equipes de pesquisadores e responsáveis pela implementação das leis  ambientais na região. Esse exército de cidadãos, devotado à investigação  científica e à proteção da Amazônia, mostraria ao mundo o quão  determinado o Brasil está em preservar uma das maiores maravilhas  biológicas do planeta.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Evidentemente tal iniciativa poderia ser replicada em outras áreas  críticas, também ameaçadas pela indústria predatória, como o Pantanal, a  caatinga, o cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A descoberta do pré-sal demonstra claramente que uma das maiores  fontes potenciais de riqueza futura da sociedade brasileira reside no  vasto e diverso bioma marítimo da nossa costa.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Apesar disso, os esforços nacionais para estudo científico desse  vasto ambiente são muito incipientes. Aqui também o Brasil pode inovar  de forma revolucionária. Em parceria com a Petrobras, o governo federal  poderia estabelecer, no limite das 350  milhas marinhas, oito  plataformas voltadas para a pesquisa oceanográfica e climática, visando  ao mapeamento das riquezas no mar tropical brasileiro.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Essas verdadeiras &lt;strong&gt;“Cidades Marítimas”,&lt;/strong&gt; dispostas a  cada mil quilômetros da costa brasileira, seriam interligadas por  serviço de transporte marítimo e aéreo (helicópteros) e se valeriam de  incentivos à renascente indústria naval brasileira, para o  desenvolvimento, por exemplo, de veículos de exploração a grandes  profundidades.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Cada &lt;strong&gt;“Cidade Marítima”&lt;/strong&gt; seria autossuficiente,  contando com laboratórios, equipamentos e equipe própria de  pesquisadores. Tais edificações serviriam também como postos mais  avançados de observação dos limites marítimos do Brasil. Com o crescente  desenvolvimento da exploração do pré-sal, essa rede de &lt;strong&gt;“Cidades Marítimas” &lt;/strong&gt;poderia assumir papel fundamental na defesa da nossa soberania marítima dentro das águas territoriais.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;8) Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Embora subestimado pela sociedade e a mídia brasileiras, o  fortalecimento do programa espacial brasileiro oferece outro exemplo  emblemático de como o futuro do desenvolvimento científico no Brasil é  questão de soberania nacional.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Dos países pertencentes ao BRIC, o Brasil é o que possui o mais  tímido e subdesenvolvido programa espacial. Apesar da sua situação  geográfica altamente favorável, a Base de Alcântara não tem  correspondido às altas expectativas geradas com a sua construção.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Essa situação é inaceitável, uma vez que, a longo prazo, pode levar o  Brasil a uma dependência irreversível no que tange a novas tecnologias e  novas formas de comunicação, colocando a nossa soberania em risco.  Dessa forma, urge reativar os investimentos nessa área vital, definir  novas e ambiciosas metas para o programa espacial brasileiro e  esclarecer o papel da sociedade civil na operação dos programas da Base  de Alcântara, cujo controle deveria estar nas mãos de uma equipe civil  de pesquisadores e não das forças armadas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Com a criação do &lt;strong&gt;Programa Educação para Toda Vida&lt;/strong&gt;,  seria necessário implementar novas ferramentas para que os adolescentes  egressos desses programas pudessem dar vazão a seus anseios de criação,  invenção e inovação através da continuidade do processo de educação  científica, mesmo antes do ingresso na universidade e depois dele.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Na realidade, é extremamente factível que grande número desses jovens  possa começar a contribuir efetivamente para o processo de geração de  conhecimento de ponta antes do ingresso na universidade.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O governo federal poderia criar um &lt;strong&gt;Programa Nacional de Iniciação Científica&lt;/strong&gt; que leve ao estabelecimento de 1 milhão de &lt;strong&gt;Bolsas Ciência&lt;/strong&gt;. Uma experiência preliminar desse programa já existe no CNPQ, através do recém-criado programa dos &lt;strong&gt;Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia&lt;/strong&gt;.  Bastaria ampliá-lo e remover certas amarras burocráticas que dificultam  a sua implementação neste momento. Esse programa poderia também ser  usado pelo governo federal para eliminar uma porcentagem significativa  (30%) da evasão do ensino médio, decorrente da necessidade dos alunos em  contribuir para a renda familiar.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Jovens de talento científico reconhecido deveriam também ter a opção  de seguir carreira de inventor ou pesquisador sem necessitar de  doutorado ou outro curso de pós-graduação. Tal alternativa contribuiria  decisivamente para a diminuição do período de treinamento necessário  para que talentos científicos pudessem participar efetivamente do  desenvolvimento científico do Brasil.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Tendo proposto novas ações, é fundamental que essas sejam devidamente  financiadas. Para tanto e, ainda, para assegurar a ascensão da ciência  brasileira aos patamares de excelência dos países líderes mundiais, o  governo brasileiro teria de tomar a decisão estratégica de destinar, nas  próximas décadas, algo em torno de 4-5% do PIB nacional à ciência e  tecnologia.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Em vários países, como os EUA, essa conta é dividida em partes iguais  entre o poder público e privado. No Brasil, todavia, não existem  condições para que isso ocorra de imediato. Dessa forma, não restaria  outra alternativa ao governo federal senão assumir a responsabilidade  desse investimento estratégico, usando novas fontes de receita, como a  gerada pela exploração do pré-sal.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Reformulação de normas de procedimento e processo para agilizar a  distribuição eficiente de recursos ao pesquisador e empreendedor  científico, bem como criar um novo modelo de gestão e prestação de  contas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A ciência e o cientista brasileiro não podem mais ser regidos pelas  mesmas normas de 30-40 anos atrás, utilizadas na prestação de contas de  recursos públicos para construção de rodovias e hidrelétricas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Urge, portanto, reformular completamente todos os protocolos de  cooperação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com outros  ministérios estratégicos para execução de projetos multiministeriais.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Na lista de cooperação estratégica do MCT, incluem-se os ministérios  da Educação, Saúde, Meio Ambiente, Minas e Energia, Indústria e  Comércio, Agricultura, Defesa e Relações Exteriores. Normas comuns de  operação dos departamentos jurídicos e dos processos de prestação de  contas devem ser produzidas entre o MCT e esses ministérios, de sorte a  incentivar a realização de projetos estratégicos interministerais, como o  &lt;strong&gt;Educação para Toda Vida&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O cenário atual cria inúmeros empecilhos para ratificação de projetos  estratégicos aprovados no mérito científico (o principal quesito), mas  que, via de regra, passam meses e até anos prisioneiros dos  desconhecidos meandros e procedimentos conflitantes com que operam os  diferentes departamentos jurídicos dos diferentes ministérios.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Urge eliminar tal barreira kafkaniana e transferir o poder de  decisão, atualmente nas catacumbas jurídicas dos ministérios onde volta e  meia processos desaparecem, para as mãos dos gestores de ciência  treinados para implementar uma visão estratégica do projeto nacional de  ciência e tecnologia.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;12) Criação de &lt;em&gt;joint ventures&lt;/em&gt; para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;É’ fundamental investir numa redução verdadeira dos trâmites  burocráticos “medievais” que ainda existem para aquisição de materiais  de consumo e equipamentos de pesquisa importados. Para tanto, é  importante definir políticas de incentivo ao estabelecimento de empresas  nacionais dispostas a suprir o mercado nacional com insumos e  equipamentos científicos.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;13) Criação do Banco do Cérebro&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Um dos maiores gargalos para o crescimento da área de ciência e  tecnologia no Brasil é a dificuldade que cientistas e empreendedores  científicos enfrentam para ter acesso ao capital necessário para  desenvolver novas empresas baseadas na sua propriedade intelectual.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Na maioria das vezes, esses inventores e microempreendedores científicos ficam à mercê da ação de &lt;em&gt;venture capitalists&lt;/em&gt;, que oferecem capital em troca de boa parte do controle acionário da empresa em que desejam investir.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Para reverter esse cenário, o governo federal poderia criar o &lt;strong&gt;Banco do Cérebro&lt;/strong&gt;,  uma instituição financeira destinada a implementar vários mecanismos  financeiros para fomento do empreendedorismo científico nacional.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Essas ferramentas financeiras incluiriam desde programa de  microcrédito científico até formas de financiamento de novas empresas  nacionais voltadas para produtos de alto valor agregado, fundamentais ao  desenvolvimento da ciência brasileira e da economia do conhecimento.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Para isso, o governo federal deverá exigir que esses novos empreendimentos científicos sejam localizados numa das novas &lt;strong&gt;Cidades da Ciência&lt;/strong&gt;. &lt;em&gt;Joint ventures&lt;/em&gt; entre empreendedores brasileiros e estrangeiros também deverão ser estimuladas pelo&lt;strong&gt; Banco do Cérebro&lt;/strong&gt;, seguindo o mesmo critério social.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;14) Ampliação e incentivo a bolsas de doutorado e pós-doutorado dentro e fora do Brasil&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;À primeira vista pode parecer contraditório propor metas para o desenvolvimento da &lt;strong&gt;Ciência Tropical&lt;/strong&gt;  e, ao mesmo tempo, reivindicar aumento significativo de bolsas de  doutorado e pós-doutorado para alunos brasileiros no exterior.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Novamente, a proposta da &lt;strong&gt;Ciência Tropical &lt;/strong&gt;é, antes  de tudo, um nova proposta para o desenvolvimento de excelência na  prática da pesquisa e educação científica. Dessa forma, ela tem de  incentivar todas as formas que permitam aos melhores e mais promissores  cientistas brasileiros complementarem sua formação fora do território  nacional.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Como bem disse a presidente-eleita Dilma Rousseff durante a campanha:  “ O Brasil precisa de seus cientistas porque eles iluminam o nosso  país”.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Pois que os futuros jovens cientistas brasileiros tenham a  oportunidade de se transformar em genuínos embaixadores da ciência  brasileira e complementar seus estudos em universidades e institutos de  pesquisa estrangeiros, líderes em suas respectivas áreas.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Esse processo de intercâmbio e “oxigenação” de idéias é essencial à  prática da ciência de alto nível. Mesmo os cientistas brasileiros que  optarem por ficar no exterior depois desse e treinamento poderão trazer  dividendos fundamentais para o desenvolvimento da &lt;strong&gt;Ciência Tropical.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Com a crise financeira, verdadeiros exércitos de cientistas  americanos e europeus estarão procurando novas posições nos próximos  anos. Cabe ao Brasil tirar vantagem dessa situação e passar a ser um  importador de cérebros e não um exportador de talentos.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Historicamente, a academia brasileira tem inúmeros exemplos  excepcionais de pesquisadores estrangeiros de alto nível que alavancaram  grandes avanços científicos no Brasil. O &lt;strong&gt;Programa Brasileiro de Ciência Tropical &lt;/strong&gt;só teria a ganhar com uma política mais abrangente, audaciosa e sistêmica de importação de talentos.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7840846051637571089?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7840846051637571089/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7840846051637571089' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7840846051637571089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7840846051637571089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/09/manifesto-da-ciencia-tropical-miguel.html' title='Manifesto da Ciência Tropical - Miguel Nicolelis'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-763172905099140337</id><published>2011-07-25T21:54:00.004-03:00</published><updated>2011-07-29T11:43:15.153-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Europa. comportamento'/><title type='text'>Imbecilidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Noruega e o mundo assistiram recentemente a uma demonstração (daquelas que estamos enjoados de ver) de que as suspeitas de Albert Einstein de que a estupidez humana é infinita têm sólido fundamento. Um imbecil norueguês, insatisfeito com a "islamização" de seu país e da Europa, e preocupado com a "perda da pureza de seu povo", realizou um atentado a bomba em Oslo e pouco tempo depois entrou armado em um evento promovido pelo Partido Trabalhista da Noruega em uma localidade próxima, abrindo fogo contra dezenas de jovens - usando munição proibida até em guerras por seus terríveis efeitos sobre o corpo. Mais de sete dezenas de pessoas morreram, somando-se os dois atos de covardia perpetrados pelo acéfalo nórdico. O mundo está de luto, chocado com mais essa demonstração de intolerância de um ser humano. Mas certamente há, principalmente na Europa, alguns que, mesmo em segredo, aplaudiram essa barbaridade.&lt;br /&gt;A culpa de todo e qualquer atentado que ocorre no mundo hoje recai, inicialmente, sobre extremistas muçulmanos. Obviamente, não por acaso. Existe todo um retrospecto, desde antes de 11 de setembro, que faz deles importantes suspeitos. Mas enxergar o islã como sinônimo de terrorismo é uma estupidez, visto que diversos povos de países muçulmanos se levantaram contra os desmandos de seus líderes neste ano de 2011 em uma clara demonstração de que desejam democracia e paz, e não a destruição do Ocidente (como a minúscula e barulhenta minoria de radicais faz parecer). E agora, depois dessa barbaridade norueguesa, o mundo ocidental deve se convencer de que cristãos também cometem atrocidades da mesma baixeza das cometidas por radicais muçulmanos. Se tomarmos como base as reações da opinião pública e das lideranças ocidentais contra os muçulmanos após os recorrentes atentados cometidos por eles, será que agora as autoridades europeias e estadunidenses sairão à caça de fundamentalistas cristãos de extrema direita? Cristãos também serão perseguidos?&lt;br /&gt;Obviamente, não. A Europa é cristã. O incidente da Noruega deve ser um lembrete aos mais islamófobos e radicais de que o terrorismo e o mal não têm religião definida. O fundamentalismo e o terrorismo podem vir de qualquer lado, e crucificar um povo ou uma religião inteira - como tem sido feito com os muçulmanos em diversos lugares por muita gente - é um grande erro. O fundamentalismo não tem pátria, não tem religião. Esse sim, o fundamentalismo, é um mal que deve ser combatido com todas as forças por todo o planeta, seja qual for sua fé.&lt;br /&gt;O lixo humano causador dos atentados descreve a si próprio como "fundamentalista cristão de extrema direita" - o que em geral é um pleonasmo. Realizou seu covarde ato por crer "que a Europa está em perigo graças a uma invasão do islã e da esquerda", e que só a "heterogeneidade étnica, a política conservadora e nacionalista, a educação do povo, a eliminação da presença do islã e o livre mercado" são o caminho para o país oferecer o melhor ao seu povo. Embora eu concorde com a parte da educação do povo, todo o resto é ridiculamente desprezível (com exceção do livre mercado, que embora eu não defenda tenho que reconhecer que ainda é defendido por gente séria), e não difere muito do que pedem grupos xenófobos e racistas em outros países do mundo, inclusive o Brasil. A referida escória humana planejou todos os passos de sua ação, e queria que seu ato iniciasse uma "revolução" contra a presença muçulmana na Europa - permitida e incientivada, segundo ele, pelos partidos de esquerda. Ora essa, a esquerda tem uma tradição universalista que transcende suas próprias fronteiras e credos, por abraçar a ideia de que todos os povos devem cooperar mutuamente, e que não há ninguém melhor ou etnicamente superior a ninguém - embora alguns aloprados como Stálin tenham transformado a amizade e a cooperação entre os povos em cinzas, o que de forma alguma invalida a ideia original. Por ser incapazes de compreender o mundo como algo que transcende fronteiras (a abrangência daquilo que alguém toma como "povo", merecendo iguais direitos e respeito integral a sua existência, tende a ser diretamente proporcional ao tamanho de seu próprio cérebro), os ultranacionalistas - de qualquer lugar do mundo - acham que tudo aquilo que é diferente é uma ameaça à "pureza da raça" ou à "unidade da fé". Desprezam o multiculturalismo como se houvesse alguma vantagem em ser "puro", a não ser a de &lt;a href="http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/07/25/em-manifesto-atirador-noruegues-diz-que-mistura-de-racas-fez-do-brasil-um-pais-disfuncional.jhtm"&gt;achar um bode expiatório sempre à mão para justificar problemas de causas bem mais profundas&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Como afirmei antes, nem todos no mundo receberam com horror as notícias dos atentados. Alguns cabeças de vento, principalmente na Europa (e talvez seus equivalentes estadunidenses) bateram palmas, ainda que em segredo. As declarações do terrorista de que, embora tenha agido sozinho, ele faz parte de uma organização maior, mostram que ele não está sozinho nessa "cruzada". E suas palavras de que ele próprio não se considera um terrorista, e de que suas ações foram um mal necessário para conter o avanço do islã, mostram o quão perigosa é essa gentinha estúpida. A crise econômica de 2008 teve como um de seus muitos efeitos colaterais o surgimento e o fortalecimento de grupos de extrema direita, tanto ultranacionalistas (incluindo neonazistas) quando fundamentalistas cristãos. Quando a crise e o medo de perder suas posses batem à porta, as pessoas deixam de lado a razão e se abrigam na xenofobia e no extremismo religioso, ideias irracionais e bastante "reconfortantes". Essa gente quase sempre anda escondida, mas de vez em quando surge fazendo atentados ou elegendo políticos ultranacionalistas. E não são poucos. Resta saber se as autoridades europeias combaterão esse tipo de extremismo com o mesmo rigor com que tratam (de maneira justa, é bom que se diga) os extremistas muçulmanos, ou esquecerão rapidamente esse evento trágico até que outro imbecil com tão pouco conteudo em seu crânio apareça.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-763172905099140337?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/763172905099140337/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=763172905099140337' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/763172905099140337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/763172905099140337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/07/imbecilidade-nordica.html' title='Imbecilidade'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-191618734031680532</id><published>2011-07-12T18:46:00.007-03:00</published><updated>2011-07-14T14:30:14.467-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Questão de bom senso</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto estive afastado do blog por motivos acadêmicos, testemunhei alguns acontecimentos que me fizeram refletir um pouco e despejar aqui minhas opiniões. Após mais um longo e tenebroso inverno, venho até vós para falar de um tema polêmico: o tão-falado "politicamente correto". Nos últimos tempos, o assunto ganhou enorme projeção na mídia e repercussões sociais, culturais, políticas e criminais.&lt;br /&gt;A ideia do politicamente correto é acabar com o preconceito em geral e evitar que grupos minoritários dentro da sociedade sejam tratados de maneira injusta. Defender os pequenos grupos em sua luta por expressão e reconhecimento. Lutar pelos direitos dos seres humanos, não importando quem eles sejam ou o que façam. Uma ideia muito bem-intencionada, mas que tem recebido um enfoque totalmente diverso daquilo que seria correto. E esse foco equivocado tem trazido efeitos opostos aos desejados, além de ter revelado como os seres humanos podem ser hipócritas, se a eles for dada a oportunidade.&lt;br /&gt;A cultura do politicamente correto tem travado duras batalhas contra o conteúdo de nossos dicionários, lutando bravamente contra tirânicos adjetivos! Hoje há uma lista imensa de adjetivos pelos quais não se pode chamar uma pessoa ou referir-se a ela. Embora eu reconheça que a iniciativa tem um fundo bem-intencionado por pretender eliminar o prconceito, não posso deixar de notar o óbvio: proibir o uso de uma palavra - e nos obrigar a usar um sinônimo pretensamente neutro - não elimina, e jamais eliminará, nenhuma forma de preconceito. Em certos casos pode ser contra-produtivo, e em outros simplesmente hipocrisia. Seres humanos continuarão se ofendendo e inventando novas palavras para isso - como temos feito desde que nossa laringe permitiu que emitíssemos mais do que grunhidos. Na prática, proibir palavras só serve para restringir liberdade e para desviar as pessoas do verdadeiro foco da questão - seja ela qual for.&lt;br /&gt;Proibir palavras não funciona porque o sentido de uma palavra depende basicamente do contexto em que é usada. Chamar alguém de negro ou cego, por exemplo, pode soar preconceituoso e ofensivo ou não, dependendo da ocasião. Até mesmo os eufemismos que se propõem a substituir essas palavras podem virar ofensivas, se usadas no lugar certo. Não é impedindo alguém de usar uma palavra que o preonceito será eliminado. Deixar de usar termos tidos como machistas não impedirá que mulheres sejam espancadas por seus maridos Brasil afora. Dizer "afrodescendente" em vez de "negro" não mudará nada na cabeça dos nossos racistas empedernidos com cérebro de noz, nem mudará a triste realidade que mostra que os negr... ops, afrodescendentes, são mais pobres, têm salários mais baixos e menos anos de estudo do que a média dos brasileiros. Dizer "insegurança alimentar" em vez de fome não enche a barriga de ninguém. Chamar de "portador de nanismo" a um anão não o livra de sua condição. Não poder chamar um indivíduo obeso de "gordo" não o torna magro. E assim sucessivamente... É claro que devemos sempre lutar contra a discriminação e o preconceito de qualquer tipo, mas não é assim que vamos conseguir. Muitas atitudes condenáveis deixaram de ser praticadas sem que se inventassem eufemismos. Ou a escravidão desapareceu porque se proibiu o uso da palavra "escravo"? À medida que a sociedade amadurece e se torna mais consciente, práticas como a escravidão, a segregação racial e a pena de morte são deixadas de lado, naturalmente, sem intervenções no vocabulário. É disso que precisamos: consciência e amadurecimento. E de bom senso. Um pouco de bom senso faz muito bem na hora de escolher em que momento usar as palavras. E também na hora de cogitar proibí-las.&lt;br /&gt;Em muitos casos - como ocorre hoje no Brasil - o emprego de novas palavras serve ao propósito de tapar o sol com a peneira, desviar o foco do assunto principal e gerar a ilusão de que os problemas se resolvem com uma mudança de termos. Ou de confundir o público com palavras mais amenas do que a verdade merece - por que os EUA "ocupam" o Iraque em vez de "invadem"? Por que usar "comunidade carente" em vez de "favela", se a situação de seus habitantes não muda?&lt;br /&gt;Há maneiras muito mais eficientes de se defender os direitos humanos no Brasil do que proibindo palavras que talvez sejam ofensivas dependendo da ocasião. Combater a prática da escravidão por dívida, ainda difundida nos rincões de nosso país, por exemplo. Ou impedir que a polícia cometa abusos em suas operações nas favelas - por mais que o objetivo seja caçar bandidos, na maioria esmagadora dos casos essas operações acabam matando ou ferindo inocentes. Ou ainda melhorar as condições sanitárias e extinguir a superlotação nas cadeias. Combater a impunidade que hoje livra os ricos de parar atrás das grades. E por último, combater as escandalosas desigualdades sociais de nosso país, que são citadas em todos os relatórios de direitos humanos da ONU. Literalmente, não precisamos de palavras (ou, no caso, de proibí-las), e sim de ações concretas!&lt;br /&gt;Até mesmo clássicos da literatura - infantil incluída - sofrem cortes duros com essa ideia fraca. Cantar "atirei o pau no gato" não torna uma criança violenta e desrespeitosa com os animais. Ler Monteiro Lobato não torna ninguém racista pelos termos que ele usou para se referir a Tia Nastácia. Cantar "o cravo brigou com a rosa" não leva os meninos a bater nas mulheres quando adultos. Crianças são inocentes demais para se contaminar com esse tipo de coisa. Então por que essa barbárie toda? Preconceito nasce de raízes bem mais profundas. E se alguma obra tem conteúdo realmente preconceituoso e ofensivo, deixemos que a sociedade imponha sua própria censura - não comprando, não lendo, não assistindo. Obviamente, para isso é preciso que tenhamos uma sociedade educada e instruída. Mais uma vez, é preciso que impere o bom senso.&lt;br /&gt;Os militantes do "politicamente correto" também agem em outros campos, como a defesa das minorias. Outro ponto em que há certamente boas intenções, mas ultimamente tem-se visto pouco bom-senso. Dar voz a negros, índios, mulheres (que não são minoria, mas sempre foram tratadas como se fossem), homossexuais, deficientes físicos e minorias étnicas ou religiosas reprimidas é louvável, certamente, mas a partir do momento em que se começa a bater na mesma tecla e começam a se configurar exageros, a situação muda. Recentemente assistimos a alguns acontecimentos controversos envolvendo os homossexuais - uma minoria altamente consciente e mobilizada, que obteve para si expressão política bem maior do que outros grupos. Organizam paradas gays que atraem milhões de pessoas pelo mundo e geralmente contam com representantes políticos em todos os países onde atuam como entidade organizada. Não ao preconceito aos homossexuais, concordo! Assim como digo não ao preconceito às outras minorias. Mas elaborar uma cartilha para ser distribuída nas escolas é um passo além das próprias pernas. A sociedade brasileira não está preparada para isso - e talvez nunca esteja. Iniciativas ousadas como essa costumam ser contra-produtivas, fomentando ainda mais ódio e homofobia - justamente o que se propõem a combater. Criar uma cartilha para crianças mostrando a homossexualidade como &lt;span style="font-style: italic;"&gt;normal&lt;/span&gt; (ainda que seja na verdade uma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;variação do biologicamente normal&lt;/span&gt; heterossexual, inofensiva e não patológica - sendo que há diversos relatos de animais homossexuais) talvez seja confundir a cabeça dos pequenos e expor algo a que ainda não estão familiarizados. Lutar contra o preconceito e a intolerância é necessário, sim! Mas isso se conseguirá através de uma educação voltada para a tolerância e a compreensão de que a diferença, e toda forma de diferença, não é necessariamente ruim. Não será com uma mera cartilha que mostre e defenda apenas uma minoria. Por que não se faz uma cartilha defendendo a tolerância a outras minorias? A negros, índios, estrangeiros, deficientes físicos e mentais, praticantes de candomblé e de outras crenças minoritárias, etc? Será que isso tem a ver com o fato de que os homossexuais são mais organizados politicamente e contam com membros da elite econômica e intelectual? No &lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/07/as-doencas-e-os-doentes.html"&gt;texto que escrevi sobre saúde&lt;/a&gt; comentei sobre a influência dos homossexuais na luta em que se engajou a sociedade do mundo todo contra a AIDS. Criar cartilhas e fazer outras tantas campanhas batendo na mesma tecla (no caso, os homossexuais) não seria preconceito contra as outras minorias, deixadas de lado? Por que só os homossexuais?&lt;br /&gt;Quando digo que iniciativas ousadas como essa acabam sendo contra-produtivas por fomentar ainda mais preconceito, falo sério. Dizer que se formos permissivos com os homossexuais, daqui a alguns anos sofreremos preconceito por ser heterossexuais ou seremos condicionados a ser homossexuais não passa de falácia. O que pode ocorrer nesse sentido é termos uma minoria privilegiada - o que não deixa de ser ruim, mas não é tanto quanto a outra opção. Quando falo em ser contra-produtivo, tenho em mente os fanáticos e homófobos, que só ganham força com esse tipo de atitude ousada do outro lado. Ou um ser tão odioso e repugnante quanto Jair Bolsonaro (queria encontrar adjetivos piores, mas não é bom postá-los aqui por respeito aos leitores) teria alguma projeção se não fosse essa cartilha estúpida? Além dele e de outros &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Homo aicincus&lt;/span&gt;, o perigo pode vir também da não menos odiosa bancada evangélica - porque toda bancada parlamentar religiosa é perigosa onde há separação entre religião e Estado. Dona de poder considerável no Congresso, ela está sempre pronta para restringir as liberdades civis e de expressão em nome daquilo que julgam "correto aos olhos de Deus". Iniciativas como essa cartilha infeliz são a oportunidade perfeita para que esses fanáticos ganhem adeptos e retirem, uma a uma, as liberdades que temos de expressar a fé que quisermos ou - no meu caso, por exemplo - não expressar nenhuma. Como todos os filhos do fanatismo - seja de que religião for - eles se julgam porta-vozes de Deus, e ai de quem discordar dEle. O poder político se alia ao econômico - quem é o poderoso dono da Record mesmo? - e um reforça o outro. Os fanáticos poderão - se começarem uma "inocente" ação moralizadora - impor sua visão estreita de mundo e tornar o Brasil similar aos EUA, com criacionismo nas escolas, falso moralismo puritano e tudo mais. Pior: poderão - se o plano der certo - acabar com a velha inimiga dos religiosos fervorosos, a democracia (onde o poder emana do povo, não de Deus), e assim pôr fim a tudo aquilo que se opõe à sua ideologia/teologia.&lt;br /&gt;É por isso que tenho medo de como o "politicamente correto" vem sendo aplicado no Brasil nos últimos anos. É uma tentativa inútil e sem sentido de se acabar com o preconceito contra as minorias. Se fosse tão fácil acabar com preconceitos, outros países já teriam feito a mesma coisa, e com sucesso. O Brasil não precisa de cartilhas apologéticas, muito menos de riscar palavras de seu vocabulário. Precisa - isso sim - resolver seus problemas sociais, políticos e econômicos e oferecer bem-estar ao seu povo, e garantir educação e informação para que o povo brasileiro conviva harmoniosamente, tolere e respeite as diferenças. Quanto mais restrito ao seu próprio mundo é um indivíduo, e quanto menos conhecimento ele tem do diferente, maior é a chance de ele se tornar intolerante e preconceituoso. E não vai ser com cartilha nenhuma, nem com eufemismos, que isso vai mudar.&lt;br /&gt;Quanto a nós, que não pertencemos à máquina do Estado, cabe usar o bom  senso na hora de escolher as palavras e o tom ao expressá-las. Como já  afirmei, o contexto é que diz quando uma palavra é ofensiva ou não.  Todos nós temos o direito de ofender outras pessoas se tivermos motivo -  e o dever, em certos casos! - mas devemos pagar pelo uso inapropriado  das palavras, mais uma vez ditado pelo contexto. Afinal, discriminar é  ofender sem motivo, e para algumas pessoas motivos não faltam. É o bom  senso que diz como ofender sem discriminar, e muita gente neste país  deveria exercitá-lo com mais frequência...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-191618734031680532?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/191618734031680532/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=191618734031680532' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/191618734031680532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/191618734031680532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/07/questao-de-bom-senso.html' title='Questão de bom senso'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-6851254347367417931</id><published>2011-07-12T16:57:00.003-03:00</published><updated>2011-07-12T18:40:06.663-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='África'/><title type='text'>Nasce um país - agora falta construí-lo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mundo viu recentemente a criação de seu 193º país, ao menos oficialmente. O Sudão do Sul conquistou sua independência do Sudão após um referendo onde 99% da população votou pela criação do novo país. Aproveitarei o retorno ao blog para comentar um pouco sobre o assunto.&lt;br /&gt;Há bastante tempo o território que compreende o Sudão e seu novo vizinho ao sul tem sido instável. Como o resto da África, as fronteiras do que viria a ser o Sudão foram desenhadas a régua e caneta pelos europeus - nesse caso, os ingleses - ainda no século XIX. Dono de uma História que remonta aos tempos antigos - a outrora poderosa Núbia - o antigo Sudão compreendia um território localizado na transição entre o Saara e as regiões de clima mais úmido da África Subsaariana. Ou seja, era habitado por uma população muçulmana e culturalmente próxima do Egito e de outros povos árabes ao norte, e por diversas etnias subsaarianas que professam o cristianismo (em diversas vertentes devido ao trabalho de missionários desde o século XIX) e crenças tradicionais, animistas, ao sul. Dois grupos étnicos distintos, separados pelas areias do Saara. E, para complicar mais as coisas, o ingrediente típico da discórdia na região: petróleo. O atual Sudão do Sul tem reservas consideráveis do ouro negro. O resultado de tudo isso é que desde a independência, em 1956, o Sudão tem passado por vários períodos de guerra civil, com os árabes do norte tentando subjugar os negros do sul para manter a unidade territorial - e as reservas de petróleo.&lt;br /&gt;Para acabar com décadas de conflito, o governo do Sudão e os rebeldes entraram em um acordo, que previa a realização de um referendo sobre a independência do Sudão do Sul. A maioria esmagadora dos hoje sul-sudaneses votou pela criação de um novo país, separando-se do tão diferente - e opressor - vizinho do norte.&lt;br /&gt;E assim surgiu o Sudão dos Sul, que mal nasceu e já é considerado o país mais pobre do mundo. A infraestrutura de transporte é precária, com muitas áreas isoladas. O IDH é um dos mais baixos do mundo, e a imensa maioria da população é analfabeta. Fato curioso: &lt;a href="http://www.espanol.rfi.fr/africa/20110706-los-cubanos-la-elite-del-sudan-del-sur"&gt;cerca de 600 homens e mulheres da região foram criados e educados em Cuba&lt;/a&gt; (numa tentativa de suas famílias de fugir dos conflitos e proporcionar educação aos filhos), e é bastante provável que eles se tornem a elite intelectual do paupérrimo país africano. Economicamente, o país depende quase totalmente de matérias-primas, produtos agrícolas e, last but not least, petróleo. O Sudão do Sul tem boa parte do petróleo que era do Sudão, mas as refinarias se localizam no norte. Em resumo: criou-se formalmente um país, agora resta erguê-lo.&lt;br /&gt;Mas a história do conflito na região está longe de terminar. Darfur, na região oeste do Sudão original, também é sede de intensos e violentos conflitos, com genocídios e abusos. Também lá os árabes do norte querem subjugar os negros. Mas ainda vai demorar até que o governo sudanês entre em acordo com os rebeldes de Darfur para encerrar o conflito e conceder independência ao território.&lt;br /&gt;Resta esperar o fim dessa história que resume bem a História da África nos últimos 60 anos: pobreza e ausência de infraestrutura combinadas com fronteiras impostas e sangrentos conflitos dentro delas. Que o Sudão do Sul não caia no eterno ciclo de miséria e guerra civil de tantos outros países da África, e que Darfur também conquiste sua independência.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-6851254347367417931?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/6851254347367417931/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=6851254347367417931' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6851254347367417931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6851254347367417931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/07/nasce-um-pais-agora-falta-construi-lo.html' title='Nasce um país - agora falta construí-lo'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-4854516807662536860</id><published>2011-05-01T14:31:00.004-03:00</published><updated>2011-05-01T15:26:15.528-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><title type='text'>Fábrica de pastéis de vento</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://tenso.blog.br/wp-content/2011/04/casam.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 407px; height: 521px;" src="http://tenso.blog.br/wp-content/2011/04/casam.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma das maiores especialidades da mídia de massa do mundo inteiro é transformar algo totalmente irrelevante em algo de interesse global. Volta e meia um assunto que na prática não muda em nada a vida de ninguém se torna o centro das atenções de jornais, revistas, emissoras de TV e agências de notícias da internet em todo o mundo. Quem não se lembra de Monica Lewinski, a estagiária que teve um caso com Bill Clinton e virou notícia no mundo inteiro? Ou de Isabela Nardoni, a menina que foi arremessada da janela pelo pai e cujo caso teve tão ampla cobertura midiática no Brasil que literalmente parou o país? Embora um caso tenha envolvido o presidente da nação mais poderosa do mundo e o outro tenha sido um crime brutal, tantas outras notícias de maior relevância e importância deixaram de ser veiculadas ou de ter a atenção que mereciam porque só se falava em um assunto, não importava em que canal de TV sintonizássemos.&lt;br /&gt;Muitas vezes os próprios meios de comunicação fazem a pergunta: por que tanta gente se interessa pela vida privada alheia? Ora, a resposta é muito simples! A mídia bate o tempo todo na mesma tecla, veicula o assunto X todos os dias, a todo momento, sem parar! É óbvio que isso acaba entrando por osmose nas mentes das pessoas, principalmente das mais vulneráveis - gente que não tem mais o que fazer e passa o dia todo na frente da televisão, por exemplo.&lt;br /&gt;Esta semana tivemos mais um exemplo da atuação dos meios de comunicação do mundo todo para transformar um evento cafona e ultrapassado em foco das atenções de mais de um bilhão de pessoas: o casamento real entre o príncipe William da Inglaterra e a "plebeia" (bastante endinheirada, diga-se de passagem) Catherine Middleton. Durante três semanas não se falou em outra coisa, dos portais da internet às emissoras de TV, passando pelas revistas de fofoca - que sacrificaram muitas pobres árvores para imprimir em seu papel coisas inúteis como comentários acerca dos vestidos usados pelas convidadas.&lt;br /&gt;Foi sem dúvida uma cerimônia bonita (não vi, mas espero que tenha sido, porque gastaram cinquenta milhões de dólares), mas definitivamente não precisava desse assédio todo. Por que se importar com o casamento de um indivíduo que não tem absolutamente nada a ver com a vida de ninguém e, embora pertença a uma das mais tradicionais famílias reais da Europa, jamais governará de fato? Não se esqueçam de que o rei e a rainha da Inglaterra têm função decorativa, assim como os jardins perto do Palácio de Buckingham.&lt;br /&gt;Milhares e mais milhares de pessoas partiram de todo o mundo para assistir à cerimônia. Curiosamente, muitas dessas pessoas se declaravam "fãs" do príncipe William - como se ele tivesse algum atributo especial além de ser jovem, bonito, rico e de sangue azul e tivesse realizado algum feito digno de merecer fãs de verdade. Esse assédio teria sido tanto se a mídia não tivesse alardeado tanto e tivesse feito um marketing tão agressivo em torno do evento? Por que mais de um bilhão de pessoas assistiram a uma mera cerimônia religiosa? Por que tantas pessoas se importam com alguém tão longe e que nunca fará nada por suas vidas? Há momentos em que percebemos sem muita dificuldade como os meios de comunicação alimentam a futilidade alheia e fazem você dar tanta importância a algo, no mínimo, sem sentido. Não há nada mais brega e cafona do que um casamento real. As monarquias europeias não têm poder de fato, só existem ainda porque seus respectivos povos acham "tradicional" manter uma dinastia comendo, bebendo e gastando às custas deles sem oferecer absolutamente nada em troca. O conceito de monarquia na Europa entrou em decadência ainda no século XIX, e poucos são os que ainda enxergam sentido em ter um rei que não manda em ninguém. Menos sentido ainda existe em assistir à cerimônia pomposa de alguém que nunca vai mandar em ninguém. Mas mesmo assim muita gente assiste. Por que?&lt;br /&gt;Uma das explicações é a mídia batendo sempre na mesma tecla, como já citei anteriormente. Ela faz o cidadão comum respirar casamento real, pensar casamento real, dormir casamento real... Mas só isso não explica. Hoje me deparo com uma &lt;a href="http://www.dw-world.de/dw/article/0,,15040147,00.html"&gt;reportagem da Deutsche Welle&lt;/a&gt; sobre a exploração do casamento real pela imprensa marrom alemã. Imprensa marrom é aquela sensacionalista, que transforma fatos duvidosos, mentirosos ou irrelevantes em manchetes apocalípticas - não muito diferente do que ocorre em nosso país com alguns dos meios de comunicação de maior sucesso. Pois bem, definitivamente não é só na Alemanha que desocupados querem saber da vida alheia. Por aqui também. A reportagem cita um "complexo de Cinderela", a busca dos leitores por um "conto de fadas", um mundo inacessível e perfeito, capaz de preencher as mentes e as vidas (ambas vazias de conteúdo) desses mesmos leitores.&lt;br /&gt;Mas isso não acontece só com príncipes ingleses, definitivamente. O que dizer das "celebridades instantâneas" dos nossos reality shows, que fazem sucesso com suas cabeças ocas em diversas formas de mídia? Gente que não trabalha, não se esforça, nunca fez nada de bom para a Humanidade nem produziu uma obra artística que prestasse, tornando-se alvo das atenções de legiões de fãs - igualmente descerebrados - por ter feito absolutamente nada além de participar de um programa bobo e tão sem conteúdo quanto eles.&lt;br /&gt;Não podemos negar que a mídia não lucre com isso. Quanto dinheiro já não foi arrecadado com revistas de fofoca sobre celebridades - que desinformam o "leitor" com "novidades" que ninguém em sã consciência gostaria de saber? Quanto já não foi arrecadado só em "guias de moda baseados no look das celebridades do casamento de Will e Kate"? Quanta audiência - transformada em dinheiro pelos anúncios comerciais - já não rendeu essa estória de casamento real? Em um país onde votar em paredão de big brother gera mais entusiasmo do que em presidente da república não poderia ser diferente. Enquanto gente mata e morre nas guerras civis na Líbia, no Iêmen e na Síria, estamos aqui querendo saber do casamento real, ou do próximo BBB. Por sorte, a cada dia que passa assisto menos televisão...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-4854516807662536860?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/4854516807662536860/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=4854516807662536860' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4854516807662536860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4854516807662536860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/05/fabrica-de-pasteis-de-vento.html' title='Fábrica de pastéis de vento'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7737784712282561444</id><published>2011-03-11T20:18:00.002-03:00</published><updated>2011-03-11T20:53:21.795-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://blog.booweb.com.br/wp-content/uploads/2011/02/atropelamento-rs-e1298919159173.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 590px; DISPLAY: block; HEIGHT: 442px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://blog.booweb.com.br/wp-content/uploads/2011/02/atropelamento-rs-e1298919159173.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;No Brasil, se um pobre comete um crime, é criminoso, bandido. Se um rico comete um crime, não vai preso - tem "problemas psiquiátricos".&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se um rico em seu carro se depara com uma multidão de ciclistas pedalando na sua frente, não é crime &lt;a href="http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/881901-videos-mostram-atropelamento-de-ciclistas-no-rs.shtml"&gt;acelerar e passar por cima de todo mundo&lt;/a&gt;. É mais provável que os ciclistas sejam punidos por &lt;a href="http://noticias.terra.com.br/brasil/transito/noticias/0,,OI4964256-EI998,00-Delegado+critica+movimento+de+ciclistas+atropelados+no+RS.html"&gt;"estar no lugar errado, sem autorização"&lt;/a&gt;. É mais provável que o motorista seja absolvido porque &lt;a href="http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-12604066?utm_source=twitterfeed&amp;amp;utm_medium=twitter"&gt;"estava sendo ameaçado pelos ciclistas e tinha que proteger seu filho"&lt;/a&gt; (como as bicicletas pudessem fazer contra o carro algo além de alguns pequenos arranhões acidentais). É mais provável que algum porta-voz do motorista diga que &lt;a href="http://noticias.terra.com.br/brasil/transito/noticias/0,,OI4963717-EI998,00-Ciclista+diz+ter+pedido+calma+a+homem+antes+dele+atropelar.html"&gt;acelerar o carro por dezenas de metros e tentar matar os ciclistas&lt;/a&gt; da frente "não passa de um acidente" - e que algum juiz (recebendo uma boa quantia em dinheiro) acredite na palhaçada, e absolva o bandido - que tem um histórico considerável de infrações ao volante. Ou no máximo diga que ele precisa de "tratamento psiquiátrico".&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7737784712282561444?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7737784712282561444/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7737784712282561444' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7737784712282561444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7737784712282561444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/03/no-brasil-se-um-pobre-comete-um-crime-e.html' title=''/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-8477403723060677675</id><published>2011-03-11T19:38:00.003-03:00</published><updated>2011-03-11T20:17:13.817-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Oriente Médio'/><title type='text'>Barbárie líbia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Como previsto em meu último post, a queda de Hosni Mubarak jogou mais lenha na fogueira revolucionária do Oriente Médio. Embora também o Iêmen tenha sido sacudido por inúmeros confrontos desde então, em nenhum país a situação se tornou mais grave do que na Líbia. Enquanto no Egito e na Tunísia os ditadores Mubarak e Ben Ali (respectivamente) se trancafiaram em seus palácios para tentar conter a ira popular, Muamar Kadafi percebeu que seria o próximo e resolveu lançar mão de violência desesperada para evitar que tenha o mesmo destino dos outros ditadores derrubados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há um mês Mubarak caía, e desde então o povo líbio tem pressionado Kadafi a renunciar ao seu mandato de mais de quatro décadas. Entretanto, Kadafi não renuncia. Os revoltosos chegaram a dominar boa parte do leste do país, incluindo a importante cidade de Benghazi, até Muamar Kadafi lançar uma violenta e covarde ofensiva contra seu próprio povo - que ele insiste em dizer que o ama e que é cegamente manipulado por "forças externas". Bairros residenciais em Benghazi e Trípoli foram bombardeados da maneira mais bárbara e cruel. Alguns pilotos de caças enviados para os bombardeios, felizmente com algum bom-senso e coração, desertaram e pousaram seus aviões em Malta. Muitas centenas de milhares de pessoas já fugiram para a Tunísia e para o Egito, tentando ficar longe dos conflitos e do massacre que Kadafi impõe ao próprio povo. A barbárie, que tem incluído também perseguição a jornalistas estrangeiros, obviamente chama a atenção do resto do mundo. Líderes europeus pressionam cada vez mais Kadafi a deixar o poder, e os EUA - sempre em cima do muro - apoiam implicitamente a ideia, embora sem firmeza.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Kadafi nunca contou com apoio dos EUA, ao contrário de seu colega egípcio Hosni Mubarak. Durante a Guerra Fria, estava muito mais próximo da União Soviética do que dos Estados Unidos, e oficialmente o país se chama "República Árabe Popular e Socialista da Líbia". Mas não se engane, leitor: o regime de Kadafi nada tem de socialista, e nada tem de diferente do de outros regimes da região, como o Egito de Mubarak. Além disso, um dos principais parceiros de Kadafi é o excremento italiano Silvio Berlusconi. Kadafi dá ao país o nome que quiser, mas não pode mudar o fato de que ele é exatamente igual a seus pares tunisiano, egípcio, iemenita ou argelino: um regime autoritário de tom nacionalista e militarista, sustentado pelas riquezas do petróleo, e que nos últimos anos vem deixando seu povo na penúria com a pobreza, os altos índices de desemprego e a inflação dos alimentos - sem falar no autoritarismo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto isso, desenrolam-se mais capítulos de uma sangrenta guerra civil. A ofensiva de Kadafi contra os rebeldes parece recrudescer um pouco, mas muita coisa ainda é completamente indefinida. A comunidade internacional pressiona cada dia mais para que Kadafi deixe o poder, mas o ditador parece disposto a ir até as últimas consequências para se manter como comandante da Líbia. E isso inclui sacrificar seu próprio povo. Nada que um típico criminoso de guerra não faça. Dizer se Kadafi sairá é impossível. É bem possível que ele não resista à pressão popular e internacional (e nesse caso os outros países certamente verão mais uma onda de revoltas), mas também é possível que o banho de sangue continue até que os rebeldes sejam sufocados. No final talvez restem Kadafi, alguns de seus militares, dois ou três poços de petróleo e muita areia manchada de sangue...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-8477403723060677675?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/8477403723060677675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=8477403723060677675' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8477403723060677675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8477403723060677675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/03/barbarie-libia.html' title='Barbárie líbia'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-8796478412113192178</id><published>2011-02-11T16:53:00.003-02:00</published><updated>2011-02-11T18:25:01.813-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Oriente Médio'/><title type='text'>Duas revoluções</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;11 de fevereiro. Em anos diferentes, esse dia foi palco de duas revoluções no mundo muçulmano. E duas revoluções completamente distintas.&lt;br /&gt;Hoje, 11 de fevereiro de 2011, caiu Hosni Mubarak. O até horas atrás ditador do Egito fugiu com a família do Cairo, levando ao êxtase os milhões de manifestantes contra seu regime de quase trinta anos. Mubarak caiu de maduro. Os manifestantes que se aglomeravam na Praça Tahrir jamais "voltariam para suas casas" (como insistiam os discursos de Mubarak, do vice Suleiman e dos chefes das Forças Armadas dia após dia) sem antes ver o ditador ir embora.&lt;br /&gt;Por várias e várias vezes falou-se em renúncia imediata, mas Mubarak relutava em deixar seu confortável trono faraônico e se limitava a falar em transição gradual. Chegou a nomear um vice-presidente e a transferir gradualmente mais poder para ele, tentando dar os anéis para conservar os dedos. Mas nada disso adianta para um povo que quer decididamente se livrar de um tirano. Mubarak fez de tudo para se manter no poder até as eleições em setembro - nesse meio-tempo, planejava lavar todo o dinheiro que acumulou com corrupção e outras atividades ilícitas nas três décadas de poder, uma fortuna que soma mais de 70 milhões de dólares. Conforme os protestos cresciam e se espalhavam pelo país e a comunidade internacional pressionava, o governo Mubarak ficava mais acuado e sem ter para onde fugir. No final, mesmo tendo sido aliado fiel dos EUA durante todo o tempo, usou de nacionalismo desesperado para ganhar algum apoio dizendo que "forças externas ameaçavam a estabilidade do país" - numa clara referência aos EUA. A cada dia as coisas ficavam mais contraditórias, e as manifestações cresciam. As Forças Armadas do Egito, muito menos violentas do que a polícia e tendo uma relação muito boa com a sociedade civil, além de permitir as manifestações acabaram emitindo declarações a favor dos protestos. Seu prestígio é tanto que assumiram o poder no lugar de Mubarak e agora chefiam a transição para a democracia junto com a Suprema Corte do Egito - os militares prometem eleições em setembro, inquestionavelmente. Para nós ocidentais não soa muito boa a ideia de militares ocupando o lugar de um presidente deposto - por aqui isso é golpe militar - mas por lá as Forças Armadas costumam ser mais legalistas. Além do mais, o povo egípcio - e não o exército - é a verdadeira base do movimento, e sem obedecer aos anseios populares por democracia nenhum chefe das Forças Armadas nem mais ninguém permanecerá no poder por muito tempo.&lt;br /&gt;Agora, o futuro... Mubarak já não deve ser a maior preocupação do povo egípcio - ele já fugiu do país e suas contas na Suíça parecem já ter sido bloqueadas. Mas o Egito está cheio de problemas, e a mera saída do ditador não os resolverá. Desemprego que beira os 30%, pobreza, altos preços dos alimentos, corrupção... O novo líder do país terá muitos obstáculos, e não será fácil superá-los. Seja como for, a mudança não pode ser apenas de chefe. A estrutura de poder também deve mudar. A convocação de uma Assembleia Constituinte era uma das bandeiras dos manifestantes da Revolução Egípcia (que alguns chamam de Revolução Branca), e em breve isso deve acontecer. Acabar com a estrutura autoritária de poder no país, em que altos comandantes das Forças Armadas controlam boa parte da economia, e transformar as riquezas do turismo e do petróleo em emprego e vida digna para a população, são os maiores desafios. Mas tudo fica mais fácil quando há uma sociedade civil atuante, e os milhões de manifestantes nas ruas do Cairo, de Suez, de Alexandria e de outras tantas cidades mostram ao mundo que o Egito tem sociedade civil de verdade.&lt;br /&gt;Muito se especula sobre quem mandará no Egito daqui em diante. Durante todo o tempo em que Mubarak esteve no poder, seu discurso era o de estabilidade, de contenção dos extremistas islâmicos. Há algum medo de que os fundamentalistas assumam o poder após as eleições de setembro, mas a possibilidade me parece um tanto remota. Os extremistas islâmicos nunca foram uma força muito significativa no Egito. Mesmo a Irmandade Muçulmana, principal força religiosa do país, tem pouca popularidade - estima-se que mais da metade dos egípcios a rejeite como alternativa política, e não mais que 30% a apoie de alguma forma. Sua presença se mostrava mais na luta contra o imperialismo britânico e na defesa do nacionalismo egípcio nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Para todos os efeitos, o Egito moderno é e sempre foi um Estado laico, diferentemente da Arábia Saudita e do Irã.&lt;br /&gt;Esta é a principal diferença da Revolução Egípcia para a outra mencionada no título deste texto. Esta outra a que me refiro é a Revolução Iraniana, do Aiatolá Rubollah Khomeini, que derrubou o governo do Xá Reza Pahlevi (que como Mubarak era autoritário, laico e apoiado pelo Ocidente) também em um 11 de fevereiro, só que em 1979. Mas as semelhanças param por aí. A Revolução Iraniana foi a primeira desde 1789 que rejeitou a tradição iluminista - tanto as revoluções burguesas quanto as socialistas tinham um pé nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade dos franceses. Os iranianos substituíram a monarquia laica e corrupta por um Estado fundamentalista. Mas os egípcios querem dar um rumo completamente diferente à revolução em seu país. Querem democracia, liberdade política e uma vida melhor, e não acham que o Corão contenha todas as respostas e soluções - no máximo ele oferece alguma força de vontade aos mais religiosos dentre os manifestantes egípcios. Por mais que Ahmadinejad diga que a revolução no Egito segue os passos da que ocorreu no Irã, as associações entre ambas são fracas e temos motivos suficientes para acreditar que essa fala é (mais) um surto megalomaníaco de Ahmadinejad. Longe de celebrar, ele deve ter mais motivos para se preocupar...&lt;br /&gt;Em 2009 e 2010 uma onda de protestos varreu o Irã depois que Ahmadinejad se reelegeu - de maneira fraudulenta. O clamor de liberdade contra o governo (também autoritário e também arruinando a economia de seu país, como Mubarak) de Mahmoud Ahmadinejad não era diferente do que ecoa no Egito e em outros tantos países da região. É perfeitamente possível que a queda de Mubarak, como assinalei no texto anterior, deflagre uma reação em cadeia e outros chefões caiam de seus tronos. Ahmadinejad é um deles, mas não o único.  Na Jordânia há questionamentos sobre a monarquia, mesmo após a troca do primeiro-ministro há alguns dias. No Iêmen, no Marrocos e na Argélia, protestos seguem e devem ganhar mais força. Muitos manifestantes em todo o mundo árabe saem às ruas para comemorar a queda de Mubarak, e isso leva a questionamentos inevitáveis sobre a permanência no poder dos líderes desses outros países. Por isso, muitos ditadores pretendem proibir ou reprimir manifestações pró- Revolução Egípcia. No Irã já houve proibição, e na Faixa de Gaza o Hamas também não quer manifestantes nas ruas. Mas proibição nenhuma será capaz de frear a revolta popular se ela crescer e se fortalecer o suficiente. A queda de Mubarak dá uma força muito grande aos movimentos contra outros ditadores do Oriente Médio, e talvez o ano de 2011 entre para a História como o ano da democratização do mundo árabe. Resta esperar para ver.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-8796478412113192178?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/8796478412113192178/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=8796478412113192178' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8796478412113192178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8796478412113192178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/02/duas-revolucoes.html' title='Duas revoluções'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-2793552941585292505</id><published>2011-02-01T17:08:00.003-02:00</published><updated>2011-02-01T20:44:02.629-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Oriente Médio'/><title type='text'>Cheiro de Jasmim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há algumas ocasiões na História em que a agitação popular se alastra como uma chama no mato seco, sem obedecer a nenhuma fronteira. É essa a situação hoje no Oriente Médio e no norte da África. Ditadores no poder há duas, três ou mais décadas sentem agora a força de movimentos populares que não escondem a insatisfação com a pobreza, a corrupção, o desemprego, o autoritarismo político e a censura aos meios de comunicação. Regimes parecem prontos para cair de maduros, e de uma só vez. A última vez que algo de proporções semelhantes aconteceu foi no fim da década de 1980, quando os regimes do "socialismo real" ruíram quase ao mesmo tempo, começando pela Tchecoslováquia.&lt;br /&gt;O epicentro desse verdadeiro terremoto político foi a Tunísia, país pequeno e pobre no norte da África. Desde meados de dezembro de 2010, protestos violentos e cada vez mais fortes na capital Túnis e em outras cidades forçaram a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali, no poder desde 1987. Os tunisianos estavam cheios de autoritarismo, censura, altos índices de desemprego, altos preços dos alimentos, corrupção e más condições de vida. A centelha que disparou as explosivas manifestações foi o ato de auto-imolação de Mohamed Bouazizi, que teve os alimentos que vendia nas ruas confiscados pela polícia. Outros mártires se seguiram e esquentaram mais o barril de pólvora até que ele finalmente explodiu. Milhares de pessoas protestaram nas ruas por diversos dias, apesar da violência policial, do toque de recolher que vigorava e das prisões arbitrárias de jornalistas e de personalidades que apoiavam os manifestantes. Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita em 15 de janeiro de 2011. Um governo de transição foi criado para devolver ao país estabilidade, mas tudo indica que os protestos durarão enquanto membros do antigo regime fizerem parte desse novo governo. O episódio foi batizado de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Revolução Jasmim&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;As chamas agora se espalham pelo mundo árabe. Na Argélia, manifestações populares violentas contra o regime de Abdelaziz Bouteflika, no poder desde 1999, já deixaram cinco mortos, dezenas de feridos e muitos outros presos. As motivações parecem ser as mesmas das que levaram aos protestos na vizinha Tunísia. No Iêmen, um dos países com IDH mais baixo de todo o mundo árabe, o presidente Ali Abdullah Saleh (no poder há 32 anos) enfrenta oposição popular e também de alguns de seus conselheiros mais próximos. O estopim foi uma tentativa de mudança na Constituição para tornar Saleh presidente vitalício. Os protestos por lá têm sido mais pacíficos e têm como principal propulsor o movimento estudantil. Outros países da região têm enfrentado protestos menores - Jordânia, Síria, Omã e a Líbia de Muamar Kadafi (o mais "veterano" de todos, no poder desde 1969).&lt;br /&gt;Mas em nenhum outro lugar os protestos têm sido tão grandes quanto no Egito. Desde 25 de janeiro, Cairo, Suez, Alexandria e outras cidades têm sido palco de grandes manifestações populares contra o regime de Hosni Mubarak, no poder há 30 anos. O país tem crescido nos últimos anos, mas isso não tem-se refletido adequadamente no padrão de vida da população em geral. Some-se a isso a corrupção, a brutalidade da polícia egípcia e o autoritarismo do regime de Mubarak e o resultado é um caldeirão de insatisfação. O toque de recolher, a censura às comunicações e a violência da polícia foram incapazes de conter a vontade popular. Milhares de pessoas vão às ruas todos os dias protestar - três centenas de egípcios já perderam suas vidas nesses protestos, vítimas da polícia. Mas isso não intimida os manifestantes. No momento em que escrevo, um milhão de pessoas fazem um protesto pacífico na Praça da Liberação, no Cairo. Os militares, cuja reputação é bem mais respeitosa do que a da polícia no país, prometeram não agir com violência. Numa tentativa de acalmar os ânimos das massas e dar os anéis para conservar os dedos, Mubarak substituiu seu gabinete e criou um cargo inédito de vice-presidente. Mas em nenhum momento falou em sair. Prefere usar a estratégia José Sarney para se manter no poder - colar o traseiro na cadeira e dizer "daqui não saio, daqui ninguém me tira". Mas os manifestantes afirmam que só descansarão quando Mubarak renunciar.&lt;br /&gt;Os parágrafos acima parecem soar um tanto repetitivos, não é mesmo? A situação da maioria dos países da região é muito semelhante. E isso tem motivo. Toda a região do Oriente Médio e norte da África foi alvo de imperialismo por parte dos europeus. Depois que o Império Otomano foi desmantelado, no pós-Primeira Guerra Mundial, a área foi repartida. Egito, Sudão, Palestina, Iraque e Jordânia para a Inglaterra; Síria, Líbano, Tunísia e Argélia para a França, Líbia para a Itália (desde antes da Primeira Guerra). A Arábia Saudita foi criada com apoio britânico, e se tornou um grande aliado estratégico do Ocidente na região. Todos esses países foram criados um tanto artificialmente, após a derrocada do imperialismo no pós-Segunda Guerra Mundial. E, em geral, mantiveram uma estrutura de poder autoritária e politicamente centralizada, como era nos tempos de colônia - a transição foi branda e pouca coisa se alterou. Isso é especialmente válido para os países que outrora fizeram parte do Império Britânico. Não por acaso, foi do "império onde o Sol nunca se põe" que se originou grande parte dos conflitos do mundo recente. Entre os rebentos, podemos incluir desgraças como os genocídios no Sudão, o conflito entre Israel e Palestina, o odioso regime do Apartheid na África do Sul, boa parte das guerras da África (mais de um terço do continente se submeteu aos ingleses) e o conflito entre indianos e paquistaneses na Caxemira.&lt;br /&gt;Organizados numa estrutura de poder similar à que existia nos tempos coloniais, os países do Oriente Médio em geral possuem três forças políticas principais. A primeira delas é a dos radicais fundamentalistas - o "islamismo" - que almejam transformar seus respectivos países em teocracias chamadas "repúblicas islâmicas". São ultraconservadores e tendem a rejeitar toda e qualquer influência do mundo ocidental. O Irã é talvez o melhor exemplo.&lt;br /&gt;Outra força importante é a dos liberais - presentes em todos esses países com mais ou menos força, mas atualmente sem estar no poder (o Líbano esteve sob um governo liberal na época de Hafik Hariri, que morreu num atentado em 2005). Dentre suas principais forças encontram-se os movimentos estudantis, partidos mais alinhados com a democracia (inclusive partidos de esquerda) e líderes políticos influentes. Os liberais tentam preservar a democracia e evitam grande interferência dos religiosos nas questões políticas. Têm uma tendência a se aproximar mais do Ocidente, mas não são necessariamente entreguistas - só almejam uma relação amistosa e que traga mais investimentos e outros benefícios.&lt;br /&gt;No meio desses dois grupos, e tentando se equilibrar entre eles, estão os nacionalistas e militaristas. São a grande maioria dos ditadores que correm o risco de ser varridos do mapa pelos protestos do mundo árabe. Não são fanáticos extremistas em termos religiosos - mandam nos religiosos em vez de ser mandados por eles, como seria nas repúblicas islâmicas. Economicamente, países governados pelos nacionalistas/militaristas costumam ser mais fechados, e têm no petróleo um importante alicerce para seus regimes. O dinheiro do petróleo permite que sustentem forças armadas razoavelmente bem equipadas. Ainda que sejam nacionalistas, muitos são próximos das potências ocidentais, oferecendo petróleo em troca de algum apoio político. Além disso, o simples fato de ter um aliado em uma região turbulenta como o Oriente Médio é um motivo para uma potência do Ocidente apoiar esses governos, mesmo que estejam longe de ser democracias. É assim que elas se sustentam por décadas, garantindo a estabilidade econômica da região.&lt;br /&gt;Aliás, esse é o lema dos que saem em defesa desses regimes - defender a "estabilidade"! Lembre-se, leitor. Não há nada mais estável do que um cemitério. Durante a nossa ditadura militar, era prioridade do regime garantir "estabilidade" para receber mais investimentos estrangeiros. Mas estabilidade está muito longe de significar bem-estar dos cidadãos ou democracia. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, defende a permanência de Mubarak no Egito em nome dessa mesma estabilidade, mesmo que isso vá contra o desejo popular - e Netanyahu já demonstrou em outras oportunidades que não sabe muito bem o que significa a palavra democracia. Em nome dessa mesma estabilidade, os EUA assistem de longe sem interferir. Querem um Egito mais estável (aliás, um Oriente Médio mais estável), mas a palavra "democracia" não é ouvida em seus discursos. Fala-se timidamente em "transição", mas sem transparecer se essa transição pressupõe permanência ou saída dos "presidentes perpétuos".&lt;br /&gt;O maior medo de Israel, dos EUA e de boa parte do Ocidente é que os regimes militaristas nacionalistas deem lugar a teocracias como o Irã. Mas esse não parece ser o desejo das massas revoltosas. Se lutam contra o autoritarismo dos ditadores laicos, por que aceitariam a tirania dos sacerdotes? O povo do Egito, da Tunísia, da Argélia, da Jordânia e de tantos outros países da região quer democracia. Quer liberdade para escolher seus líderes e escolher o destino de seus países, quer investimentos para aliviar a pobreza, o desemprego e baixar os preços dos alimentos. Quer uma vida melhor, e parece saber que não serão extremistas religiosos os que farão essa melhora de vida.&lt;br /&gt;Conforme os protestos se alastram, pode ser que até as teocracias caiam. O Irã enfrentou grandes protestos quando Ahmadinejad fraudou as eleições em 2009. Os apelos em nome da "Revolução Islâmica" têm cada vez menos eco em uma população jovem, que quer liberdade e não conheceu o aiatolá Khomeini. Os jovens, em sua maioria, rejeitam o extremismo, a não ser quando são forçados a escolher entre ele e a dominação estrangeira - o Iraque sob os EUA, a Palestina sob Israel.&lt;br /&gt;O Irã não é o único reduto do "islamismo" (o fundamentalismo muçulmano) que pode estar ameaçado. O maior aliado dos EUA na região, a Arábia Saudita, também. Caso o leitor não saiba, os EUA, grandes defensores da democracia, têm como principal aliado no Oriente Médio um país que não tem nem Constituição, uma monarquia absoluta onde os direitos civis são minimamente respeitados. Mulheres não podem sair de casa sem estar acompanhadas dos pais ou maridos, não podem dirigir e mais um monte de coisas. Muito parecido com o que o Talibã fazia no Afeganistão... A grande diferença entre os sauditas e os iranianos é que os sauditas são aliados dos EUA. Seja como for, o regime deles pode cair se as manifestações - que hoje ainda são pequenas - crescerem o suficiente.&lt;br /&gt;Tudo indica que, se o regime de Mubarak no Egito cair, os protestos nos outros países ganharão ainda mais força. Tal qual um efeito dominó... E considerando os acontecimentos dos últimos dias, incluindo o protesto de um milhão de egípcios hoje, se as coisas continuarem nesse ritmo, Mubarak não aguentará muito. Que seja assim! Que o cheiro de sangue e petróleo queimado dessas ditaduras dê lugar a um agradável cheiro de jasmim em todo o Oriente Médio!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-2793552941585292505?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/2793552941585292505/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=2793552941585292505' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2793552941585292505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2793552941585292505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/02/cheiro-de-jasmim.html' title='Cheiro de Jasmim'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-4577921039171585430</id><published>2011-01-29T22:10:00.002-02:00</published><updated>2011-01-29T22:20:27.591-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>Um vídeo que todos nós deveríamos ver...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Navegando sem compromisso na internet, achei este singelo vídeo aqui, de  um pronunciamento feito por uma criança em plena ECO 92, no Rio de  Janeiro. Ouçam atentamente o que ela diz, e pensem um pouco também no  último texto que escrevi, sobre potencial e sobre como fazer com que as  novas gerações tenham futuro. Pois garantir futuro e plena realização de  potencial é preciso garantir antes de tudo que nosso mundo e nossa  civilização permaneçam de pé.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;iframe src="http://www.youtube.com/embed/trR7HE-l7sc?fs=1" allowfullscreen="" frameborder="0" height="344" width="425"&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-4577921039171585430?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/4577921039171585430/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=4577921039171585430' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4577921039171585430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4577921039171585430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/01/um-video-que-todos-nos-deveriamos-ver.html' title='Um vídeo que todos nós deveríamos ver...'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://img.youtube.com/vi/trR7HE-l7sc/default.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7750010797838420737</id><published>2011-01-29T21:42:00.000-02:00</published><updated>2011-01-29T21:43:38.770-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Sobre o potencial humano - Primeira parte</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Caros leitores, há  algum tempo estava com vontade de escrever um texto mais extenso aqui no  blog, sobre o potencial humano (e pelo menos no que diz respeito ao  tamanho, acho que consegui. Preparem-se, pois acho que este é o maior  texto que já postei aqui). Eu gostaria de ter abordado o assunto antes,  no texto “&lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/09/por-que-o-socialismo.html"&gt;por que o socialismo&lt;/a&gt;”,  mas só refleti sobre o tema, e o amadureci, há alguns meses. Portanto,  interpretem esse novo texto como uma (um tanto extensa) continuação do  anteriormente citado.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Um  dos principais motivos pelos quais sou um firme defensor de uma  sociedade mais justa e menos desigual é minha convicção de que todo ser  humano tem potencial – e cabe à sociedade garantir que esse potencial  não se perca e seja usado da melhor maneira possível. Todo ser humano,  desde sua concepção, é perfeitamente capaz de ser produtivo em pelo  menos uma atividade – só excluo da conta aqueles com graves anomalias  incompatíveis com a vida ou com severas deficiências cognitivas (que não  devem deixar ser tratados dignamente por causa de sua condição).&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas  a partir do momento que o óvulo e o espermatozoide se fundem e dão  origem a um novo indivíduo, esse potencial se altera. Ainda no ventre  materno, o produto da concepção pode morrer por inúmeras causas, ou  sofrer danos e malformações devido a drogas (incluo aí o álcool) ou à  deficiência de vitaminas na dieta. O pouco cuidado com a saúde, como a  não-realização de exames pré-natais pelas mães, também ceifa muitos  talentos em potencial. E muitas outras são as influências às quais está  submetido um indivíduo dentro do útero – o estilo de vida da mãe, seus  hábitos, seu estado emocional, suas experiências. Tudo isso, de alguma  forma, influencia aquele ser em formação e pode trazer reflexos para  toda a sua vida.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Deixando  o ventre materno, o indivíduo se expõe a um novo mundo, cheio de  perigos, mas também cheio de oportunidades. E logo nos primeiros anos de  vida pós-natal está um gargalo poderoso na definição de potencial. A  primeira infância é uma etapa crucial para o desenvolvimento físico e  psicológico de um indivíduo. Deficiências nutricionais nessa idade  impedem a adequada maturação cerebral e podem originar sérios déficits  cognitivos para o resto da vida, mesmo que no futuro a dieta se torne  mais abundante. Doenças podem sequelar o indivíduo e gerar sérias  deficiências dali em diante – uma meningite pode gerar surdez e  retardamento mental, por exemplo. Traumas na primeira infância podem  originar fobias e outros sérios transtornos mentais. Tudo isso pode  minar o potencial de um ex-futuro talento.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas  não só doenças, carências nutricionais e traumas influenciam o  potencial do indivíduo. Ao lado disso tudo, outra questão crucial é: a  que tipo de estímulos essa criança será submetida? Será que ela será  incentivada a ler e a escrever desde cedo? Ou seus pais serão  negligentes, castigarão, espancarão ou abusarão dela? Terá ela um lar  estável ou será submetida aos traumas de um casamento pouco sólido e  cheio de problemas? Terá ela oportunidade de frequentar uma escola ou  será obrigada a trabalhar desde cedo? Considerando que quanto mais cedo  mais fortes são as impressões causadas pelas experiências na  personalidade e no caráter de um indivíduo, todas essas questões são  importantes. Uma criança estimulada desde cedo aprende muito mais  facilmente do que outra cujo cuidado foi negligenciado. A abundância de  estímulos dos tempos modernos é tida como a grande responsável pela  “esperteza” cada vez mais precoce das novas gerações.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Obviamente,  não podemos ser fatalistas. A mente humana não funciona com a  simplicidade de uma máquina. É tão complexa que ainda sabemos  pouquíssima coisa sobre ela. Seres humanos criados nas piores condições  ainda podem virar gênios, e pessoas criadas em condições tidas como  perfeitas podem acabar por se tornar a vergonha de seus pais, de seus  ancestrais até a vigésima geração passada e de toda a Humanidade. Mas  isso não invalida as observações acima, que parecem funcionar para a  grande maioria dos seres humanos, e não pode ser usado como desculpa.  Talvez um dia tenhamos conhecimento suficiente para desvendar esses  paradoxos.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Passados  os tempos de infância, o ambiente continua a definir o que será daquele  indivíduo que um dia foi uma só célula dentro do útero. Continuará a  haver estímulo suficiente para que ele continue nos estudos? Ou a  família não o encoraja, sua personalidade dificulta ou a necessidade  impera e o encaminha para o trabalho mais cedo? Terá ele desenvolvido  uma boa índole ou uma personalidade perversa? Essa mesma personalidade e  as oportunidades do acaso conspirarão para encaminhá-lo a uma vida  honesta ou ao crime? Terá ele conhecimento e discernimento para saber  que cigarro e álcool fazem mal ou morrerá cedo de tanto fumar ou beber?  Mais: supondo que esse indivíduo tenha nascido com um enorme talento  para a música, com ouvido absoluto, destreza nas mãos e habilidade  criativa, será que em algum momento de sua vida ele terá oportunidade de  descobrir seu talento e aprimorá-lo, ou começará ele a trabalhar cedo  como mecânico e continuará no emprego a vida toda para sustentar sua  família, sem nunca ter tido a oportunidade de entrar em contato com a  música? &lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;No  começo da vida adulta, o indivíduo percorreu boa parte do caminho da  formação de sua personalidade, e a essa altura muitos grandes talentos  podem ter sido desperdiçados. Entretanto, nem tudo está perdido. A mente  humana é suficientemente flexível para ocasionar mudanças na  personalidade até o fim da vida, embora sem a mesma facilidade dos anos  iniciais, pois o ser humano é como uma árvore: quando ainda é pequena,  seu caule verde pode ser dobrado em qualquer direção e assumir as mais  variadas formas. Com o passar do tempo, ele endurece e adota uma forma  definida. Se pôde crescer para o alto sem ser prejudicada, essa árvore  facilmente estenderá muitos galhos e terá uma copa frondosa e bela. Se,  ao contrário, a vida fez o caule entortar e se deformar, essas  deformações permanecerão de uma forma ou de outra para o resto da vida, e  dificilmente essa árvore será tão frondosa quanto a primeira.  Entretanto, mesmo estando terrivelmente deformada, a árvore ainda pode  emitir seus galhos em direção à luz, e pelo menos eles ainda podem  crescer e assumir uma nova forma.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Embora  essa alegoria pareça saída de algum livro de auto-ajuda, ela é bastante  válida, pois assim também ocorre com muitas pessoas.&lt;span style="font-size:0pt;"&gt; &lt;/span&gt;Deformadas  e tortas pelas intempéries do começo da vida, poderiam ter sido grandes  gênios, mas não foram. Muitas vezes descobrem – e aprimoram – seu  talento depois dos trinta, dos quarenta ou até mesmo depois da  aposentadoria. Não poderão ser tão grandes quanto poderiam se estivessem  no caminho certo a vida toda, mas é certo que podem crescer. Só que  para isso ainda é preciso haver oportunidade – além de estímulo e  recursos.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Infelizmente,  é muito difícil que isso aconteça. Uma vez perdida a oportunidade,  raramente é possível resgatá-la mesmo em parte. Conforme o indivíduo  envelhece e desanima, os vícios o consomem e resgatar seu potencial se  torna mais e mais difícil. Por isso é tão complicado encontrar algum  potencial naqueles indivíduos que, por uma série de razões, acabaram por  se perder no caminho. Se foram eles próprios que deixaram isso  acontecer, se a personalidade deles os empurrou naquela direção ou se a  vida simplesmente não ofereceu nada melhor, o fato é que aqueles pobres  homens acabando com a própria existência, passando a vida toda nos  botequins ou nas esquinas sem fazer absolutamente nada além de beber e  fumar, são praticamente irrecuperáveis. Mas isso não é desculpa para  abandoná-los à própria sorte. Afinal, eles podem não ter mais volta, mas  o mesmo não se pode dizer dos seus filhos, se forem dadas oportunidades  adequadas.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;É  outra conclusão infeliz a de que aquelas pessoas que não realizaram  suas potencialidades dificilmente serão tão felizes quanto as que o  conseguiram. Chegar ao fim da vida com a sensação de “não fiz nada do  que gostaria de ter feito quando era jovem” ou “não pude realizar meus  maiores sonhos” deve ser extremamente frustrante. Mas diferentemente  daqueles que não o puderam fazer por total impossibilidade financeira ou  oportunidade, a frustração deve ser muito maior para os que tiveram a  chance e por alguma razão deixaram-na escapar. Em um mundo que prega que  ter dinheiro é o único objetivo que presta e satisfação pessoal é  contada pelo saldo bancário, é muito comum que as pessoas cheguem ao fim  da vida com uma triste sensação de vazio em suas almas. Não digo que  tenhamos todos que largar nosso dinheiro e nossos bens e virar eremitas  ou monges para que sejamos felizes, mas é bom encontrar um meio-termo.  Dinheiro é importante, mas apenas como meio de troca para satisfazer  nossas necessidades de seres humanos e ter uma vida confortável, nunca  como um fim em si.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Como  podemos ver, é difícil que o potencial das pessoas seja verdadeiramente  aproveitado em nossa sociedade. Muitos são os obstáculos, em todas as  partes da vida. Vencem aqueles que têm as oportunidades certas e os  incentivos certos. Dentre esses incentivos é preciso destacar um que vem  de dentro da cabeça: o da própria personalidade. Muitos indivíduos  tidos como de sucesso afirmam que o grande segredo é perseverar, não  desistir facilmente. De fato, quanto mais tempo permanecemos na luta,  maior é a chance de aparecer alguma oportunidade aproveitável. Mas o que  faz um indivíduo tolerar a frustração e o fracasso mais do que outro?  Força de vontade? Talvez. Mas o que faz uma pessoa ter mais força de  vontade que outra? A maneira como a sua personalidade se desenvolveu,  suas experiências e talvez um pequeno componente genético? Sabemos muito  pouco sobre a personalidade humana, e por isso ninguém pode responder a  essa pergunta ainda. Tentar fazê-lo é cair inevitavelmente em  pré-julgamentos, principalmente se considerarmos que a personalidade é  um dos fatores, e que devemos considerar os outros – as oportunidades e  os obstáculos que a vida coloca. Como tudo na vida, eles não são  distribuídos homogeneamente, e nem todos estão no lugar certo na hora  certa. Há pessoas que mesmo com enorme força de vontade, encaram uma  vida inteira de enormes dificuldades até sucumbir, e seu potencial nunca  será descoberto. É por essa razão que é dever da sociedade garantir que  tenhamos todos a oportunidade de descobrir e desenvolver nossas  potencialidades. É claro que não há receita de bolo quando falamos de  seres humanos – talvez as criaturas mais imprevisíveis da face da Terra.  Fazer tudo certo não garante com 100% de certeza que surgirão pessoas  talentosas, e da mesma forma fazer tudo errado não significa que tudo  está perdido. Grandes talentos de diversas áreas podem surgir dos  lugares mais improváveis – por exemplo, Gil Brother, um dos maiores  ícones do humorismo brasileiro dos últimos tempos, era lavador de carros  nas ruas de Petrópolis. O jazz, um dos estilos musicais de maior  prestígio, surgiu graças a alguns negros pobres e desdentados,  descendentes de escravos, no sul dos EUA. Mas isso não invalida a  observação de que tentar proporcionar as condições ideais para que os  talentos se desenvolvam ajuda bastante. Isso é indiscutível.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Garantir  saúde e um lar estável, dar educação moral adequada, oferecer estímulos  e oportunidade de educação e de aprimoramento de habilidades, permitir  que essas habilidades sejam realmente postas em prática, fazer com que  as crianças entrem em contato com as mais diversas atividades para  identificar as possíveis aptidões, e não deixar que os reveses da vida  tirem-na do caminho certo e a encaminhem para o crime, as drogas ou a  outro tipo de vida miserável. Essa é a receita para explorar ao máximo o  potencial humano. Difícil? Com certeza. Envolve um esforço permanente  do Estado – para garantir saúde, educação, emprego, etcetera – e também  um esforço dentro dos lares, para estimular e educar as crianças desde  cedo – afinal de contas, é no começo da vida que boa parte de nossa  personalidade se forma e, por mais que haja quem diga o contrário,  educação se aprende em casa. A escola só pode aprimorar um pouco o  trabalho que os pais fizeram. Isso se fizeram algum...&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;É  aí que está a grande diferença entre os países ricos e os pobres.  Crianças de todo o planeta têm o mesmo potencial de se tornar gênios ou  grandes talentos nas mais diversas áreas. Só que nos países mais ricos  há mais oportunidade para detectar e aprimorar desde cedo esses  talentos, e eles colhem os frutos desse trabalho nos muitos prêmios  Nobel e equivalentes. É claro que às vezes há um pouco de bairrismo –  afinal, tivemos muitos brasileiros perfeitamente capazes de ganhar um  Nobel, mas até hoje não temos nenhum. Mas excetuando esse fenômeno (que  no geral não tem lá uma grande influência), a grande diferença está  mesmo no modo com que os países aproveitam ou desperdiçam seus talentos.  Isso derruba por terra qualquer teoria de superioridade racial que  ainda possa existir por aí. Aliás, o simples fato de haver no mundo  proponentes de ideias de superioridade racial mostra que débeis mentais  também podem surgir em qualquer canto da Terra. Todas as pessoas, de  todos os povos, têm potencial. Sejam húngaros, castelhanos, xhosa,  indianos, mongóis, indonésios, quéchuas ou de que etnia for – as poucas  diferenças genéticas são nulas na definição de potencial do indivíduo. A  suposta superioridade intelectual dos judeus (que de fato são grande  parte dos ganhadores de prêmios científicos como o Nobel), que vem  inflando o ego de alguns judeus que se acham uma raça superior, também  pode ser perfeitamente explicada pelo uso e pela exploração de seus  talentos potenciais.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Explica-se:  todo judeu, desde pequeno, é obrigado a aprender a ler e a escrever –  isso é um dever religioso, para aprender a ter contato desde cedo com o  Torá. Isso já faz com que o pequeno judeu já esteja muitos passos à  frente de muitos outros meninos e meninas da sua idade, que não têm a  mesma oportunidade nem o mesmo estímulo ao aprendizado da leitura. Além  disso, a rede de contatos dos judeus (que obviamente é formada por  outros judeus em outras cidades ou até mesmo outros países) propicia  mais oportunidades. E por falar em judeus, existe também a ideia  equivocada de que o judeu tem um talento natural para enriquecer, haja  vista o grande número de judeus que são ou foram grandes empresários ou  comerciantes. Isso também se explica: nos tempos em que a Igreja  Católica mandava e desmandava na Europa, as terras só podiam pertencer a  cristãos. Aos judeus restavam as cidades – muitas vezes os guetos.  Séculos e séculos nas cidades fizeram com que os judeus se  especializassem no comércio e paralelamente na gerência da economia  doméstica. Quando o eixo econômico saiu do campo para a cidade, na  Revolução Industrial, os judeus eram os mais capazes de tirar proveito  daquele novo mundo de máquinas. Não surpreende que, vivendo tanto tempo  nas cidades, eles aprenderam muito bem como montar um negócio e  prosperar. Como se vê, não há nada de superioridade racial, apenas  peculiaridades históricas sobre como descobrir e aprimorar habilidades.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas  nós brasileiros, mesmo não tendo muito recursos e desperdiçando muitos  talentos, sabemos muito bem descobri-los e aprimorá-los magnificamente  em uma área em especial. Estou falando do futebol. Nossas crianças  praticamente já nascem com a bola nos pés, e poucos são os meninos que  não têm a oportunidade de disputar algumas partidas de futebol no  campinho do bairro. Isso é parte da cultura dos brasileiros, e abre  oportunidades – dentre esses meninos, não é raro que pelo menos dois ou  três tenham razoável talento com a bola nos pés. E não é difícil  encontrar lugar para eles em escolinhas de futebol, que continuam a  aprimorar seu talento, como um ourives que lapida uma pedra preciosa.  Outro fator que colabora é a valorização do jogador de futebol na  sociedade brasileira. Que garoto, mesmo sendo o maior perna-de-pau,  nunca sonhou em ser um grande esportista? Não há incentivo maior que  esse. Havendo incentivo, oportunidade e aprimoramento, não é de se  espantar que nossos campos revelem ano após ano uma quantidade imensa de  verdadeiros artistas da bola, que acabam por fazer sucesso em todo o  mundo, enchendo as redes de gols e enchendo os olhos daqueles que estão  nas arquibancadas de todo o planeta. Agora imagine, leitor, se os mesmos  incentivos que por aqui são dados ao futebol fossem dados à literatura,  à música, à ciência e a outras tantas áreas? Quantos craques da música,  dos poemas e dos desenhos não seriam revelados ano após ano?&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Bom,  chega de exemplos por enquanto. Voltemos a falar de potencialidade de  modo geral. Tente imaginar, caro leitor, quantos grandes escritores,  poetas, músicos, pintores, arquitetos, cientistas, filósofos,  professores, quantos grandes talentos foram desperdiçados por pertencer a  uma “raça inferior” ou a uma família que professava uma religião não  aceita. Ou simplesmente por não ter “sangue nobre”. Estes eram quase  sempre relegados a trabalhos braçais ou a outros serviços de menor  prestígio e que não despertam talento nenhum. Numa  época em que a aristocracia mandava, só tinha oportunidade de fato quem  nascia no berço certo, tendo os ancestrais certos. E ainda hoje há quem  diga que sente orgulho por descender de família nobre – como se o  talento e a genialidade dependessem do sangue, e um medíocre de  ascendência nobre fosse melhor do que um gênio de família menos  tradicional.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Aqueles  de sangue azul, com a cor da pele certa ou que professam a religião  certa, em sociedades baseadas nesse tipo de preconceito e  estratificação, largam em enorme vantagem em relação aos outros –  justamente por ser a eles oferecida oportunidade desde cedo. Eles têm a  chance de ir à escola, de aprender e ser cultos, de aprimorar seus  talentos e, finalmente, são reconhecidos pelos seus pares. Os outros são  relegados a funções menos nobres, não recebem os mesmos incentivos, têm  menos oportunidades e enfrentam um caminho ainda mais difícil em  direção à plena realização de suas potencialidades. E mesmo nos raros  casos em que conseguem, a sociedade injusta costuma usar dois pesos e  duas medidas, preferindo valorizar mais o trabalho daqueles que têm  sangue azul, professam a religião certa ou a cor da pele certa. E por  usar dois pesos e duas medidas, deixavam de aproveitar o imenso  potencial de nove décimos de seus conterrâneos. Os nobres de outrora  olhavam com total desprezo para aqueles camponeses maltrapilhos, sujos,  ignorantes e miseráveis das áreas rurais, mas estou certo de que os  filhos deles poderiam ter sido iguais ou melhores do que os mais  célebres artistas da época, se a eles tivesse sido dada a chance. E o  que me deixa mais triste é que ainda hoje pessoas que se julgam “de  sangue azul” enxergam outras como pertencentes a uma camada inferior,  sem nada que se aproveite.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Obviamente,  por “talento” e “genialidade” não se entende apenas habilidade  artística ou científica. O grande talento de um indivíduo pode ser a  organização, e fazer dele um excelente administrador, por exemplo. Ou a  afinidade por peças de automóvel pode fazer dele um grande mecânico.  Outro pode se tornar um excelente padeiro. E aqueles que possuem esses  talentos podem sim amar o que fazem, mesmo que seu ofício não seja o  mais bem-visto pela sociedade. É por essa razão também que defendo que  toda profissão tem seu valor, e todo profissional deve ser valorizado de  maneira adequada. Se os talentos artísticos ou científicos fossem os  únicos e fossem sempre desenvolvidos e explorados, não haveria quem  executasse as outras funções na sociedade – e nada funcionaria. Muitos  talentos do passado foram perdidos porque essas pessoas acabaram por se  encaminhar ao trabalho braçal. Mas nos dias de hoje, em que as máquinas  são perfeitamente capazes de substituir o braço humano nas atividades  pesadas, não há motivo para que isso se repita. Quando os braços estão  livres do trabalho braçal, a mente pode se ocupar de outros assuntos e  questões mais nobres. Foi assim que floresceram a Filosofia, o Teatro e  outras tantas maravilhas dos gregos. Com os escravos fazendo o serviço  pesado, os aristocratas puderam se dedicar ao “ócio produtivo”.  Poderíamos pensar: quantos desses escravos não poderiam também ter sido  filósofos, dramaturgos, poetas e artistas?&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;É  necessário fazer uma observação importante: uma pessoa pode ter  diferentes potenciais, às vezes em áreas as mais diversas. Por essa  razão, além de valorização de seu ofício, o indivíduo deve ter algum  tempo para o lazer, para poder se dedicar a uma outra atividade, um  hobby. E isso é essencial principalmente para aqueles indivíduos que  trabalham em áreas que dificilmente poderiam ser chamadas de suas  vocações. Mesmo que não tenham tido oportunidade de trabalhar com o que  mais gostam ou o que mais podem produzir, é bom que tenham tempo livre  para desenvolver pelo menos um pouco de seu potencial. O pai deste que  vos escreve, por exemplo, tem um emprego um tanto enfadonho como  burocrata, mas nas horas vagas se revela um fissurado em botânica. E há  muitos outros bons exemplos conhecidos de pessoas cujos hobbies  proporcionam mais satisfação e têm até mesmo mais produtividade do que  seus próprios trabalhos. Em alguns casos, não só as próprias pessoas  saem beneficiadas por seus hobbies – a ciência pode dar grandes saltos  graças a eles. Várias foram as descobertas científicas e invenções  feitas nas horas vagas, e cujos autores eram profissionais de atividades  completamente diferentes. Se um abastado comerciante holandês de nome  Anton van Leeuenhoek não tivesse o costume de preencher suas horas vagas  colocando tudo quanto fosse porcaria na frente de uma lente de aumento,  ele não teria descoberto o curioso e fascinante mundo dos seres  microscópicos. Leeuenhoek, um amador, foi o primeiro a descrever as  bactérias, e inclusive em suas anotações é possível ver que ele deu  diversos detalhes como a movimentação daquelas pequenas criaturas. E se  Gregor Mendel, um monge perdido em um mosteiro da Boêmia, não gostasse  de fazer experiências com cultivo de ervilhas entre uma oração e outra,  talvez a Genética hoje estivesse muito mais atrasada. &lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Por  essas razões, creio que todo ser humano tem algum potencial. Embora não  tenhamos todos as mesmas habilidades, e haja até mesmo algumas pessoas  com mais talentos do que outras, nós todos possuímos algo que possa ser  aproveitado. Faço apenas uma exceção aos psicopatas ou sociopatas, que  por ser biologicamente incapazes de realizar um julgamento moral, não  devem viver em sociedade – para o bem de nós outros. Mas ainda não  sabemos como um indivíduo se torna psicopata, quais são as influências  genéticas ou ambientais, e por isso ainda não podemos dizer se uma  criança desenvolverá ou não psicopatia na vida adulta, ou se há  possibilidade de recuperação. &lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Por  falar em personalidade, volto a afirmar que todos temos potencial.  Nesse caso, tanto para o bem quanto para o mal. Embora traços como a  agressividade e a impulsividade tenham forte componente genético (fato  que pode ser comprovado até mesmo em ninhadas de animais, em que podemos  facilmente distinguir os mais dóceis dos mais agressivos), falar em  bondade ou maldade é algo muito mais complexo. Nesse caso, existe um  fortíssimo componente ambiental, ou seja, as experiências pelas quais a  pessoa passa têm forte influência. O individualismo tem algum componente  genético mas, como todo componente genético, ele limita muito mais do  que determina. Ninguém nasce predestinado a ser egoísta ou altruísta – a  maneira de criar e educar, os valores morais impressos (ou a  permissividade e a negligência), os traumas, tudo exerce sua influência  de uma maneira, como já disse, tão complexa que é impossível de prever  ou controlar com exatidão. Uma família pode, por exemplo, oferecer a uma  criança tudo em termos materiais, mas pode deixar de lado o mais  importante – carinho e atenção. O espaço da família pode acabar ocupado  pelos amigos da rua, que podem ser más companhias e colocá-lo no caminho  das drogas ou do crime. Ou, ao contrário, de uma família completamente  desestruturada pode sair uma Madre Teresa de Calcutá. Os seres humanos  são imprevisíveis! Mas nem por isso devemos deixar de oferecer às  crianças tudo aquilo que possa dar a eles mais chance de ser pessoas  boas, íntegras e úteis para a sociedade – amor, carinho e atenção, uma  boa educação moral, oportunidade de aprender e desenvolver suas  habilidades e de ter uma vida saudável e feliz, além de estímulo para  querer sempre melhorar e se aperfeiçoar. Ainda que nem sempre funcione e  que por muitas vezes faltem alguns desses preciosos componentes,  oferecer essa boa base aos filhos deve ser objetivo maior de todas as  famílias, e proporcionar as condições para que isso aconteça deve ser  prioridade de todos os governos preocupados com o futuro.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Paralelamente  a isso, deve ser considerada outra importante influência em nossos  dias: a televisão e a publicidade. Como afirmei no &lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/01/covardia-lucrativa.html"&gt;texto sobre a publicidade infantil&lt;/a&gt;,  deixar que a TV substitua os pais ou os amigos pode ter efeitos  nefastos para aquelas mentes em formação. Educar de verdade uma criança  também inclui, em nossos dias, prestar atenção ao que ela aprende diante  da tela da TV. Há certamente muita coisa útil, mas também muita coisa  nociva e que pode formar uma personalidade problemática. Como se não  bastasse a agressiva e apelativa publicidade infantil e alguns programas  de muito mau gosto, há também a questão dos ídolos. As crianças não se  espelham apenas nos pais ou nos exemplos mais próximos, mas também  naqueles homens e naquelas mulheres de sucesso que elas vêem na  televisão – jogadores de futebol, celebridades dos mais diversos  tipos... E dependendo de como agem essas pessoas nas quais as crianças  se espelham, os resultados naquelas pequenas mentes pode ser devastador.  Por exemplo, o comportamento indisciplinado de um jogador de futebol  (que muitas vezes é fruto de uma ascensão meteórica sobre uma mente que  definitivamente não estava preparada para isso) ou a excentricidade de  um pop star pode influenciar negativamente uma geração de crianças.  Infelizmente, a supervalorização dessas celebridades não é acompanhada  por uma tomada de consciência por parte delas de que elas próprias  representam um papel importante nas mentes de tantos meninos e meninas.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E  por falar no assunto, de que forma será que devemos tratar os nossos  artistas? Nessa categoria incluo apresentadores de televisão, atores,  cantores e similares.&lt;span style="font-size:0pt;"&gt; &lt;/span&gt;É certo tratarmos essas  pessoas como se fossem semideuses, ganhando salários astronômicos e  outros tantos privilégios por onde passam? Será que devem ser tão  valorizados como a televisão prega? Ou será que muitos dos que estão “do  lado de cá da tela” poderiam fazer igual ou até melhor se tivesse tido a  oportunidade que eles tiveram? É por essa razão que creio que nenhuma  daquelas celebridades deveria ser superestimada da forma que é em nossos  dias. O leitor deve imaginar o desprezo que tenho pelos “artistas da  moda” cuja ascensão é tão rápida quanto a queda, e cujo talento aparente  é 90% devido à propaganda intensa feita em torno deles. Ou uma estirpe  pior: aquelas “celebridades” que não têm absolutamente nada na cabeça  nem talento nenhum para absolutamente nada, e que foram alçadas ao  estrelato por mero acaso – refiro-me àqueles acéfalos conhecidos como  “ex-big brothers” e similares.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7750010797838420737?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7750010797838420737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7750010797838420737' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7750010797838420737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7750010797838420737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/01/sobre-o-potencial-humano-primeira-parte.html' title='Sobre o potencial humano - Primeira parte'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-8208670307685527184</id><published>2011-01-29T21:39:00.000-02:00</published><updated>2011-01-29T21:42:39.913-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Sobre o potencial humano - Segunda parte</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Há quem afirme que o  capitalismo seja o modelo ideal justamente por ser capaz de aprimorar e  premiar mais efetivamente o talento dos indivíduos. Há motivos  suficientes para não acreditar nisso. Afinal, aqueles que defendem as  vantagens do livre mercado quanto à meritocracia e quanto a seus efeitos  sobre a competitividade se esquecem de alguns detalhes. Por exemplo, há  uma tendência ao desequilíbrio e à concentração de renda sob uma  competição livre e irrestrita, e não é difícil entender por que isso  acaba com a igualdade de oportunidades. Em uma competição, quanto menos  regras existem, mais vantagem terá o mais forte sobre o mais fraco, mais  fácil será o maior engolir o menor. É muito mais difícil um pequeno  proprietário rural enriquecer do que um grande fazendeiro multiplicar  sua fortuna. E não é só. Os que ganham mais têm melhor acesso à saúde e  melhores moradias, e assim se sujeitam menos a doenças – o resultado é  maior produtividade. As diferenças se acentuam nas gerações seguintes,  pois quem tem mais renda pode colocar os filhos em escolas melhores,  cursos de inglês e etcetera, além de oferecer a eles melhores cuidados  de saúde. Mais saudáveis e qualificados, largam na frente na corrida por  vagas no mercado de trabalho. Além disso, pessoas mais acima da  pirâmide social costumam ser mais bem servidas de contatos – e isso pode  ser o diferencial na busca por um emprego, uma vaga em um curso ou  outra oportunidade interessante. Não quer dizer, de maneira nenhuma, que  os mais afortunados sempre chegarão na frente! A competência, a força  de vontade e o acaso podem muito bem alterar a “ordem de chegada”. Mas  uma vantagem é sempre uma vantagem!&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Por  falar nisso, é claro que há aqueles homens e aquelas mulheres de origem  humilde que “chegam lá”. Todo mérito deve ser concedido a eles, mas não  é bom supervalorizar. Afinal, além de competência, certamente tiveram  alguma ajuda do acaso. E o mesmo acaso nega oportunidades a tantos  outros de origem humilde que acabam por ficar no caminho, por mais força  de vontade que tenham. &lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E  já que estamos falando de força de vontade, estimulá-la (ou não) pode  ser crucial para decidir se o potencial do indivíduo poderá ser  alcançado ou desperdiçado. Se considerarmos um ambiente desestimulante,  destroçado pela violência e sem a menor perspectiva de futuro, é difícil  que de lá saia alguém suficientemente estimulado para ter sucesso na  vida. Paradoxalmente, a mesma coisa acontece com quem cresce tendo tudo  nas mãos desde cedo. Mimados e tendo sempre seus desejos atendidos pelos  pais desde a infância, alguns indivíduos crescem achando que o mundo  existe para servir a eles. Conheci muitos desses filhinhos-de-papai na  minha infância. Tinham tudo para desenvolver seu potencial e se tornar o  que quisessem, mas alguns deles fizeram uma faculdade vagabunda e/ou  foram parar atrás do balcão de uma loja qualquer. Mas nem sempre é esse o  destino dos playboys, patricinhas e outros filhinhos-de-papai em geral.  Muitos deles viverão com o dinheiro dos pais sem nunca trabalhar, ou  herdarão de mão beijada seu patrimônio sem nunca ter se esforçado na  vida. É verdade quem muitos filhos acabam por torrar as fortunas  conseguidas a tanto custo pelos pais, mas eles o fazem lentamente e  vivendo como reis durante toda, ou quase toda, a sua miserável  existência. Se tinham algum potencial, atiraram-no no poço ainda em sua  juventude, e de certa forma são premiados por esse feito! Enquanto isso,  aqueles que não nasceram em berço de ouro sofrem para conseguir um  lugar ao sol – e apenas uma minoria consegue. E depois dizem por aí que  no capitalismo existe meritocracia.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E  tenho mais motivos para dizer que não existe! Em nossa sociedade de  valores distorcidos, em que a aparência vale mais que a essência, fazer  um bom trabalho vale muito menos do que fazer a publicidade certa para  vendê-lo. Profissionais inquestionavelmente competentes com frequência  acabam ficando para trás, ultrapassados por aqueles que são melhores na  arte de incrementar o currículo com mentiras e puxar o tapete dos  outros. E nesse mundo que valoriza a competitividade acima de tudo,  esses são os profissionais mais valorizados! Ter os contatos certos,  contar as mentiras certas na hora certa e ser certeiro nos golpes baixos  conta mais do que muitos trabalhos bem-feitos! Vários dos grandes  executivos e empresários de sucesso devem suas fortunas a atos e a  negócios não muito aceitáveis moralmente, mas de grandes margens de  lucro – há negócios que são verdadeiros cassinos, sem uma gota de  exagero. Para citar um exemplo, tente imaginar quantos picaretas lucram a  cada bolha que se incha em Wall Street de tempos em tempos?  Curiosamente, quando essas bolhas estouram, raramente esses mesmos  picaretas são pegos, e quem paga o preço são os trabalhadores honestos. O  caso de Bernard Maddoff, o “curinga de Wall Street” que lucrou bilhões  com um esquema de pirâmide financeira e recebeu pena de 150 anos de  prisão, é uma exceção notável.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;É  por essas razões que eu não vejo motivo algum para me vangloriar do que  consegui até hoje. Tenho a felicidade de cursar um bom curso em uma boa  faculdade e graças a ele muitas portas poderão se abrir no futuro. Mas  teria eu chegado aonde cheguei se não tivesse tido pais honestos e  íntegros e tivesse crescido em uma família totalmente desestruturada? E  se meus pais não tivessem sacrificado boa parte do que ganhavam para me  oferecer uma escola de qualidade? Teria chegado aonde cheguei se vivesse  em uma situação financeira que me forçasse a largar a escola e  trabalhar desde cedo? E se meus pais não tivessem me provido de recursos  para cursar um bom pré-vestibular em outra cidade com custo de vida  notadamente alto, e gasto outros tantos recursos para que eu pudesse  viajar para outros estados e fazer provas de vestibular, estaria eu onde  estou hoje? Será que tudo o que consegui foi única e exclusivamente por  mero esforço meu? Não nego que tenha me esforçado muito ao longo da  minha jornada, em alguns períodos até de maneira sobre-humana, mas há  muitos outros que também se esforçam continuamente, às vezes mais do que  eu e que meus colegas mais aplicados, mas não tiveram as mesmas  condições que eu tive. Há entre meus colegas de curso aqueles com  histórias de vida marcadas por muita luta e persistência em meio às  maiores dificuldades, mas há também muitos outros que sempre tiveram  tudo nas mãos, o que tornou sua jornada muito mais fácil. Por isso tenho  uma forte tendência a não olhar com bons olhos aqueles que se  vangloriam de suas conquistas dizendo que tudo foi por mero esforço  pessoal – principalmente se quem diz isso ganhou um carro zero Km quando  completou dezoito anos ou quando passou no vestibular.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-8208670307685527184?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/8208670307685527184/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=8208670307685527184' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8208670307685527184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8208670307685527184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/01/sobre-o-potencial-humano-segunda-parte.html' title='Sobre o potencial humano - Segunda parte'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-9195121556798527056</id><published>2011-01-29T21:38:00.000-02:00</published><updated>2011-01-29T21:39:50.951-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Sobre o potencial humano - Terceira parte</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Feitas todas essas  observações, o que fazer exatamente para preservar, detectar,  desenvolver e aprimorar o potencial de todos os indivíduos de nossa  sociedade? Afinal, preservar só o de alguns seria injustiça, e é dever  de todos nós zelar para que o maior número possível de futuros talentos  vire realidade – não sabemos quantas e quais maravilhas um único  indivíduo pode gerar!&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Comecemos  do começo: o pequeno Mozart (vamos chamá-lo assim) em formação, desde o  momento que ainda é um punhado de células dentro do útero de sua mãe,  deve ter um ambiente adequado para crescer e se desenvolver. É por essa  razão que acredito que é direito de toda gestante ter à disposição um  sistema de saúde que acompanhe sua gravidez e faça as devidas  orientações quanto à dieta e aos hábitos, e suplementação com vitaminas  (que devem ser distribuídas gratuitamente ou vendidas a preços  subsidiados) quando for o caso. A única exigência a ser feita é a de que  a mulher deve utilizar esse serviço, por ser uma obrigação moral cuidar  de uma vida que não é a dela, embora cresça dentro de seu corpo (para  que isso tenha efeito, o estado deve garantir informação suficiente para  a futura mãe saber de seus direitos e deveres). E essa é também uma das  razões pelas quais considero errada a prática do aborto – salvo nos  casos atualmente previstos em lei. Não preciso apelar para punição  divina quando minha moral diz que não se pode decidir por uma vida que  não é a minha própria. Isso não quer dizer que eu não defenda o  planejamento familiar e o acesso de toda mulher a métodos contraceptivos  para que ela decida quando engravidar, mas a partir do momento que uma  nova vida é gerada, não temos o direito de acabar com ela.&lt;span style="font-size:0pt;"&gt; &lt;/span&gt;Mesmo  uma criança “não planejada” e sem muita perspectiva de vida, nascendo  em uma família pobre, ainda pode ter futuro – Capitães da Areia pode até  ser ficção, mas tem algumas doses de realidade. Uma vida humana é uma  vida humana, e por isso tem potencial. Leonardo Da Vinci era filho  bastardo – o que aconteceria se seu pai ou sua mãe quisessem que aquela  criança morresse antes mesmo de nascer? Nós das gerações futuras  ficaríamos sem algumas das mais belas obras já produzidas pela mente  humana? Outro exemplo: se dependesse de sua mãe, Gerolamo Cardano teria  sido abortado – ela tomou chás abortivos mais de uma vez, sem sucesso.  Mesmo vivendo em um lar sem estabilidade e sujeito às intempéries da  época (a mãe e os irmãos morreram de peste, mas o garoto sobreviveu à  doença sem grandes sequelas), Gerolamo acabou por se tornar um renomado  médico na Itália do século XVI e ainda escreveu uma obra pioneira sobre  probabilidade matemática. Quantos gênios já pereceram mesmo antes de  sair do útero, desde o começo da História?&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas  continuemos a saga do pequeno Mozart, que isso aqui não é eleição para  que eu discorra sobre aborto além da conta. Talvez eu possa fazê-lo em  outra oportunidade, mas não agora. Depois de sair do ventre de sua mãe, a  criança deve encontrar um ambiente minimamente capaz de recebê-la. Uma  família estável é o ideal mas, na falta de uma, até mesmo uma mãe  solteira ou um orfanato decente serve, desde que possa oferecer calor  humano, carinho, atenção e amor. Como já disse antes, boa parte da  personalidade se forma no começo da vida, e traumas podem trazer às mais  diversas sequelas. E não queremos sequelas para o nosso Mozart. Por  isso, além de estabilidade emocional, deve haver alguma estabilidade  financeira para que a criança não tenha seu desenvolvimento físico e  psíquico prejudicado pela falta de alimento. É por isso que deve existir  um modelo econômico capaz de garantir o mínimo para todos os seus  cidadãos – um teto, comida na mesa, saúde e educação de qualidade e  trabalho para permitir os dois itens anteriores (ninguém disse que eles  devem sair de graça). E por mais que alguns neguem, estabilidade  financeira tem uma estreita ligação com estabilidade emocional em um lar  – um casamento fica muito mais difícil de se sustentar quando falta  dinheiro.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Prossigamos.  Tendo passado sua primeira infância de modo tranquilo, os pais devem  zelar pela saúde dos filhos ou, no caso, Mozart (e isso fica bem mais  fácil com um sistema de saúde de qualidade e universal), e educá-los  moralmente para que se tornem pessoas íntegras e honestas. Ainda que a  escola possa ajudar nessa tarefa, o papel principal cabe aos pais – que  são as pessoas em que o pequeno Mozart se espelhará na hora de aprender o  que é certo ou errado. E nessas horas, ações valem mais do que  palavras.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O  próximo passo é fazer com que Mozart tenha oportunidade de ir para a  escola, aprender a ler e sair da ignorância. Incentivá-lo a estudar  matemática, português (considerando que esse Mozart seja brasileiro, e  não austríaco como seu homônimo ilustre) e ciências, e talvez alguém  descubra desde cedo que ele tenha talento para uma dessas áreas. Ou seja  um dos melhores da classe na educação física, ou na aula de música, ou  nos teatrinhos da sala. E além das aulas ele deve ter acesso a uma  biblioteca, para que desenvolva melhor seu gosto e sua curiosidade pelos  livros. Talvez ele tenha desde cedo uma grande afinidade por bichos  esquisitos e isso um dia o leve a se tornar um grande biólogo. Ou goste  mais de estrelas e planetas, e venha a se tornar astrônomo. Não importa.  O que realmente importa é que sejam oferecidas a ele oportunidades para  que ele entre em contato com esse mundo novo e maravilhoso que é a  escola, e que suas aptidões sejam descobertas e aprimoradas a cada dia.  Um bom sistema educacional é perfeitamente capaz de garantir isso a  todas as crianças, incluindo Mozart.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Infelizmente,  em nossos dias isso não acontece, por várias razões que incluem o  estado precário de nosso ensino público e a situação econômica e  emocional deplorável de algumas famílias. Perdemos muitos pequenos  gênios para o trabalho infantil e, o que é ainda pior, para o imenso  moedor de gente que se chama tráfico de drogas. O crime coopta crianças e  adolescentes com muita facilidade, principalmente naqueles locais mais  pobres onde a perspectiva de uma vida honesta é praticamente nula.  Entrando para o crime, o talento de um jovem é desperdiçado, ou será  usado para o mal. O que seria de, digamos, Marcola, o chefe do PCC e  tido como um homem de inteligência extraordinária, se a vida tivesse  dado a ele a chance de ser uma pessoa honesta e não um bandido? Mas  Marcola é uma exceção – por ainda estar vivo. Muitos jovens morrem cedo  quando entram para o crime organizado – encontrar alguém que sobreviveu  até os trinta anos é muito difícil, mas mesmo assim isso não afugenta os  menores que entram para esse caminho sem volta. &lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Não  é preciso dizer que, se entrar para o tráfico de drogas significa  desperdiçar o potencial de uma pessoa, o mesmo pode ser dito para o ato  de entrar nessa cadeia pela outra ponta – como usuário. Quantos lares já  não foram destruídos, quantos bons indivíduos já não perderam  totalmente a perspectiva de ser alguém na vida por causa da cocaína, da  heroína, do crack... O uso de drogas é capaz de levar o ser humano ao  fundo do poço, eliminar todo o seu potencial e até o último traço de  humanidade que nele resta. Torna o homem um animal estúpido, e  posteriormente um vegetal. É o equivalente a jogar um ser humano na  lixeira.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Drogas  tidas como lícitas também podem ser bastante nocivas, principalmente  para quem, ainda na segunda década de vida, está formando sua  personalidade. O vício em álcool ou em tabaco pode causar ou contribuir  para a ocorrência de sérios danos ao organismo e limitar severamente a  vida de um indivíduo, tanto quantitativamente (menos anos de vida)  quanto qualitativamente (mais doenças e menos qualidade de vida). Ainda  que hoje haja mais conscientização sobre os riscos de cigarro e de  álcool, ainda há muitas pessoas que continuam a cair nessa vida  desgraçada, e algo me diz que isso ainda acontecerá por muito tempo.  Seja como for, Mozart deve tentar passar longe dessas coisas...&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;A  essa altura, Mozart deve ter a chance de aprimorar seus talentos, sejam  eles quais forem. Deve ter a chance de frequentar um bom Ensino Médio e  uma boa faculdade, para que suas habilidades se desenvolvam cada vez  mais. Se existir a possibilidade e o desejo por parte dele de que seu  maior talento se converta também em atividade profissional regular, esse  caminho deve ser incentivado da melhor maneira possível. Obviamente,  para que isso ocorra é necessário que haja uma mudança nos valores, uma  maior valorização de diversas atividades e profissões que hoje não são  bem vistas ou bem remuneradas. Se exercer seu talento profissionalmente  for impossível, Mozart deve ter mesmo assim uma profissão que o remunere  decentemente e ofereça algum tempo livre para que ele se dedique a seus  verdadeiros talentos pelo menos em seu tempo livre. E mesmo se o grande  talento de um indivíduo não for descoberto em sua juventude, deve haver  a chance para que ele entre em contato com novas experiências quando  estiver com idade mais avançada pois, além de proporcionar mais  bem-estar (o que costuma potencializar a produtividade em qualquer  área), pode revelar habilidades até então desconhecidas. E a trajetória  de vida de Mozart e de tantas outras pessoas deve ser acompanhada e  amparada por um sistema de saúde universalmente abrangente e de boa  qualidade, para que uma doença ou outra condição não o impeça ou limite  suas capacidades.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Além  de evitar que nosso Mozart morra de alguma doença ou coisa parecida, é  preciso também que ele não morra em algum campo de batalha por aí. Uma  das principais razões pelas quais eu me declaro pacifista é o imenso  desperdício de vidas humanas que uma guerra causa. Não só entre os  militares que morrem, mas também entre os civis - que têm sido as  principais vítimas nas últimas guerras. Quantos futuros poetas,  escritores, cantores, dramaturgos, cientistas, engenheiros, arquitetos,  filósofos e médicos talentosos já pereceram em guerras estúpidas por  todo o mundo... Mais triste do que ver um potencial se perder é ver  aquele potencial já realizado ou prestes a isso se perder, como também é  o caso de muitas guerras. Ou como foi o caso de tantos genocídios que  os olhos tristes de nossa História já presenciaram... Quando os  espanhóis subjugaram os incas, por exemplo, mandaram para as minas de  Potosí muitos astrônomos, filósofos, artesãos e pensadores qualificados e  distintos, desperdiçando todo o seu potencial nas insalubres e  perigosas minas de prata, em uma atividade braçal e que não exige de uma  pessoa mais do que duas pernas e dois braços inteiros.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E  por último, a valorização do trabalho pressupõe uma diminuição das  desigualdades sociais, não só para dar a todos cidadãos um mínimo de  qualidade de vida, mas também para impedir ou limitar severamente a  riqueza extrema. Esta nunca se deve inteiramente ao mérito, por mais que  haja quem diga o contrário. E em muitos casos, nem uma fração mínima se  deve a ele. A existência de indivíduos abastados e que pouco ou nada  contribuem para a sociedade – e mais ainda, a valorização do estilo de  vida “ser rico e não trabalhar” – é um tapa na cara dos trabalhadores  honestos, e acaba por minar seu potencial. Não digo que é errado ter uma  vida confortável, até porque, como já disse, se um indivíduo souber  aproveitar o tempo livre que ela proporciona ele pode ser bastante  produtivo em seus hobbies. O que não é certo é transmitir e popularizar a  ideia de que o objetivo maior de todos nós é ter muito dinheiro e não  fazer absolutamente nada que presta – um ideal de vida bastante presente  no imaginário de boa parte de nossa pirâmide social. Pelos mesmos  motivos, também não sou o maior fã de medidas assistencialistas como  distribuição de recursos pura e simples, ainda que tenham seu valor para  erradicar a miséria. O ideal é, segundo minha visão, oferecer trabalho  decente e com remuneração justa para que as pessoas tenham um bom padrão  de vida sem depender de medidas assistencialistas – mas usufruindo do  Estado como provedor de serviços de saúde e educação de boa qualidade,  por exemplo. Entretanto, não nego que tais medidas ainda sejam  preferíveis ao desamparo total de um modelo econômico que não oferece  oportunidades de emprego decente e justamente remunerado para grande  parte de sua população. Apesar de em muitos casos levar a um certo  comodismo que limita o potencial e a competitividade individuais, seu  grande mérito é impedir que as famílias vivam na miséria e mais e mais  crianças tenham seu potencial desperdiçado pela fome, pelas doenças e  pelas sequelas da desnutrição. Não é a solução ideal, como já foi dito,  mas é preferível até que o modelo ideal – de oportunidade de emprego  para todos – seja alcançado e tais medidas assistenciais não sejam mais  necessárias. E há meios perfeitamente possíveis para isso. Para não  gerar um texto com as mesmas dimensões deste, citarei apenas algumas:  uma reforma agrária que redistribua as muitas terras ociosas que temos  no Brasil (gerando empregos e baixando o preço da comida), incentivo a  cooperativas e pequenas empresas (responsáveis pela geração da maior  parte dos empregos nos serviços, no comércio e em alguns setores  industriais), aumento do poder de compra do consumidor para que ele  consuma mais e alavanque essas pequenas empresas, melhora da  infra-estrutura para que a produção seja mais eficiente e o aumento do  consumo não seja acompanhado por inflação... A lista é bem longa, mas  esse é um objetivo perfeitamente possível, ainda que não em um passe de  mágica.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;É  claro que, por falarmos de seres humanos, não há receita infalível.  Apesar de todo o nosso esforço para descobrir e desenvolver o potencial  de um indivíduo, as coisas podem dar errado. Mozart pode cair doente ou  morrer por causa de um acidente no meio de seu caminho, entrar para o  mundo das drogas por descuido de seus pais, acabar com si mesmo vivendo  em um botequim vendo a vida passar ou não fazendo nada que presta como  os adolescentes que ontem ficaram gritando e ouvindo música alta na  frente da minha casa às duas da manhã. Volto a afirmar que os seres  humanos são imprevisíveis. &lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Por  falar em imprevisibilidade, há outra variável que pode definir se um  indivíduo fará algo extraordinário ou não. Uma variável que nós somos  incapazes de mudar: a interação entre o ser humano e seu tempo. Uma  época propícia em um lugar propício pode ajudar a revelar grandes  gênios. Como já afirmei, podemos fazer com que as condições de um lugar  ou de um país sejam mais favoráveis para o surgimento de grandes homens e  mulheres, mas só podemos fazê-lo dentro de certos limites. Um dos  primeiros textos que postei aqui no blog falava sobre os &lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2008/02/infeliz-do-povo-que-precisa-de-heris.html"&gt;nossos heróis&lt;/a&gt;  e sobre as circunstâncias sob as quais eles são “fabricados”. Se  Napoleão tivesse vivido em uma época mais pacífica do que os turbulentos  anos pós-Revolução Francesa, teria ele tido chance de mostrar ao mundo  sua genialidade militar? Teria Karl Marx produzido o Manifesto e O  Capital, obras que incitaram trabalhadores de todo o mundo, se tivesse  nascido no socialmente bem menos agitado século anterior e seguido a  carreira religiosa de seus ancestrais? Teriam tido eco as palavras de  Nelson Mandela ou Martin Luther King em defesa dos direitos dos negros  se elas tivessem sido proferidas em uma época onde a escravidão era uma  prática comum? E podemos pensar da forma contrária. Existiram tantos  homens e tantas mulheres à frente de seu tempo durante a trajetória  humana, defendendo ideias brilhantes, mas incompreensíveis para os  costumes de suas épocas. E se essas pessoas tivessem vivido em épocas  mais propícias, ou tivessem alguém para registrar suas palavras para a  posteridade e fazer com que um dia elas fossem tidas como pioneiras de  ideias bastante avançadas? É por essa razão que não é bom nos apegarmos  muito a grandes heróis, líderes e grandes personalidades do passado.  Embora tivessem sido talentosos em suas respectivas áreas, tiveram  também a sorte a seu lado, e nem sempre isso é levado em conta.  Infelizmente, em alguns casos, o fato de viver em uma época “errada”  também pode limitar o potencial. Mas também pode estimular seu pleno  desenvolvimento, se a pessoa certa tiver a felicidade de estar no lugar  certo e na hora certa. E saber disso de antemão é impossível, visto que o  futuro é tão imprevisível quanto os seres humanos. A única coisa que  podemos fazer é tentar preservar e desenvolver o potencial das pessoas  dentro de nossas possibilidades.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas  essa imprevisibilidade (refiro-me à nossa, não à do futuro) pode também  render bons frutos. Imaginem quantos bons livros, quantas belas obras  de arte, quantas descobertas científicas, quantas úteis invenções podem  surgir se explorarmos o potencial de tantos talentos que hoje estão  escondidos em nossas favelas, em nossas pequenas cidades do interior, ou  em algum rincão ainda mais distante dentro de nosso país. Talentos que  só precisam de uma pequena oportunidade para despontar. É óbvio que  nunca seremos capazes de explorar todo o potencial de todos os seres  humanos – isso seria utópico. Mas é bom manter essa utopia no horizonte  para que cheguemos o mais perto possível dela. Quanto mais Mozarts,  Beethovens, Michelangelos, Einsteins, Picassos, Platões, Descartes,  quanto mais grandes mentes formos capazes de revelar, mais benefícios  teremos. O custo pode ser alto, mas não se compara aos benefícios que um  novo Da Vinci pode trazer, por exemplo.&lt;/p&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;A  sociedade perfeita e capaz de fazer isso da melhor maneira possível – e  portanto o modelo de sociedade no qual devemos tentar nos basear –  talvez seja aquela idealizada pelos gregos, sob o princípio conhecido  como “eudaimonia” (um estado de grande florescimento dos seres humanos,  acompanhado de felicidade), inseparável dos outros dois, “aretê”  (excelência e virtude) e “frônese” (prudência ou sabedoria moral).  Palavras de nomes estranhos, mas com significado quase intuitivo para os  seres humanos. Sob esses três princípios, que descrevem uma sociedade  equilibrada, simples, racional e feliz, a Humanidade seria capaz de  aproveitar ao máximo aquilo que cada um de seus membros tem a  contribuir. A felicidade de um ser humano pode ser fugaz, mas em um  mundo onde houver todas as condições para que ela seja alcançada com  frequência, certamente os seres humanos serão mais felizes e plenamente  realizados.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-9195121556798527056?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/9195121556798527056/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=9195121556798527056' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/9195121556798527056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/9195121556798527056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/01/sobre-o-potencial-humano-terceira-parte.html' title='Sobre o potencial humano - Terceira parte'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-6778018437600882433</id><published>2011-01-21T14:15:00.009-02:00</published><updated>2011-01-21T15:09:36.261-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Oriente Médio'/><title type='text'>Só falta a suástica...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma notícia com cara de "era só o que me faltava" chegou a meus ouvidos (ou melhor, às minhas retinas tão fatigadas). Fiquei sabendo nesta manhã que o governo de Israel está para construir um campo de detenção para refugiados africanos. O link para a reportagem da BBC Brasil segue &lt;a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/11/101128_israel_africanos_gf.shtml"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Quando Israel lançou aquela ofensiva no Réveillon de 2008, senti um cheiro podre no ar. Quando, animados pela guerra, os israelenses pouco depois elegeram para o comando do país Benjamin Netanyahu, do partido de ultradireita "Israel é Nosso Lar" (que poderia muito bem estampar uma suástica como símbolo), o cheiro ficou mais forte. E agora me deparo com isso... Teorias da conspiração por aí afirmam que alguns líderes israelenses são na verdade nazistas infiltrados - e quando me deparo com uma notícia dessas, algo em minha cabeça diz que talvez elas tenham um pouco de razão.&lt;br /&gt;Segundo Netanyahu, os "infiltradores ilegais (sic) ameaçam os empregos dos israelenses". Um discurso muito semelhante ao da extrema direita dos países da Europa e dos Republicanos e simpatizantes nos EUA. O Ministro do Interior de Israel afirma também que, se esses indivíduos tiverem sua entrada liberada no país, em poucos anos Israel perderá sua "maioria judaica". Palavras semelhantes foram ditas por quem queria "preservar a pureza ariana" na Alemanha, lembram-se?&lt;br /&gt;Um Estado democrático e livre não deve permitir que pessoas de diferentes etnias, nacionalidades ou credos sejam impedidas de entrar no país ou sejam segregadas de alguma forma. Do contrário, começará a haver todo tipo de perseguição. Por acaso não ter "maioria judaica" ou de qualquer outra religião torna um Estado pior? A menos que esse Estado seja uma teocracia, não. E teocracias são conhecidas por não ser lá muito democráticas e respeitosas em relação aos direitos humanos, e por perseguir minorias religiosas. Aos desavisados, o Irã é uma teocracia.&lt;br /&gt;Israel foi criado por homens e mulheres que fugiram de perseguições e do Holocausto, uma das maiores atrocidades que a História já registrou. Pois esses imigrantes vindos da África chegam a Israel fugindo também de perseguições de diversos tipos. Por que Israel deveria impedí-los de&lt;br /&gt;entrar no país e viver normalmente? Só por causa da cor da pele e da religião que processam?&lt;br /&gt;Os israelenses prometem garantir moradia, alimentação e assistência médica aos "infiltradores" - talvez da mesma forma que o governo da África do Sul garantia esses mesmos direitos aos negros durante o Apartheid. Provavelmente será em Israel da mesma forma que lá, com qualidade  bem inferior e sem o direito e ir e vir. Como a reportagem cita, há grande preocupação - não sem razão - de que o campo de detenção acabe por se transformar em um gueto.&lt;br /&gt;Mais: depois do muro da vergonha, construído para isolar territórios palestinos - e de quebra abocanhar algumas de suas porções de terra - Israel agora quer construir outro muro, na fronteira com o Egito, para justamente impedir a entrada de imigrantes ilegais. Como nos EUA de Bush, a guerra ao terrorismo em Israel se estende para cercear liberdades civis e segregar aquele que é diferente e não oferece perigo algum, a não ser o perigo de "manchar o sangue puro". A História ensina muitas lições, mas nem todos são bons alunos e guardam tudo na memória. Parece que os israelenses se esqueceram do que essa retórica de "raça pura" pode gerar...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-6778018437600882433?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/6778018437600882433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=6778018437600882433' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6778018437600882433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6778018437600882433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/01/so-falta-suastica.html' title='Só falta a suástica...'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1228784371074854924</id><published>2011-01-21T12:16:00.004-02:00</published><updated>2011-01-21T13:38:18.329-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><title type='text'>Revelando o que não devia ser revelado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em &lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/02/tecnologia-meu-bem-meu-mal_15.html"&gt;outra postagem&lt;/a&gt; aqui no blog, dentre outros assuntos, havia eu discorrido um pouco sobre os efeitos dos avanços tecnológicos, particularmente a internet, sobre a liberdade e o fluxo de informação. Na ocasião, disse que a popularização da internet tem muito a contribuir para a liberdade de informação e de conhecimento, pois tira da chamada grande mídia o monopólio sobre a informação. Sem passar por sua "peneira", evitam-se consideráveis vieses. Minha opinião não mudou. E a julgar pelo que tem acontecido nos últimos meses, não sou o único que pensa assim.&lt;br /&gt;Embora seu domínio exista desde 2006, o site &lt;a href="http://mirror.wikileaks.info/"&gt;Wikileaks&lt;/a&gt; começou a fazer barulho há pouco tempo. Depois dele, a palavra "secreto" perdeu boa parte de seu significado. O site se dedica basicamente a colocar no ar documentos confidenciais, secretos e até mesmo ultra-secretos, obtidos por anônimos de todo o mundo (e é bom que continuem anônimos), cujo conteúdo, segundo as "regras do jogo", não deveria vazar.&lt;br /&gt;O primeiro grande feito do site foi tornar público &lt;a href="http://video.ilsole24ore.com/SoleOnLine4/Video/Mondo/2010/wikileaks-americani-iraq/wikileaks-americani-iraq.php"&gt;um vídeo chocante do extermínio de jornalistas da Reuters no Iraque por um helicóptero militar dos EUA&lt;/a&gt;. Depois, veio uma enxurrada de documentos sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque, denunciando abusos, atrocidades, ataques a civis, tortura de prisioneiros e outras coisas corriqueiras nas guerras. A seguir, vieram telegramas e outros documentos entre o governo dos EUA e suas embaixadas em outros países, denunciando as intenções, os planos e a visão de mundo dos EUA em relação a eles. Vazaram também &lt;a href="http://mirror.wikileaks.info/wiki/Sarah_Palin_Yahoo_inbox_2008/"&gt;e-mails da asquerosa ex-candidata-a-vice-presidente republicana Sarah Pali&lt;/a&gt;&lt;a href="http://mirror.wikileaks.info/wiki/Sarah_Palin_Yahoo_inbox_2008/"&gt;n&lt;/a&gt;, obtidos por hackers, e também um &lt;a href="http://mirror.wikileaks.info/wiki/Changes_in_Guantanamo_Bay_SOP_manual_%282003-2004%29/"&gt;guia detalhando o tipo de tratamento dos prisioneiros de Guantánamo, em Cuba&lt;/a&gt; (o link hospeda a página do Wikileaks descrevendo-o, não o documento original, que é gigantesco. Entretanto, na própria página há um link para ele). Junto a tudo isso, há mais uma enorme quantidade de outros documentos sobre assuntos diversos.&lt;br /&gt;Por todas essas contribuições à liberdade de expressão e contra abusos daqueles que acham melhor esconder a sujeira debaixo do tapete, o fundador do site, o sueco Julian Assange, pagou seu preço. Foi preso pela Interpol por uma acusação de estupro - sendo que há motivos suficientes para acreditar que essa estória foi forjada a pretexto de prender Assange pelas atividades do site que, mesmo não sendo ilegais, incomodam muita gente. Mas parece que o plano não deu certo. Protestos contra sua prisão fizeram tal estardalhaço que já foi anunciada sua libertação. Ativistas se propuseram a pagar sua fiança e, mesmo sem o fundador, o site continua a funcionar graças a seus outros membros e às contribuições de tantas pessoas, anônimas ou nem tanto, que a toda hora fornecem informações úteis e "que não deveriam se tornar públicas". Os bancos que bloquearam as doações ao site sofreram ataques de hackers pró-Assange, e a sociedade civil concedeu ao fundador e ao site diversos prêmios em nome da liberdade de expressão, incluindo o Amnesty International UK Media Awards e o Index of Censorship do jornal The Economist. E para que o tiro saísse pela culatra em grande estilo, a tentativa de silenciar o Wikileaks tornou o site ainda mais conhecido e noticiado na mídia - isso se chama &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Efeito Streisand&lt;/span&gt;. Curiosamente, os incomodados com o site pouca coisas fizeram além de perseguir Assange como um gato faz com um rato. Nada de averiguar se as denúncias procedem ou investigar os possíveis culpados - afinal, ó culpado é quem comete o crime, não quem o divulga.&lt;br /&gt;Sejamos realistas: pouca coisa no Wikileaks é verdadeiramente novidade. Afinal, quem não sabia, mesmo antes do site ser fundado, que havia um enorme número de abusos no Iraque e no Afeganistão, torturas em Guantánamo, assassinatos em grande escala no Sudão e etc? Ou que&lt;br /&gt;os EUA espionam o Secretário-Geral da ONU e intervêm ativamente em defesa de suas transnacionais em outros países (no episódio mais recente, a Monsanto na França)? O grande mérito do Wikileaks é revelar e provar que essas coisas acontecem, e dar uma boa dimensão de sua extensão. Por tudo isso, deve ser recebida com alegria a notícia de que o Wikileaks vai gerar ainda mais domínios-espelho (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;mirrors&lt;/span&gt;) para funcionar como "cópias" do site original e impedir que seu conteúdo seja apagado por alguns daqueles que se incomodam.&lt;br /&gt;Há poucos dias, repercutiu na imprensa uma notícia que promete: um ex-funcionário de um banco suíço enviou dados sobre muitos de seus clientes para o Wikileaks. Considerando que os bancos suíços são conhecidos por ter verdadeiras muralhas de proteção às informações de seus membros e que por essa razão são o destino preferido de operações de lavagem de dinheiro e de depósito de dinheiro conseguido ilicitamente por gente (não muito de boa índole) de todo o mundo, este é um feito extraordinário. Finalmente vamos saber quem tem algo a esconder sobre suas contas e prefere guardar seu "suado dinheirinho" nos Alpes. Como era de se esperar, o banco suíço processou o ex-funcionário e quer o indivíduo preso o mais rápido possível.&lt;br /&gt;Isso é bom. Se está incomodando, o Wikileaks está fazendo a coisa certa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1228784371074854924?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1228784371074854924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1228784371074854924' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1228784371074854924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1228784371074854924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2011/01/em-outra-postagem-aqui-no-blog-dentre.html' title='Revelando o que não devia ser revelado'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1600416986157363492</id><published>2010-12-31T11:40:00.007-02:00</published><updated>2010-12-31T19:22:08.687-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><title type='text'>Odor de política</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De volta aos assuntos "passados mas não esquecidos", quero aproveitar o último dia de 2010 para falar da política. Ou melhor, da minha desilusão cada vez maior com o que no Brasil chamam de política, mas que definitivamente não deveria receber esse nome. Não sei se é porque minhas outras atividades me tiraram do foco ou por que outro motivo, mas a cada dia que passa cresce a minha certeza de que não existe democracia em um país de analfabetos políticos.&lt;br /&gt;Eu, como a grande maioria dos brasileiros, tenho uma forte tendência a olhar com bastante reserva para o que fazem os deputados e senadores em Brasília. E também para as eleições. Mas esse ano me mostrou que "reserva" ainda é uma palavra fraca demais - sendo que as palavras mais adquadas eu não postarei aqui por respeito.&lt;br /&gt;Comecemos pelas eleições. Nossas emissoras de televisão e outras formas de mídia costumam dizer que são "a festa da democracia". Deveria ser o pleno exercício da democracia, sem festa - porque é coisa séria. No Brasil, é festa, mas sem democracia.&lt;br /&gt;Qualquer um que passar cinco minutos na frente da TV durante o horário eleitoral vê o tamanho da desgraça - o que é motivo para rir, chorar ou quem sabe ter uma convulsão. Em vez de exposição de propostas dos vereadores, assistimos a um show humorístico onde os candidatos lutam para chamar mais atenção - da maneira mais espalhafatosa possível. Ex-"artistas" e ex-jogadores "na geladeira", sósias de personagens famosos, mulheres-fruta, palhaços de todo tipo e gente que mais parece ter saído da &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=0YSF5SfqF2o"&gt;cantina de Mos Eisley&lt;/a&gt;... São esses seres que aparecem no horário eleitoral pedindo votos. E seja por seu "carisma", pela vontade de protestar de alguns eleitores ou sabe-se lá por que motivo, acabam ganhando. Mantendo a tradição de eleger figuras pitorescas e esdrúxulas (nas duas últimas eleições, respectivamente, Enéas Carneiro e Clodovil Hernandes), a votação desse ano colocou na Câmara dos Deputados o palhaço Tiririca, com votos que chegavam à sétima casa decimal! E ao dizer que as eleições são uma festa, nossa mídia só reforça esse tipo de comportamento. Se estivéssemos em um país realmente democrático, veríamos muito mais debates e muito menos candidatos ridículos. mas estamos no Brasil, onde tudo parece Carnaval - até as eleições.&lt;br /&gt;Pergunto-me o que essa gente deve fazer agora que está eleita. A resposta mais provável, para o meu desgosto, é: nada muito diferente do que já fazem as raposas mais experientes e aparentemente - eu disse só aparentemente - mais sérias. Legislar em causa própria, adiar discussões cruciais, envolver-se em escândalos, fingir que tem alguma credibilidade perante a sociedade e ficar surpreso quando o Executivo resolve se intrometer e empurrar medidas provisórias para "fazer a coisa andar" - é isso que mais faz nosso Congresso. Muitas outras considerações e muitos outros exemplos de canalhice poderiam ser citados aqui, mas deixarei passar a oportunidade. Eles deveriam ser nossos representantes, lutar pelos NOSSOS interesses, mas sequer podemos saber quais são suas REAIS opiniões porque o voto é secreto. O que teriam eles a esconder de nós, que os colocamos lá?&lt;br /&gt;A disputa presidencial não teve melhor nível. Aliás, foi a mais baixa e vil que muitas gerações presenciaram. De um lado, a candidata do governo, Dilma Rousseff, antes uma completa desconhecida no cenário político nacional, cuja imagem foi feita a partir do zero pelo presidente Lula. O medo de entregar o cargo de presidente para a oposição o fez usar de todos os meios imagináveis - e mais alguns outros - para que o cargo de presidente entre 2011 e 2014 fosse ocupado por sua aliada. A todo momento, comparavam-se FHC e Lula, como se projetados estivessem Serra e Dilma, respectivamente. Há alguma lógica nisso, mas ninguém é capaz de prever o futuro e dizer se os governos que virão serão iguais aos que já foram. O presidente e o governo se tornaram cabos eleitorais, o que definitivamente não é bom para a democracia. OK, o governo Lula, ainda que tenha inúmeras imperfeições, está melhor do que seus anteriores e sua popularidade está nas alturas (não totalmente sem motivo, devemos lembrar), mas virar cabo eleitoral da forma com que Lula fez é condenável. Além disso, há, na minha opinião, dentro da esquerda e ate mesmo dentro do PT, gente melhor e também menos obscura para o cargo de presidente. Para completar, em favor da "governabilidade", entraram para o séquito de Dilma muitos "aliados" de mãos e fichas imundas, envergonhando boa parte da militância engajada (e honesta) do PT.&lt;br /&gt;E se alguém pensa que por isso teria sido melhor apoiar a oposição, foi dela que veio a maior sorte de baixezas. Se o governo deixava suas funções para virar cabo eleitoral e tentava construir a imagem que queria de Dilma (pois antes ela não tinha nenhuma imagem), a oposição começou a tachá-la de terrorista. Ela pegou em armas contra a ditadura, coisa que todo cidadão honesto deveria apoiar. Muitos dos que hoje a chamam de terrorista foram simpatizantes ou até mesmo executores do terrorismo de Estado da ditadura, torturaram e mataram. Usaram a total falta de carisma dela para dar a ela a imagem de um monstro comedor de criancinhas. O medo do comunismo voltava a assombrar os lares de "moral e bons costumes". Dizia-se que ela iria transformar o Brasil numa Venezuela. Dizia-se que Michel Temer, o vice, tinha pacto com o demônio. A candidatura de Serra (que não perde para Dilma em falta de carisma) empunhou a bandeira da luta contra o aborto e disso fez o maior escarcéu quando a posição da candidata sobre a questão ficava indefinida (como se Dilma fosse capaz de passar por cima do Congresso e legalizar o aborto no Brasil). Convenhamos, caros leitores, uma proposta como essa deveria no mínimo passar pelo crivo do Congresso e ter uma longa discussão dentro da sociedade, e nunca seria instituída com canetadas em um país livre. Sou contra o aborto salvo nos casos em que a lei brasileira libera (estupro e risco de vida para a mãe), mas não foi por isso que me deixei ludibriar pela demagogia tucana e "democrata" (sim, com aspas, e qualquer um que sabe da História do Brasil sabe dos motivos), que tenta apelar para a emoção e os "profundos valores da sociedade cristã" quando faltam, como é frequente, argumentos racionais. No final, assistimos à exibição maior de demagogia, quando uma mísera bolinha de papel virou uma poderosa arma capaz de levar o infeliz candidato (em todos os sentidos) ao hospital. Mas o maior efeito da arma, que era o de fazer a demagogia render votos, não se mostrou eficiente. Daí, acusaram as pesquisas de opinião de favorecer Dilma. Como uma criança que apela no jogo quando vê que está perdendo. A baixeza novamente não rendeu os resultados esperados.&lt;br /&gt;Propostas não se viam em hora nenhuma, ou você notou a palavra "proposta" em algum lugar dos dois parágrafos acima? Eu não notei. Nenhum dos "dois grandes" se engajou em uma campanha sensata, e talvez por isso a terceira candidata, Marina Silva, tenha surpreendido tanto. Infelizmente não tive a chance de depositar nela minhas esperanças, pois uma prova estrategicamente mal-posicionada me impediu de votar no primeiro turno. Seja como for, ela era a única que argumentava racionalmente, e seus 20% dos votos nos dão esperança de que ainda há uma minoria que não apoia baixezas. Talvez o futuro nos reserve outras boas surpresas...&lt;br /&gt;Passadas as eleições, quando aguardamos a chegada de 2011, vemos uma mostra de canalhice, pilantragem e desonestidade que já não me surpreende. Os deputados federais usam de toda procrastinação possível antes de votar assuntos importantes, e reformas importantíssimas como a mais do que urgente reforma política estão até hoje na gaveta. Mas levam cinco minutos para votar e APROVAR, EM CARÁTER DE URGÊNCIA, UM AUMENTO DE ASSOMBROSOS 61,7% EM SEUS PRÓPRIOS SALÁRIOS. Agora eles podem ganhar mais de R$ 26.700,00, mais de 48 vezes o salário mínimo, que deve ser de R$ 540,00 em 2011. É por essas e outras que as palavras que usei no início do texto estavam muito leves. Ninguém nesse país tem um aumento como esse! E ainda tivemos que ouvir a justificativa de um fascínora desses deputados, que disse que o salário antigo era muito pouco para se viver em Brasília. Lembrando que o aumento serve para outros cargos, como o de senador, presidente, vice e ministros. Isso aumenta ainda mais o dispêndio de recursos para custeá-los, e que seria muito melhor aplicado se, pelo menos em parte, fosse para hospitais e escolas. E o curioso é que aprovaram, EM CINCO MINUTOS, até mesmo aqueles demagogos que enchem a boca para criticar os gastos da máquina pública. Os gastos precisam ser cortados, mas isso não inclui os gastos com eles próprios, não é mesmo?&lt;br /&gt;Dezesseis mil reais são insuficientes para se viver em Brasília? E os trabalhadores que sobrevivem com um salário mínimo ou menos? Como eles conseguem? E por que eles não ganham aumento? Melhor: por que o salário dos deputados não é vinculado ao salário mínimo, aumentando aquele só quando este aumentar? O "excelentíssimo general" João Figueiredo certa vez disse que se tivesse que ganhar um salário mínimo, dava um tiro na própria testa - disse também que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo. É mais ou menos a mesma mensagem que essas aves de rapinaa tentam nos passar em fins de 2010.&lt;br /&gt;É verdade que quase duzentos deputados faltaram à votação, alguns em protesto e outros por ter ido para as férias mais cedo seguros de que iam ganhar aumento. Seja como for, o nome deles está &lt;a href="http://www.camara.gov.br/internet/votacao/mostraVotacao.asp?ideVotacao=4510&amp;amp;numLegislatura=53&amp;amp;codCasa=1&amp;amp;numSessaoLegislativa=4&amp;amp;indTipoSessaoLegislativa=O&amp;amp;numSessao=224&amp;amp;indTipoSessao=E&amp;amp;tipo=partido"&gt;aqui&lt;/a&gt;. É bom guardar bem - se bem que a memória da maioria dos brasileiros não dura quatro anos.&lt;br /&gt;Sabe, talvez seja até bom que Tiririca tenha sido eleito deputado federal, e com tantos votos que tenha grandes chances de virar presidente da Câmara. Pode ser que, depois de Severino Cavalcante e outros palhaços amadores que não fizeram nada, só com um palhaço profissional como presidente da casa aqueles desgaçados se sintam envergonhados e ponham no papel a nossa tão esperada reforma política, talvez a única capaz de elevar o nível de nossos políticos e de nossa política. Ou, se isso não acontecer, pelo menos teremos alguém que nos representa fielmente na Câmara: um palhaço, para representar o povo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1600416986157363492?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1600416986157363492/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1600416986157363492' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1600416986157363492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1600416986157363492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/12/odor-de-politica.html' title='Odor de política'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-5326312280596271896</id><published>2010-12-27T19:25:00.000-02:00</published><updated>2010-12-27T19:26:04.329-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><title type='text'>Guerra no Rio</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Após um longo e tenebroso inverno, estou de volta. Os últimos meses tomaram meu tempo e sugaram minhas energias de tal forma que só agora pude dedicar alguma atenção ao blog. Nesse meio-tempo, muita coisa aconteceu e merecia pelo menos ser citada aqui. Tentarei consertar isso comentando um pouco sobre esses assuntos passados, mais por desencargo de consciência mesmo. Afinal, como diz o ditado, antes tarde do que nunca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem ligou a televisão em novembro de 2010 certamente achou que o noticiário falava do Afeganistão, de Gaza, de mais uma operação da ONU no Haiti ou de outro conflito mundo afora. Pois as cenas de blindados e tanques subindo os morros aconteceram bem mais perto de nós, no Rio de Janeiro. Eram cenas de guerra. Mas não é segredo para ninguém, nem mesmo para os que não são do Rio (meu caso), que já existia uma guerra não-declarada desde longa data, em que as diferentes facções criminosas do Rio disputavam território nos morros e nas favelas, levando pânico à população carioca e – principalmente – aos moradores dessas periferias. A novidade é que dessa vez o Estado resolveu tomar providências quando, em uma demonstração de força, os bandidos resolveram incinerar alguns ônibus. Abandonando o estilo César Maia de lidar com o crime organizado (levar a polícia para dar uns tiros, matar alguns civis inocentes e voltar com poucos quilos de drogas para fazer o maior escarcéu na mídia, algo que equivale mais ou menos a enxugar gelo), as polícias do Rio, unidas, lançaram uma ofensiva de proporções nunca vistas, agindo em coordenação com o exército para invadir aqueles territórios que eram tidos como redutos permanentes dos bandidos. O mundo inteiro acompanhou as cenas. Helicópteros, blindados, tanques, batalhões de forças especiais, uma verdadeira operação de guerra. E diferentemente das “operações” anteriores, que costumavam ter como saldo a morte de muitos civis e raramente a prisão de traficantes, o nível de casualidades desta vez foi baixíssimo. Seria uma operação digna de ser aplaudida de pé por todos os brasileiros, não fossem algumas notícias de arrombamentos de casas pelos militares, chegadas nos primeiros dias de ocupação. Ainda assim, o saldo foi bastante positivo. O fato de já existir uma guerra entre os traficantes não autoriza o Estado a atirar primeiro e perguntar depois, como costumava ser a regra. Em uma operação militar bem-sucedida, os alvos nunca podem ser civis. Isso é um recado para aqueles fascistas empedernidos que acham que a polícia deve entrar na favela e atirar para todos os lados, com a intenção de matar todos os seus moradores, ou talvez jogar uma bomba atômica em cada morro do Rio. Os alvos devem ser os traficantes, ou seja, aqueles que pegam em armas contra o Estado para proteger sua ilícita fonte de renda. E parece ter sido essa a regra na operação de novembro.&lt;br /&gt;Mas isso não basta. O que os militares fizeram, ainda que mereça aplausos por parte de nós civis, deve ser só o começo de algo bem maior. Ocupar militarmente os morros do Rio sai caro, e certamente não é a solução definitiva. O crime organizado, na forma do tráfico, prosperou nessas regiões por serem elas inexistentes para o estado durante muitas e muitas décadas. Na favela, o Estado não chega – ou só chega na forma de operações policiais. E se a mão do Estado não se faz presente com empregos, hospitais, escolas, áreas de lazer, transporte público decente e, principalmente nesses casos, uma autoridade que seja responsável pela lei, essas áreas ficam vulneráveis a quem tenha força suficiente para impor sua própria lei. No caso, a lei do mais forte. E sendo o tráfico uma atividade rentável o suficiente para munir seus “empresários” de um aparato de segurança paramilitar invejável e tem por necessidade esse aparato (por ser uma atividade ilegal), é o tráfico quem ocupa o espaço do Estado na garantia da lei e da ordem. O tráfico faz suas leis, julga e condena, como é em um despotismo típico. Impõe sobre a população, à maneira dos déspotas, seu regime através do medo – ameaças, tortura e execuções – oprimindo os moradores das áreas sob seu domínio e eliminando todo e qualquer obstáculo a seus negócios. Mantém-se no poder usando a força, e é derrubado dele quando outra força – uma facção rival – o sobrepuja. Por isso, se o Estado derrubar os traficantes de um morro e não estender a ele os serviços que o Estado deveria garantir a todos os seus cidadãos, incluindo o exercício das leis e da autoridade, em breve alguém mais o fará. E é o que tem acontecido: naquelas regiões em que o tráfico não retorna ao comando, quem assume seu lugar são as milícias, bandos paramilitares, muitas vezes compostos por policiais ou ex-policiais, que fazem tudo o que os traficantes fazem, menos traficar drogas. Tentam conquistar o apoio dos moradores dizendo-se aqueles que os libertarão do jugo dos traficantes, mas impõem a eles seu próprio jugo. Ameaçam, torturam e matam exatamente como os traficantes. Oprimem exatamente como os traficantes. E controlam a distribuição de gás de cozinha, TV a cabo e outros serviços para angariar a simpatia dos moradores, e também para controlar a economia da região e lucrar – exatamente como os traficantes, já que o dinheiro é o objetivo comum de ambos e garante a continuidade do fluxo de armas e munições, e o próprio poder.&lt;br /&gt;Parece que desta vez o Estado está fazendo a coisa certa. Os cidadãos dos morros – e de fato são e sempre foram cidadãos, por mais que haja imbecis que digam que aquele povo não merece cidadania – comemoram a liberdade e o fim da opressão dos traficantes, com esperança de que agora finalmente serão tratados como brasileiros. Os morros ocupados, que sempre foram territórios aonde o Estado não chegava (inicialmente por descaso e depois pela existência dos grupos armados), agora se enchem de canteiros de obras. A promessa é urbanizar e melhorar as condições desses locais, para evitar que caiam novamente nas mãos da “lei da selva” dos traficantes e milicianos. Afinal, em 2014 e 2016 teremos os dois maiores eventos esportivos do mundo ocorrendo em terras brasileiras, e o Rio não só sediará as Olimpíada, mas também alguns jogos da Copa do Mundo – a cidade precisa estar preparada para receber tais eventos, e não pode deixar que os bandidos sejam os donos da cidade quando eles ocorrerem. O futuro mostrará se essa tática realmente será melhor do que o “atire para matar” da direita, que durante décadas foi a regra nas ações policiais do rio e já sabemos que não deu nenhum resultado positivo.&lt;br /&gt;Um ponto a ser destacado é a ação conjunta das polícias civil e militar, que são rivais e fomentam uma divisão que não tem motivo para existir. A ofensiva de novembro mostrou que é possível que ambas trabalhem juntas e sejam uma entidade só, obviamente atuando em seus campos de atuação específicos. Essa rivalidade não traz nenhum benefício, pelo contrário.&lt;br /&gt;O episódio da ofensiva dos policiais e militares merece também uma observação em tom de alerta. Vendo todos aqueles militares subindo os morros com tanques, blindados e armas pesadas, é fácil alguns cabeças-de-vento se empolgarem e pensarem que os militares são os únicos capazes de salvar nosso país. Daí para a nostalgia pós-1964 é um pulo. Militares estão lá para agir com sua força em operações como a que vimos, não para comandar uma nação. Sabemos muito bem, e qualquer um que tenha dois olhos e dois neurônios também sabe, que o “jeito militar” de governar, de cima para baixo, é um desastre. Pensar que a força bruta dos militares é a salvação do Brasil é querer assassinar a democracia de nosso país. Pois os militares, assim como os traficantes e os milicianos, têm como único instrumento a força, e esse texto tem exemplos suficientes do que o uso da força sobre uma população é capaz de fazer.&lt;br /&gt;Dito isso, resta aguardar para ver. O Governo Federal afirma que até 2012 todos os pontos do Rio dominados pelo tráfico serão libertados. Resta saber se será da mesma forma como esta última operação e se a ocupação será mesmo seguida de obras e melhorias para o tão sofrido povo daqueles cantos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-5326312280596271896?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/5326312280596271896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=5326312280596271896' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/5326312280596271896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/5326312280596271896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/12/guerra-no-rio.html' title='Guerra no Rio'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7091701432625287910</id><published>2010-08-08T20:58:00.002-03:00</published><updated>2010-08-08T21:07:43.370-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Coisas alheias'/><title type='text'>Um pequeno comunicado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando criei este blog, por sugestão de meu amigo Yuri em fevereiro de 2008, tinha como única intenção preenchê-lo com textos que refletissem minha visão e opinião sobre os mais diversos assuntos. Continuo com essa mesma ideia e esses planos. Não é meu objetivo usar este espaço para fazer propaganda eleitoral deste ou daquele candidato. Tenho minhas preferências, é verdade, mas este blog não foi feito para escancará-las. Por esse motivo (e também por minha falta crônica de tempo, com matéria se acumulando a cada dia), é bem provável que não haja nenhum texto sobre as eleições, ou sobre simpatia para com este ou aquele candidato, seja a qual cargo for. Os que procuram blogs assim encontrarão material aos montes pela blogosfera para satisfazer seus desejos, mas não aqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peço desculpas aos leitores pelo pequeno número de posts, e aproveito para avisar que pelo motivo acima citado (excesso de tarefas acadêmicas) este blog ficará às moscas durante um bom tempo. Entretanto, se quiserem fazer companhia às mosquinhas e ler (ou reler) postagens mais antigas, sintam-se à vontade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7091701432625287910?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7091701432625287910/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7091701432625287910' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7091701432625287910'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7091701432625287910'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/08/um-pequeno-comunicado.html' title='Um pequeno comunicado'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1174070233519285329</id><published>2010-07-26T18:17:00.019-03:00</published><updated>2010-08-08T21:15:53.843-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Saúde'/><title type='text'>As doenças e os doentes</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Depois de um longo e tenebroso inverno, estou aqui a postar um novo texto no blog. Os afazeres da minha pesada vida acadêmica tomaram muito do meu tempo, e não tive oportunidade de postar nada aqui desde a Páscoa. Bom, tudo indica que nos próximos meses o blog vai ficar às moscas, já que o meu período letivo promete ser extremamente, digamos, intenso. Aos leitores deste blog, peço que não se incomodem com a monotonia e sintam-se convidados a ler alguns posts mais antigos enquanto Dezembro não chega...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje vou falar de saúde (nada mais apropriado para um estudante de Medicina). Mas vou passar longe daquelas "dicas para ter um corpo saudável", "a fórmula do elixir da vida" e baboseiras desse tipo que povoam sites e revistas por aí. Saúde inclui coisa muito mais séria do que isso.&lt;br /&gt;Para começar, aí vai o conceito de saúde, definido pela OMS na conferência de 1977 em Alma-Ata: "Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença". Bom, por que isso é importante? Primeiro porque aponta alguns componentes da saúde que são muitas vezes negligenciados pelos médicos, pelas autoridades e pela sociedade. Ter uma família desestruturada, ser desempregado ou subempregado ou viver em permanente ameaça ou tensão, por exemplo, significa não ter saúde, mesmo que não haja nenhuma manifestação clínica evidente. Segundo porque mostra que o que o marketing de muitas empresas farmacêuticas ou que lidam com a saúde fazem na verdade leva a uma ausência de saúde. Ou por acaso podemos dizer que está em um "completo bem-estar físico, mental e social" aquele indivíduo que é bombardeado todos os dias por campanhas promocionais sobre os riscos da obesidade, de não fazer exames mensais para detectar câncer de qualquer coisa, de não usar determinado remédio. A pressão da mídia por um corpo perfeito ou por um padrão de vida perfeito acaba por levar ao estresse constante e à perda da saúde. Obviamente devemos todos nos preocupar com a alimentação, com o estilo de vida e os hábitos para ter uma vida saudável e o mais livre possível de doenças, mas o que algumas campanhas fazem é incitar a paranoia geral. Há de se suspeitar dos seus interesses em promover isso - afinal, eles ganham bastante com exames, remédios e tudo mais. Questionar a alimentação e o estilo de vida que nossa civilização prega, as verdadeiras causas de boa parte dessas doenças, isso eles não questionam.&lt;br /&gt;Aliás, as tão-faladas doenças crônico-degenerativas (diabetes, hipertensão, aterosclerose, entre outras) são geralmente mostradas como inevitáveis consequências de nossa modernidade, um efeito colateral de nosso aumento na longevidade ocorrido ao longo de quase dois séculos. Não se diz que essas doenças (e também muitos casos de câncer!) são, na verdade, consequência do padrão de vida imposto por essa sociedade de consumo que se ergueu nesses mesmos quase dois séculos e que oferece comida em abundância, mas muitas vezes de má qualidade e até nociva à nossa saúde; que força os seres humanos a viver cada vez mais estressados, correndo contra o tempo para acumular dinheiro (e os efeitos dessa corrida alucinante fazem-se sentir nas estatísticas de mortalidade); e que apregoa o consumo supérfluo e denecessário (inclusive de alimentos que sabidamente fazem mal ao organismo a longo prazo) enquanto diz que todos precisamos ser saudáveis e bem-sucedidos. Não há maior contradição na face da Terra.&lt;br /&gt;Há alguns meses li um excelente livro chamado "&lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Medicina Não é Saúde&lt;/span&gt;", de Jayme Landmann, onde algumas questões como essa são levantadas. Com razão, um dos principais alvos de suas críticas é a indústria farmacêutica, grande cartel mundial que lucra com a desgraça alheia. É óbvio que toda indústria precisa ser rentável para sobreviver, diriam os defensores dessa verdadeira máquina de fazer dinheiro. Mas o cartel a que me refiro leva isso ao extremo. Ainda que um medicamento custe muitos milhares ou até milhões de dólares para ser pesquisado com sucesso, os lucros superam os custos com uma enorme folga na grande maioria dos casos. Isso porque só as áreas mais rentáveis são pesquisadas. Ou seja: sorte têm aqueles que podem pagar por remédios ou tratamentos alternativos, porque nesses casos a "indústria da saúde" está do lado deles... Para aqueles que não podem, ou cuja doença não interessa porque não dá lucro, um destino sombrio aguarda.&lt;br /&gt;Se alguém duvidar do que estou escrevendo, aí vai um exemplo muito simples: quando a AIDS saiu do interior da África para virar epidemia mundial, o principal grupo de incidência ao redor do mundo era o de homossexuais masculinos - alguns dos quais eram artistas, intelectuais e membros da elite econômica e intelectual de seus respectivos países. Aos poucos a doença também foi fazendo mais vítimas entre homens heterossexuais e mulheres, mas continuava a assombrar até os mais altos membros da sociedade - afinal de contas, o sexo não tem barreira social, e ricos podem passar a doença para pobres com a mesma facilidade com que pobres passam para ricos. O medo de ser a próxima vítima desse vírus que deixara de ser tido como uma praga para exterminar os homossexuais para ser um flagelo de toda a sociedade impulsionou as pesquisas que buscavam uma maneira de contê-lo. Os primeiros casos nos EUA surgiram no começo da década de 1980, e em meados dos anos 1990 já era lançado o Zidovudine ou AZT, o primeiro dos anti-retrovirais (medicamentos que bloqueiam a replicação do HIV). Outros tantos se seguiram, e hoje existem coqueteis anti-AIDS bastante eficazes em conter o vírus, embora não consigam eliminá-lo nem sejam livres de efeitos colaterais incômodos. Isso é o que a ciência é capaz de fazer quando tem uma grande preocupação em relação a uma doença. Neste exato momento existem vários laboratórios em todo o mundo recebendo rios de dinheiro para encontrar uma cura para a AIDS, e tudo indica que em poucas décadas um deles realmente consiga. Embora nos últimos anos a doença esteja acometendo cada vez mais os estratos inferiores da pirâmide social, isso não diminui a preocupação daqueles setores mais influentes.&lt;br /&gt;Agora, vamos falar de uma outra doença. Por acaso é a que mais mata no mundo, fazendo mais de um milhão de vítimas todos os anos. Chama-se &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;malária&lt;/span&gt;. Entretanto, ninguém dá muita atenção a ela. Nenhum remédio novo surgiu nas últimas décadas - na verdade o tratamento não mudou muito nos últimos cem anos. Creio que haja pouquíssimos laboratórios no mundo tentando desenvolver uma vacina ou medicamento contra a doença, fazendo com que as perspectivas de surgimento de uma nova terapia sejam mínimas. Será que isso tem a ver com o fato de que a grande maioria das vítimas está na África e não pode pagar por um tratamento de excelência? A malária é esquecida porque não oferece perspectiva de lucro para a indústria farmacêutica. Ou melhor, os mais de trezentos milhões de portadores da doença no mundo são esquecidos. Haja casca de salgueiro!&lt;br /&gt;Não só as doenças são valorizadas ou esquecidas de acordo com a quantidade de dinheiro que podem render, como também a forma de enxergá-las pode ser modificada de acordo com interesses. Um bom exemplo é o das doenças infecciosas bacterianas. A tuberculose, conhecida como "mal do século" pelos médicos, cronistas e pela literatura do século XIX, era tida como uma doença que sofria forte influência do ambiente. Pessoas que viviam em moradias ruins, pequenas, sombrias e sem ventilação eram as que mais sofriam de tuberculose. Ou seja, os pobres. A melhor maneira de lidar com o problema seria então evitá-lo, oferecendo moradia adequada ou as condições econômicas para isso. Mas bastou que Robert Koch isolasse o bacilo que levou seu nome e que era o agente etiológico da doença pra que o foco se dirigisse inteiramente a ele. Nada mais se falava sobre melhorar as condições de moradia para os pobres - o que havia de mais moderno para tratar a tuberculose era agir sobre a bactéria em si. Enxergando o problema só por esse lado, é óbvio que os que acreditavam nessa furada fracassaram. Hoje, a doença é rara nos países do chamado Primeiro Mundo, mas acomete muitos moradores das grandes cidades dos países pobres - incluindo cinco mil brasileiros. Some-se a isso o fato de que o tratamento é longo e exige muito do paciente e também o surgimento de cepas resistentes até aos mais potentes antibióticos. Nas favelas e bairros pobres do Brasil e de outros países periféricos, onde o que não falta é gente morando em casas pequenas, pouco ventiladas e sem luz do sol, a situação é perfeita para que a tuberculose continue a ser um "mal do século" por muito tempo. A situação se repete em relação a outros microorganismos - muito dinheiro se investe em pesquisas sobre a biologia deles, mas pouco é feito para tornar a população mais saudável e menos suscetível.&lt;br /&gt;Parasitoses como a ascaridíase, a esquistossomose e a ancilostomíase são muto prevalentes em áreas do interior do Brasil, mas pouco se fala sobre elas. É porque ela não incomoda os ricos. Quem tem casa com esgoto e água tratada dificilmente contrai essas doenças, e mesmo que eventualmente isso aconteça os sintomas são menos graves. Na ascaridíase e na ancilostomíase, além disso, um indivíduo pode passar a vida inteira sem manifestações clínicas desde que coma o suficiente para alimentar a si próprio e a seu séquito de invertebrados. Mas para o pobre que mal tem comida para si mesmo, ter que dividir o pouco que tem com mais alguns agregados não é fácil. Daí vêm a subnutrição e a fraqueza, e muitas vezes a falta de energia. Considerando que 30% da população mundial tem pelo menos uma lombriga em seu intestino, será que "todo pobre é preguiçoso por natureza" como dizem alguns (bem-alimentados) opositores de políticas públicas e investimentos sociais, ou será que boa parte deles não tem uma razão mais profunda, mais especificamente dentro de seus intestinos, para a falta de disposição? Quantos Jecas Tatus não existiriam Brasil afora, esperando apenas uma oportunidade para se livrar dos ancilóstomos de seus intestinos e virar trabalhadores produtivos e eficientes?&lt;br /&gt;Mas combater parasitoses intestinais (e também viroses e infecções bacterianas que acometem o intestino) exige altos investimentos em saneamento básico, que só geram resultados econômicos perceptíveis a longo prazo - ou seja, levam mais tempo do que a próxima eleição. Talvez por isso o saneamento básico chegue a tão poucos brasileiros - &lt;a href="http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/27032002pnsb.shtm"&gt;metade dos municípios brasileiros não tem rede de esgoto&lt;/a&gt;. Detalhe: nas estatísticas não estão incluídos aqueles que moram em municípios com esgoto mas não o possuem em suas próprias casas.&lt;br /&gt;Outro grupo de doenças que sofre enorme influência do meio e que para muitos médicos é um campo inexplorado e assustador é o das doenças mentais. Transtornos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico, esquizofrenia e outros tantos podem ser deflagrados ou agravados por experiências traumáticas e estressantes. Considerando que a vida de um pobre está muito mais sujeita a esse tipo de coisa, é de se supor que doenças mentais sejam muito mais comuns nos estratos menos favorecidos de nossa pirâmide social. E de fato são! Mas quantos são os pobres que podem pagar por um psiquiatra ou por outro tratamento similar? Muitas dessas terapias são inacessíveis aos mais pobres. Grande parte dos casos nunca é diagnosticada! Pode-se imaginar o terrível efeito que isso tem sobre as famílias que se desintegram a cada dia por causa desses transtornos, sobre a violência doméstica que muitas vezes é consequência e também causa desses distúrbios, sobre problemas sociais como o alcoolismo, a prostituição e o uso de drogas, sobre os suicídios... Por mais que haja uma gentinha nojenta por aí que insista em dizer que nenhum fator externo além da própria competência tem influência no sucesso ou no fracasso das pessoas e que o pobre é um incompetente e merece continuar "onde Deus o colocou", qualquer um que se proponha a analisar seriamente o problema é capaz de enxergar razões mais profundas para a miséria e para o sofrimento de grande parte de nossa população mais humilde.&lt;br /&gt;Temas como a influência da alimentação e das condições ambientais sobre as doenças são pouco abordados nas faculdades - eu mesmo tive poucas aulas sobre isso. Fome e desidratação matam mais do que guerras, mas temas como esses ficam bem atrás de outros como cirurgia plástica ou doenças metabólicas raras em matéria de tempo de estudo. Deficiência de vitamina A cega milhares de crianças no mundo todos os dias, mas pouco disso é comentado. Mais uma vez, o que fala mais alto é o interesse mercantilista puro, desta vez praticado por médicos: esticar a cara de uma madame rica ou fazer uma tomografia por emissão de pósitrons para confirmar um diagnóstico quase certo vale mais do que trabalhar em uma comunidade pobre e sujeita aos mais variados tipos de problemas. Pesquisar um raro distúrbio imunológico gera mais retorno financeiro e prestígio do que ir a campo e descobrir a doença que aflige uma comunidade inteira, ou pesquisar uma doença mais comum mas "de pouco interesse econômico". Assim como os medicamentos, a Medicina só dá lucro quando é voltada para quem pode pagar. A vida humana, o que há de mais sagrado na face da Terra, torna-se alvo das práticas mais mesquinhas. Muitos são os que entram na faculdade de Medicina com o objetivo de simplesmente ganhar dinheiro - e alguns mal fazem questão de esconder isso. Já testemunhei pré-vestibulandos que queriam ser médicos dizendo que gostariam de ganhar mais de vinte mil reais por mês quando se formarem, e não aceitariam menos! Que tipo de profissional esse tipo de gente vai ser? O objetivo deixa de ser curar para ser ganhar algo em troca. Nenhuma profissão poderia ser exercida com essa perspectiva - com exceção das prostitutas, talvez - mas muitos são os médicos que se tornam "meretrizes de jaleco" ou escravos do dinheiro. É como se não tivessem incorporado o que há de mais importante na Medicina: o fato de que a relação entre eles e os pacientes é uma relação sagrada. É como se não tivessem alma. Hipócrates deve estar se remexendo em seu túmulo.&lt;br /&gt;Contribui para isso a enorme distância entre o médico e a população em geral. Há com certeza aqueles que conseguem driblá-la, mas há outros que se colocam em um pedestal, criando um abismo entre eles e os pacientes. Não entendem a linguagem humilde e simples do paciente, e pouco fazem para tentar mudar isso. Acham-se superiores aos outros seres humanos, esquecendo-se de que são eles próprios os que prestam o serviço, e não os pacientes.&lt;br /&gt;É óbvio que não são todos assim! Há inúmeros exemplos de médicos que exercem a profissão por amor e por vocação, pela mais pura vontade de ajudar o próximo e conhecer a fundo o ser humano. Tive a honra inestimável de conhecer pessoas assim em minha faculdade, entre colegas e professores, e tenho certeza de que até o fim do meu curso encontrarei mais deles. É uma pena que sejam tão pouco valorizados. Mas isso é um reflexo dos valores pregados por nossa tão avançada civilização: ser bem-sucedido significa ter carro importado e casa na praia, e não necessariamente ser feliz na profissão que escolheu - seja ela qual for.&lt;br /&gt;Infelizmente existe uma terceira categoria de médicos (e também de muitos outros profissionais, principalmente naquelas profissões de grande prestígio): os frustrados. Enquadram-se aí aqueles que fizeram a faculdade por obrigação ou pressão dos pais, trilhando por um caminho que nunca escolheram seguir. Estão aí também aqueles que se desiludiram com a profissão ou que, pelas mais variadas circunstâncias, foram forçados a aceitar imposições ou cargos mal-remunerados e muito exigentes em matéria de trabalho desde o início da carreira: na ânsia de recuperar o tempo e o dinheiro perdidos durante os anos de estudo, aceitam desesperadamente a primeira alternativa de trabalho que pareça razoável, mas algum tempo depois se arrependem da decisão - muitas vezes tarde demais. Começa aí um ciclo vicioso de desilusão e tristeza quanto à profissão. A Medicina passa a ser vista de uma maneira muito diferente do idealismo dos anos de faculdade ou do começo da carreira, e transformar algo sagrado como cuidar da vida humana em um mero exercício mercantil é penoso para o coração - pelo menos o coração daqueles que entraram na Medicina por vocação e amor à vida.&lt;br /&gt;A questão financeira parece, aos olhos dos leigos, inexistente para os médicos. Não é bem assim. Contrariando a visão dos leigos, nem todo médico ganha bem. A classe médica é muito heterogênea em termos de rendimentos, e, como em qualquer profissão, nem sempre os mais competentes ou mais trabalhadores são os que ganham mais. É verdade que há aqueles que ganham dez, quinze, vinte mil reais por mês ou até mais - dependendo da especialidade, do talento, da competência e (por que não dizer?) em alguns casos da esperteza mesmo. Muitos deles abrem mão do convívio com a família e da própria saúde - ou já o fizeram no passado durante muito tempo - para alcançar tais rendimentos. Mas há aqueles que, mesmo tendo três ou mais empregos e abrindo mão de muita coisa, não têm um bom padrão de vida financeiro - são aqueles pegos pelo ciclo vicioso do "preciso pagar meus muitos anos de estudo" descrito anteriormente. Entretanto, a maioria dos médicos fica entre esses dois extremos. Situação pior é a dos recém-formados, que muitas vezes têm poucas escolhas a não ser entrar para esse mesmo ciclo, e que estão muito longe de ser os profissionais bem-sucedidos que o leigo acha que são.&lt;br /&gt;O problema muitas vezes surge ainda na faculdade. O estereótipo do estudante de Medicina é o de um estudante vindo de uma família endinheirada. Nem sempre é assim. Há estudantes de famílias menos privilegiadas nas faculdades (nas particulares, geralmente são bolsistas), daqueles que deixam de lanchar ou de sair com os colegas para que as contas da família fechem no fim do mês. Se vierem de outra cidade, apertam-se em apartamentos alugados e com pouco espaço. Considerando que muitos estudantes demoram anos para passar no vestibular por causa da grande concorrência, que o curso em si demora seis anos e que quase sempre o estudante emenda uma residência que consome mais dois, três, quatro anos ou mais, é raro que a vida profissional propriamente dita de um médico comece muito antes dos trinta (eu, por exemplo, tenho amigos que escolheram outros cursos e em breve terão o diploma, enquanto meu curso ainda não chegou à metade). Muitos daqueles que vêm de famílias mais humildes, nesse ponto, desejam logo arranjar um bom emprego para não mais depender do dinheiro dos pais, ou quem sabe até recompensá-los depois de tantos anos de ajuda. Outros, independentemente da origem, querem enriquecer rápido, acreditando naquele sonho pré-faculdade de que a Medicina é uma espécie de cassino. Os que não têm sorte acabam caindo naquela espiral de frustração já citada, e sofrem as consequências pelo resto da carreira. Em resumo: ao contrário do que todo mundo pensa, nem todo médico é bem-sucedido. Há sim aqueles que têm muito dinheiro e uma vida boa, mas há também os que têm carteiras cheias mas chegam aos quarenta com muitos cabelos brancos e com remorso por não ter visto os filhos crescendo, e os que se desiludiram e não tiveram sucesso, seja qual for o critério que se use. Nada muito diferente de outras profissões que exigem curso superior.&lt;br /&gt;É preciso destacar também que há pouco mais de uma década vem sendo fortalecida no Brasil a ideia da Estratégia de Saúde da Família, que procura acompanhar a população e evitar que ela adoeça, em vez de simplesmente tentar curá-la (já que em muitos casos o paciente procura o médico tarde demais). Além disso, oferece ao médico uma boa oportunidade de trabalho, já que os salários pagos em alguns municípios do interior são bastante altos, somando-se ainda a outros benefícios. Contudo, nem sempre isso atrai profissionais, já que alguns desses municípios não têm boa infra-estrutura. Outros obstáculos para a Estratégia da Saúde da Família são a pouca experiência do médico em geral em trabalhar com equipes (já que a interação com outros cursos é praticamente inexistente) e as precárias condições de vida de muitos cidadãos brasileiros - que influencia negativamente a sua saúde, não importa o que o médico faça. Afinal, de que adianta o médico alertar um morador sobre a insalubridade da água que ele bebe ou do esgoto que corre a céu aberto na frente de sua casa se ele simplesmente não tiver outra opção de onde morar?&lt;br /&gt;Bom, já discorri demais sobre a carreira médica. Agora, voltemos a outra questão relacionada a ela, mas que envolve também a indústria farmacêutica citada no começo do texto. Bom, afirmei que os seus lucros são muito superiores aos custos com remédios. Muitas vezes a diferença entre um medicamento novo e um antigo, ambos para uma mesma doença, está na mudança de um radical que faz pouca diferença no princípio ativo, e (obviamente!) no preço, que pode ser até dez vezes maior. Isso somado à tendência de só pesquisar remédios para doenças "rentáveis" faz da indústria de medicamentos uma das mais poderosas do mundo, junto com a de armas e a de petróleo.&lt;br /&gt;É óbvio que não é necessário apenas produzir novos medicamentos. É necessário também vendê-los. E é aí que entra a propaganda, que consome uma fração do orçamento maior do que a destinada à pesquisa de novos remédios, segundo Jayme Landmann em seu livro já citado. Não é muito difícil constatar isso pelas muitas vezes agressivas propagandas de remédios ao público leigo. Muitas categorias de produtos são inventadas, seja para vender um medicamento como se fosse um mero "produto natural", seja para vender um medicamento perigoso sem precisar de receita médica. Não deve ser surpresa para ninguém o fato de que a maior causa de intoxicação no Brasil é a causada por medicamentos, muitas vezes através de automedicação (que é muito estimulada pela indústria farmacêutica). Poucos leigos sabem, mas a propaganda destinada aos médicos é ainda mais agressiva! Quem é que financia congressos de Medicina e distribui neles os mais variados brindes (com sua marca escrita neles, claro)? Incontáveis foram as jornadas e palestras que presenciei onde havia estandes ou cartazes promocionais de medicamentos. Além disso, há os lobistas. Sim, lobistas. Agentes de empresas farmacêuticas enviados aos consultórios para - muitas vezes passando à frente de pacientes na fila - entrar e tentar convencer os médicos a adotar determinado medicamento. São muito comuns, embora eu pretenda deixar uma daquelas armas que disparam choques sempre à mão em meu consultório para evitar esse tipo de inconveniente. Você, caro leitor, acreditaria somente nas palavras dos vendedores de uma concessionária para saber se um modelo de carro é bom? Se for sensato, certamente não. Pelo mesmo motivo, um médico honesto deve acreditar na opinião de outro médico (igualmente honesto) sobre um medicamento, e não na de quem sabidamente só quer empurrar um produto sobre o qual não tem o menor conhecimento. Aliás, não faltam denúncias de que grande parte das supostas conclusões sérias (ou pelo menos assim são apresentadas pelos lobistas aos médicos) a respeito de medicamentos é na verdade grosseiramente distorcida, com dados omitidos ou destacados de acordo com quem quer vender. Só um lembrete: remédios podem matar.&lt;br /&gt;É claro que essa não é a única estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Há também meios ainda menos honestos, como pagar comissões para os médicos de acordo com a quantidade de determinado remédio que este prescrever ao paciente. Mesmo que haja outra opção mais barata ou segura, até mesmo um genérico, o médico corrompido tentará prescrever (ou melhor, empurrar para o paciente) aquele remédio em especial, sabendo que ganhará uma percentagem dos lucros. É claro que isso é ilegal, mas assim como a biopirataria, é algo que é feito rotineiramente no mundo das fábricas de remédios.&lt;br /&gt;Bom, há muitos outros temas que eu gostaria de citar aqui, mas como esse texto já ficou muito grande, pretendo fazer isso em outra oportunidade. É natural que um indivíduo se estenda na discussão sobre uma área na qual está mais familiarizado, por isso o tamanho colossal deste texto. Como se vê, muitos temas na área da saúde são interessantes porque, querendo ou não, abordam sob ângulos diferentes o ser humano. Alguns desses ângulos transcendem especialidades, e podem ser compreendidos por qualquer um com senso crítico. A influência do ambiente sobre a saúde das pessoas é algo que todo aquele que se preocupa com o ser humano deve ter em mente. Não será uma caixa de remédios que fará o ser humano mais feliz. Saúde e bem-estar são consequências de transformações muito mais profundas em um mundo e em uma sociedade que, percebemos mais facilmente a cada dia, estão adoecendo. E para esse mal a indústria de medicamentos parece não ter o menor interesse em desenvolver um remédio... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1174070233519285329?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1174070233519285329/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1174070233519285329' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1174070233519285329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1174070233519285329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/07/as-doencas-e-os-doentes.html' title='As doenças e os doentes'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7640260022266556066</id><published>2010-04-02T15:28:00.004-03:00</published><updated>2010-04-03T20:19:35.761-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Coisas alheias'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Caros leitores, o blog está meio abandonado às moscas devido a questões acadêmicas e a problemas técnicos que talvez sejam resolvidos em breve. Aproveitando o pouco tempo disponível e o clima de Páscoa, aí vão umas coisinhas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/S7fMTo9_-XI/AAAAAAAAAIg/4-T05Z4C4oI/s1600/OgAAAH__pchKmhQw5lV_g5F14YTbKoIh13XFuYmE5K-GpsW7UZWyBKoPOILzjmUTGTqCFkXs9pe9jqDm5Wd-rSLaO_wAm1T1UJO3cLnR9NSARcUFGL1_ulX97IQA.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 355px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/S7fMTo9_-XI/AAAAAAAAAIg/4-T05Z4C4oI/s400/OgAAAH__pchKmhQw5lV_g5F14YTbKoIh13XFuYmE5K-GpsW7UZWyBKoPOILzjmUTGTqCFkXs9pe9jqDm5Wd-rSLaO_wAm1T1UJO3cLnR9NSARcUFGL1_ulX97IQA.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5456054111369689458" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/S7Y3tw7XZmI/AAAAAAAAAII/RwJViqXWih4/s1600/OgAAACkpQ0qfCr9pLPzXuCNYyQm4nAo6uBN-WTIt3ECzxoWROXeHCP1eE2ezNdKXfA-z-UVLBOYM_oRCUMr0mrfJ1wgAm1T1UO7XKAWAUuf8VWWJzyLjVclXiQTa.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/S7Y3tw7XZmI/AAAAAAAAAII/RwJViqXWih4/s400/OgAAACkpQ0qfCr9pLPzXuCNYyQm4nAo6uBN-WTIt3ECzxoWROXeHCP1eE2ezNdKXfA-z-UVLBOYM_oRCUMr0mrfJ1wgAm1T1UO7XKAWAUuf8VWWJzyLjVclXiQTa.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5455609257973474914" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;FELIZ PÁSCOA, SEJA LÁ COMO VOCÊ A COMEMORE!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7640260022266556066?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7640260022266556066/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7640260022266556066' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7640260022266556066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7640260022266556066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/04/caros-leitores-o-blog-esta-meio.html' title=''/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/S7fMTo9_-XI/AAAAAAAAAIg/4-T05Z4C4oI/s72-c/OgAAAH__pchKmhQw5lV_g5F14YTbKoIh13XFuYmE5K-GpsW7UZWyBKoPOILzjmUTGTqCFkXs9pe9jqDm5Wd-rSLaO_wAm1T1UJO3cLnR9NSARcUFGL1_ulX97IQA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-2569865090620167739</id><published>2010-02-15T14:33:00.014-02:00</published><updated>2010-02-16T18:21:29.398-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ciência e Razão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Economia'/><title type='text'>Tecnologia: meu bem, meu mal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Karl Marx afirmava que as contradições de um sistema econômico eram as grandes responsáveis pelo seu fim, levando-o a um ponto sem volta. Tais contradições, filhas inevitáveis desse mesmo sistema, acabariam voltando-se contra ele e derrubando-o, para criar em seguida um novo sistema. Tese mais antítese, em conflito, acabariam por gerar a síntese. Para Marx, a principal força capaz de gerar essa contradição era a luta de classes. Ele acreditava que o capitalismo teria fim quando os burgueses terminassem de cavar sua própria cova, criando uma classe proletária cada vez maior e mais desfavorecida, até um ponto em que ela se rebelaria contra a burguesia e daria origem a um novo sistema. Hoje sabe-se que muitas das previsões de Marx não se concretizaram (Edmund Wilson especulou que talvez isso se devia à pouca familiaridade dele com as massas trabalhadoras. Marx era um gênio capaz de destrinchar e prever com perfeição o funcionamento da economia, mas pouco sabia sobre como os trabalhadores se comportariam nela). De fato, o capitalismo não criou uma única classe de operários - segmentou a sociedade em uma grande variedade de estratos. Mas à parte de muitas de suas previsões equivocadas, ele estava terrivelmente certo sobre as contradições. Talvez tenha pecado um pouco, pelas razões já citadas, ao atribuir importância demais à luta de classes. Ou talvez tenha pensado muito mais, e a vida foi incapaz de conceder tempo suficiente para que colocasse tudo no papel esse pobre homem que passou a vida se dedicando a entender o funcionamento da economia e morreu sentado à sua mesa de trabalho. Pode ser que as obras de Marx (as que ele pôde escrever enquanto vivia, já que pode bem ser que nem tudo o que estava em sua cabeça realmente foi escrito - até porque, não se conhecem obras "criptografadas" atribuídas a Marx e, para todos os efeitos, Allan Kardec morreu antes dele!) tenham deixado de lado outra personagem essencial para as contradições: a tecnologia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os marxistas em geral dão pouca atenção a ela, concentrando-se quase totalmente na luta de classes como "motor da História". Mas seria um erro muito grande deixar de lado o que a tecnologia (entre outros fatores!) contribuiu para a origem de novos modelos econômicos. Teria o escravismo romano se desenvolvido se as legiões romanas fossem tecnológica e militarmente inferiores aos exércitos dos povos que ela conquistou? Teria o capitalismo triunfado como triunfou se não fosse a tecnologia capaz de dominar e extrair tantos recursos da América? Dificilmente. É por isso que os modos de produção (ou modelos econômicos, como preferir o leitor) se sucedem ou mesmo convivem, seguindo uma ordem histórica, mas que não é imutável. Por que os gregos saíram de um sistema de propriedade comum para o escravismo, em vez de, digamos, para o capitalismo? Não é uma questão puramente de "luta de classes" - simplesmente a tecnologia da época não permitia que algo parecido com o capitalismo que conhecemos surgisse. Um novo modo de produção só surge quando a tecnologia da época permite que ele surja e ao mesmo tempo seja capaz de dinamitar as bases do modo de produção dominante. E há sérias razões para acreditar que o capitalismo esteja passando por um processo assim, e a cada dia esteja cavando mais fundo em sua própria cova. Isso pode ser bom. Ou não. Depende do que vier depois... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dizer simplesmente que o capitalismo derrubará a si mesmo porque criará hordas de operários insatisfeitos e potencialmente revolucionários até que eles se revoltem contra o sistema é tão irreal quanto afirmar que o capitalismo durará para sempre - como já disse, as suposições de Marx quanto à primeira afirmação estavam erradas, e toda sociedade, de modo geral, considera seu modelo como o último e definitivo (houve Fukuyamas na Roma antiga também!). As contradições que o capitalismo cria são, como já afirmei, muito mais ligadas à tecnologia do que à luta de classes. Pode ser que algumas a acirrem, mas não podemos confundir causas e consequências. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A mãe de todas essas contradições ligadas à tecnologia foi a chamada "Terceira Revolução Industrial", iniciada na década de 1970. Foi o início da era da robótica, dos computadores, das viagens espaciais, da biotecnologia e de tantas outras grandes inovações. Foi o início também da utilização em grande escala das chamadas tecnologias poupadoras de mão-de-obra. Cérebros de silício e braços de aço passaram a ser cada vez mais comuns nas fábricas, e um robô substituía dezenas de operários. Ótimo para os empresários, que economizavam muito ao usar mais robôs e menos humanos - afinal de contas, a máquina não ganha salário, não reclama do trabalho, não tem família para sustentar, não faz greve e não se aposenta - se quebrar, pode ser consertada ou ir para o ferro-velho sem problemas. Péssimo para os trabalhadores, que passaram cada vez mais a engrossar as filas de desempregados. Pode-se argumentar que as novas tecnologias criam novos empregos em contraposição aos que são fechados, mas seria muita ingenuidade acreditar que uma coisa consegue compensar a outra (pode até ser que compense durante um período de grande crescimento econômico, mas períodos assim são "eternos enquanto duram"). Grande parte dos novos empregos requer uma qualificação muito além da que possui a grande maioria dos desempregados vítimas da Terceira Revolução Industrial - ainda mais no Terceiro Mundo. Péssimo também para o Welfare State, versão reformada do capitalismo que durante trinta anos protegeu os povos do Primeiro Mundo dos vendavais do capitalismo, e que se desmantelou quando a Terceira Revolução Industrial aumentou os gastos com seguro-desemprego e a guerra do Yom-Kippur (em 1973) aumentou em mais de cinco vezes os preços do petróleo, do qual o Primeiro Mundo era grande comprador. O capitalismo que surgia na Terceira Revolução Industrial era uma versão moderna do liberalismo pré-1929, e o Welfare State representava gastos "desnecessários" com educação, saúde, moradia, previdência, seguro-desemprego e outros direitos sustentados por meio de impostos. De lá para cá, as desigualdades sociais cresceram absurdamente em todo o mundo, e embora tenha havido grande crescimento econômico, não se pode dizer que todos se beneficiaram de fato. Disso surge a primeira contradição a que me referi. Um dos pilares do capitalismo é o consumo - tanto que é preciso inventar cada vez mais necessidades supérfluas para alimentar as cadeias de consumo-produção-lucro. Com os trabalhadores humanos sendo cada vez mais substituídos por máquinas - que, é bom lembrar, não consomem nada além de eletricidade, peças de reposição e talvez graxa, combustível ou similares - o mercado consumidor inevitavelmente diminui. Até mesmo no setor de serviços isso fica evidente em nossos dias. É preciso supor um crescimento econômico perpétuo para que novos empregos absorvam os trabalhadores despedidos. Mas isso só existe em contos-de-fadas de economistas. Nunca haverá crescimento econômico perpétuo - o próprio Adam Smith disse que o crescimento tende a diminuir com o tempo, conforme se esgotam as possibilidades de lucro e o mercado se satura. E não é só isso. Crises econômicas se repetem em determinados intervalos no capitalismo, e a tecnologia é capaz de torná-las cada vez mais devastadoras. Após uma crise, é preciso conquistar novos mercados para a economia se reerguer (a alternativa, aumentar o poder de compra dos trabalhadores, nunca foi aplicada na prática, a não ser em caráter emergencial e temporário, pois implica maiores gastos em salários para os empregdores - e menos lucro). Chegará uma hora em que não haverá para onde crescer, e todas as fronteiras já terão sido transpostas. Não haverá mercado consumidor novo a ser "persuadido" (por livre e espontânea vontade ou à força, como a História nos mostrou várias vezes) pelas forças econômicas. Expandirão para onde? Para o espaço? Seria uma bênção para os empresários se as máquinas consumissem... Entretanto, elas não consomem. Os trabalhadores HUMANOS é que são os consumidores, e poupar trabalho humano significa poupar compradores em potencial (com a possível exceção de produtos de luxo, que são parte ínfima da economia). Mais cedo ou mais tarde, a contradição entre menos trabalhadores e necessidade de mais consumidores levará a uma reordenação do nosso modelo econômico, a menos que ocorra algum milagre e se invente um jeito de as máquinas consumirem. Ainda sobre o impacto das tecnologias que poupam mão-de-obra, é possível que ela leve a uma reordenação por uma razão paralela à agonia das massas desempregadas e não-consumidoras: a agonia das massas empregadas e consumidoras! Houve um tempo em que se dizia que as novas tecnologias poupariam trabalho, e permitiriam que as pessoas tivessem mais horas de folga ganhando o mesmo, já que a produtividade aumentaria. Infelizmente as esperanças se foram quando se constatou que era bem mais lucrativo para as empresas, em vez de oferecer menos horas de trabalho a todos, demitir todos aqueles cujo trabalho pudesse ser substituído pelo de uma máquina e espremer aqueles que sobrassem até a exaustão. De maneira nenhuma o aumento na produtividade significou mais horas de folga. Quem não deu lugar às máquinas precisa trabalhar tanto quanto elas - em nome da saúde da empresa! Tudo isso ocorre com um elevadíssimo custo humano - estresse, desagregação familiar por excesso de trabalho, suicídio ou até mesmo morte por exaustão, entre tantos outros fenômenos. Ora, se já se produz muito (o suficiente para atender razoavelmente à demanda de todos) com o trabalho de poucos e mesmo assim ninguém está satisfeito, não seria o caso de reformar o sistema para que haja menos lucros mas ao mesmo tempo menos estresse e mais horas de folga? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É esta a razão pela qual não devemos simplesmente condenar a automação industrial (e a de serviços). Tal qual a globalização, a indústria ou qualquer outro processo ligado à tecnologia, ela pode ser aplicada de diferentes maneiras, e não é porque hoje ela é usada para criar massas de desempregados e esfolar os que sobraram em seus empregos em nome do lucro de alguns que deve ser necessariamente assim. A automação industrial possui enorme potencial, e em uma economia socialista seria explorada e aproveitada para diminuir a carga horária de trabalho sem diminuir a produção. Mais tempo livre, mais possibilidade de que as pessoas se dediquem ao lazer ou ao "ócio criativo". Não foi assim que floresceu Atenas? Com um patriciado livre do trabalho manual graças ao suor dos escravos? Obviamente, isso significa menos eficiência (empresários sedentos por lucros certamente reclamariam), mas é a sociedade que está a serviço da economia ou a economia é que está a serviço da sociedade?&lt;br /&gt;A capacidade de processamento dos computadores, que aumenta quase exponencialmente a cada ano, também pode ser uma aliada na construção de uma futura sociedade socialista. Muitos teóricos liberais criticam - com razão! - a economia planificada por sua ineficiência, já que para coordenar uma economia complexa é preciso realizar uma quantidade colossal de cálculos. Pois os computadores são máquinas capazes de realizar tais cálculos a uma velocidade também colossal - e cada geração é mais veloz que a anterior. Ainda que hoje ainda não seja possível criar uma economia dita planificada, a cibernética pode ser uma grande ferramenta para auxiliar o planejamento macroeconômico e torná-lo mais eficiente, enquanto a microeconomia (por ter outra lógica) provavelmente demore a ser adaptada aos métodos computacionais. As pequenas empresas e futuras cooperativas talvez devam ficar sujeitas apenas à regulação indireta do plano, subsistindo por mecanismos de mercado - regulado - por muito tempo (considerações mais profundas sobre isso mereceriam alguns textos inteiros!). Mas seria um devaneio lunático pensar que algum dia a cibernética será tão avançada que também abarcará tudo isso?&lt;br /&gt;A tecnologia também é capaz de derrubar alguns mitos. Por exemplo, o de que a competição é e sempre será a melhor maneira de gerar progresso em qualquer área. Com o advento da internet e a enorme facilidade de comunicação que se seguiu, a cooperação ganhou espaço e indivíduos interessados em objetivos comuns passaram a ter condições de tocar seus projetos. A Wikipedia nunca cobrou um centavo de seus usuários (no máximo pediu doações) e, mesmo que não seja a fonte mais confiável de conhecimento, &lt;a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2005/12/051215_wikipediacomparacaofn.shtml"&gt;não perde muito para enciclopédias mais tradicionais, como a Barsa&lt;/a&gt;. Programas de computador inteiros também são construídos com base na colaboração, como os baseados no Linux. Em muitos casos, eles não só se igualam aos do Windows, como vão além (digo por experiência própria! Confesso que sou um pouco preguiçoso e quase sempre reluto em aprender a usar um programa novo se já tenho um antigo, mas a Microsoft demorou tanto a anunciar um pacote para o Word com as novas mudanças ortográficas - que ainda não saiu! - que fui obrigado a baixar o BrOffice, que usa o sistema Linux, no ano passado. Seus programadores se adiantaram muito aos da Microsoft, e além de tudo descobri que o BrOffice abre documentos .doc e .docx, acabando com o problema de incompatibilidade de arquivos entre versões diferentes do Windows).&lt;br /&gt;A cooperação ameaça o status quo! Durante dois séculos, acreditou-se que era mais produtivo vender informações, músicas, textos e outros programas como simples mercadorias. A tecnologia está quebrando mais esse paradigma. O compartilhamento de arquivos na internet ameaça seriamente a indústria do cinema e a fonográfica, entre outras. Já não é preciso comprar CDs caros para ouvir as músicas dos artistas preferidos - acabando com a extorsão promovida pelas gravadoras. Por que artistas não podem se manter fazendo shows? A difusão de músicas pela internet tornaria os artistas mais populares e lotaria suas apresentações. Só os artistas preguiçosos e que querem ganhar dinheiro sem ir para o palco têm o que temer. Bem, esses artistas e a indústria que se formou por trás deles. De impulso à inovação a entrave à livre difusão de informações: o mercado agora já começa a ser visto como um obstáculo. E não é só na mídia de entretenimento que ele perde espaço: a internet oferece espaço para que a blogosfera converta-se em meio alternativo de difusão de informações e notícias. Já não ficamos reféns do monopólio das grandes emissoras de TV, de jornais ou de revistas de grande circulação ou de outras mídias "oficiais". Os mais diversos pontos de vista e as mais variadas versões para os fatos podem ser encontrados na internet, basta procurar! Só os que desejam o monopólio da informação têm o que temer quanto a isso. E por mais que &lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/07/metalinguagem.html"&gt;tentem se fechar em suas "panelas"&lt;/a&gt; e impedir que novos "produtores de informação e de opinião" sem diploma surjam, eles não poderão frear o avanço da tecnologia. Não é preciso dizer que a chamada inclusão digital é um passo importante para a democratização midiática. Quanto mais gente com computador e internet em casa, menos gente refém da TV e da revista semanal.&lt;br /&gt;A internet também pode se converter em um poderoso instrumento da democracia. Diferentemente do que acontecia no passado, hoje podemos acompanhar cada passo de nossos representantes eleitos, o que fizeram, o que defenderam, como gastaram seu dinheiro... Ainda que no Brasil isso ainda esteja só no começo, em outros países a fiscalização dos candidatos pela internet tem-se mostrado promissora. Caso seja estimulada, ela pode ser uma grande arma da sociedade civil contra a corrupção. Tornar mais transparentes os atos daqueles que, afinal de contas, foram eleitos por nós e devem prestar contas a nós, é uma das possibilidades oferecidas pela tecnologia. É óbvio que isso só ocorrerá se houver cobrança firme da sociedade, mas o fato de tudo ter ficado mais fácil pode ajudar. Exigir voto aberto no Congresso Nacional, prestação de contas dos gastos de cada membro do Legislativo e outras tantas coisas também é importante, e pode ficar mais fácil. Afinal, a internet serve para aproximar as pessoas, e uni-las quando têm objetivos comuns. Nesse caso, objetivos comuns e nobres.&lt;br /&gt;Por tudo isso, a tecnologia tem um imenso potencial para transformar o mundo que conhecemos - seja para o bem, seja para o mal. Frear o avanço da tecnologia é impossível - todos os que tentaram fazê-lo foram atropelados, e isso tornará a acontecer sempre que alguém repetir tentativas assim. Mas isso não significa que tenhamos que assistir passivamente a tudo isso. O potencial da tecnologia pode ser usado com objetivos nobres ou perversos, e a decisão sobre qual caminho seguir depende de quem é mais forte e faz prevalecer seus interesses. E, convenhamos, chega de deixar que os ricos e poderosos façam prevalecer os interesses deles.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-2569865090620167739?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/2569865090620167739/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=2569865090620167739' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2569865090620167739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2569865090620167739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/02/tecnologia-meu-bem-meu-mal_15.html' title='Tecnologia: meu bem, meu mal'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-3662701708189643694</id><published>2010-02-14T18:55:00.004-02:00</published><updated>2010-02-16T18:20:27.294-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>Era uma vez no Norte</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há cinco anos ocorria o assassinato da missionária Dorothy Stang, estadunidense que vivia há décadas no Brasil tentando unir justiça social e defesa do meio ambiente. Mas assim como tantos outros - alguns conhecidos, como Chico Mendes, e outros tantos anônimos - ela atraiu a antipatia dos poderosos latifundiários e fez com que eles recorressem ao que sabem fazer melhor para eliminar "incômodos": a covardia, nesse caso a mais horrenda e brutal.&lt;br /&gt;Dorothy Stang tornou-se mais uma mártir naquelas terras sem lei do Norte do Brasil. Lutou até a morte em defesa dos pobres e oprimidos e do meio ambiente. Seu único crime foi defender um ideal nobre e que ia contra os interesses dos grandes fazendeiros do oeste do Pará. Sofreu diversas ameaças de morte antes que se consumasse o ato, pelas mãos de verdadeiros bandidos - tanto os executores (pobres) quanto os mandantes (fazendeiros ricos e poderosos).&lt;br /&gt;O Pará é uma terra sem lei. Ou melhor, o Norte é uma terra sem lei. Na década de 1970, o regime militar facilitou o deslocamento de pessoas para povoar a "última fronteira" do Brasil - e de quebra comprar as terras desses mesmos indivíduos a preços baixos. Facilitou o crédito para a compra de grandes propriedades na Amazônia a preço de banana. Toda sorte de aventureiros partiu para aquela região inóspita buscando fazer fortuna criando gado - a soja viria depois. A corrupção foi a níveis estratosféricos, e inúmeros foram os casos de grilagem de terras e outras operações ilegais. A floresta sofreu. Os fazendeiros compravam os terrenos, derrubavam as árvores, colocavam fogo, plantavam pasto e criavam gado até que o solo não mais aguentasse - daí então compravam mais terra, derrubavam mais floresta, faziam mais queimadas, plantavam mais pasto e assim por diante.&lt;br /&gt;O Estado não chegava lá efetivamente. A não ser por obras faraônicas como a Transamazônica (que hoje não passa de uma trilha de lama), era como se ele não existisse. Não havia lei. Os mais fortes prevaleciam sobre os mais fracos - o que sempre acontece quando não há lei. Grandes fazendeiros pressionavam os pequenos proprietários para vender suas terras. Ameaçavam com jagunços e às vezes partiam para a eliminação física pura e simples. Centenas de pequenos agricultores foram mortos por lá nas últimas décadas - e continuam sendo mortos! - mas isso não aparece na televisão.&lt;br /&gt;Nesse cenário, surgiam aqueles que viam que o "desbravamento da última fronteira" não estava sendo feito da maneira correta. Em nome dos interesses dos mais fortes, passava por cima dos pequenos proprietários, dos índios, da própria floresta. Muitos denunciaram os crimes que ocorriam dia após dia naquele rincão distante da chamada civilização. Lutavam por mais direitos para os pequenos agricultores, por um modo de exploração menos agressivo e mais racional da maior floresta tropical do planeta. Obviamente, tudo isso feria - e fere - os interesses dos latifundiários que lucram com a devastação e o predomínio do forte sobre o fraco.&lt;br /&gt;A missionária Dorothy Stang foi apenas uma das muitas vozes a denunciar a opressão dos grandes proprietários sobre os pequenos produtores, e também sua ação sobre a floresta. Defendia um modelo de exploração socialmente justo, baseado em pequenas propriedades, no extrativismo e na exploração sustentável e racional da terra. Ideias perigosas, que ameaçam os interesses de gente grande. E se aquilo se espalhasse? Como ficariam os latifundiários? Eles tinham que fazer alguma coisa...&lt;br /&gt;Não se poderia esperar nada muito diferente deles. Após muitos meses de ameaças, contrataram matadores de aluguel e colocaram um fim naquela "missionária de ideias diabólicas". Os que empunharam as armas apareceram na mídia e foram presos (como costuma acontecer com os pobres no Brasil). Os fazendeiros que ordenaram o crime estão soltos (como costuma acontecer com os ricos no Brasil), apesar da luta de muitos promotores para colocá-los atrás das grades. Mas a Justiça brasileira tem muitos meandros, e os advogados de defesa desses assassinos fazem questão de usá-los para perpetuar o ditado - mais do que correto - segundo o qual quem tem dinheiro não vai preso no Brasil. Desde então passaram-se cinco anos...&lt;br /&gt;Mas não prestemos atenção só em Dorothy Stang. A cada dia, novos defensores dos mesmos ideais que ela são ameaçados, ou talvez até executados, nas mesmas terras longínquas e sem lei do Norte do Brasil. E nada disso aparece nos jornais. Em tempos de discussão sobre uma economia sustentável e "verde", deveríamos voltar nossos olhos para a Amazônia, onde todos os dias é travada uma luta sangrenta entre os grandes e os pequenos, os fortes e os fracos, os que desejam transformar a Amazônia em pasto ou plantação de soja e os que querem vê-la de pé.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-3662701708189643694?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/3662701708189643694/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=3662701708189643694' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/3662701708189643694'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/3662701708189643694'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/02/era-uma-vez-no-norte.html' title='Era uma vez no Norte'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-6339341371543239792</id><published>2010-01-26T01:23:00.004-02:00</published><updated>2011-04-16T20:44:14.981-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><title type='text'>Covardia Lucrativa</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Crianças não podem votar, não podem dirigir e não podem portar armas. E por quê? Chame do que for: bom senso, instinto ou qualquer outra expressão. O fato é que todos nós sabemos, de alguma maneira, que crianças ainda não possuem maturidade para realizar nenhuma das atividades acima. Paradoxalmente, não existe no Brasil nenhuma lei regulando a publicidade para o público infantil. Sendo consideradas pelos adultos - corretamente, é bom que se diga - indivíduos imaturos e incapazes de julgar os prós e contras de suas ações (o que inevitavelmente inclui o ato de comprar o que quer que seja), não deveria ser tida como extremamente covarde a propaganda destinada a convencer as crianças a comprar determinados produtos?&lt;br /&gt;Tal pergunta me surgiu após um amigo me indicar um &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=dX-ND0G8PRU"&gt;documentário sobre a publicidade infantil no youtube&lt;/a&gt;, e sugerir um texto sobre isso aqui no blog.&lt;br /&gt;A publicidade voltada para as crianças é uma das categorias mais lucrativas dentro do mundo da propaganda. Mesmo quando o produto a ser vendido não é necessariamente de uso infantil, publicitários utilizam o artifício de associá-los de alguma maneira às crianças. O motivo não é muito difícil de entender: sendo incapazes de refletir sobre os custos financeiros de uma compra, pesar prós e contras, avaliar as reais necessidades e possibilidades no momento ou até mesmo se tal produto tem alguma utilidade, as crianças são sempre consumidores em potencial de qualquer coisa - desde que tenha um apelo próprio. Choram, gritam, esperneiam e fazem de tudo até que os pais se vejam vencidos pelo cansaço e comprem o objeto de desejo que provocou o referido escândalo. Em um sistema econômico como o capitalista, em que o fim último não é a satisfação das necessidades existentes (e sim o consumo em si, que alimenta as cadeias de produção e venda e gera lucro), mesmo que todas as necessidades já tenham sido satisfeitas é necessário mais. Criam-se novas necessidades artificiais, só para alimentar essas cadeias de produção, consumo e lucro. Por isso as crianças são peça fundamental: é muito mais fácil criar necessidades artificiais na mente de quem é incapaz de avaliar racionalmente se tal produto ou serviço é realmente útil, necessário ou benigno.&lt;br /&gt;Creio que não seja preciso escrever muito sobre a mais previsível das consequências disso. As crianças consomem, mas são os pais que pagam. É dessa maneira que a publicidade contorna o problema da falta de dinheiro daqueles que têm a mente mais vulnerável. E é aí que a criança vira um buraco no bolso do pai ou da mãe. Não é sem motivo que a publicidade infantil é tão lucrativa, e que os anunciantes gritem desesperadamente palavras de ordem sobre "liberdade de expressão" toda vez que se fala em proibir ou regular a propaganda voltada para o público infantil. Nada como usar bons princípios para defender interesses perversos... Curiosamente, muitos países que são exemplos de liberdade de expressão, como os EUA e a Europa Ocidental, proíbem ou restringem bastante a publicidade para crianças. Será que isso não quer dizer nada?&lt;br /&gt;Outros efeitos igualmente nocivos decorrem dessa verdadeira lavagem cerebral feita nas crianças. Um deles, que afeta profundamente suas mentes em formação, é relacionado aos valores. Nos duros tempos pós-modernos, em que não raro tanto o pai quanto a mãe precisam trabalhar fora para garantir a renda da família, a televisão se converte em uma babá pouco ideal para as crianças. Elas passam mais tempo na frente da TV do que com os pais. E quem é que no fim das contas influencia mais os valores? Quem passa mais tempo com a criança. Não importa o que os pais digam ou façam, se a criança dá menos ouvidos a eles do que à TV, ela assimilará os valores pregados pela TV. Os valores do consumismo desenfreado e irresponsável, do egoísmo, da competição e do materialismo. "Comprar tal sandália, tal brinquedo, tal relógio, tal roupa é legal". "Comprar isso te fará melhor que os outros, mais bonito ou mais bonita, mais popular, etc". "Comprar, comprar, comprar". Some-se a isso aquela velha e comum situação em que os pais, que trabalham o dia todo e pouco convivem com os filhos, tentam compensar a ausência com favores materiais, fazendo realidade todos os desejos consumistas dos pequenos. E assim forma-se uma geração inteira de consumidores irresponsáveis, pessoas que cresceram rodeadas de brinquedos e sem afeto dos pais ou de amigos. Muitas vezes, o apego às coisas materiais reflete a carência de algo muito maior e essencial: calor humano.&lt;br /&gt;Poucos prestam atenção nisso, mas há outras consequências psicológicas, tão profundas quanto a citada acima. Desejos fabricados, implantados pela propaganda, podem ser extremamente nocivos, principalmente quando os pais cedem aos pedidos - ou aos escândalos - dos filhos. A felicidade humana é efêmera, logo desaparece. Definimos um objetivo e corremos atrás dele. Quando nós o alcançamos, sentimos aquela agradável sensação de recompensa. Pois é nisso que consiste a felicidade. E tão logo ela vem, ela também desaparece, pois passamos a definir outro objetivo, e nossa busca recomeça. Correr atrás é importante! A frustração de não alcançar esse objetivo também é, por mais incrível que pareça! Isso está parecendo trecho de livro de auto-ajuda, mas tem tudo a ver com consumismo. Quando uma criança vê um anúncio na TV e quer um produto, esse passa a ser seu objetivo, seu objeto de desejo. Ela não descansará até convencer os pais a comprar aquilo. Assim que põe as mãos no referido produto, seu objetivo passa a ser outro, seja ele um brinquedo, um tênis, um relógio ou o que for. A criança não adquire os produtos para utilizá-los, e sim para satisfazer desejos momentâneos. Os bolsos dos pais são testemunhas de que nem sempre as consequências desse consumismo são momentâneas. Uma criança criada assim, mimada e tendo todos os produtos que quer, pode sofrer muito quando crescer e perceber que no "mundo real" ninguém consegue as coisas chorando ou esperneando. Em nossos dias, muitos viciados em antidepressivos têm histórias de vida assim. Outro caminho pode ser a transformação dessa pessoa em uma consumista sem valores e sem ética, que valoriza mais o ter do que o ser, mais o dinheiro e os artigos de luxo do que as amizades e as coisas simples do dia-a-dia que tornam a vida mais agradável. Em geral, ocorre um misto dos dois.&lt;br /&gt;Nos EUA, o número de pessoas que se consideram felizes tem decaído desde a década de 1950, quando a mídia de massa e o consumo de massa chegaram aos lares dos cidadãos de lá, crianças ou adultos. A venda de antidepressivos tem aumentado de lá para cá. O mesmo fenômeno parece se repetir em todo o mundo.&lt;br /&gt;Outro fenômeno perverso tem sido provocado pela agressiva publicidade sobre as crianças: o fim da própria infância. Até o século XIX, acreditava-se que a criança era uma espécie de adulto em miniatura, com consciência já formada. Por isso, não era raro o emprego de crianças em fábricas, muitas vezes realizando trabalhos extenuantes por longos períodos e ganhando salários de fome. Foi só nessa época que se difundiu a ideia de que a criança possui não só um corpo, mas também uma mente em formação, e que a infância é um período importante para a formação da personalidade e dos valores. Pois é na infância que se deve brincar, aprender as bases do convívio social e ir para a escola. Caso isso não ocorra, são grandes as chances de que surja um adulto psicologicamente pouco saudável. Entretanto, a televisão está acabando com isso. Os anúncios voltados para as crianças estimulam comportamentos adultos e até a erotização. Meninas de seis ou sete anos usando maquiagem, salto alto e indo ao salão de beleza todo fim-de-semana... Há algo de anormal nisso. O tal período de formação da personalidade e da brincadeira saudável fica cada vez mais curto, dando lugar a uma pré-adolescência maior e mais rodeada de celulares, mp3, iPods e outros tantos artigos caros e trocados a cada estação. Afinal de contas, quem não tem o melhor e mais moderno está por fora. Por fora do que a TV diz que é certo e legal. Assistimos a uma padronização cada vez mais gritante. Engana-se quem diz que o legal é ser diferente. O legal é ser igual ao que a TV mostra! E com todo mundo copiando o mesmo modelo, todos acabam lutando para ser iguais entre si - tendo o melhor celular, o melhor tênis, o melhor relógio, a melhor sandália, o melhor vestido...&lt;br /&gt;É preciso destacar também o perigoso efeito que os anúncios de doces e outros alimentos exercem sobre as crianças. A maioria usa artifícios como associar o produto a um personagem do mundo infantil. Assim, a criança consome o produto pensando consumir o personagem. Lembre-se de que a criança não tem maturidade para separar uma coisa da outra! Muitas vezes, tais alimentos abusam do sabor em detrimento da saúde, e possuem enormes quantidades de calorias, açúcar e outras tantas porcarias. Não por acaso, a obesidade infantil tem crescido absurdamente desde a popularização da TV, e hoje já é considerada um problema de saúde pública.&lt;br /&gt;O próprio Adam Smith, pai do liberalismo econômico, advertiu em algumas linhas de sua obra A Riqueza das Nações que é preciso tomar cuidado com os homens de negócios pois "têm em geral o interesse de enganar e até de oprimir o público, e têm feito exatamente isso em muitas ocasiões". Por isso, dizer que não se pode proibir ou restringir a publicidade para as crianças porque isso fere a "liberdade de expressão" é uma grande mentira. Crianças não têm maturidade, e portanto não têm liberdade para escolher o que vão comprar ou não. Por isso, as regras para a publicidade infantil devem diferir das existentes para outros tipos de mídia, e também daquelas para outras formas de publicidade. Ao contrário do que pensam os inescrupulosos anunciantes que exploram a vulnerabilidade das mentes infantis, o lucro não é mais importante do que a saúde mental e até física de nossas crianças. Muito menos é mais importante do que seu caráter. Crianças precisam brincar, estudar e ser crianças, longe da influência nefasta dos meios de comunicação que querem fazer delas simples máquinas de comprar. Precisam ser crianças de verdade. Um mundo sem crianças é um mundo sem futuro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-6339341371543239792?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/6339341371543239792/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=6339341371543239792' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6339341371543239792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6339341371543239792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/01/covardia-lucrativa.html' title='Covardia Lucrativa'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-657591914539134772</id><published>2010-01-20T21:30:00.003-02:00</published><updated>2010-01-20T21:58:20.792-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='América Latina'/><title type='text'>Tremor e temor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz a sabedoria popular que, se alguém não sabe fazer alguma coisa, é melhor deixá-la a cargo de quem sabe. Talvez devamos dizer isso aos Estados Unidos. O país ofereceu uma grande ajuda financeira, logística e humanitária ao Haiti, com direito a navio-hospital e tudo. Obviamente, não deixaram de lado o que eles têm de "melhor": muitos militares para fazer a segurança do Haiti, já que depois do terremoto seguiu-se um caos total, com saques e a volta da atividades de gangues e milícias anteriormente neutralizadas.&lt;br /&gt;Entretanto, uma semana depois do grande terremoto (e enquanto outro, de magnitude 6,1 na escala Richter, atinge o país sem tantos danos), o resto do mundo acusa os EUA de pouca eficiência na gestão do Haiti pós-tragédia e, como não poderia deixar de ser, de puxar a brasa para sua sardinha.&lt;br /&gt;Como o porto da capital haitiana foi praticamente destruído com o terremoto, a única maneira de se fazer chegar ajuda ao martirizado povo haitiano é através do aeroporto da cidade de Porto Príncipe. Os EUA assumiram para si a tarefa de coordenar a ajuda internacional ao país, mas parecem fazer tudo "à sua maneira". Talvez o povo estadunidense não saiba, mas o resto do mundo não gosta de ver os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;marines&lt;/span&gt; desfilando pelas ruas de outros países. Ainda mais os haitianos, que já testemunharam diversas invasões por parte dos EUA, e por motivos muito menos nobres do que a ajuda humanitária. Entretanto, justo quando a ajuda humanitária começa a se tornar eficiente, as autoridades dos EUA responsáveis pela coordenação da ajuda ao Haiti insistem em dar prioridade à segurança e aos assuntos militares em detrimento dos alimentos, dos remédios, dos equipamentos cirúrgicos e de salvamento. Vários aviões carregados com ajuda humanitária, de diversos países, são impedidos de pousar no Haiti porque o aeroporto está sobrecarregado com os aviões militares, que têm trânsito livre. A pacificação e a segurança são importantes, sem dúvida, mas a distribuição de alimentos e de água também é, bem como outros esforços humanitários. Sem eles, nem um milhão de soldados serão capazes de conter a onda de violência das massas desesperadas. &lt;a href="http://noticias.br.msn.com/especial/haiti/artigo.aspx?cp-documentid=23295518"&gt;A organização internacional Médicos Sem Fronteiras&lt;/a&gt; afirma que carregamentos de remédios e equipamentos cirúrgicos, cruciais para salvar as vidas de tantos feridos e expostos à infecção no Haiti, são impedidos de chegar graças à má gestão do aeroporto de Porto Príncipe. Vidas estão sendo perdidas por causa disso. Vidas que poderiam ser salvas.&lt;br /&gt;Está claro que as autoridades dos EUA não são qualificadas o bastante para comandar o esforço internacional de maneira eficiente e justa. Criam um enorme gargalo - o resto do mundo quer ajudar, mas tem que esperar a permissão dos EUA. E nunca é de mais questionar se os estadunidenses são mesmo os mais indicados para pacificar um país. As notícias que chegam do Iraque e do Afeganistão não são muito animadoras. Não seria o caso de os EUA deixarem a pacificação nas mãos do Brasil, que mostrou ser muito mais eficiente no desarme dos grupos armados e na conquista da simpatia dos haitianos? E não seria o caso também de deixarem a coordenação da ajuda internacional a um órgão mis competente, mais eficiente, mais humanitário e menos militarista?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-657591914539134772?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/657591914539134772/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=657591914539134772' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/657591914539134772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/657591914539134772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/01/entraves.html' title='Tremor e temor'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1774345043392156851</id><published>2010-01-14T22:59:00.005-02:00</published><updated>2010-02-16T18:22:59.015-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='América Latina'/><title type='text'>Quando os corações tremem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Era uma vez, no Caribe, uma colônia francesa que produzia açúcar com o suor de muitos escravos. Em meio aos tempos turbulentos da Revolução Francesa, os escravos, liderados por Toussant L'overture decidiram que não mais se sujeitariam aos desmandos dos franceses. Eles seriam livres e independentes a partir daquele dia. Uma longa luta foi travada, brancos e negros foram mortos aos milhares, plantações de açúcar foram incendiadas. Finda a batalha pela independência, em 1804, a poeira se assentava e surgia um futuro no horizonte daquele povo. Um sonho parecia virar realidade. Um belo sonho, em que uma nação de ex-escravos, homens humilhados durante todas as suas vidas, mostraria ao mundo que era capaz de se desenvolver e esquecer os horrores do passado. Entretanto, por mais desprezíveis que sejam os comentários daqueles extremistas religiosos que dizem que Deus castiga seu povo por causa da prática difundida do vodu, realmente parece, à primeira vista, que algum tipo de maldição fora lançada sobre o Haiti. Com a economia devastada pela guerra pela independência e uma enorme dívida contraída com a França a título de reparações pela perda de sua colônia mais lucrativa no Caribe (que só foi paga em meados do século XX), ficou difícil para o povo haitiano realizar seu belo sonho. Com as terras exaustas pela plantação do açúcar e as próprias plantações queimadas, pouca coisa poderia crescer naquele solo. Como se não bastasse o fato de o país ter perdido sua principal fonte de recursos, até os países americanos recém-independentes (cuja independência o Haiti ajudou a deflagrar) recusaram-se durante muito tempo a fazer comércio com aquela ousada nação de escravos rebeldes. O Haiti caiu na miséria, para nunca mais voltar. Nos dois séculos seguintes, mergulhou em uma crise política sem volta. Dezenas de golpes de Estado, invasões estrangeiras, ditaduras sanguinárias e corruptas (como as da dinastia Duvalier), barreiras protecionistas de países do Primeiro Mundo, furacões e outras tantas desgraças transformaram o Haiti no país mais pobre de todo o hemisfério ocidental. Um verdadeiro inferno na Terra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Essa semana, mais um lamentável e chocante capítulo dessa trágica história de dois séculos foi escrito. Um terremoto devastador, de mais de sete pontos na escala Richter, atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe. Devido às precárias fontes de informação haitianas, não se ssabe se o número de vítimas tem cinco ou seis algarismos. Sabe-se, até agora, que pelo menos metade da população de Porto Príncipe, o que dá em torno de dois milhões de pessoas, está sem abrigo. Os noticiários dos últimos dias mostram cenas de terror. Pessoas tentando remover pessoas debaixo de escombros, prédios - catedrais, universidades, hotéis e até o palácio presidencial - parcial ou totalmente destruídos, milhões de haitianos dormindo ao relento e sem água, sem comida e sem informação de parentes e amigos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Brasil perdeu muito com esse terremoto. Desde 2004, quando o então presidente Jean Bertrand Aristide extinguiu as forças armadas temendo mais um golpe militar e acabou dando origem a gangues e milícias de ex-militares que levaram ainda mais caos ao Haiti, o país sofreu uma intervenção da ONU para que a situação caótica não gerasse ainda mais vítimas. Aristide se exilou na África do Sul e uma missão de paz com milhares de soldados, liderada pelo Brasil, se estabeleceu no país. A chamada Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (MINUSTAH), em seis anos, obteve sucesso significativo na pacificação do país. Usando uma tática diferente da utilizada pelos EUA e por outros países do Primeiro Mundo, com menos ênfase na luta armada e mais esforços para conquistar a confiança da população local, a missão liderada pelo Brasil foi capaz de pacificar o país. Isso se deveu em grande parte à identificação que surgiu entre os militares brasileiros e aquele país pobre, tão parecido com o nosso. Diferentemente dos estadunidenses, que costumam arrogantemente enxergar os nativos como algo abaixo do conceito de "ser humano" ou "civilizado", os brasileiros não viram nos haitianos um povo muito diferente do que existia por essas bandas. O mesmo sofrimento, a mesma pobreza, a mesma falta de recursos materiais e humanos. Tudo isso sem dúvida facilitou a aceitação dos militares brasileiros entre o povo haitiano. Militares brasileiros disputando partidas de futebol com os civis nativos, brasileiros ensinando capoeira às crianças haitianas... Recordo-me da partida beneficente entre as seleções de futebol do Brasil e do Haiti, que fez daquele país uma verdadeira festa. Milhares de haitianos acompanhando e saudando nossos ídolos que passeavam em blindados pelas ruas de Porto Príncipe. Tudo isso ajudou a missão brasileira a ter sucesso, tanto que a ONU decidiu prorrogar a MINUSTAH. Se muito ainda havia por fazer, pelo menos uma chama de esperança havia se acendido nos corações daquele povo tão sofrido. Mas isso era antes do terremoto. Todos esses avanços na pacificação e na estabilização do país foram revertidos em segundos de violentos tremores de terra. Com a destruição, vem o caos. Com o caos, o desespero. E com o desespero, os saques, a violência, o ressurgimento das rivalidades entre as outrora pacificadas gangues... Há um grande risco de que a situação do Haiti fique tão ou mais caótica do que antes da intervenção da ONU. Eleições, tão raras naquele país com um histórico de ditaduras e golpes militares, estavam marcadas para este ano. Já não se sabe para quando foram adiadas...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas o fim da nascente estabilidade haitiana não foi a única perda que nós brasileiros tivemos. Foram confirmadas, até agora, as mortes de quatorze militares brasileiros que participavam da missão da ONU no Haiti. Outros tantos se feriram por causa do terremoto. O prédio da ONU no país desabou completamente, e não há notícias dos que trabalhavam no local - inclusive brasileiros. E não podemos nos esquecer de Zilda Arns, a médica e fundadora da Pastoral da Criança, que começou seu belo trabalho aqui no Brasil ensinando as mães pobres a evitar a desnutrição e a desidratação e morreu tragicamente com o terremoto, um dia antes de uma palestra que faria em Porto Príncipe em que iria mostrar os avanços de seu projeto que hoje já chegou a diversos países, inclusive o Haiti. Que o exemplo de solidariedade e amor ao próximo, representado por Zida Arns, permaneça vivo em seus milhares de colaboradores pelo Brasil e pelo mundo, salvando vidas e promovendo bem-estar com gestos simples mas muito bem intencionados.&lt;br /&gt;O mundo todo se comoveu com essa tragédia de proporções cataclísmicas que atingiu o pequeno país caribenho, e se envolveu em uma gigantesca corrente de solidariedade. A ajuda chega dos quatro cantos do planeta. Equipes de resgate, médicos, militares para garantir ordem e segurança, água, alimentos, remédios, ajuda financeira... Tudo tem sido enviado dos mais diversos países. Entretanto, como grande parte da infraestrutura de Porto Príncipe foi destruída, há dificuldades imensas na tarefa de fazer essa ajuda chegar a quem mais precisa. Cidadãos haitianos protestam pela demora na ajuda. Há relatos de saques a caminhões de água potável e alimentos. O risco de aumento da violência, inclusive da atividade de antigas gangues, cresce a cada dia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É preciso destacar que muitos esforços deverão ser feitos, não só nos próximos dias, mas durante meses ou anos, para garantir que o Haiti se recupere da tragédia que o acometeu e volte pelo menos à estabilidade de antes do terremoto. Reconstruir a infraestrutura, abrigar os milhões que dormem ao relento ou em tendas pelas ruas e áreas abertas, garantir água e comida para todos e, mais a longo prazo, permitir que o país cresça economicamente e saia do fundo do poço em que se encontra hoje. Essa será uma tarefa épica, que envolverá grandes esforços conjuntos dos mais diversos países durante muito tempo, e na qual o Brasil, como chefe da missão da ONU e país latino-americano que se identifica com a familiar situação de penúria do povo haitiano, deve ser um dos protagonistas. Todo o trabalho realizado até agora pela MINUSTAH deverá continuar, ou mesmo se intensificar, para remover os escombros de cima do Haiti e ajudar esse povo tão sofrido a resgatar depois de dois séculos o sonho daqueles ex-escravos de, quem sabe um dia, construir uma grande nação. Esse é um dever moral que nós brasileiros, que compartilhamos com os haitianos uma herança africana, os horrores da escravidão e a esperança endógena dos povos latinos, devemos assumir com esse povo ousado que foi o primeiro da América Latina a romper seus grilhões e gritar &lt;em&gt;liberdade&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1774345043392156851?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1774345043392156851/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1774345043392156851' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1774345043392156851'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1774345043392156851'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/01/quando-os-coracoes-tremem.html' title='Quando os corações tremem'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-8061610119253646026</id><published>2010-01-14T15:15:00.005-02:00</published><updated>2010-01-14T15:44:16.843-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><title type='text'>Fantasmas de farda à solta?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto no Brasil os militares e seus comparsas dos tempos da ditadura fazem de tudo para impedir a criação da "Comissão da Verdade" para investigar os crimes cometidos durante os anos de chumbo, chega até mim a &lt;a href="http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=25451"&gt;notícia&lt;/a&gt; de que no Chile acabam de inaugurar um museu em homenagem às vítimas do sangrento regime de Pinochet (1973 - 1990).&lt;br /&gt;Por aqui, qualificam como revanchismo a proposta de criar a Comissão da Verdade. Dizem que não vale a pena mexer com crimes de "tanto tempo atrás" e incomodar quem "já trocou a farda pelo pijama". Como se crimes horrendos como a tortura e a repressão política prescrevessem. Pois não prescreveram nas mentes e nos corações dos que sofreram os horrores da tortura ou viram parentes ou amigos desaparecer subitamente naquela época. Crimes são crimes, criminosos são criminosos e o fato de muitos deles ainda hoje continuarem em altos postos militares não muda, nem nunca mudará, essa realidade.&lt;br /&gt;Mas não seria prudente esperar nada muito diferente de um país como o nosso. Aqui, proclamamos a independência e continuamos sendo uma monarquia escravista e coalhada de latifúndios. Quando a monarquia caiu e deu lugar à república, "o povo assistiu a tudo bestializado". Como não poderia ter sido diferente, a "transição lenta, gradual e segura" fez a sua parte. Os governos civis seguintes (começando pelo brontossauro José Sarney, que fazia parte do próprio partido pró-ditadura!) nem sequer cogitaram criar uma comissão da verdade, como se costuma fazer em países civilizados após o fim de um regime de exceção. A Lei da Anistia não veio só para anistiar as vítimas do regime, mas também seus algozes. Sem comissão da verdade, todos eles ficaram quietinhos (alguns em seus postos nas Forças Armadas, alguns desfrutando de gordas aposentadorias, outros recebendo visitas dos netinhos no sítio aos fins-de-semana, e outros apenas aguardando a próxima oportunidade para chegar ao poder e devolver ao país a ordem e o progresso que tanto existiram nos tempos da "revolução democrática").&lt;br /&gt;Nenhum governo civil de lá para cá ousou tocar nesse assunto tão importante para o nosso país. Afinal, é um acerto de contas para com o nosso passado, para com um período negro que precisamos conhecer a fundo para evitar que se repita. Agora que o governo atual - acertadamente - resolve assumir a dura tarefa dispensada pelos anteriores de encarar o passado, acusam-no de revanchismo, de medida eleitoreira e de todo o resto. Não é preciso pensar muito para perceber os interesses dos que fazem essas críticas. Os gorilas de farda, obviamente, não querem ir parar no banco dos réus por causa de seus crimes. E quanto aos civis que dizem não à Comissão da Verdade... Seria demais suspeitar que têm rabo preso com o pessoal da ditadura?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-8061610119253646026?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/8061610119253646026/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=8061610119253646026' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8061610119253646026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8061610119253646026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/01/fantasmas-de-farda-solta.html' title='Fantasmas de farda à solta?'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1996159703208224681</id><published>2010-01-03T11:12:00.004-02:00</published><updated>2010-01-03T12:29:43.024-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Sugestão de blog: Classe Média Way of Life</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sou muito de fazer propaganda aqui no meu blog, mas nesse caso eu garanto que vale a pena. Um dos endereços mais interessantes e bem-humorados da blogosfera, ainda que não muito conhecido, é o &lt;a href="http://www.classemediawayoflife.blogspot.com/"&gt;Classe Média Way of Life&lt;/a&gt;. O site já possuía um link neste blog aqui anteriormente (o item "No Escárnio" na seção de conexões), mas creio que mereça um destaque um pouco maior - e por isso escrevo um post para recomendá-lo.&lt;br /&gt;Sarcasmo é a principal arma de seus textos - organizados sob a forma de um "guia" de "como se tornar um típico membro da classe média". A ortografia é impecável e colabora ainda mais para que o Classe Média seja ainda mais incisivo em sua crítica bem-humorada.&lt;br /&gt;Alguém poderia dizer que é "o sujo falando do mal-lavado", que o próprio autor do blog é de classe média e que é hipocrisia criticar a classe da qual se pertence. Entretanto, esse alguém se esquece de que pertencer a uma classe não é simplesmente uma questão de renda. Se somente critérios financeiros fossem analisados, realmente o autor do Classe Média seria considerado médio-classista, assim como eu próprio. Entretanto, como o próprio blog mostra de maneira sarcástica e incisiva, ser de classe média é muito mais uma questão de comportamento do que de renda. É, digamos, um "estilo de vida" - retratado com maestria em seus posts. E conforme se lê cada novo tópico do "guia", vem à nossa cabeça a imagem de algumas das pessoas que conhecemos - sou incapaz de conter as risadas quando percebo que tais pessoas se encaixam perfeitamente em tudo o que está escrito nas linhas de seus textos. Pela quantidade de posts de "médio-classistas típicos" "criticando destrutivamente" o blog, é possível perceber que há muito mais pessoas com essa sensação. Inclusive os próprios médio-classistas típicos...&lt;br /&gt;No estereótipo de médio-classista típico está incluído o "filhote" da espécie - o já bastante estudado playboy. Seu comportamento típico é conhecido, e já é um prenúncio do que virá quando o filhinho de papai se tornar adulto. E para provar que ser médio-classista é muito mais uma questão de comportamento do que de renda, existem aqueles que não têm renda de classe média, mas mesmo assim se comportam como se tivessem. Mesmo que economicamente sejam considerados pobres, possuem a típica mentalidade estreita do médio-classista - gastam o pouco que ganham para parecer mais do que são. Seus filhos costumam ser conhecidos como os "playboys da laje", que se acham superiores aos vizinhos só porque seus pais deixaram de comer carne para comprar uma bermuda de marca para o filho. Enfim, não é a renda que mostra que alguém é de classe média - e sim o que essa pessoa tem (ou não tem) dentro do crânio.&lt;br /&gt;Obviamente, nem todos os tópicos indicam, por si mesmos, comportamentos típicos médio-classistas. O mais importante não é o fato, e sim sua atitude diante dele. Por exemplo, há um tópico que diz que um dos passos para ser um médio-classista é &lt;a href="http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/04/dica-010-ter-sobrenome-italiano.html"&gt;ter sobrenome italiano&lt;/a&gt;. Obviamente, nem todo brasileiro com sobrenome italiano se enquadraria na nefasta "classe média propriamente dita". Enquadram-se aqueles que se orgulham excesivamente de seus ancestrais, acreditam que são melhores ou superiores aos "Silvas", "Costas" e etc. Da mesma forma, ser &lt;a href="http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/04/dica-009-ser-espirita.html"&gt;espírita&lt;/a&gt; não quer dizer, de maneira nenhuma, ser de classe média. O que o tópico critica é a maneira como alguns médio-classistas típicos usam o espiritismo (interpretado de maneira superficial e distorcida, obviamente) para se afirmar superiores à "ralé". E isso não vale só para os espíritas - qualquer doutrina religiosa pode ser usada para afirmar a superioridade de certos indivíduos sobre outros (haja vista os israelenses lutando para ver sua "Terra Prometida" livre dos palestinos). O mesmo pode ser dito sobre &lt;a href="http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/04/dica-008-ter-um-pet.html"&gt;ter um animal de estimação&lt;/a&gt;: não há nada de mal nisso, mas os membros típicos da classe média o fazem à sua maneira própria - o pobre animal tem que ser de dinastia nobre confirmada por pedigree, tem que comer produtos caros (não pode comer qualquer porcaria, nem comida de humanos, não é?) e passear na rua com vestidinhos cor-de-rosa que os deixam quase sufocados ou morrendo de calor. Meu animal de estimação não é assim...&lt;br /&gt;Uma dica: eu achei melhor ler os tópicos de trás para frente, assim é possível começar do primeiro e sem sair do contexto. E mais uma vez, não é o simples fato de &lt;a href="http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/05/dica-015-correr.html"&gt;correr no calçadão&lt;/a&gt; ou se enquadrar em qualquer outro tópico do blog que conta, e sim a maneira como o membro típico da classe média o faz. A maneira, perdoem o trocadilho, "medíocre".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: a palavra "medíocre" surgiu com o significado de "mediano, na média". Quando "estar na média" passou a ser um xingamento - sinal da competitividade cada vez maior de nossos dias - a palavra adquiriu a conotação pejorativa de hoje. Se bem que, referindo-se à "classe média" (sob os critérios de comportamento, não necessariamente os de renda), usar a palavra "medíocre" é quase um elogio...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1996159703208224681?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1996159703208224681/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1996159703208224681' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1996159703208224681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1996159703208224681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2010/01/sugestao-de-blog-classe-media-way-of.html' title='Sugestão de blog: Classe Média Way of Life'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7910745811932281301</id><published>2009-12-27T22:13:00.002-02:00</published><updated>2009-12-27T23:02:07.488-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>Tragédia dos Comuns</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não nos iludamos pela até bem-intencionada promessa de Obama de oferecer ajuda financeira de bilhões de dólares aos paíuses mais pobres, e nem pelo "acordo" ao qual chegaram as lideranças mundiais ao final da COP-15. A "última chance de salvar o planeta" revelou-se um fiasco, já previsível pela má-vontade apresentada por EUA e China, que não quiseram ceder.&lt;br /&gt;Certa vez li algo sobre a chamada  teoria da "tragédia dos comuns", de Garret Hardin. Parece-me que ela serve para explicar exatamente o que houve em Copenhague. Imagine que você e mais dez amigos saiam para jantar juntos em um restaurante - e resolvem, de antemão, rachar a conta igualmente. Todos combinam de pedir pratos com preços semelhantes, para ninguém sair no prejuízo. Então, você, dando uma de esperto e querendo levar vantagem, vê todos os seus amigos pedindo porções de batatas fritas e resolve pedir uma maionese de lagosta, um tanto mais cara, para você. Obviamente, seus amigos (bom, talvez a essa altura já não te considerem tão amigo assim) se sentem injustiçados e mudam o pedido para pratos tão refinados quanto a sua maionese de lagosta, alguns contendo talvez salmão ou caviar, ou alguma receita de nome bem estranho e preços com três algarismos (sem contar os centavos, óbvio). Você, que se achava mais esperto, queria levar vantagem, já que o preço da sua maionese de lagosta ia ser diluído nas contas alheias, visto que a conta seria dividida igualmente. Seus amigos mudaram o pedido para não te ver levando vantagem sobre eles. No final, todos dividem igualmente a conta, e ninguém sai em desvantagem em relação a ninguém. O pequeno inconveniente é que o preço do jantar sai exorbitantemente mais caro para cada um - ainda que todos estejam na mesma situação e ninguém esteja melhor do que ninguém. Para não ver o outro saindo em vantagem, o indivíduo resolve adotar uma atitude igualmente agressiva e esquece aquilo que seria o melhor caminho para o grupo como um todo. O resultado é que ninguém cede em relação a ninguém, ninguém sai em vantagem em relação a ninguém mas mesmo assim todos saem perdendo. TODOS SAEM PERDENDO. É semelhante ao dilema do prisioneiro, que pode escolher entre denunciar seu comparsa e ser liberado (enquanto o outro pega dez anos de cadeia) ou ficar calado (caso ambos fiquem calados, pegam seis meses de prisão cada um). Caso ambos se denunciem, cada um mofa na prisão por cinco anos. O dilema: ficar calado e torcer para que o comparsa também se cale, ou denunciá-lo para ter sua pena reduzida às custas do outro. Na ânsia de se sair em vantagem, os dois podem se denunciar e cada um ficar preso por cinco anos, enquanto a pena para o caso de os dois se calarem seria de apenas seis meses. Ninguém sai em desvantagem em relação a ninguém, mas o resultado é pior para os dois.&lt;br /&gt;Pois é exatamente isso que ocorre entre os EUA e a China nas discussões sobre redução das emissões de gás carbônico, uma novela que teve como mais recente clímax o fiasco da COP-15. Nenhum dos dois lados quer ceder e reduzir suas próprias emissões de dióxido de carbono, pois isso sairia caro e prejudicaria o crescimento econômico - enquanto o rival poderia simplesmente não adotar tais medidas e deixá-lo para trás. Um triste impasse, uma verdadeira tragédia dos comuns, em que os principais perdedores provavelmente serão aqueles países mais pobres, que nada têm a ver com a disputa entre os dois gigantes poluidores - e que estão mais vulneráveis aos nefastos efeitos do aquecimento global. Nem as iniciativas bem-intencionadas do Brasil, da França e de outros países cujos líderes ainda enxergam uma luz no fim do túnel, nem os apelos das nações mais pobres, que veem o aquecimento global com perspecivas sombrias e temem períodos de seca, pragas, doenças e desastres naturais cada vez maiores ou - como Bangladesh e algumas ilhas do Pacífico - o próprio desaparecimento do país com o avanço dos mares.&lt;br /&gt;Os dois maiores atores nesse drama de poluição global e principais responsáveis pelo fracasso da COP-15 obviamente também vão sofrer as consequências do aquecimento global, mas ainda acham que é mais vantajoso não ceder e não ficar para trás na disputa com o rival. Os EUA, há poucos anos os maiores poluidores do planeta, têm assim como a Europa uma dívida histórica com a atmosfera, e devem boa parte de seu crescimento econômico à emporcalhação dos ares do mundo. Possuem 4% da população mundial, mas consomem 30% dos seus recursos - inclusive o petróleo, que vai em grande parte para os tanques de combustível dos grandes, beberrões e poluidores carros estadunidenses que celebram o American Way of Life sujando a atmosfera do mundo. E poucos se dão conta do dano que fazem à atmosfera do planeta - menos da metade dos estadunidenses acredita que o aquecimento global seja causado pelos seres humanos. A China, que superou os EUA há pouco tempo no ranking da poluição, tem uma população de um bilhão e trezentos milhões de habitantes. Sendo mais de quatro vezes mais populosa que seu rival, é até natural que, em tese, lance mais dióxido de carbono na atmosfera. Entretanto, as fontes de energia chinesas são extremamente poluentes, pois se baseiam no carvão - e uma nova usina de carvão é inaugurada a cada poucos dias por lá. E o país, que desde a década de 1980 tem dado cada vez mais passos em direção ao capitalismo, vê a sua população desejar a cada dia mais o poluidor e insustentável American Way of Life. Ambos os lados, EUA e China, poderiam ceder. Não o fazem graças à já citada "Tragédia dos Comuns". Uma tragédia que, se realmente chegar ao último ato, será efetivamente uma tragédia pra o planeta e para os que nele vivem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7910745811932281301?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7910745811932281301/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7910745811932281301' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7910745811932281301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7910745811932281301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/12/tragedia-dos-comuns.html' title='Tragédia dos Comuns'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7121739947175429785</id><published>2009-12-10T14:56:00.002-02:00</published><updated>2009-12-10T16:28:24.446-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>A encruzilhada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois de toda sorte de teorias da conspiração, espionagens e vazamento de documentos oficiais, tem início em Copenhagen, capital da Dinamarca, a gigantesca conferência internacional que é tida como a última chance para salvar o planeta.&lt;br /&gt;Reunidos por lá estão chefes de Estado, ministros, membros de delegações de governos, ativistas de ONGs ligadas ao meio ambiente, empresários, jornalistas e muitas, muitas pessoas preocupadas com o futuro do planeta. Há certamente muitos idealistas bem-intencionados, mas é certo de que eles não estão sozinhos. Existem muitos interesses obscuros por trás das decisões de Copenhagen. Há algumas semanas, o mundo soube que e-mails trocados por cientistas que analisavam as mudanças climáticas acabaram vazando, talvez por ação de hackers. A simples menção de que alguns desses e-mails continham frases sobre "deixar de lado documentos e estatísticas que não provam que o aquecimento global é culpa do homem" fez com que os "céticos" começassem uma algazarra. Começaram a dizer por aí que os cientistas estavam manipulando os dados para "incriminar" as ações humanas. Como se ainda houvesse necessidade de uso de tais métodos sujos para comprovar o que já é óbvio.&lt;br /&gt;Ainda que meia dúzia de céticos pelo mundo diga o contrário (e há muitos motivos para se acreditar que tais céticos sejam "convencidos" a ir contra a maioria graças ao dinheiro da poderosa indústria do petróleo), tudo indica que a ação humana sobre o meio ambiente, principalmente nos últimos dois séculos, é sim a principal causa do aquecimento global resultante do aumento no efeito estufa. Assim como é a principal causa da diminuição da cobertura vegetal ao redor do planeta, da nova "era de extinções em massa" dos últimos séculos - mais terrível do que a que acabou com os dinossauros - e da poluição de rios, mares, terras e ares, para citar só alguns exemplos. Na verdade, se os cientistas erraram, eles erraram para baixo, subestimando os efeitos do aquecimento global. As previsões feitas há vinte anos sobre o derretimento das calotas polares, das geleiras do Alasca, dos Alpes ou do Kilimanjaro agora se mostram equivocadas. O derretimento tem-se provado ainda mais rápido do que previram os pessimistas daqueles dias.&lt;br /&gt;Podem analisar as bolhas de gás no gelo da Antártida, os padrões cíclicos de manchas solares, o ritmo das glaciações ou qualquer outro fator. Nunca a concentração de gás carbônico e a temperatura do planeta subiram tanto em tão pouco tempo. Ambas estão diretamente ligadas entre si. Todo o carbono que foi "absorvido" pelos seres vivos e transformado em petróleo ao longo de muitos milhões de anos agora volta aos céus pela fumaça das fábricas e dos carros. É acompanhado pelo carbono que sai das árvores derrubadas e queimadas, e pelo carbono presente no carvão, outra "esponja" natural de CO². Todo o dióxido de carbono que a natureza tirou da atmosfera agora retorna a ela, e é uma estupidez sem tamanho dizer que não há envolvimento dos seres humanos nisso. Como se não bastasse, as florestas - principais absorventes desse gás carbônico - são cada vez mais derrubadas. O pior é que esse é um ciclo que se retroalimenta: calor induzirá a mais calor. Isso porque há reservas de metano (gás muito mais poderoso no aumento do efeito estufa) solidificado no fundo dos mares, e que cada vez mais volta à forma gasosa com o aumento da temperatura. Além disso, o aumento nos níveis atmosféricos de CO² pode alterar o pH da água do mar, desequilibrando todo o ecossistema marinho e matando boa parte do fitoplâncton - as algas microscópicas que são o verdadeiro pulmão do mundo. Como se vê, a tragédia que se avizinha é grande.&lt;br /&gt;Os "céticos" dizem que ainda não há certeza de que o homem é o principal responsável pelo aquecimento global. Os cientistas falam apenas em "grande probabilidade", de modo que para eles parece desnecessário abandonar o nosso modelo econômico para conter um fenômeno que "ainda não tem como causas comprovadas as ações antrópicas". Como se uma "grande probabilidade" já não seja suficiente para motivar a Humanidade. Entre preservar o planeta abrindo mão dos lucros e preservar os lucros abrindo mão do planeta, eu fico com a primeira opção, mesmo que as chances de a ciência estar errada sejam de "apenas" 90%. Vale a pena correr o risco quando o que está em jogo é nossa própria sobrevivência. Só quem almeja riquezas imediatas e é estúpido o suficiente para não enxergar o que nos ocorrerá daqui a algumas décadas é capaz de escolher a segunda opção. Sim, os céticos dizem que o freio na economia mundial que virá de tais mudanças será muito prejudicial. Pode até ser verdade, mas não se compara nem um pouco ao baque - ou lamentável revés - que sofrerá a qualidade de nossas vidas se nada for feito. Logo, é consenso mundial que "alguma coisa deve ser feita".&lt;br /&gt;"O que" se deve fazer já é outra estória, e não há nenhuma forma de consenso nessa outra questão - como podemos constatar ao ver o que acontece lá na Dinamarca. Um empurra a responsabilidade para o outro. Os países ricos, historicamente os maiores responsáveis pelo aquecimento global, sugerem metas mais brandas para si próprios. Um suposto "documento final" que vazou estabelecia metas muito pouco ambiciosas para os países do Primeiro Mundo, colocando o fardo mais pesado sobre os emergentes e os subdesenvolvidos. Os emergentes, em sua maioria populosos e pobres, querem que a maior parte das reduções de gases estufa recaia sobre os países economicamente desenvolvidos, enquanto reservam para si próprios a chance para elevar o PIB e o padrão de vida de suas populações sem sofrer restrições severas. China e EUA, os maiores poluidores e representantes dos dois grupos, digladiam-se em torno dessa questão. Enquanto isso, os países mais pobres, os menos culpados e as maiores vítimas do desastre ambiental que se avizinha, imploram por ajuda para que melhorem o padrão de vida de suas populações com ajuda do resto do mundo.&lt;br /&gt;Não restam dúvidas de que os países ricos têm, historicamente, uma enorme parcela de culpa. Aos que defendem que a melhor solução é esterilizar o maior número de pobres possível, basta lembrar que um cidadão estadunidense médio causa quarenta vezes mais dano ambiental do que um cidadão africano ou indiano médio. Logo, seria muito mais eficiente detonar uma bomba atômica no meio de Manhattan do que esterilizar todas as mulheres da Nigéria. Mesmo assim, os países emergentes também precisam assumir responsabilidades. Gandhi disse em meados da década de 1940: "se a Inglaterra precisou dos recursos de metade do planeta para se tornar a potência que é, de quantas Terras necessitará a Índia?" Países como a Índia, a China e o Brasil precisam de oportunidade para crescer, mas desde já devem escolher um modelo mais sustentável, não tão restritivo quanto o dos países ricos mas ainda assim capaz de diminuir as emissões de gás carbônico. Quanto aos países verdadeiramente subdesenvolvidos, cuja influência sobre o aquecimento global é quase nula (ou em alguns casos até negativa), é preciso que haja ajuda do resto do mundo para que alcancem o desenvolvimento de modo sustentável. As esferas ambiental e social são indissociáveis.&lt;br /&gt;De qualquer maneira, o grande entrave ao acordo não é um grupo de países em especial. É o modelo de crescimento econômico vigente, criado pelos países ricos, agora copiado pelos emergentes e sonhado de longe pelos mais pobres. Um modelo completamente insustentável, que agride enormemente a natureza e produz lixo em quantidades absurdas, sem oferecer destino adequado a ele. Os recursos da Terra são finitos, e nossa capacidade de acumular lixo também. Mas o tal modelo agrada muito aos grupos econômicos poderosos que lucram com o consumismo indiscriminado e dos artigos mais fúteis, e com a grande disponibilidade de combustíveis fósseis prontos para ser queimados sem um mínimo de eficiência.&lt;br /&gt;Enquanto não se dá um jeito no modelo agressivo, insustentável e vergonhoso segundo o qual nossa economia mundial se assenta, os países em Copenhagen empurram as responsabilidades uns para os outros. O mundo assiste a esse duelo de acusações, temendo que a "última chance para salvar o planeta" não seja aproveitada a tempo...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7121739947175429785?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7121739947175429785/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7121739947175429785' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7121739947175429785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7121739947175429785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/12/encruzilhada.html' title='A encruzilhada'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-52415304993173869</id><published>2009-12-10T14:39:00.003-02:00</published><updated>2009-12-10T14:50:54.468-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Oriente Médio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='EUA'/><title type='text'>Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje Barack Obama recebeu o Nobel da Paz, prêmio para o qual havia sido escolhido há alguns meses. Nesta mesma semana, o mesmo presidente dos EUA anunciou que enviará mais tropas para as montanhas do Afeganistão numa tentativa de combater os guerrilheiros talibãs que andam ganhando força e talvez quem sabe achar alguma pista de Bin Laden. Em seu discurso hoje, Obama disse que "algumas guerras são justificáveis", lembrando as palavras de seu antecessor sobre a "guerra contra o terror". Uma atitude contraditória, talvez. Mas os EUA estão em um beco sem saída, no qual entraram quando Bush resolveu invadir o Afeganistão logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Agora, ou Obama envia mais tropas para lá e assiste outros tantos combates encarniçados com mortes de seus orgulhosos compatriotas em uma guerra interminável, ou se retira completamente e dá espaço para que extremistas e fanáticos retomem o poder em terras afegãs, o que pode dar origem a outra guerra interminável. Duas opções igualmente sofríveis. O preço que se paga por entrar no beco dos outros sem pedir permissão...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-52415304993173869?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/52415304993173869/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=52415304993173869' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/52415304993173869'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/52415304993173869'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/12/hoje-barack-obama-recebeu-o-nobel-da.html' title='Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-982118355957237577</id><published>2009-11-08T22:24:00.003-02:00</published><updated>2009-11-09T00:00:32.215-02:00</updated><title type='text'>Levantando e sacudindo a poeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;9 de novembro de 1989. Há vinte anos, caía o Muro de Berlim. Era o fim da Cortina de Ferro, da Guerra Fria e, como o mundo constataria poucos anos depois, era também o empurrão que faltava para o fim da União Soviética, que já agonizava havia mais de uma década. Desde então, a esquerda mundial perdeu sua bússola e se desorientou, e falar que socialismo é coisa do passado virou lugar-comum.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não escrevo este texto para saudar nostalgicamente o muro - longe disso. Mas também não é meu propósito acompanhar o discurso vigente e considerar que o mundo vive às mil maravilhas desde então. Minha intenção aqui é tentar responder à pergunta: o que a queda do Muro de Berlim tem a ensinar à esquerda e ao mundo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Erguido da noite para o dia, em 1961, o Muro de Berlim se tornou o símbolo mais concreto da divisão do mundo em blocos antagônicos. O degenerado regime da Alemanha Oriental - que assim como seus pares era autoritário, conservador, esclerosado e distante do povo - não via com bons olhos o crescimento estrondoso de Berlim Ocidental, um enclave capitalista dentro da Alemanha Oriental que recebia vultosos investimentos do Ocidente. Muitos alemães orientais saíam do lado supostamente socialista, que ainda lutava para se recuperar dos estragos da guerra com os parcos recursos da ajuda da URSS e cujo regime era autoritário, para viver na rica e democrática Berlim Ocidental. Tal migração não era vista com alegria pelas autoridades da chamada "República Democrática Alemã", que de democrática tinha muito pouco. Para acabar com isso, elas ordenaram a construção do muro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais de duas décadas depois, com a crise solapando as bases da economia de todo o Leste Europeu e os protestos contra os regimes autoritários aumentando cada vez mais, ficava claro que tal situação não se manteria or muito tempo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando Gorbachev, um homem bem-intencionado, chegou ao poder na URSS com um espírito jovial e renovador e uma vontade imensa de resolver os colossais problemas que atingiam o país e, por extensão, todos os seus vizinhos, parecia que finalmente a era do "socialismo esclerosado" tinha ficado para trás. Um dos pilares do discurso de Gorbachev era a democratização das estruturas de poder na URSS e no Leste Europeu. Liberdade de expressão, transparência, eleições livres e tudo aquilo que deveria fazer parte da proposta socialista desde o início agora voltam à pauta. Socialismo e democracia, que nunca deveriam ter se separado, agora pareciam se juntar sob o comando de Gorbachev.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gorbachev nunca teve a intenção de derrubar o regime soviético. Era um comunista convicto, daqueles que acreditavam mais profundamente nos ideais de justiça social e na proposta de um mundo melhor que a palavra "socialismo" sempre despertara em seus seguidores verdadeiros. E justamente por essa crença profunda não encontrar correspondente no que ao longo das décadas havia se desenvolvido na URSS e em seus satélites sob o nome de "socialismo real", Gorbachev acreditava que o verdadeiro socialismo só seria alcançado por meio de profundas mudanças. Mudanças arriscadas, que apesar de necessárias tinham seus inúmeros perigos, e cuja implementação poderia ter efeitos imprevisíveis. Mas Gorbachev estava disposto a arriscar, pois desde a década de 1960 havia na URSS quem já previsse uma catástrofe caso o país não mudasse de rumo e passasse por reformas econômicas e políticas. Era um tratamento de choque para curar um paciente quase terminal. Um tratamento que poderia curar o doente, mas também apressar sua morte...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entretanto, suas reformas não foram suficientes para conter os ânimos daqueles que as achavam limitadas, mas despertaram a ira e a profunda oposição da linha-dura, que achava que tudo deveria continuar como sempre foi. Pelos mais diversos motivos, as reformas de Gorbachev não avançavam devido aos inúmeros entraves em seu caminho. A insatisfação crescia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No Leste Europeu e em todo o chamado bloco oriental, Gorbachev inspirava mudança, democratização e liberdade. Em uma visita a Pequim, em 1989, Gorbachev atraiu milhares de jovens chineses à Praça da Paz Celestial. Jovens esperançosos, sonhadores e que ansiavam por mudanças naquele governo que estava bem longe do que rezava a cartilha socialista e já começava a dar seus passos em direção ao "socialismo de mercado", sem no entanto abandonar a truculência e o autoritarismo. Mantendo-se coerente com essa tradição nada democrática, o governo chinês calou à força os clamores dos jovens por mais liberdade. Foi o Massacre da Praça da Paz Celestial - um nome poético e bastante paradoxal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em novembro do mesmo ano, algo semelhante parecia acontecer em Berlim. As aspirações dos alemães por mais liberdade aumentavam. Na URSS, o governo tendia cada vez mais para uma democracia. Os cidadãos do Leste Europeu queriam o mesmo em seus países. Na Alemanha Oriental, sob um governo corrupto e autoritário, os protestos eram especialmente fortes. Ansiando por mais liberdade, o povo dos dois lados do Muro de Berlim colocou abaixo aquela barreira de concreto que separava artificialmente a cidade, mostrando que queria mesmo pôr fim ao autoritarismo do governo da RDA e unir a cidade e o país sob um regime democrático. Os soldados que vigiavam o muro pouco podiam fazer frente àquela massa de cidadãos decididos a pôr fim a quatro décadas de "duas Alemanhas". Era 9 de novembro de 1989.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A queda do muro e o fim da URSS, poucos anos depois tiveram um profundo impacto sobre a esquerda do mundo todo. Por mais degenerado e distante que estivesse o regime que vigorava na URSS e em seus satélites, ele ainda era um contraponto aos desmandos do capitalismo. O seu fim deixava a esquerda mundial profundamente desnorteada. Quisesse ou não, era aquele modelo que ela tinha para se espelhar. Agora, o mundo todo via o quão falho ele havia sido. Um regime erguido supostamente em nome do povo era derrubado por esse mesmo povo. A mídia do Ocidente não perdeu tempo e começou a alardear desde então que o próprio conjunto de ideias em que se baseava o socialismo era ultrapassado e falho. Não havia nada fora do neoliberalismo. Qualquer tentativa para longe dele era um retrocesso absurdo. A esquerda assistia calada e impotente ao avanço neoliberal, ao crescimento cada vez maior das disparidades locais e mundiais entre ricos e pobres e às acusações midiáticas que davam a entender que socialismo era obrigatoriamente sinônimo de stalinismo, de ditadura e de fracassos econômicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Resignação não deve ser nossa atitude. O que devemos fazer é perguntar: "o que deu errado?"&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Que lições o Muro de Berlim tem a nos ensinar? Talvez a primeira delas seja a de que nenhum regime pode ser imposto. O "socialismo real" foi enfiado goela abaixo na Europa Oriental. Não houve escolha democrática, não houve participação popular. As "revoluções" foram feitas de cima. O verdadeiro socialismo, seja qual for o lugar onde será implementado, deve ser intrinsecamente democrático. Nada mais absurdo do que burocratas esclerosados governando no lugar do povo. Bom, talvez haja algo mais absurdo: burocratas esclerosados governando no lugar do povo e dizendo a todos que são o povo, ou que governam em nome do povo. Sempre que alguém ou alguma classe governar em nome do povo, haverá o risco de que esse alguém na verdade governe contra o povo, apesar do povo e sem o povo. Nesse sentido, o Muro de Berlim deve ser encarado como a consolidação de um regime que não deu certo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Outra lição importante, que não deve ser esquecida, é a de que o socialismo não é inevitável - ao contrário do que alguns "fanáticos messiânicos" afirmam por aí. O socialismo nada mais é do que um projeto, sujeito às condições históricas e à competência e à força de vontade (ou à falta delas) por parte daqueles encarregados de transformar esse projeto em realidade. O "socialismo real" se tornou o que foi por inúmeros motivos, mas não se pode negar que foi um projeto que fracassou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há muitas outras lições que podemos aprender com o fim do muro. Elas poderiam preencher muitas e muitas linhas. Mas uma delas merece destaque: o muro pode ter caído, o "socialismo real" pode ter ruído, mas isso não significa de maneira nenhuma que os ideais socialistas tenham morrido. Podemos culpar Jesus Cristo pelas Cruzadas ou pelo extermínio de milhões de índios em nome da fé cristã? De maneira nenhuma. Pelo mesmo motivo, não podemos culpar os ideais socialistas, que certamente encerram algumas das maiores esperanças da Humanidade, por erros - não importando quantos e quão terríveis tenham sido - cometidos por quem supostamente era guiado por eles. Dignidade para todos os seres humanos, o fim da miséria e da opressão sob qualquer forma, justiça social e uma sociedade sem fanatismos e voltada para o bem comum... Ideais belos que permanecem nos corações de tantas pessoas, e não desaparecerão só porque alguns detratores dizem que são inalcançáveis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Que o fracasso do passado não esconda o potencial que o futuro ainda pode reservar. O socialismo é um projeto cujas tentativas de se colocar em prática malograram. Mas esse é um dos pontos fortes dos projetos: se ele não obteve os resultados esperados, podemos voltar atrás, ou até mesmo retornar ao início, para percorrer outros caminhos e chegar ao objetivo final. Os caminhos podem mudar. O objetivo não!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Muro de Berlim pode ter passado para a História como uma mancha escura na trajetória da Humanidade. De fato, é assim que merece ser lembrado. Entretanto, hoje há outros muros, tão vergonhosos quanto ele, apesar de mais esquecidos. A única razão para isso é que aqueles que os ergueram são os poderosos. O Muro de Jerusalém, erguido por Israel supostamente para conter homens-bomba palestinos, segregando o já sofrido povo da Palestina em um novo tipo de Apartheid, apesar dos protestos por todo o mundo. E também o muro separando os EUA do México, construído numa tentativa de deter a imigração ilegal em um mundo que demole as fronteiras ao capital, mas ergue barreiras aos seres humanos. Muros são todos iguais, não importa onde ou por que sejam construídos. São feitos para dividir pessoas. Que a queda desses e outros muros da vergonha também seja comemorada, com direito a aniversário de vinte anos!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-982118355957237577?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/982118355957237577/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=982118355957237577' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/982118355957237577'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/982118355957237577'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/11/levantando-e-sacudindo-poeira.html' title='Levantando e sacudindo a poeira'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-215875056455114274</id><published>2009-10-18T14:52:00.002-02:00</published><updated>2009-10-18T15:03:02.076-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>Manifesto Ecossocialista</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;INTRODUÇÃO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A ideia deste manifesto ecossocialista foi lançada por Joel Kovel e Michael Löwy no painel sobre ecologia e socialismo realizado em Vincennes, cidade próxima de Paris, em setembro de 2001. Todos agüentamos a doença crônica do paradoxo de Gramsci, de viver numa época em que a velha ordem agoniza (levando consigo a civilização) enquanto a nova ordem parece não ser capaz de nascer. Mas, ao menos, pode ser noticiada. A sombra mais obscura que se apresenta sobre o presente não é o terror, nem o desastre ambiental, nem a recessão ou a depressão mundial, senão o fatalismo internalizado que afirma não existir outra possibilidade de ordem mundial que não seja a do capital. Por isso queremos recusar deliberadamente o estado de ânimo atual de submissão inquieta e ascensão passiva.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ecossocialismo não é ainda um espectro, tampouco está baseado em partido político ou movimento concreto. É somente uma alínea racional que parte de uma determinada interpretação da crise atual e das condiciones necessárias para supera-la. Não temos nenhuma pretensão de onisciência. Pelo contrário, nossa meta é convidar ao diálogo, a discussão, as emendas e, sobretudo, pensarmos como podemos efetivar está idéia. Por todos os lugares do universo caótico do capital mundial surgem espontaneamente pontos inumeráveis de resistência. Muitos são intrinsecamente ecossocialistas em seu conteúdo. Como poderíamos fazer para que confluíssem todos eles? Podemos pensar numa "internacional ecossocialista?” O espectro poderia chegar a materializar-se? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;MANIFESTO ECOSSOCIALISTA INTERNACIONAL&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O século XXI se inicia com uma nota catastrófica, com um grau sem precedentes de desastres ecológicos e uma ordem mundial caótica, cercada por terror e focos de guerras localizadas e desintegradoras, que se espalham como uma gangrena pelos grandes troncos do planeta África Central, Oriente Médio, América do Sul e do Norte , ecoando por todas as nações.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão profundamente relacionados e deveriam ser vistos como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais. As primeiras derivam, de uma maneira geral, da industrialização massiva, que ultrapassou a capacidade da Terra absorver e conter a instabilidade ecológica. O segundo deriva da forma de imperialismo conhecida como globalização, com seus efeitos desintegradores sobre as sociedades que se colocam em seu caminho. Ainda, essas forças subjacentes são essencialmente diferentes aspectos do mesmo movimento, devendo ser identificadas como a dinâmica central que move o todo: a expansão do sistema capitalista mundial.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rejeitamos todo tipo de eufemismos ou propaganda que suavizem a brutalidade do sistema: todo mascaramento de seus custos ecológicos, toda mistificação dos custos humanos sob os nomes de democracia e direitos humanos. Ao contrário, insistimos em enxergar o capital a partir daquilo que ele realmente fez.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agindo sobre a natureza e seu equilíbrio ecológico, o sistema, com seu imperativo de expansão constante da lucratividade, expõe ecossistemas a poluentes desestabilizadores, fragmenta habitats que evoluíram milhões de anos de modo a permitir o surgimento de organismos, dilapida recursos, e reduz a vitalidade sensual da natureza às frias trocas necessárias à acumulação de capital.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Do lado da humanidade, com suas exigências de autodeterminação, comunidade e existência plena de sentido, o capital reduz a maioria das pessoas do mundo a mero reservatório de mão-de-obra, ao mesmo tempo em que descarta os considerados inúteis. O capital invadiu e minou a integridade das comunidades por meio de uma cultura de massas global de consumismo e despolitização. Ele expandiu as disparidades de riqueza e de poder em níveis sem precedentes na história. Trabalhou lado a lado com uma rede de Estados corruptos e subservientes, cujas elites locais, poupando o centro, executam o trabalho de repressão. O capital também colocou em funcionamento, sob a supervisão das potências ocidentais e da superpotência norte-americana, uma rede de organizações trans-estatais destinada a minar a autonomia da periferia, atando-a às suas dívidas enquanto mantém um enorme aparato militar que força a obediência ao centro capitalista.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nós entendemos que o atual sistema capitalista não pode regular, muito menos superar, as crises que deflagrou. Ele não pode resolver a crise ecológica porque fazê-lo implica em colocar limites ao processo de acumulação uma opção inaceitável para um sistema baseado na regra “cresça ou morra!”. Tampouco ele pode resolver a crise posta pelo terror ou outras formas de rebelião violenta, porque fazê-lo significaria abandonar a lógica do império, impondo limites inaceitáveis ao crescimento e ao “estilo de vida” sustentado pelo império. Sua única opção é recorrer à força bruta, incrementando a alienação e semeando mais terrorismo e contra-terrorismo, gerando assim uma nova variante de fascismo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em suma, o sistema capitalista mundial está historicamente falido. Tornou-se um império incapaz de se adaptar, cujo gigantismo expõe sua fraqueza subjacente. O sistema capitalista mundial é, na linguagem da ecologia, profundamente insustentável e, para que haja futuro, deve ser fundamentalmente transformado ou substituído.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É dessa forma que retornamos à dura escolha apresentada por Rosa Luxemburgo: “Socialismo ou Barbárie!”, em que a face da última está impressa neste século que se inicia na forma de eco-catástrofe, terror e contra-terror e sua degeneração fascista.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas por que socialismo, por que reviver esta palavra aparentemente consignada ao lixo da história pelos equívocos de suas interpretações no século XX? Por uma única razão: embora castigada e não realizada, a noção de socialismo ainda permanece atual para a superação do capital. Se o capital deve ser superado, uma tarefa dada como urgente considerando a própria sobrevivência da civilização, o resultado será necessariamente “socialista”, pois esse é o termo que designa a passagem a uma sociedade pós-capitalista. Se dizemos que o capital é radicalmente insustentável e se degenera em barbárie, delineada acima, então estamos também dizendo que precisamos construir um “socialismo” capaz de superar as crises que o capital iniciou. E se os “socialismos” do passado falharam nisso, é nosso dever, se escolhemos um fim outro que não a barbárie, lutar por um socialismo que triunfe. Da mesma forma que a barbárie mudou desde os tempos em que Rosa Luxemburgo enunciou sua profética alternativa, também o nome e a realidade do “socialismo” devem ser adequados aos tempos atuais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É por essas razões que escolhemos nomear nossa interpretação de “socialismo” como um ecossocialismo, e nos dedicar à sua realização.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;POR QUE ECOSSOCIALISMO?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entendemos o ecossocialismo não como negação, mas como realização dos socialismos da “primeira época” do século vinte, no contexto da crise ecológica. Como seus antecessores, o ecossocialismo se baseia na visão de que capital é trabalho passado reificado, e se fortalece a partir do livre desenvolvimento de todos os produtores, ou em outras palavras, a partir da não separação entre produtores e meios de produção. Entendemos que essa meta não teve sua implementação possível no socialismo da “primeira época”. As razões dessa impossibilidade são demasiadamente complexas para serem aqui rapidamente abordadas, cabendo, entretanto, mencionar os diversos efeitos do subdesenvolvimento no contexto de hostilidade por parte das potências capitalistas. Essa conjuntura teve efeitos nefastos sobre os socialismos existentes, principalmente no que ser refere à negação da democracia interna associada à apologia do produtivismo capitalista, o que conduziu ao colapso dessas sociedades e à ruína de seus ambientes naturais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ecossocialismo retém os objetivos emancipatórios do socialismo da “primeira época”, ao mesmo tempo em que rejeita tanto os objetivos reformistas da social-democracia quanto às estruturas produtivistas das variações burocráticas do socialismo. O ecossocialismo insiste em redefinir a trajetória e objetivo da produção socialista em um contexto ecológico. Ele o faz especificamente em relação aos “limites ao crescimento”, essencial para a sustentabilidade da sociedade. Isso sem, no entanto, impor escassez, sofrimento ou repressão à sociedade. O objetivo é a transformação das necessidades, uma profunda mudança de dimensão qualitativa, não quantitativa. Do ponto de vista da produção de mercadorias, isso se traduz em uma valorização dos valores de uso em detrimento dos valores de troca um projeto de relevância de longo prazo baseado na atividade econômica imediata.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A generalização da produção ecológica sob condições socialistas pode fornecer a base para superação das crises atuais. Uma sociedade de produtores livremente associados não cessa sua própria democratização. Ela deve insistir em libertar todos os seres humanos como seu objetivo e fundamento. Ela supera assim o impulso imperialista subjetiva e objetivamente. Ao realizar tal objetivo, essa sociedade luta para superar todas as formas de dominação, incluindo, especialmente, aquelas de gênero e raça. Ela supera as condições que conduzem a distorções fundamentalistas e suas manifestações terroristas. Em síntese, essa sociedade se coloca em harmonia ecológica com a natureza em um grau impensável sob as condições atuais. Um resultado prático dessas tendências poderia se expressar, por exemplo, no desaparecimento da dependência de combustíveis fósseis característica do capitalismo industrial, que, por sua vez, poderia fornecer a base material para o resgate das terras subjugadas pelo imperialismo do petróleo, ao mesmo tempo em que possibilitaria a contenção do aquecimento global e de outras aflições da crise ecológica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ninguém pode ler estas recomendações sem pensar primeiro em quantas questões práticas e teóricas elas suscitam e, segundo e mais desesperançosamente, em quão remotas elas são em relação à atual configuração do mundo, tanto no que se refere ao que está baseado nas instituições quanto no que está registrado nas consciências. Não precisamos elaborar estes pontos, os quais deveriam ser instantaneamente reconhecidos por todos. Mas insistimos que eles devem ser tomados na perspectiva adequada. Nosso projeto não é nem detalhar cada passo deste caminho nem se render ao adversário devido à preponderância do poder que ostenta. Nosso projeto consiste em desenvolver a lógica de uma suficiente e necessária transformação da atual ordem e começar a dar os passos intermediários em direção a esse objetivo. Nós o fazemos para pensar mais profundamente nessas possibilidades e, ao mesmo tempo, iniciar o trabalho de reunir aqueles de ideias semelhantes. Se existe algum mérito nesses argumentos, então ele precisa servir para que práticas e visões semelhantes germinem de maneira coordenada em diversos pontos do globo. O ecossocialismo será universal e internacional, ou não será. As crises de nosso tempo podem e devem ser vistas como oportunidades revolucionárias, e como tal temos o dever de afirmá-las e concretizá-las.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Joel Kovel e Michael Lowy&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Paris, Setembro de 2001&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-215875056455114274?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/215875056455114274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=215875056455114274' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/215875056455114274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/215875056455114274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/10/manifesto-ecossocialista.html' title='Manifesto Ecossocialista'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-2803989021585700059</id><published>2009-09-07T19:15:00.012-03:00</published><updated>2010-01-30T23:54:31.894-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Socialismo'/><title type='text'>Por que o socialismo?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não, este não é o texto de Einstein, cuja tradução já foi postada aqui em &lt;a href="http://utopiaconcreta.blogspot.com/2008/05/por-que-o-socialismo.html"&gt;outra oportunidade&lt;/a&gt;. Este é original. Creio que já esteja mais do que na hora de eu fazer uma pausa nos estudos acadêmicos e dedicar algumas linhas à difícil tarefa de explicitar minhas convicções pessoais a respeito do socialismo, para que os leitores tenham uma ideia melhor de como pensa e no que acredita esse pobre mortal que vos escreve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há dúvidas de que a palavra socialismo provoque calafrios em muitas pessoas, e faça com que outras tantas se encham de ódio. As razões para isso são muitas, e envolvem uma série de questões e eventos históricos, para não dizer interesses particulares, mitos e generalizações. Entretanto, eu não sou uma dessas pessoas.&lt;br /&gt;Desde que aprendi a enxergar o mundo além da névoa da infância e passei a prestar atenção no que acontece à minha volta, passei a me questionar sobre o funcionamento de nossa sociedade, e sobre por que as coisas são assim. Com uma década e meia de vida, dei-me conta de que o mundo real era muito diferente do que deveria - e poderia - ser. Por que algumas pessoas são ricas e outras pobres? Por que existem países onde eletrodomésticos quase novos são descartados para dar lugar a novos, enquanto há outros em que a grande maioria das pessoas não sabe se terá um prato de comida na mesa no dia seguinte? Como podem as pessoas mais ricas ser tão indiferentes e encarar com tanto desprezo a miséria alheia? Por que um país potencialmente tão rico, capaz de produzir comida e bens em fartura, é incapaz de superar a fome e a miséria de tantos de seus cidadãos? Por que nem todos têm voz na televisão? O que leva o dinheiro a ser mais valorizado do que o caráter e até do que a vida? Por que nossa sociedade prefere destruir o planeta buscando o conforto e a riqueza imediatas a garantir que as futuras gerações tenham oportunidade de também viver digna e confortavelmente? E acima de tudo: o que leva os seres humanos a prejudicar, enganar, hostilizar, oprimir e se aproveitar de seus semelhantes, sobretudo os fracos e indefesos?&lt;br /&gt;Essas e outras tantas perguntas, e a busca por respostas, fizeram-me ter a curiosidade de conhecer mais a fundo os comos e porquês de nosso mundo, nossa sociedade, nossa civilização. Por que o mundo é do jeito que é? Poderia ser diferente?&lt;br /&gt;Foi procurando respostas que encontrei alento nos princípios e ideais norteadores do socialismo. Não, leitor: não foi por mera rebeldia juvenil, nem por idolatria a um líder em particular. Passei a me declarar de esquerda por convicção, pela mais pura convicção de que o mundo pode, e deve, ser diferente. Pela convicção de que, sendo os grandes problemas da Humanidade originados pela própria Humanidade e por sua maneira de se organizar coletivamente, é possível que nós seres humanos superemos essas grandes mazelas mudando nosso comportamento em relação a nós individualmente, aos outros seres humanos e ao planeta em que vivemos.&lt;br /&gt;Isso não significa que não tenha caído em armadilhas da juventude ou da mera ignorância. Confesso que já idolatrei Che, já acreditei que os regimes stalinista e maoísta representavam um exemplo a ser seguido, já pensei em fundar uma guerrilha para tentar tomar o poder no Brasil. Impulsos dos meus quinze ou dezesseis anos, facilmente superados com um pouco de razão. Mas esses não foram os únicos pecados que cometi. Também confesso que já li a Veja, já acreditei em tudo o que William Bonner dizia, já pensei que o MST era um bando de desocupados, ou que para acabar com a violência era preciso acabar com os favelados. Pensamentos típicos de um pré-adolescente de classe média, que ainda não havia começado a se perguntar sobre os porquês do mundo. Mais uma vez, a crítica e a razão me salvaram.&lt;br /&gt;Passaram-se alguns anos (seis, para ser preciso) desde que os princípios socialistas foram incorporados ao meu coração e à minha mente. Meu pensamento pode ter mudado um pouco de lá para cá, mas minhas convicções e meus princípios não. Posso ter amadurecido, como qualquer pessoa normal o faz no fim da segunda década de vida, mas amadurecer não significa, de maneira nenhuma, aceitar o mundo como ele é. Agora é hora de refazer a pergunta que dá título a esse texto até agora um tanto autobiográfico: por que o socialismo?&lt;br /&gt;Antes dessa pergunta, é necessário que haja outra: o que é socialismo? No que se baseiam seus princípios e seus ideais?&lt;br /&gt;O socialismo teve origem na busca por uma sociedade diferente, justa e livre da miséria, da opressão e de tudo aquilo que colocava os seres humanos uns contra os outros e beneficiava minorias às custas do sofrimento das maiorias. Desde o momento em que surgiu a desigualdade social, os que estão no topo têm feito de tudo para justificar sua posição privilegiada e a consolidação de seus interesses. Passados milhares de anos, com a industrialização, as diferenças entre ricos e pobres se tornaram tão escandalosas que muitos, incluindo operários, pensadores e até mesmo alguns industriais, perceberam que a sociedade precisava se estruturar de outra forma, para o bem de seus cidadãos mais pobres, cada vez mais sacrificados em nome do lucro de uma minoria. E foi assim que surgiu o socialismo: como uma proposta de sociedade diferente, que levasse em consideração as necessidades de todos e o bem comum, que fomentasse a solidariedade e o altruísmo.&lt;br /&gt;Nisso consistem os ideais socialistas. Na busca pelo bem comum, por uma sociedade justa e que distribua seus frutos de maneira menos desigual, garantindo a todos condições dignas de vida. No uso do Estado ou de outra forma de coletividade para garantir direitos básicos a todos e agir segundo o bem comum, e não para beneficiar os negócios dos que estão no topo da pirâmide social – o que, obviamente, implica a restrição em algum grau à liberdade econômica, em nome do bem-estar geral. O socialismo é a consolidação da justiça social, sob o lema “de cada um de acordo com sua habilidade, a cada um de acordo com seu trabalho”. Deveres acompanhados por direitos, e diferenças de renda existindo somente se vantajosas ao bem comum – como estímulo à produtividade e à qualificação. É a sociedade controlando a economia, e não a economia controlando a sociedade. O socialismo significa a libertação do ser humano de suas algemas mentais, políticas, sociais e econômicas, para a construção de uma vida digna e completa, abrangendo as esferas material, familiar, social, ambiental, espiritual, cultural e todas as outras que sejam capazes de proporcionar bem-estar aos seres humanos. A solidariedade e o bem comum substituindo o individualismo e o egoísmo, o indivíduo respeitado como parte do todo e não como um átomo isolado e sem ligação com seus semelhantes. É o fim de preconceitos e de privilégios, o tratamento igual dos indivíduos não importando o sexo, a etnia, a origem, a posição social ou qualquer outra distinção. É, acima de tudo, a transição para uma sociedade nova e completamente diferente, onde o ser humano alcançará um grau de consciência coletiva há muito perdido, e será capaz de viver harmoniosa e confortavelmente sem a existência do Estado ou de qualquer outra instituição reguladora.&lt;br /&gt;Não é preciso dizer que o que saiu da prancheta foi bastante diferente do que está escrito aí em cima. Devido a diversos fatores, as experiências de tentativa de construção de uma sociedade socialista fracassaram. Contribuíram para isso as duras heranças históricas, as circunstâncias extremamente desfavoráveis, a irresponsabilidade e a falta de compromisso para com os ideais socialistas por parte das lideranças e a degradação moral dessas mesmas lideranças. Não me estenderei muito nesse assunto. Toneladas e mais toneladas de papel poderiam ser preenchidas numa tentativa minuciosa de se esmiuçar essa miríade de fatores e questões. Mesmo um trabalho um pouco menos extenso demandaria grande esforço intelectual, além de tempo. Mas isso não é justificativa para que não seja feito - talvez em um futuro próximo, quem sabe...&lt;br /&gt;Por diversos motivos, o sonho de construção de uma sociedade melhor sob o socialismo se converteu em um terrível pesadelo nas mãos de líderes irresponsáveis e tirânicos, que usaram a busca pelo bem comum para alcançar objetivos que poderiam ser interpretados como qualquer coisa, menos como o bem comum. As artes e as ciências foram caladas, os homens (e as mulheres) mais sinceros e idealistas foram perseguidos, tiranos foram idolatrados como deuses e aquele que seria o maior instrumento de libertação do povo, o socialismo, foi substituído por grilhões e correntes que aprisionaram e amordaçaram esse mesmo povo - um pseudo-socialismo que muitos dizem ser o projeto original.&lt;br /&gt;Isso significa que as chamadas "experiências socialistas do século XX" não tiveram nenhum mérito? De maneira nenhuma. Houve pontos positivos que merecem sim ser destacados, apesar de os interesses de nossa mídia e de seus aliados não permitirem que isso seja feito. A construção de uma extensa rede de bem-estar social, com saúde e educação gratuitas e de qualidade, a superação da fome e da miséria e grandes avanços nas ciências. Uma pena que tenham sido acompanhados por regimes autoritários (e, em alguns períodos, verdadeiramente totalitários) e por uma crise que acabou por ofuscar boa parte desses avanços nas décadas finais. Crise essa que não pode ser reduzida, em hipótese alguma, a uma ou duas causas. É tão complexa que demanda outras tantas toneladas de papel. Reduzir as explicações a um mero "o socialismo é assim mesmo e nunca vai funcionar, inevitavelmente sempre entrará em crise" é uma prova não só de grande preconceito, mas também da mais assombrosa estupidez.&lt;br /&gt;Enxergo os regimes que se autoproclamaram socialistas ao longo do século XX como tentativas frustradas de se chegar ao socialismo. Inicialmente foram bem-intencionadas, mas devido a essa miríade de fatores, acabaram por dar origem a regimes opressores e autoritários. Muitos dos ideais iniciais foram abandonados em nome da própria sobrevivência do regime, e outros tantos em nome da mais pura conveniência da classe que passava a mandar, a &lt;em&gt;nomenklatura&lt;/em&gt;. Tudo isso acabou por travar o crescimento e o desenvolvimento dos países ditos socialistas, e a insatisfação popular tratou de implodir tais regimes em alguns lugares do mundo, enquanto disputas étnicas ou intrigas políticas fizeram o serviço em outros cantos do planeta. Os poucos órfãos que sobraram ou tentam desesperadamente se modernizar e abrir suas economias ao capital internacional seguindo o exemplo chinês, ou se refugiam em uma versão tosca de stalinismo.&lt;br /&gt;Mal o Muro de Berlim caíra, e vozes direitistas no mundo todo espalhavam aos quatro ventos que os ideais do socialismo e do comunismo estavam mortos, que o único futuro possível para a Humanidade seria o capitalismo – privatizações, economias desreguladas, ampla liberdade de ação para as empresas, redução ou extinção de direitos trabalhistas – e que qualquer passo dado contra a corrente se revelava um anacronismo total, um retrocesso, uma tentativa de fuga do mundo real. Quase que instantaneamente, defender mais investimentos sociais e menos liberdade de ação para as corporações transnacionais pelo globo se tornou algo “de outro mundo”. Bandeiras vermelhas eram atiradas à lata de lixo da História. Mas é bom lembrar, leitor: a História é escrita pelos vencedores...&lt;br /&gt;Críticos das ideias socialistas por todo o mundo berravam: “eu não disse? Eu não disse?” como se tivessem previsto tudo com meio século de antecedência. A experiência soviética agora era definida pelos grandes meios de comunicação ocidentais não só como uma terrível arma contra a liberdade e contra a democracia, mas também como algo que estava fadado ao fracasso desde o início. Arquivos da KGB e de outras fontes eram revelados, e começaram a chover reportagens pelo mundo denunciando as atrocidades do regime soviético. Enquanto isso, crimes dos ocidentais eram esquecidos, varridos para debaixo do tapete enquanto a plateia mundial se horrorizava com a História soviética recém-revelada – contada pelos ocidentais, é claro.&lt;br /&gt;Tudo aquilo que era associado ao socialismo e ao comunismo foi colocado no mesmo barco. Defender o planejamento econômico e os direitos trabalhistas agora era o mesmo que compactuar com a repressão e os genocídios stalinistas. Defender a coletividade tornou-se o mesmo que ser um tirano, enquanto seguir o livre-mercado virou sinônimo de defender a liberdade humana em todos os sentidos.&lt;br /&gt;Estátuas de Lênin eram retiradas das praças de Moscou, e a poucos metros eram inauguradas lanchonetes fast-food ocidentais. Parecia que os russos e os outros povos que outrora estavam por trás da Cortina de Ferro queriam abandonar seu passado supostamente socialista e se incorporar cada vez mais ao mundo ocidental. Como se quisessem negar seu passado ainda vivo em seu presente.&lt;br /&gt;Afirmavam líderes ocidentais: o socialismo está morto. O mesmo diziam os meios de comunicação de massa. O fracasso econômico da União Soviética, que nunca representara de fato os verdadeiros ideais socialistas e durante toda a sua existência fora limitada pelas duras condições que a História lhe impunha, tornou-se a prova concreta da inviabilidade do socialismo. Seus satélites remanescentes, abandonados como crianças órfãs, eram quase totalmente dependentes da economia soviética – sem ela, e embargados pelo Ocidente, caíram em terríveis crises econômicas. Estas foram intensamente exploradas pela mídia ocidental, como mais uma prova do fracasso das economias socialistas. A China caminhava de volta, em direção ao capitalismo – seu vertiginoso desenvolvimento econômico parecia mostrar ao mundo que esse era o único caminho a seguir. De uma hora para a outra, os crimes de Mao Tsé-Tung foram “perdoados” e apagados da memória ocidental. Afinal, não seria muito bom para a imagem dos líderes dos países “democráticos” realizar vantajosos acordos comerciais com um governo tão terrível.&lt;br /&gt;Passada a tempestade, hora de recolher os cacos. "O que deu errado?" deve ser a pergunta que todo aquele que se declara socialista deve fazer nesses duros tempos de descrédito. Por que a esquerda deve se resignar e aceitar que o individualismo e a competição neoliberais dominem o planeta, se as grandes mazelas do mundo persistem - sendo que foram essas mesmas mazelas que motivaram o surgimento do socialismo ainda no século XIX? Por isso, não há lógica em abandonar os ideais socialistas simplesmente porque os regimes que - supostamente - seguiam sua cartilha fracassaram em atingir seu objetivo. O que é preciso é uma mudança de atitude e de pensamento.&lt;br /&gt;Há entre muitos dos que se dizem partidários do socialismo a ideia de que a transição para ele é inevitável, que não importa o que se faça ou deixe de fazer, um dia a revolução chegará. Falam como se fossem missionários de uma seita apocalíptica, que prega a vinda de um Messias que concederá a alguns a entrada no paraíso e condenará outros à danação eterna. Essa gente deveria ter aprendido a grande lição que a queda do Muro de Berlim nos deixou: o socialismo não é inevitável. Não tem data marcada para chegar, e não basta que um partido que se diz socialista ou comunista chegue ao poder para que o caminho para o comunismo esteja trilhado e sem volta. O socialismo não é inevitável. O socialismo nada mais é do que um projeto, que depende de inúmeros fatores para ter sucesso, dentre eles as circunstâncias nas quais é executado e a competência daqueles que o executam. Mais uma vez: projetos não estão escritos nas estrelas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Também há, entre os socialistas, aqueles que afirmam que a democracia é desnecessária, por ser só uma invenção burguesa para ludibriar o povo. Discordo dos que pensam assim. Por mais que o &lt;em&gt;status quo&lt;/em&gt; tenha inventado maneiras de controlar e limitar as ações do povo em um regime formalmente democrático, isso não pode servir de argumento para que se ponha fim à democracia em uma sociedade socialista. Sob o socialismo, o povo deve estar em primeiro lugar, suas necessidades devem ser consideradas em todos os momentos e para isso é preciso que ele tenha voz e liberdade para protestar. Como levar em consideração os interesses do povo se esse mesmo povo é amordaçado, ou se o governo se encontra sob os desmandos de um líder supremo, centralizador e vitalício? O socialismo não pode ser apenas a sociedade mais justa e igualitária. Deve também ser a mais livre. Um regime autoritário é totalmente incompatível com os princípios socialistas, e o chamado "socialismo real" não pode ser nada além de uma aberração. Aqueles que afirmam que os direitos e as liberdades individuais não têm espaço em uma sociedade socialista, por ser meras invenções burguesas, cometem uma grande injustiça. Injustiça principalmente em relação aos trabalhadores que deram suas vidas para que hoje tivéssemos esses direitos - o de ir e vir, o de se expressar livremente, o de se associar, o de protestar... Deveríamos dar mais valor a esses direitos, conquistados a duras penas por operários, camponeses, estudantes e outros cidadãos comuns. Não leitor, eles não são invenções burguesas. Os burgueses foram obrigados a conceder esses direitos contra a própria vontade, sob pressão popular. Se dependesse só deles, a única liberdade que teríamos seria a econômica, a que permite ao forte subjugar economicamente os mais fracos. E é a isso que os regimes burgueses tendem a se aproximar quando são ameaçados. Chamam os insurgentes de baderneiros, de ameaças à democracia, mas usam essa mesma ameaça para que eles próprios se vejam livres da democracia quando lhes é conveniente. Foi assim com Hitler, foi assim, com os militares brasileiros em 1964, é assim sempre que o &lt;em&gt;status quo&lt;/em&gt; é ameaçado. Uma sociedade socialista não pode se desfazer da democracia de maneira nenhuma, sob nenhuma justificativa. Deve, pelo contrário, aperfeiçoá-la para que chegue muito além da limitada democracia formal que temos hoje, que pode até permitir que os oprimidos gritem, mas não garante que seus clamores sejam ouvidos.&lt;br /&gt;Muitos dos que hoje se dizem socialistas o fazem por pura rebeldia juvenil, por não aceitar meia dúzia de regras que a sociedade lhes impõe e acham que por isso o mundo deve virar de cabeça para baixo. Não pensam, e esse é o grande problema. Em poucos anos, quando amadurecem, abandonam o socialismo e passam a fazer parte do sistema que tanto atacavam - afinal de contas, nunca incorporaram verdadeiramente os ideais socialistas. Vale lembrar que muitos dos mais notórios membros da direita atual já fizeram parte desse grupo de 100% paixão, 0% razão. Outros tantos se dizem socialistas por idolatrar um líder em particular. Stálin, Mao, Fidel, Che... "Infeliz do povo que precisa de heróis", já dizia Bertold Brecht. Muitos deles também pertencem ao outro grupo de pseudoesquerdistas. Podem até não ir à igreja e se dizer ateus, mas ao contrário do que a maior parte deles diz, seguem uma religião. Maoísmo, stalinismo... Cada uma com seus dogmas, suas imagens, seus hereges. E há ainda a esquerda festiva, aqueles picaretas que se dizem progressistas só para aparecer e posar de bonzinhos. A conveniência valendo mais do que a convicção...&lt;br /&gt;Felizmente não pertenço a nenhum desses grupos. Minhas afinidades pelo socialismo passam longe de idolatria cega a um líder e da conveniência política. E se possuem uma boa dose de paixão (esta é sempre necessária em alguma dose, junto com idealismo), ela vem acompanhada pelas convicções mais firmes, na crença na Humanidade e em seu potencial para se transformar e superar seus grandes flagelos.&lt;br /&gt;Acima de tudo, minhas esperanças repousam na razão. Essa dádiva que a natureza nos ofereceu com exclusividade neste planeta permite que sejamos algo mais do que os outros animais. Permite que pensemos, reflitamos, pesemos prós e contras e encontremos soluções para os mais variados problemas. Permite também que façamos julgamentos morais e que superemos preconceitos dos mais variados tipos. É quando essa razão é obscurecida que vemos a intolerância, o fanatismo, a xenofobia e tantos outros horrores evitáveis. O fanatismo, sob qualquer forma, é repugnante. Isso inclui o fanatismo de supostos membros da esquerda.&lt;br /&gt;Foi através da razão que o ser humano aprendeu a controlar o fogo, a fabricar ferramentas complexas, a domar outras espécies e utilizá-las como alimento, transporte ou auxílio no trabalho, a plantar e a colher, a cruzar os mares e os céus, e a construir civilizações complexas. Entretanto, é possível e necessário ir muito além. A razão humana deve ser o instrumento para a construção de uma sociedade racionalmente planejada, projetada para que nenhum de seus membros seja privado de sua dignidade e de seus direitos. Essa sociedade racionalmente planejada deve ser estruturada de tal forma que todos os seres humanos tenham um lar, comida na mesa todos os dias, acesso gratuito a bons serviços de saúde e educação, e um trabalho digno. Deve ser capaz de superar a lei da selva - tal qual a Humanidade aprendeu a fazer em outras esferas - e impedir que os mais fortes oprimam e explorem os mais fracos, que os grandes prevaleçam sobre os menores. Deve garantir que todos os seres humanos sejam tratados com respeito, não importando a etnia, a religião, a origem ou qualquer outro aspecto - afinal, o preconceito surge quando a razão é obscurecida. Essa sociedade nova deve também oferecer boas condições de vida a seus membros, com produtos e serviços de qualidade e em abundância - pois a semente do individualismo é a carestia.&lt;br /&gt;É possível construir uma sociedade assim? Vale mais a pena tentar do que ficar de braços cruzados acreditando que alguma força superior criará um paraíso terrestre de uma hora para outra, ou (pior!) que já vivemos nesse paraíso. Temos recursos suficientes sobre a Terra para isso - basta que eles sejam redistribuídos e aproveitados de maneira justa. Por exemplo, a produção mundial de alimentos hoje é capaz de alimentar satisfatoriamente doze bilhões de pessoas, quase o dobro da população que hoje habita o planeta. No entanto, milhares de seres humanos morrem todos os dias porque não têm o que comer. Isso deveria envergonhar profundamente toda aquela parcela da Humanidade que dorme de barriga cheia. Entretanto, não é isso que acontece...&lt;br /&gt;Como grande parte dos socialistas, li e leio textos "clássicos". Já li Marx. Algumas de suas obras menos extensas, porque acho a leitura de seus textos um tanto cansativa, dado o elevado grau de abstração. Como todo ser pensante, há coisas em suas obras nas quais concordo, e outras das quais discordo. Isso ocorre com outros autores também. O discordar é consequência do pensar, do criticar. Dois indivíduos pensam diferente justamente porque são diferentes - não há seres humanos iguais, nem nunca haverá. Se eu fosse incapaz de pensar criticamente, não faria sentido ler. Não faria sentido existir.&lt;br /&gt;Pessoalmente, não sou muito chegado à teoria socialista. Ainda mais considerando como ela é muitas vezes apresentada, parecendo um dogma. Sempre preferi a História, a trajetória de como essa teoria foi ou não aplicada ao longo das vidas e das experiências dos seres humanos. Eric Hobsbawm, Eduardo Galeano, Moshe Lewin... Algumas de suas obras são meus livros de cabeceira.&lt;br /&gt;Discordo de Marx em diversos pontos, mas isso não me impede de considerá-lo um gênio, um visionário que enxergou algo que ninguém nunca havia enxergado antes: as engrenagens que movem a sociedade e a economia. Penso que a teoria de Marx deva ser complementada, mais do que abandonada, em nossos dias. Tal qual a teoria da evolução de Darwin.&lt;br /&gt;Um desses pontos nos quais discordo de Marx é aquela conhecida frase do final do Manifesto Comunista, que diz: "os trabalhadores nada têm a perder a não ser os seus grilhões". Na verdade temos muito a perder. Temos muito a perder se ficarmos parados, de braços cruzados, vendo a tão-falada economia de mercado fazendo cada vez mais vítimas.&lt;br /&gt;Temos nosso planeta a perder: o capitalismo estendeu seus tentáculos por todo o globo, e vem degradando o meio ambiente de maneira cada vez mais implacável para alimentar a lucrativa cadeia extração-produção-consumo-lixo. As consequências estão por toda parte: rios poluídos, florestas derrubadas, ecossistemas inteiros destruídos, sociedades desagregadas, mares cheios de lixo, espécies animais e vegetais em extinção, atmosfera cada vez mais cheia de poluentes e gases-estufa. As consequências são sentidas no mundo todo, mas a lista de causadores não é tão homogênea: 80% dos recursos do planeta são consumidos e 80% do lixo e da poluição são produzidos pelos 20% mais ricos da população mundial, que vivem no chamado Primeiro Mundo. Isso mostra que nosso modelo de desenvolvimento é finito e, a menos que tenhamos outras quatro Terras disponíveis, inacessível e impraticável pelos 80% excluídos da festa. Mais do que nunca, as riquezas do planeta precisam ser redistribuídas.&lt;br /&gt;Temos a nossa liberdade a perder: o capitalismo segrega. Os quinhentos mais ricos do planeta possuem mais dinheiro do que os três bilhões mais pobres. Em um mundo em que tudo é medido em valores monetários - até a liberdade - isso é um grande problema. Os ricos cada vez mais se abrigam em seus condomínios fechados, verdadeiras fortalezas que tentam separá-los da miséria alheia e de seu produto inevitável - a violência. Além disso, os espaços públicos e os serviços que deveriam ser de todos acabam privatizados, entregues aos poucos felizardos que podem pagar por eles.&lt;br /&gt;Temos, acima de tudo, nossa felicidade a perder: no capitalismo, é bom que nunca estejamos felizes. Sempre devemos estar preocupados ou insatisfeitos com o que temos, pois assim compramos mais. É como se a felicidade viesse embrulhada em papel de presente. Mas a felicidade é fugaz, e cada vez que conquistamos um objetivo, outro maior vira nosso alvo. Na "economia de mercado", onde os objetivos são puramente materiais e tudo o que não pode ser comprado é desprezado, isso gera uma gigantesca cadeia de consumo que leva à compra de cada vez mais produtos supérfluos, cada vez mais lixo e cada vez mais degradação ambiental. E cada vez mais infelicidade. Quanto mais as pessoas têm, mais querem. O ser humano tem naturalmente essa vontade de buscar a felicidade nas mais diversas coisas, mas o capitalismo se aproveitou disso para, através da propaganda, estimular o consumo desenfreado dos indivíduos em busca da felicidade, às custas (quem diria!) da própria felicidade. Os EUA, o grande bastião do capitalismo, não por acaso é o maior consumidor mundial de antidepressivos tanto em número absoluto quanto em número relativo.&lt;br /&gt;Será que o capitalismo será responsável pela aniquilação da Humanidade? Há quem diga que sim, prevendo uma gigantesca catástrofe ambiental causada por nossa irresponsabilidade e por nossa ganância. Mas talvez o capitalismo acabe com si próprio primeiro, graças a suas inevitáveis contradições. Suas crises econômicas cíclicas, sua infinita capacidade de gerar a miséria de muitos para a fortuna de poucos, agora se somam à possibilidade de desastre ambiental, que inviabilizará a produção nos moldes hoje existentes (ou talvez inviabilize a própria Humanidade). Há ainda outra contradição, surgida com a Revolução Tecnocientífica dos anos 1970 e que se acentua cada dia mais: tornou-se mais fácil a difusão de conhecimento e informação, graças principalmente ao advento da internet nos anos 1990. Se antes a produção intelectual e artística alimentava o capitalismo - era preciso fabricar e vender discos, CDs, filmes, programas, livros, etc - , hoje boa parte do que é produzido está disponível gratuitamente na internet. Todo o filão dos direitos autorais está gravemente ameaçado, e já há quem pressione para um salto qualitativo, uma nova forma de organização que distribua a informação sem esses atravessadores. Além disso, iniciativas de cooperação na internet (wikipedia, blogs, etc) e nos próprios programas de computador (Linux) colocam em xeque a ideia difundida pelo capitalismo de que a competição é sempre a maneira mais eficiente e produtiva de se alcançar um objetivo.&lt;br /&gt;Por tudo isso, ainda retenho fortemente minhas convicções socialistas. Creio que apenas uma sociedade racionalmente planejada será capaz de superar os imensos desafios que essa lei da selva covarde e degradante chamada capitalismo tem imposto à Humanidade. Acredito que só uma grande mudança na maneira como nossa civilização está estruturada permitirá que nós e nossos descendentes tenhamos uma vida digna. Só uma sociedade planejada é capaz de garantir que os recursos de nosso planeta sejam melhor aproveitados e distribuídos pela sociedade, e que esses mesmos recursos serão preservados para as futuras gerações - ambas as iniciativas são indissociáveis, e tentar realizar uma só separadamente é insuficiente e impraticável. Só a razão e o planejamento permitirão que as ideias e as descobertas científicas sejam aproveitadas da melhor maneira possível, visando não o lucro, mas o bem-estar geral. Algumas tecnologias, como a manipulação genética, podem ser um grande perigo se realizadas com fins puramente mercadológicos.&lt;br /&gt;Acima de tudo, creio que a transformação para essa sociedade diferente, justa e planejada é possível e necessária. E que ela pode e deve ser feita de maneira democrática, através da conscientização e da mobilização das massas. O povo humilde e trabalhador, que deve ser o maior interessado na construção desse novo mundo, deve ser encorajado a participar ativamente das mudanças, e não como massa de manobra. As massas devem pensar por conta própria, e todo esforço no sentido de estimulá-las a sair da inércia é bem-vindo - até mesmo um simples texto escrito em um blog perdido por aí, como é esse caso, pode ajudar.&lt;br /&gt;E é por essas razões, por essa convicção de que o verdadeiro potencial do socialismo nunca foi verdadeiramente aproveitado, e de que é cada vez mais necessário fazê-lo, que escrevi esse texto. É também por essas razões que criei esse blog. É essa convicção que me dá ânimo nos momentos difíceis, que me encoraja a melhorar a cada dia, a lutar por aquilo que acho certo e a não tolerar injustiças. Declaro-me comunista, não porque desejo uma insurreição armada ou violenta que derrube a ordem estabelecida, mas porque creio até o fim que é possível realizar grandes mudanças por meio de uma grande revolução pacífica que altere enormemente o &lt;em&gt;status quo&lt;/em&gt;, mas preservando a liberdade e a dignidade de todos os seres humanos. Vejo o socialismo como um projeto de grande potencial se bem executado, capaz de eliminar para sempre da face da Terra a grande maioria das mazelas que hoje afligem a Humanidade e de dar a todos os seres humanos uma vida plena em todas as esferas, com a ascensão de uma sociedade erguida sobre os pilares da solidariedade, do altruísmo e da justiça social - o comunismo. Mas não vejo o comunismo como um fim. Vejo-o apenas como um meio - ainda que o único meio possível - de a Humanidade alcançar o fim máximo a que deve se propor: o bem-estar de todos os seus membros.&lt;br /&gt;Basicamente, é nisso que acredito. Essa é minha resposta para a pergunta-título: "por que o socialismo?".&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-2803989021585700059?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/2803989021585700059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=2803989021585700059' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2803989021585700059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2803989021585700059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/09/por-que-o-socialismo.html' title='Por que o socialismo?'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-6521250085064490775</id><published>2009-08-22T14:56:00.004-03:00</published><updated>2009-08-22T15:05:33.677-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><title type='text'>A história de um pai que cancelou a assinatura da revista Veja</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ando ocupado com minhas questões acadêmicas, e por isso este espaço anda meio parado. Para quebrar o marasmo, aí está um texto interessante que encontrei na internet. Não é de minha autoria, e sim de um aluno da Universidade Federal de Pernambuco (embora não haja 100% de certeza sobre a autoria). Creio que esse tipo de coisa precise acontecer em mais lares brasileiros. O texto segue abaixo:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"A VEJA E O MEU PAI&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por Roberto Efrem Filho*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Texto publicado na Revista Brasil de Fato (19.06.2008)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje, dia 10 de junho do ano de 2008, foi o dia em que meu pai cancelou a renovação da Revista Veja. É bem verdade que há fatos históricos um tanto quanto mais importantes e você deve estar se perguntando “o que cargas d’água eu tenho a ver com isso?”. Não é nenhuma tomada de Constantinopla, queda da Bastilha ou vitória da Baia dos Porcos. É um ato de pequenas dimensões objetivas, realizado no espaço particular de uma família de classe média brasileira, sem relevantes conseqüências materiais para as finanças da Editora Abril, sem repercussões no latifúndio midiático nacional. A função deste texto, portanto, é a de provar que meu pai é um herói.&lt;br /&gt;A Revista VEJA se diz assim: ”indispensável ao país que queremos ser”. Começa e termina com propagandas cujo público alvo é a classe média e, nela, claro, meu pai. Banco Bradesco, Hyundai, H. Stern. Pajero, Banco Real, Mizuno. Peugeot, Aracruz, Nokia. Por certo, a classe média – inclusive meu pai – dificilmente terá acesso à grande parte dos bens expostos na vitrine de papel. Não importa. Mais do que o produto, a VEJA vende o anseio por seu consumo. Melhor: credita em seu público-alvo, a despeito de quaisquer probabilidades, a idéia de que ele, um dia, chegará lá.&lt;br /&gt;Logo no comecinho, na terceira e quarta folhas, estão as páginas amarelas da Revista. Nelas, acham-se as entrevistas com personalidades tidas como renomadas e com muito a dizer ao país. Esta semana a VEJA apresenta as opiniões de Patrick Michaels (?), climatologista norte-americano que afirma a inexistência de motivos para temores com o aquecimento global. Na semana passada, deu-se voz ao “jovem herói” Yon Goicoechea (?), um “líder” estudantil venezuelano oposicionista de Chávez e defensor da tese de que a ideologia deve ser afastada para que a liberdade seja conquistada contra o regime “ditatorial” chavista.&lt;br /&gt;Não. Não é que a VEJA não conheça o aumento dos níveis dos mares, dos números de casos de câncer de pele, do desmatamento da Amazônia, da escassez da água e dos recursos naturais como um todo e de suas conseqüências na produção mundial de alimentos. Sim, ela conhece. Não. Não é que ela não saiba que um estudante não representa sozinho o posicionamento democrático de uma nação e que um governo legitimamente eleito não pode ser chamado de totalitário. Sim, ela sabe. Do mesmo modo que conhece e sabe da existência de diferentes opiniões (ideológicas, como tudo) sobre ambosos assuntos e não as manifesta. Acontece que isso ela também vende: o silêncio sobre o que não é lucrativo pronunciar.&lt;br /&gt;Do meio pro final da Revista estão os casos de corrupção. Esta é a parte do “que vergonha, meu filho, quando isso vai parar?” dito pelo meu pai, com decepção na voz. A VEJA desenvolve um movimento interessante de despolitização nesse debate. Ela veste o figurino do combatente primeiro da corrupção, aquele sujeito que desvendará as artimanhas, denunciará os ladrões e revelará “a” verdade, única, inabalável. Com isso, a VEJA confere centralidade à corrupção no debate político, transformando a política em caso de polícia e escondendo o fato de que o seu próprio exercício policialesco é inerentemente político.&lt;br /&gt;No fim, “todo político é ladrão” – menos os do PSDB, claro, todos “intelectuais” -, “política não presta”, o que presta mesmo é a Revista VEJA. A Revista é ainda permeada por textos de cronistas e colunistas. Estão, entre seus autores, Cláudio de Moura Castro, Lia Luft e Roberto Pompeu de Toledo. Todos dignos do título de “cidadão de bem”, conscientes e responsáveis. Evidentemente, todos de posicionamentos um tanto moralistas e um tanto conservadores. Difere-se deles Diogo Mainardi. Este, conhecido por chamar o Presidente da República de “minha anta” e por sua irreverência desrespeitosa e direitista, escancara a alma da VEJA. Mas não se engane. Não é Mainardi o perigo. São os outros.&lt;br /&gt;Foram eles que meu pai um dia leu com respeito e é aquela auto-imagem que a VEJA quer – como tudo – vender. Sem dúvida a Revista VEJA é ainda mais que isso. Suas estratégias de persuasão vão muito além dos limites deste breve texto. Afinal, é ela a revista mais lida no país, parte significativa de um império da concentração do poder de informar. Seja nas suas “frases da semana”, nas quais há de costume as fotografias de uma mulher bonita dizendo bobagem e de um homem-autoridade falando coisa inteligente e importante, seja no fetiche da citação “eu li na VEJA”, faz-se ela um dos mais eficazes instrumentos de convencimento a favor da classe dominante.&lt;br /&gt;Meu pai, por sua vez, é um trabalhador. Casado com Fátima, minha mãe, e pai também de Rafael, criou seus filhos com princípios que ele preserva como inalienáveis. Já votou no PT. Já votou no PSDB e mesmo no PFL (“porque foi o jeito, meu filho!”). Opõe-se a qualquer tipo de ditadura (conceito no qual incluía até pouco tempo o governo de Chávez: coisas da VEJA). Já se disse socialista, na juventude. É praticante da doutrina espírita desde menino. Discorda de mim em milhares de coisas. Concorda noutras. É um bom e sonhador homem com quem eu quero sempre parecer.&lt;br /&gt;Hoje, ele cancelou a renovação da Revista VEJA, aquilo que para ele já foi seu meio de conhecimento do mundo, depois de chamar de “idiota” a entrevista daquele herói das páginas amarelas sobre o qual falei acima. Antes, havia criticado fortemente um artigo de Reinaldo Azevedo publicado na Revista, em que Azevedo falava atrocidades sobre Paulo Freire: “meu filho, veja que besteira esse homem está dizendo sobre Paulo Freire”. Hoje, ele operou uma mudança nesta realidade tão acostumada à perpetuação do estabelecido. Hoje, para o mundo, como em todos os dias da minha vida para mim, meu pai é um herói."&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;*Roberto Efrem Filho é mestrando em direito pela UFPE e filho de “Roberto Efrem”, a quem dedica este artigo&lt;br /&gt;Fonte: &lt;a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/a-historia-de-um-pai-que-cancelou-a-assinatura-de-uma-revista/" target="_blank"&gt;http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/a-historia-de-um-pai-que-cancelou-a-assinatura-de-uma-revista/&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-6521250085064490775?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/6521250085064490775/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=6521250085064490775' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6521250085064490775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6521250085064490775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/08/historia-de-um-pai-que-cancelou.html' title='A história de um pai que cancelou a assinatura da revista Veja'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1294062169213395519</id><published>2009-08-02T14:47:00.009-03:00</published><updated>2009-08-02T17:20:25.871-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>O lixo contra-ataca</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Antes que minhas férias acabem, quero voltar à temática do lixo. Não o lixo hollywoodiano, do post anterior, mas o lixo concreto do post antes dele. Como afirmei na ocasião, não é só o Brasil que vira destino do lixo alheio. Mas é preciso chamar a atenção para o fato de que a terra firme não é a única parte do planeta que sofre com o despejo de lixo global. Nos oceanos talvez estejam as principais vítimas da globalização desse modelo de sociedade consumista e insustentável. Insustentável justamente porque sua existência gera graves consequêencias para as mais diversas espécies do planeta e, caso ainda não tenhamos percebido, nós também nos incluímos nessa infeliz categoria. O principal vilão da vida marinha é certamente o plástico - maravilha do século XX, produto maleável, flexível, multiuso, resistente... Ideal para produtos descartáveis, cada vez mais difundidos por essa sociedade de consumo em massa e de produção de lixo em massa. Entretanto, ainda que sirva de embalagem para produtos que serão consumidos uma vez e talvez por poucos segundos, o plástico tem vida longa. Muito longa... Um pedaço de plástico pode levar três séculos para se decompor. E por mais que não pareça para os viciados em produtos descartáveis, isso é um problema sério... Poucos sabem, mas os oceanos do planeta estão seriamente poluídos por plástico, grande parte dele produzida em consumida em terra firme. Uma região em particular já sofre os terríveis efeitos disso em uma escala assustadora. Considerada a maior concentração de lixo do planeta, ela tem o carinhosos apelido de vórtice do lixo. É uma região do Oceano Pacífico, confluência de correntes marinhas. Como todo indivíduo que estudou Geografia deve saber, uma corrente marinha é uma espécie de rio dentro do mar, um fluxo constante de água que sai de um ponto do planeta e segue em direção a outro. Algumas correntes marinhas desembocam nesse vórtice do Pacífico, como se fossem correntes de ar que se unem para formar um grande redemoinho eterno. Entre essas correntes está a que passa pela California e por boa parte do resto do litoral oeste da América do Norte, trazendo todoo lixo que é despejado naquelas águas. Considere que a Califórnia é uma das regiões mais ricas dos EUA e que a produção de lixo está diretamente relacionada ao consumo e à riqueza. Creio que seja possível imaginar a quantidade de lixo que acaba indo para o grande vórtice do Pacífico. E como é um redemoinho permanente, o lixo que por ventura é tragado para aquela região fica por lá. Até ser decomposto - o que pode levar trezentos anos... Todo o plástico despejado no norte do Pacífico desde seu advento foi parar no vórtice do lixo, e hoje forma uma camada de dez metros de profundidade naquela extensa região, e em outro vórtice irmão, um pouco menor, a oeste, perto do Japão - outro grande produtor de lixo. Marinheiros que cruzam a região se assustam com a enorme quantidade de lixo plástico boiando em pleno alto-mar. Em alguns pontos, há seis vezes mais lixo do que plâncton. E quando a imensa mancha de lixo toca algum ponto da costa da América do Norte, as praias amanhecem cobertas por resíduos plásticos. Como se não bastasse todo o lixo que já está lá, a quantidade de lixo lançada a cada dia não pára de crescer. Lixo é lançado nos mares do mundo todo, mas é bom lembrar que os EUA produzem nada menos que 30% dos resíduos do planeta - mesmo sendo habitados por menos de 5% da população mundial. &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXv3xf5QTI/AAAAAAAAAG4/ARf3f4Ip9FQ/s1600-h/op22.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXxDIgxE9I/AAAAAAAAAHY/WU9JsvwurOs/s1600-h/op22.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 222px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5365459567208633298" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXxDIgxE9I/AAAAAAAAAHY/WU9JsvwurOs/s400/op22.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O VÓRTICE DO LIXO, NO OCEANO PACÍFICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem são os que mais sofrem com a quantidade crescente de lixo boiando nos mares? Os animais que lá vivem. Por todo o mundo, mas principalmente nas regiões próximas aos grandes acúmulos de lixo nos mares, não é difícil encontrar animais mortos cheios de &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=FinDNPopXQY"&gt;lixo em seus estômagos&lt;/a&gt;. Aves marinhas, peixes, tartarugas... Todos eles comem plástico acreditando que são suculentos pedaços de comida - são incapazes de diferenciar uma coisa da outra. Como resultado, entulham seus estômagos com pedaços de plástico. Sem espaço para comida ou água, morrem de inanição ou de desidratação. Como se não bastasse, o plástico pode atuar absorvendo uma enorme variedade de venenos e outras substãncias tóxicas, e os animais que não morrem de fome ou sede acabam perecendo intoxicados. Acredita-se que um milhão de aves marinhas morra todos os anos por causa do lixo - segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXw14Y7z0I/AAAAAAAAAHQ/UC1JeM0OShE/s1600-h/op51.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 222px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5365459339542515522" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXw14Y7z0I/AAAAAAAAAHQ/UC1JeM0OShE/s400/op51.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;NAS REGIÕES COSTEIRAS PERTO DESSES MARES POLUÍDOS, NÃO É DIFÍCIL ENCONTRAR ESQUELETOS DE AVES RECHEADOS DE LIXO, COMO ESSE POBRE ALBATROZ.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXwvTl3RWI/AAAAAAAAAHI/DNVHZts3CiU/s1600-h/op41.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 222px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5365459226585417058" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXwvTl3RWI/AAAAAAAAAHI/DNVHZts3CiU/s400/op41.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; TODO ESSE LIXO PLÁSTICO FOI RETIRADO DO ESTÔMAGO DO ALBATROZ AÍ DE CIMA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXwbFqR8OI/AAAAAAAAAHA/YoP99CrruS0/s1600-h/op31.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 250px; DISPLAY: block; HEIGHT: 150px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5365458879248462050" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXwbFqR8OI/AAAAAAAAAHA/YoP99CrruS0/s400/op31.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;O PLÁSTICO NÃO FAZ MAL AOS ANIMAIS SÓ QUANDO ELES O COMEM. ESSA POBRE TARTARUGA, POR EXEMPLO, FICOU PRESA A ESSE ARO DE PLÁSTICO QUANDO AINDA ERA FILHOTE. ELA FOI CRESCENDO E, APESAR DE TODAS AS MARAVILHOSAS PROPRIEDADES DO PLÁSTICO, ELE NÃO CRESCEU JUNTO E ACABOU POR DEFORMAR O ANIMAL. ESSE TIPO DE TRAGÉDIA VEM SE TORNANDO CADA VEZ MENOS RARO.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;O vórtice de lixo e suas consequências são apenas mais uma das inúmeras provas à nossa volta de que o modelo de sociedade em que vivemos é insustentável. Nosso conforto é obtido às custas do sofrimento de outras espécies. Se as autoridades decidissem dar um destino mais nobre ao lixo, reciclando-o ou degradando-o de modo que ele não produza as nefastas consequências que vemos hoje, certamente isso encareceria muitas matérias-primas que hoje estão disponíveis a preços baixíssimos - o plástico, por exemplo. E isso entraria em conflito com os interesses dos que produzem e vendem produtos plásticos, ameaçando seus lucros. E como em nossa sociedade de consumo os interesses próprios sempre se sobrepõem aos coletivos, os grupos econômicos que dominam o cmércio e a produção de produtos plásticos fazem forte pressão para evitar tais medidas regulatórias e que ferem seus interesses - mesmo que isso tenha graves consequências para o meio ambiente. Haja vista a reação dos produtores de sacolas plásticas contra tentativas de impor regras para sua produção. Sacolas mais grossas (que tornam possível sua reciclagem) e biodegradáveis são consideravelmente mais caras, e sua adoção seria prejudicial às indústrias que produzem as sacolas plásticas. Isso é só um exemplo. Já existe tecnologia para diminuir o impacto de nossa produção industrial sobre o meio ambiente - plásticos biodegradáveis, carros elétricos, técnicas de reciclagem, energias alternativas... Mas tudo isso é inútil se não for adotado na prática. E essa adoção não ocorre justamente porque fere os interesses daqueles poderosos que perderiam caso uma sociedade mais sustentável e menos ambientalmente agressiva fosse adotada. E, obviamente, isso acontece porque, no modelo de sociedade estruturado ao longo dos últimos séculos, os interesses privados dos que possuem dinheiro prevalecem sobre todos os outros - incluindo as necessidades das maiorias e a preservação do planeta.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não sejamos arrogantes. Mesmo com nossa capacidade cognitiva superior, nós humanos não temos direito de destruir os habitats e as vidas das outras espécies em nome do nosso conforto. Infelizmente os grandes grupos econômicos não pensam assim. A cada dia que passa, a Humanidade se aproxima do momento em que terá que fazer uma difícil decisão: ou preserva o planeta e a si própria abrindo mão dos lucros, ou preserva os lucros e... Bom, as imagens acima dão uma pequena ideia do que pode ocorrer com o planeta se escolhermos a segunda opção. Os grandes grupos econômicos já fizeram sua escolha há muito tempo. Talvez esteja na hora de nós fazermos também a nossa, e evitar que eles decidam por nós...&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1294062169213395519?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1294062169213395519/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1294062169213395519' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1294062169213395519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1294062169213395519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/08/o-lixo-contra-ataca.html' title='O lixo contra-ataca'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SnXxDIgxE9I/AAAAAAAAAHY/WU9JsvwurOs/s72-c/op22.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-2440854302817396849</id><published>2009-08-01T23:13:00.003-03:00</published><updated>2009-08-02T00:53:29.796-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><title type='text'>Sobre caubóis e alienígenas: como Hollywood impõe sua visão de mundo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A cena é sempre a mesma... De um lado, os nativos com sua tecnologia primitiva, primeiros habitantes do território e que até então se julgavam os únicos a viver no local. Do outro, os recém-chegados, portando armas muito superiores tecnologicamente. O choque de culturas instantânea e inevitavelmente descamba para um conflito armado. Qual lado vence? Ora, o lado em que estão os "mocinhos americanos", obviamente.&lt;br /&gt;A fórmula acima é infalível. Nos filmes-tragédia que mostram uma hipotética invasão alienígena - sempre com milhões de dólares torrados em efeitos especiais, como explosões catastróficas - os mocinhos são os americanos, que lutam o filme todo para vencer os vilões alienígenas e no final expulsam os invasores de nosso planeta, salvando toda a Humanidade. Ao fundo, tremula a bandeira de listras e estrelas.&lt;br /&gt;Já nos filmes de faroeste, são os americanos que fazem o papel de invasores. Mas isso não os impede de aparecer como mocinhos. As cenas mostram os pobres colonos covardemente atacados por índios hostis. Na mesma hora, os mocinhos sacam seus winchesters e disparam contra os índios maus, salvando os colonos de mais um ataque. Ao fundo, tremula a bandeira de listras e estrelas.&lt;br /&gt;Hollywood se tornou mestra em imprimir valores típicos estadunidenses em seus filmes - muitas vezes de maneira tendenciosa e explícita. Isso não seria problema se os únicos espectadores dos filmes de lá fossem os próprios cidadãos estadunidenses. Só que Hollywood e os EUA são economicamente ricos, e exportam sua cultura para o mundo todo - de maneira unilateral. É vendo filmes produzidos em Hollywood que as crianças do mundo todo aprendem que muçulmanos são terroristas, índios são maus, comunistas comem criancinhas e o mundo pode estar sob ameaça extraterrestre iminente.&lt;br /&gt;O tratamento que Hollywood concede aos comunistas merece destaque. Não há um filme sequer, pelo menos entre os de bilheteria no mínimo mediana, que não mostre os comunistas como os grandes vilões dispostos a acabar com a Humanidade. Não se poderia esperar nada muito diferente de um país que se engajou tão comprometidamente na missão de combater um regime que se dizia socialista e atrapalhava bastante os planos geopolíticos estadunidenses - disfarçados por trás das máscaras de "liberdade e democracia" - mas Hollywood exagera. Rocky Balboa, Rambo, James Bond... Todos eles fizeram carreira lutando contra comunistas nas telas dos cinemas. A última "mensagem subliminar" anticomunista que vi foi uma foice e um martelo tatuados no pescoço do vilão de uma das sequências de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Velozes e Furiosos&lt;/span&gt;. Mas mensagens subliminares não são novidade. O filme "&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Eu, Robô&lt;/span&gt;" é uma grande mensagem subliminar anticomunista. Mesmo que os regimes de inspiração soviética não tenham sido lá grande coisa perto do que pretendiam, e mesmo que na prática as liberdades individuais fossem duramente cerceadas naqueles países, seria justo demonizá-los dessa forma? Por que não abordar a questão imparcialmente e sem propaganda ideológica? Dois bons filmes que vi (e não são de Hollywood), &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Labirinto do Fauno&lt;/span&gt; (México) e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Vermelho Como o Céu&lt;/span&gt; (Itália), longe de endeusar os comunistas, pelo menos não os demonizam com mensagens subliminares. É possível fazer bons filmes sem fazer propaganda anticomunista, caso Hollywood ainda não tenha percebido. Quem conta um só lado da História dificilmente pode ser chamado de democrático...&lt;br /&gt;Bom, a "inspiração" para que eu escrevesse esse texto foi um livro que li nas férias (as férias são boas oportunidades para ler livros e assistir a filmes, quando a preguiça permite), chamado &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Enterrem Meu Coração na Curva do Rio&lt;/span&gt;, escrito por Dee Brown e publicado em 1970. É uma obra original porque conta a História da conquista do oeste dos EUA sob o ponto de vista dos nativos. Na introdução, o autor narra algumas passagens de sua infância - obviamente, assistindo a filmes de faroeste. E ele costumava assistir aos filmes acompanhado por um amigo descendente de índios. Curiosamente, o pequeno pele-vermelha torcia de maneira vibrante para os mocinhos caras-pálidas toda vez que eles combatiam os índios. "Por que você não torce para os índios?" - Dee Brown perguntou. "Não são índios de verdade!" - respondeu o pequeno índio...&lt;br /&gt;Não são índios de verdade, definitivamente. Hollywood fabrica índios de mentira, muçulmanos de mentira, vilões de mentira... Tudo para satisfazer a demanda hollywoodiana por alvos para os mocinhos - que podem até ser de mentira, mas são vistos como se fossem de verdade. O pior de tudo isso é que todos esses filmes também imprimem valores - de verdade - nas mentes das crianças e dos adolescentes por todo o mundo, que crescem viciados em Coca-Cola e McDonalds, desfilam por aí com roupas contendo a bandeira dos EUA, sonham em ter os caros e poluidores carros estadunidenses na garagem e acham que não há programa turístico melhor do que fazer compras em Nova York. Como se nada fora dos EUA tivesse valor.&lt;br /&gt;Não se trata de xenofobia contra o povo dos EUA. Os estadunidenses não têm culpa do conteúdo dos filmes produzidos em seu país. A grande questão é que, devido a sua onipresença, os filmes estadunidenses só contam um lado da História. E além disso, imprimem aos espectadores pelo mundo traços culturais típicos dos estadunidenses, como o culto à violência, ao dinheiro e a uma suposta liberdade que muitas vezes é negada aos outros cidadãos - ou, nos EUA, sub-cidadãos.&lt;br /&gt;Eis aqui algo que raramente aparece nos arrasa-quarteirões de Hollywood: a questão dos imigrantes. Os atuais habitantes dos EUA em geral desprezam os imigrantes - na maioria das vezes latino-americanos. Estes sõ tratados como seres inferiores, relegados aos piores empregos, e aos menores salários. Não raro, são vítimas de xenofobia, acusados de "poluir a América". Ao contrário do que aparece nos filmes, os EUA não estão de braços abertos para todos aqueles que sonham com o conforto que aparece nos mesmos filmes. Como é possível uma nação que foi construída por imigrantes - puritanos da Grã Bretanha, irlandeses pobres, italianos e alemães fugindo da miséria e da guerra, entre tantos outros - esquecer seu passado e desprezar os que hoje entram em suas fronteiras? Um paradoxo ainda maior se considerarmos que os imigrantes latinos são uma força de trabalho cada vez maior e da qual dependem cada vez mais os EUA.&lt;br /&gt;Não tenho, obviamente, a intenção de fazer ninguém deixar de assistir aos filmes de Hollywood depois de ler esse texto. Só o escrevi para mostrar que o mundo não é exatamente do mesmo jeito que as telas de cinema pintam. Nem sempre o mocinho é realmente bom. Talvez ele seja o verdadeiro vilão da estória. Os índios que o digam...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-2440854302817396849?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/2440854302817396849/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=2440854302817396849' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2440854302817396849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2440854302817396849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/08/sobre-caubois-e-alienigenas-como.html' title='Sobre caubóis e alienígenas: como Hollywood impõe sua visão de mundo'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7471254699011247052</id><published>2009-07-24T13:07:00.002-03:00</published><updated>2009-07-24T14:07:00.140-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>A globalização da sujeira (ou a sujeira da globalização)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma notícia ecoou com força nos noticiários brasileiros essa semana: um carregamento de lixo tóxico foi enviado em contêiners da Inglaterra para o Brasil de maneira ilegal, "disfarçado" como material para reciclagem (polietileno e outros resíduos plásticos). Em vez de material a ser reciclado por empresas brasileiras, os 90 contêiners continham 1200 toneladas de lixo tóxico no total, contendo fraldas usadas, seringas, camisinhas, banheiros químicos, pilhas e outros materiais que, além de ser impossíveis de se reciclar, são perigosos e capazes de disseminar doenças. O governo brasileiro anunciou que irá mandar os contêineres de volta, e os britânicos prenderam três suspeitos de realizar essa que sem dúvida alguma foi uma ação criminosa, já que não contou com o consentimento do governo brasileiro e poderia, em tese, causar sérios danos e contaminações aos brasileiros. Mas a questão revela um lado obscuro da globalização, que não costuma ser festejados por aqueles que vivem alardeando que "o mundo já não tem fronteiras": a máfia internacional do lixo.&lt;br /&gt;Isso não quer dizer, de maneira nenhuma, que o comércio de lixo seja totalmente ilegal ou nocivo. Pelo contrário: ele é até desejável em alguns casos. A China, por exemplo, importa boa parte do lixo plástico do Ocidente, para reciclá-lo e transformá-lo em novos produtos - ainda que para isso seja usada mão-de-obra barata e as condições de trabalho não sejam ideais, mas isso é muito mais relacionado aos métodos usados nessa reciclagem do que à reciclagem em si. Da mesma forma, países incapazes de descartar adequadamente determinadas formas de lixo costumam vendê-lo a empresas estrangeiras capazes de reciclá-lo ou descartá-lo sem danos ao meio ambiente ou aos cidadãos. Entretanto, como toda modalidade de comércio, a compra e venda de lixo também tem aqueles que operam por meios ilegais - e, nesse caso, isso é um grande problema.&lt;br /&gt;Nada contra quem exporta lixo a preços justos para uma empresa estrangeira capaz de reciclá-lo e dar um destino adequado a ele, mas há muitas empresas que preferem outros caminhos: vendem lixo não para que ele possa ser reciclado ou evitar que ele ofereça riscos às pessoas, mas para que ele se acumule no território alheio. E os principais importadores de lixo são aqueles países paupérrimos, que precisam se sujeitar aos negócios mais sujos para preencher seus cofres vazios. É dessa forma que países da África e da Ásia se convertem cada vez mais em lixões a céu aberto. Não é preciso dizer o quanto isso é arriscado para os cidadãos locais, que podem sofrer com a disseminação de doenças. Como se não bastasse, nesses países há esfomeados em quantidade suficiente para fazer desse lixo um bom negócio, vasculhando em meio à sujeira para encontrar algo que possa ser vendido ou aproveitado. Cria-se todo um negócio em torno do ramo nos países-lixões. E se destacarmos o fato de que boa parte desse lixo é tóxica, podemos imaginar os riscos a que se expõem os trabalhadores do lixo. Dessa forma, os países exportadores evitam que suas populações sejam vítimas de seu próprio lixo, preferindo fazer com que os prejuízos e danos recaiam sobre outros povos...&lt;br /&gt;Boa parte desse lixo vem do setor de informática e das "novas tecnologias". Quando surgiram, na década de 1970, essas tais tecnolgias eram anunciadas como o prenúncio de uma nova era. De fato, computadores, celulares e outros tantos produtos eletrônicos revolucionaram nossas vidas, mas produziram e produzem quantidades cada vez maiores de lixo, e até hoje não se sabe o que fazer com essa pilha de material defeituoso ou obsoleto que cresce a cada dia. Muitos desses aparelhos possuem material tóxico, que pode causar sérios prejuízos à saúde de quem entra em contato com eles. Entretanto, isso não parece incomodar os grandes produtores de lixo eletrônico - o Primeiro Mundo - enquanto  seus efeitos diretos não forem sentidos por eles próprios - sendo sentidos apenas pelos países aos quais esse lixo é destinado.&lt;br /&gt;Esforços têm sido feitos para pôr fim a esse problema malcheiroso. Uma convenção na Basileia foi assinada por diversos países, proibindo a exportação de lixo tóxico. Entretanto, o caso dos contêineres ingleses no Brasil mostra que a fiscalização internacional não é suficiente para impedir que esse comércio ilegal seja extinto. Além disso, os EUA, principais produtores mundias de lixo, não assinaram a convenção, por "razões econômicas e estratégicas".&lt;br /&gt;Além desse problema de fiscalização, fica evidente outro, de proporções muito maiores: a insustentabilidade da sociedade de consumo ocidental. O Primeiro Mundo, com cerca de 20% da população do planeta, consome cerca de 80% dos recursos mundiais, sendo responsável por porcentagem semelhante de poluição e lixo. Só os EUA respondem por 30% do consumo e do lixo do mundo - sendo que possuem 4% da população mundial. A menos que se encontre um modelo de desenvolvimento sustentável e menos pautado no consumismo, o destino da Terra talvez seja mesmo tornar-se um grande depósito de lixo. Talvez a proposta do socialismo, de aproximar o ser humano dos frutos de seu trabalho, seja na verdade cumprida pelo capitalismo, ainda que à sua maneira um tanto insalubre...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7471254699011247052?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7471254699011247052/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7471254699011247052' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7471254699011247052'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7471254699011247052'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/07/globalizacao-da-sujeira-ou-sujeira-da.html' title='A globalização da sujeira (ou a sujeira da globalização)'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1800765442508043879</id><published>2009-07-17T11:15:00.004-03:00</published><updated>2009-07-17T12:54:13.342-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><title type='text'>Metalinguagem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois de um longo periódo de grandes preocupações acadêmicas e tempo muito curto, finalmente volto a escrever aqui. E quero abordar justamente... o ato de escrever! Minha inspiração vem da decisão do STJ de pôr fim à exigência do diploma de Jornalismo, mas tem outras motivações também.&lt;br /&gt;A sociedade evolui junto com a tecnologia, e os avanços tecnológicos abrem novas possibilidades e tornam mais fácil a prática de diversas tarefas. Entre elas, a de escrever. Houve um tempo em que as pessoas escreviam em tábuas de argila. A argila felizmente deu lugar ao papel, e tornou mais fácil a vida de quem, por necessidade ou prazer, registrava sua mensagem para a posteridade - uma minoria ínfima, pois até o século XX o mundo era composto por uma maioria esmagadora de analfabetos.&lt;br /&gt;O papel e a tinta continuaram a servir por muito tempo aos escritores, dramaturgos, jornalistas, administradores, poetas e todos os outros que trabalhavam com a palavra. Foi no século XIX que surgiu uma invenção que tornaria mais fácil a escrita e publicação de textos: a máquina de escrever. Ainda que o papel e a caneta continuassem com sua importância e quebrassem um galho de vez em quando, a máquina de escrever continuou como o carro-chefe das publicações durante o século XX, auxiliada por mimeógrafos e outros trambolhos que hoje, em plena era da informática, assustam as crianças - que, de tão familiarizadas com o computador, não conseguem imaginar que algum dia houve outro tipo de máquina para digitar.&lt;br /&gt;Àquela altura, a arte de colocar ideias no papel e narrar os fatos da vida pública ou privada já havia se desenvolvido de maneira considerável. A grande necessidade de profissionais qualificados para o setor de serviços no mundo economicamente desenvolvido abria as portas das universidades e cada vez mais gente saía do analfabetismo e era capaz não só de ler, como também de escrever e ser lida. Não é preciso dizer o quanto isso impulsionou a cultura e as ideias da chamada sociedade moderna.&lt;br /&gt;Contudo, nem todos os países ofereciam um grau de liberdade tão grande à publicação e difusão de ideias. Neles, a máquina de escrever era vista com suspeita pelas autoridades. Como toda ditadura visa emburrecer sua população para dominá-la mais facilmente, nos países onde havia "regimes de exceção" a difusão de ideias era bastante restrita (e isso incluía os países do bloco soviético que - paradoxalmente - diziam-se defensores do socialismo, um conjunto de ideias baseado na razão, na crítica e na libertação dos trabalhadores das algemas materiais e também mentais, tarefa que necessitava, necessita e sempre necessitará de liberdade para difusão de ideias). Mas não era só do outro lado da "Cortina de Ferro" que havia ditaduras. Boa parte dos países alinhados com os EUA - defensores da "liberdade e democracia" - durante a Guerra Fria estava sob a opressão de regimes ditatoriais instalados com a ajuda direta ou indireta dos estadunidenses.&lt;br /&gt;Nesse grupo não muito afortunado, estávamos nós. Muitas das medidas tomadas pela "revolução democrática" após 1964 tiveram como objetivo restringir a livre circulação de ideias e informações - com a velha e já manjada desculpa de "restaurar a ordem, a moral e os bons costumes e pôr fim à baderna". Paralelamente aos censores, empregados para detectar e eliminar notícias que de alguma maneira desagradassem às autoridades, criou-se um outro artifício: o diploma de Jornalismo.&lt;br /&gt;Antes dele, qualquer pessoa que escrevesse bem podia fazer parte de um jornal ou outra instituição que promovesse a difusão de informações. Isso abria as fileiras dos jornais para sociólogos, historiadores, cientistas políticos, economistas e também gente sem diploma mas igualmente capaz de criticar o regime com base em argumentações sólidas - contra as quais nenhuma ditadura possui defesa. Criou-se então um diploma novo, mais "técnico" e menos crítico, para evitar que toda sorte de "subversivo" pudesse usar sua máquina de escrever. Criaram-se impérios de faculdades de comunicação, lucrando com o novo filão de "clientes". O jornalismo passou a ser um negócio para poucos. Ou talvez nem tanto - temos 500 faculdades de jornalismo no Brasil, bem mais que a média mundial. Mesmo assim, o Jornalismo na prática continua sendo restrito aos que podem entrar na universidade, aos que podem fazer parte da panela corporativista.&lt;br /&gt;Felizmente - e surpreendentemente para todos aqueles que por resignação nunca esperariam nada de positivo do STF depois do caso Dantas -  o STF derrubou esse que era um dos resquícios dos "gloriosos" tempos da ditadura militar. A manutenção do diploma de jornalista foi - e ainda é - defendida pela maior parte dos jornalistas e membros de faculdades de comunicação, mas por mero interesse corporativo. Por que seria "essencial para a atuação do jornalista" a posse de um diploma? Por acaso o jornalismo brasileiro antes da década de 1960, quando não existia a exigência, era pior que depois que o diploma foi instituído como obrigatório? Se a exigência do diploma é "vital para a democracia", por que então muitos países democráticos (Alemanha, Suécia, França, Holanda, EUA, Espanha, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo, Peru, Grécia, Finlândia, Argentina, Polônia e Bélgica, entre tantos outros) não exigem diploma? O caso da Costa Rica é emblemático, e resultou numa humilhação para os que defendem o diploma: em 1985, o país foi obrigado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos a extinguir sua exigência de diploma de jornalismo. A Corte tomou a decisão de maneira unânime, por acreditar que a exigência feria a liberdade de expressão, após o caso de um jornalista estadunidense cerceado pelo governo da Costa Rica porque não tinha diploma.&lt;br /&gt;Há entre os defensores do diploma obrigatório a ideia de que só com o diploma o indivíduo incorpora a ética necessária para o exercício da profissão. É sem dúvida um argumento capaz de provocar risadas. A podridão moral de nossa mídia, sozinha, já é um argumento suficiente para derrubar essa falácia. Ética não se aprende na faculdade, e sim na vida! Não-jornalistas podem muito bem fazer reportagens de grande destaque - e o contrário também é verdadeiro. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Falcão, Meninos do Tráfico&lt;/span&gt;, foi concebido pelo músico MV Bill. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Estação Carandiru&lt;/span&gt;, pelo médico Dráuzio Varella. Obras muito melhores do que as de muito jornalista por aí.&lt;br /&gt;Contudo, os bons jornalistas não precisam ficar preocupados, pois não perderão o emprego com o fim da obrigatoriedade. As empresas de comunicação continuarão a recrutar muitos jornalistas formados, por suas bases acadêmicas sólidas, a exemplo do que acontece nos países onde o diploma não é obrigatório. As boas faculdades de comunicação também não vão a falência, pois boa parte dos jornalistas continuará a sair delas. A diferença é que, de agora para frente, esses jornalistas formados e talentosos terão a companhia de outros profissionais, igualmente talentosos, mas sem o diploma. Quem ganha é a sociedade, que terá acesso às obras e opiniões de indivíduos formados em outras áreas, provavelmente com outros pontos de vista. A diversidade é condição indispensável para a liberdade de expressão.&lt;br /&gt;Mas não só de diploma de Jornalismo é esse texto. Quero ressaltar também uma outra revolução, bem menos perceptível, no modo de se fazer notícia e opinião, e também de se fazer poesia, conto e toda e qualquer forma de texto. Trata-se dos blogs, como este e tantos outros, e de outros instrumentos de difusão que a internet permite. A chamada "Era da Informação" revolucionou definitivamente a maneira de se fazer textos. Se antes era necessário imprimir milhares ou milhões de cópias em um mimeógrafo ou uma xerox para tornar um texto acessível a uma grande quantidade de leitores, hoje é possível fazer a mesma coisa apenas publicando-o em algum site pessoal. Grandes autores, dramaturgos e poetas, se antes eram reféns de grandes editoras para se tornar conhecidos, hoje só precisam de um espaço na internet para abrigar sua arte - e muitos novos talentos podem ser revelados assim.&lt;br /&gt;A grande mídia, antes monopolizadora da informação e da opinião por ser a única com recursos suficientes para difundir-se em grande escala, perde cada vez mais espaço para pequenos autores independentes, espalhados pelo mundo, com visões de mundo próprias. A visão de mundo hegemônica da grande mídia (também no sentido gramsciano de hegemonia) cede forçadamente espaço para visões de mundo diferentes. E, mais uma vez, isso é bom. Quanto mais variedade e diversidade, melhor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1800765442508043879?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1800765442508043879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1800765442508043879' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1800765442508043879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1800765442508043879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/07/metalinguagem.html' title='Metalinguagem'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-5546076050883959518</id><published>2009-06-28T18:34:00.004-03:00</published><updated>2010-01-15T16:57:04.977-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='América Latina'/><title type='text'>Abaixe o volume da TV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nem tudo o que acontece no mundo aparece nos noticiários. A mídia é capaz de fazer um grande alarde em torno de um acontecimento e nem sequer noticiar outros. E isso acontece com mais frequência do que imagina a maior parte dos mortais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto o planeta chora a perda do outrora astro do pop que caiu na decadência, mudou de cor, perdeu o nariz e virou pedófilo Michael Jackson, outras mortes ocorrem ao redor do planeta, sem tanto alarde. E isso a TV não mostra. Por que será?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em Honduras, quem morre é a democracia. Ultrajados pelo presidente Zelaya, os partidos conservadores e os militares realizaram um golpe militar e o prenderam. Zelaya havia organizado um referendo para alterar a Constituição do país e poder concorrer a um segundo mandato, um tanto à moda Chávez. Os militares consideraram isso antidemocrático, depuseram e prenderam o presidente, levando-o para a Costa Rica. Será que para esses trogloditas a melhor maneira de impedir que acabem com a democracia é acabando com ela primeiro? Por algum acaso, a notícia vem recebendo pouco destaque, nada mais que uma nota de rodapé. Se, digamos, o alvo dos ataques fosse um conservador, como Alvaro Uribe, e os conspiradores fossem radicais de esquerda, como (foram um dia) as FARC, teria a notícia recebido tão pífia cobertura?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais perto de nossos ouvidos - mas não tão perto a ponto de podermos ouvirt os gritos de dor e de socorro - morre não só a democracia, como também a dignidade e a vida de muitos indígenas. O bandido à frente do governo do Peru, Alan García, que acabou com a economia do país e engordou suas fortunas com dinheiro sujo na primeira metade da década de 1990, agora comete outros crimes. García, um verdadeiro Collor peruano, só foi eleito porque seu adversário, Ollanta Humala, sendo de esquerda, recebia apoio informal do falastrão e intrometido Chávez - a campanha presidencial de García foi toda montada para mostrar que o Peru de Humala se tornaria uma "nova Venezuela", e seria preciso escolher "o menor dos males". Mal foi eleito, García já começou a baixar o sarrafo em cima do povo peruano. Para "levar o progresso à região amazônica" (leia-se exterminar os habitantes locais, destruir a floresta e entregá-la às transnacionais), García comete uma atrocidade comparável à que Pizarro fez naquelas mesmas terras há quase cinco séculos. Aldeias indígenas são massacradas, protestos são reprimidos violentamente e uma verdadeira operação de guerra é montada contra os legítimos e sofridos habitantes da Amazônia peruana - apresentados como "terroristas", do mesmo jeito que movimentos sociais como o MST são apresentados no Brasil. Tudo isso aqui do lado. E nada tem aparecido nos noticiários. Por favor, abaixemos o volume da TV, porque só assim poderemos ouvir os gritos de socorro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-5546076050883959518?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/5546076050883959518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=5546076050883959518' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/5546076050883959518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/5546076050883959518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/06/abaixe-o-volume-da-tv.html' title='Abaixe o volume da TV'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-8557069632397576738</id><published>2009-06-14T20:57:00.002-03:00</published><updated>2009-06-14T21:59:44.793-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brasil'/><title type='text'>Os ruralistas contra o Brasil</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Durante uma crise econômica, é fundamental que sejam realizados esforços para evitar que a economia de um país seja prejudicada, o que pode ter graves consequências para a sociedade como um todo e para a vida do cidadão comum. Entretanto, esses esforços devem ser realizados dentro de um limite ético, para que as consequências disso não sejam ainda piores a longo prazo do que a crise propriamente dita. Não é isso que vem acontecendo no Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nas últimas semanas, nós brasileiros temos assistido a uma ofensiva implacável da chamada "bancada ruralista" sobre um dos nossos maiores patrimônios - nossos recursos naturais. Tanto no Congresso Nacional quanto nas Assembleias Legislativas, um grande esforço tem sido feito por indivíduos dessa corrente - que se autoproclama "defensora do desenvolvimento econômico e do progresso" - para afrouxar leis de preservação ambiental e permitir que áreas até então protegidas sejam abertas à exploração econômica (entende-se por exploração econômica aquela não-sustentável, que tem como consequência inevitável a devastação do meio ambiente).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quem é essa bancada ruralista? É um grupo de parlamentares, enraizado em diversos órgãos do Legislativo, que representa os interesses do agronegócio, dos grandes produtores rurais, do latifúndio - o grupo que acha que nossas florestas e campos são inúteis e ocupam um espaço que poderia ser melhor aproveitado com pastos e plantações. São os agentes do progresso - progresso, evidentemente, de suas próprias fortunas, às custas do meio ambiente. São da mesma safra dos membros da gloriosa "União Democrática Ruralista", grupo de grandes produtores rurais que fez o imenso favor de retirar da Constituição de 1988, na prática, qualquer meio de se realizar uma reforma agrária, salvando o Brasil daqueles que, segundo a UDR, são "desocupados, pinguços e futuros guerrilheiros" (como consta em sua comunidade no Orkut). Provavelmente são também da mesma linhagem dos que, em 1850, proclamaram a enfadonha Lei das Terras, que ditava que somente teria acesso à terra quem pudesse comprá-la - impedindo na prática o usucapião, algo muito conveniente para os latifundiários que morriam de medo de ver suas terras perdidas para escravos libertos e imigrantes recém-chegados. Têm como maior expoente nacional a senadora Kátia "Motoserra" Abreu, do DEMagogos, mas a lista de membros é prolífica, incluindo tanto gente da oposição quanto da base aliada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A bancada ruralista vem fazendo enormes esforços para derrubar leis de proteção ambiental e avançar mais fundo na fronteira agrícola da Amazônia. Quer que cada estado tenha leis ambientais próprias - para, obviamente, fazer com que, pelo menos em alguns estados, desmatar fique mais fácil. Essa gente diz que age em nome do progresso e do bem-estar do povo brasileiro. É possível falar em "povo brasileiro", considerando que 50% das terras agrícolas está nas mãos de apenas 1% dos produtores? É possível falar em "bem-estar" quando tal exploração de nossos recursos naturais gerará alimentará nossa vergonhosamente distorcida pirâmide social? É muito mais provável que tal exploração beneficie quase inteiramente nossos grandes produtores rurais e outros membros da elite associados. E as consequências, principalmente ambientais, afetarão a todos nós, sem distinção de classe social.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lembremo-nos que a Amazônia, principal vítima da ambição dos latifundiários brasileiros, é determinante para o clima em toda a América do Sul. Sem a floresta, grande parte das chuvas que ocorrem no centro do continente cessará. Também o solo da região depende da floresta - sem a matéria orgânica que alimenta a camada de húmus, logo não haverá nutrientes para as plantas, e é bem provável que a região se tornte desértica ou semi-desértica. Com sorte, poderemos ouvir falar de uma "Estepe Amazônica" no futuro. Outros ecossistemas de nosso país também correm risco com o avanço dos ruralistas. O cerrado começa a perder cada vez mais espaço para o algodão e a soja, e o pouco que ainda resta de Mata Atlântica pode desaparecer caso as leis ambientais realmente afrouxem, como quer a bancada ruralista.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Brasil não pode cometer o mesmo erro que cometeu no passado, mais de uma vez - o de se embriagar com a aparente eternidade dos ciclos econômicos e não prestar atenção nas consequências possíveis após o fim desses ciclos. O nosso primeiro ciclo econômico, o do açúcar, devastou boa parte da Mata Atlântica (a maior parte das árvores derrubadas ia queimar nas caldeiras, devido a técnicas arcaicas e pouco eficientes). É verdade que trouxe algum progresso, mas a maior parte de nossas riquezas foi perdida para fora. De nosso ciclo do ouro, nada resta além de umas poucas - e belas - igrejas no interior de nosso país. Nenhuma escola, nenhuma indústria, nada que pudesse garantir o sustento da região quando o ouro acabasse. O ciclo da borracha, na Amazônia do fim do século XIX, não deixou como herança nada além de alguns palácios e outras construções esdrúxulas no meio da selva - mais uma vez, a riqueza que parecia eterna se foi, com plantações de seringueiras mais produtivas no sudeste asiático. Agora, com o ciclo da soja, o fenômeno parece se repetir - talvez nossos produtores rurais, tão comprometidos com o progresso do país, deixem para a posteridade uma triste herança: a destruição total de nossa Floresta Amazônica. É esse o progresso que queremos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A bancada ruralista defende que só expandindo nossas fronteiras agrícolas sobre áreas de preservação poderemos elevar nossa produção e superar a crise. Para eles, só assim será possível plantar soja, algodão, alimentos, cana-de-açúcar e outros produtos agrícolas para gerar lucro com as exportações, abastecer o mercado interno e suprir a demanda por biocombustíveis. Entretanto, pode-se derrubar todas as florestas de nosso país e até mesmo plantar sobre as águas, que tal objetivo nunca será alcançado enquanto não se realizar uma ampla reforma agrária. A maior parte dos latifúndios de nosso país é não-produtiva, existindo quase unicamente para especulação e sem cumprir nenhuma função social. A única maneira de fazer essa terra toda produzir é entregá-la a quem realmente quer trabalhar. Favorecer, por meio de impostos e incentivos fiscais, a pequena propriedade em detrimento do latifúndio, oferecer ajuda para a formação de cooperativas e permitir que a produção de alimentos e matéria-prima para biocombustíveis esteja livre de atravessadores - como ainda ocorre hoje. A política agrária brasileira deve ser voltada para esse sentido, para a valorização das terras agrícolas existentes mas não aproveitadas, e não para o avanço de novas propriedades para dentro de florestas e áreas de preservação. Nesse sentido, preservação ambiental e justiça social andam juntas, e aqueles que se opõem a elas se opõem também aos interesses do povo brasileiro. Infelizmente, esses opositores mandam, na prática, em nosso país desde o início. Um dia deixarão de mandar. Se não for quando o povo derrubá-los e realmente cuidar do Brasil como ele merece, será quando já não houver mais país para mandar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-8557069632397576738?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/8557069632397576738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=8557069632397576738' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8557069632397576738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/8557069632397576738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/06/os-ruralistas-contra-o-brasil.html' title='Os ruralistas contra o Brasil'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-5141219012182836253</id><published>2009-06-11T21:41:00.002-03:00</published><updated>2009-06-11T22:41:14.347-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='China e Extremo Oriente'/><title type='text'>Sobre as armas nucleares</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez meu último texto tenha passado a impressão de que a Coreia do Norte é, por assim dizer, a única culpada da estória. O governo de Kim Jong Il é nefasto, arrogante e negligente para com seu povo. Esse protótipo de ditadura stalinista é provavelmente o ponto antípoda do que Marx idealizou com o nome de "socialismo". Kim ameaça jogar seu país em uma guerra desnecessária e que só trará ainda mais sofrimento ao seu povo. Mas não se iludam, espectadores. Há outros vilões na peça.&lt;br /&gt;A Coreia do Norte investe pesado em armamento nuclear, e assusta seus vizinhos ao afirmar que já possui bombas atômicas. Isso não só é uma ameaça à paz mundial, como um pesado fardo a ser carregado pelo povo norte-coreano, obrigado a arcar com as duras despesas de um projeto caro e que atira preciosos recursos no poço sem fundo dos gastos militares - e a conviver com o medo de uma hecatombe caso seu "estimado líder" acorde de mau humor. A conduta de Kim Jong Il não é a que se poderia esperar de um estadista sensato. Entretanto, os governos e a mídia do Ocidente dão a entender muito claramente que a Coreia do Norte deve ser punida por fomentar um programa nuclear. Mas se o fato de um país possuir uma arma nuclear é digno de punição, então a Coreia do Norte não pode estar sozinha nos bancos dos réus.&lt;br /&gt;Lembremo-nos: quem foi o primeiro país a produzir e a utilizar armas nucleares? O mesmo que hoje se autoproclama polícia do mundo e impõe sanções aos norte-coreanos. Os EUA possuem milhares de armas nucleares e a ONU nunca os embargou por causa disso. França e Inglaterra também possuem um belo arsenal, e nem por isso sofreram sanções. A Rússia possui um arsenal gigantesco, ainda que desativado - ela o herdou dos tempos da URSS, quando o temor mútuo levou ambas as superpotências a acumular milhares e milhares de armas nucleares só para garantir que, se um dos lados fosse destruído, o outro também seria. A China construiu também uma razoável coleção de armas nucleares (ainda que contra a vontade da URSS, fato que levou a um rompimento de relações entre ambos os países). Os cinco nunca sofreram sanções da ONU. Será porque os cinco são os membros mais poderosos, detentores das cadeiras do Conselho de Segurança? E não nos esqueçamos dos vizinhos e rivais Índia e Paquistão, ambos armados com suas bombas e sempre em uma relação instável, que volta e meia resulta em confronto pela velha e não-resolvida questão fronteiriça da Caxemira. A existência de um conflito latente, ainda que velado, entre os dois países, não é também uma ameaça á paz mundial? Por que Índia e Paquistão não são punidos? Será porque não são inimigos declarados dos EUA como a Coreia do Norte?&lt;br /&gt;Pode-se argumentar que as sanções e o temor do Ocidente para com a Coreia do Norte (um temor justificado) venha da irresponsabilidade e da agressividade de seu governo, somadas às armas nucleares. Ainda assim, a Coreia não ficaria sozinha no banco dos réus. Israel, que desde sua criação tem praticado uma política agressiva e expan-sionista em relação ao resto do Oriente Médio, volta e meia usa da mesma arrogância do governo norte-coreano, só que em nome da terra que eles dizem ser santa. E Israel tem armas nucleares, fornecidas pelos seus fiéis aliados estadunidenses durante a Guerra Fria, apesar de que o governo israelense negue a todo custo. E, irresponsabilidade por irresponsabilidade, que país foi mesmo que detonou duas bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, ameaçou usar as mesmas armas cinco anos depois durante a Guerra da Coreia e só não detonou bombas atômicas no Vietnã porque seus generais chegaram à conclusão de que isso traria mais danos a eles mesmos do que a seus inimigos?&lt;br /&gt;É óbvio que a conduta de Kim Jong Il não é certa, e que nem o pior dos embargos econômicos justifica a execução de um programa nuclear para fins bélicos. Se justificasse, por que então Cuba não poderia também ter um programa nuclear próprio, para usá-lo como chantagem e conseguir suspender assim o bloqueio que já perdura por quase meio século à ilha? Mesmo com todos os seus muitos defeitos e contra todas as adversidades, o regime cubano resiste ao covarde bloqueio imposto pelos EUA sem lançar mão de táticas de chantagem ou do sacrifício do bem-estar de seu povo para o fomento de um caro programa nuclear. Ao contrário da Coreia do Norte, em Cuba os médicos e professores vêm antes das bombas.&lt;br /&gt;Em resumo: Kim Jong Il está errado sim. Está errado por ser um monarca absolutista sob uma capa vermelha, por agir de forma arrogante e agressiva às custas do sofrimento de seu próprio povo, e de colocar no mundo mais e mais dessas coisas nefastas chamadas armas nucleares. O mundo não precisa delas. O mundo é melhor sem elas. Sem as norte-coreanas, sem as estadunidenses, sem as francesas, inglesas, chinesas, israelenses, iranianas, russas, indianas, paquistanesas... Armas nucleares são instrumentos de morte e destruição. E não importa em cujas mãos estejam. Mesmo nas mãos dos que se dizem zeladores da paz mundial, elas continuam a ser armas de destruição em massa, mortes em potencial. Nada justifica a sua posse, nem o suposto dever de zelar pela paz - dever concedido, ironicamente, às cinco maiores potências nucleares do planeta, e que também são os cinco maiores produtores de armas do mundo. É impossível lutar pela paz e se preparar para a guerra ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-5141219012182836253?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/5141219012182836253/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=5141219012182836253' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/5141219012182836253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/5141219012182836253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/06/sobre-as-armas-nucleares.html' title='Sobre as armas nucleares'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-1471418536649299414</id><published>2009-05-30T20:02:00.003-03:00</published><updated>2009-05-31T18:13:45.323-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='China e Extremo Oriente'/><title type='text'>E Marx se revira no túmulo...</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Os noticiários de todo o planeta voltam suas atenções para a fronteira entre as duas Coreias, mais instável do que nunca nas últimas cinco décadas. A maior crise na península desde 1953 atrai os olhos e o espanto do resto do mundo. A Coreia do Norte lançou diversos mísseis de curto e médio alcance, com potencial para chegar à Coreia do Sul e até ao Japão, e parece voltar com tudo a seu programa nuclear para fins não muito pacíficos.&lt;br /&gt;Lembro-me vagamente de, nas Olimpíadas de 2000, ter visto as delegações das duas Coreias desfilando juntas, como se fossem um único país. Parecia que, apesar das profundas diferenças, os dois lados da fronteira estavam dispostos a se respeitar. Mas o futuro me enganaria...&lt;br /&gt;Toda essa estória começou em 1950. Libertada do domínio japonês, a Coreia caiu de ponta na Guerra Fria. Animados pelo triunfo dos comunistas na China, liderados por Mao Tsé-Tung, seus camaradas coreanos resolveram lançar uma ofensiva e pintar a Coreia de vermelho. As forças pró-Ocidente estavam em franca desvantagem, até que a ajuda direta dos EUA chegou, e a frente de batalha foi empurrada até quase a fronteira com a China. Foi aí que os chineses entraram em ação e lançaram uma contra-contra-ofensiva, empurrando a fronteira para uma linha próxima ao paralelo 38°. Após insucessos militares de ambos os lados, foi assinado um armistício em Pan Munjon no ano de 1953, estabelecendo o paralelo 38° como fronteira que dividiria a península da Coreia ao meio. Ao norte, vigoraria um regime de inspiração pró-soviética, partido único e restrição das liberdades individuais, bem em uma linha stalinista, com o apoio da URSS e da China. Ao sul, um regime pró-Ocidente, recebendo vultosos investimentos dos EUA e de economia capitalista agressiva, e durante muito tempo, também autoritário.&lt;br /&gt;Passadas muitas décadas, o sul alcançou grande crescimento econômico e levantou muitas das restrições às liberdades individuais, os vultosos investimentos em educação (com grande ajuda ocidental) geraram retorno e estabeleceu-se uma democracia. Ao norte, a estagnação da URSS fez seu estrago, e apesar de um razoável desenvolvimento da indústria pesada, a situação econômica continuava sofrível. Tudo ficou ainda pior após a queda da URSS, que deixou a Coreia do Norte órfã economicamente, e a calamidade se instalou definitivamente após um grande desastre climático que arrasou as plantações de arroz no início da década de 1990. E o regime continuou tão stalinista quanto em 1953...&lt;br /&gt;Hoje, para qualquer indivíduo pertencente à esquerda que possui algum senso crítico (o que obviamente exclui os stalinistas), a Coreia do Norte nada tem de socialista. Está muito mais para uma daquelas monarquias absolutas dos tempos de Luís XIV. Pois não é uma monarquia absoluta um regime autoritário onde o cargo máximo passa de pai para filho? Após a morte de Kim Il Sung, o trono norte-coreano passou a seu filho Kim Jong Il, um baixinho topetudo e megalomaníaco. Obviamente, as restrições às liberdades individuais e o culto à personalidade continuam os mesmos dos tempos do pai.&lt;br /&gt;Como é de costume nas monarquias absolutas, o herdeiro não possui nem os menores traços de um chefe de Estado. Não é carismático nem inteligente, e sua única arma é a prepotência - a prepotência de ameaçar outros países, e até mesmo de colocar seu próprio povo em risco, iniciando uma guerra irresponsável e, como não poderia deixar de ser, inútil.&lt;br /&gt;Além disso, não parece ser um teórico muito talentoso, e demonstra não ter o menor conhecimento das palavras de Marx. Kim Jong Il foi capaz de colocar a teoria marxista de ponta-cabeça, tirando do povo (a única entidade em cujas mãos repousa o direito de transformar a sociedade) a responsabilidade de conduzir o país ao socialismo (seja qual for a ideia que Kim Jong Il faça sobre o que é socialismo) e entregando-a às forças armadas do país. Como se algum dia fosse possível substituir a iniciativa do povo pela força de tanques e fuzis. Pois é precisamente isso o que prega o Songun, a "diretriz oficial do partido" desde que Kim Jong Il assumiu o poder. Não há no mundo pensamento mais autoritário do que esse. Seja onde for, tentar mudar o mundo assim só trará mudanças para pior.&lt;br /&gt;E é por confiar nas Forças Armadas, e não no povo, que Kim Jong Il deixa seus súditos passando fome para financiar um exército grande e um programa nuclear extremamente custoso. Atira seus preciosos recursos no poço sem fundo dos gastos militares, enquanto seu povo passa fome. A tática de Kim é a de usar a força de suas armas para barganhar alguma vantagem nas relações internacionais, conseguir ajuda humanitária e fazer assim sua "revolução". E, para isso, burla todas as regras da política internacional e do bom senso, ameaça seus vizinhos e mostra ao mundo como pode ser perigoso colocar poder demais nas mãos de quem tem cérebro de menos.&lt;br /&gt;Kim Jong Il parece uma cópia de Stálin em pleno século XXI. Um Stálin de tamancos. Culto à personalidade, restrições às liberdades individuais, prioridade para a indústria bélica em detrimento dos bens de consumo, economia altamente centralizada e burocrática. Com uma diferença: Stálin não arriscaria a destruição de seu país em nome de uma suposta revolução mundial. Nenhum soviético que presenciou os horrores da Segunda Guerra Mundial ou de qualquer outra guerra o faria.&lt;br /&gt;No início do novo milênio, Kim deixa aflorar sua megalomania. Seu programa nuclear funciona a todo o vapor, "em nome da segurança nacional". Mísseis são desenvolvidos, alguns com capacidade de chegar até ao Havaí. Tudo isso a um alto custo, como é qualquer investimento bélico. Com as armas nas mãos, Kim parece apontá-las para seus vizinhos. O que quer esse megalomaníaco, monarca absoluto tão socialista quanto Luís XIV? Quem viver verá.&lt;br /&gt;É muito difícil que a crise dê início a uma suposta Terceira Guerra Mundial. Mas pode ser que faça alguns estragos no Oriente. EUA, Japão e Coreia do Sul erguem suas defesas e ameaçam a Coreia do Norte com sanções, mas Kim já afirmou entusiasticamente que estabelecê-las será o caminho mais rápido para o confronto. É bem possível que a situação só se acalme quando a China, maior aliada dos norte-coreanos e seu principal suporte ideológico (por mais longe que estejam ambos os países do socialismo verdadeiro), tomar a frente nas negociações. Tudo o que a China não quer é uma guerra nas vizinhanças atrapalhando seus projetos de crescimento econômico em meio à crise internacional.&lt;br /&gt;Enquanto isso, assistimos a uma demonstração de força de um regime absolutista que pode latir alto e tem intenções de morder os vizinhos. Voltamos ao mundo pré-1789, quando a megalomania, e não o dever para com o povo, era o principal recheio das agendas dos líderes. L'état c'est moi! &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-1471418536649299414?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/1471418536649299414/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=1471418536649299414' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1471418536649299414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/1471418536649299414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/05/e-marx-se-revira-no-tumulo.html' title='E Marx se revira no túmulo...'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-4871749286671120664</id><published>2009-04-21T16:18:00.005-03:00</published><updated>2009-05-04T00:02:24.546-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Economia'/><title type='text'>Liberdade x Liberdade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;É sem dúvida uma palavra bonita. Há muitos que dizem que é um valor universal. A liberdade é um conceito amplo, com diversas interpretações. Em nossos dias, não são poucos os que se consideram "defensores da liberdade". Mas de que tipo de liberdade eles falam?&lt;br /&gt;Podemos definir liberdade como a ausência de barreiras ou obstáculos a uma atividade, qualquer que seja. Sem dúvida é bom que nossa vida seja livre de uma enormidade de entraves e restrições. Mas será que liberdade demais é sempre positiva?&lt;br /&gt;Se considerarmos a liberdade política, ou seja, a liberdade de escolher os governantes e parlamentares, de participar de plebiscitos e outras formas de consulta popular, e as liberdades civis (direito de ir e vir, liberdade de expressão, de imprensa e de associação, salvo nos casos de atividade criminosa...), ela é positiva, e um dos grandes méritos do que chamamos de democracia ocidental. Mas só isso não é suficiente. De nada adianta ter o direito de gritar se os que estão acima não ouvem. Um dos grandes entraves às liberdades individuais é a desigualdade social, que (queiramos admitir ou não) concede privilégios aos mais ricos. Em uma sociedade regida pelo dinheiro, onde nada ou quase nada é possível sem ele, quem é mais rico é mais livre. O dinheiro é a maior restrição à liberdade sob o capitalismo. Qualquer um de nós tem plena liberdade de comprar um iate, uma mansão, um helicóptero e um carro de luxo! Até mesmo as crianças de rua! Basta que tenham DINHEIRO. E considerando a inevitável tendência do capitalismo de concentrar cada vez mais nas mãos de cada vez menos, gradualmente cada vez mais pessoas têm suas liberdades restritas pelo vazio de seus bolsos. Há uma maneira de se restringir essa acumulação de renda nas mãos de poucos: com intervenção econômica estatal, leis trabalhistas asseguradas, programas sociais de redistribuição de renda e uso de impostos para oferecer garantias mínimas a todos os cidadãos, etc. Mas não seriam essas medidas capazes de restringir também a liberdade ao limitar a atividade dos grandes grupos econômicos?&lt;br /&gt;Em nossos dias, os defensores de um modelo neoliberal nomeiam a si próprios os "paladinos da liberdade". Defendem o fim de barreiras à livre circulação de mercadorias e riquezas, ou seja, a liberdade econômica plena, afirmando fervorosamente que essa é a única garantia de que também a liberdade política exista. Para eles, qualquer forma de restrição à atividade econômica, mesmo que tenha fins de redistribuição de renda e diminuição da pobreza, é uma grave ameaça à liberdade humana, e um tipo de governo orientado de modo a intervir na economia inevitavelmente se transformará em uma ditadura - sob esse ponto de vista, a grande prova desse fenômeno teria sido a experiência do suposto "comunismo" na URSS e em seus satélites. Por isso, Para os defensores do neoliberalismo, miséria, fome e desigualdades escandalosas são apenas um efeito colateral de uma sociedade livre - um mal menor diante do despotismo. Será mesmo?&lt;br /&gt;Os que defendem esse ponto de vista se esquecem de considerar algumas importantes contradições. Liberdade política e liberdade econômica são conceitos completamente distintos, e em muitas ocasiões a História mostrou que uma liberdade pode sobreviver muito bem sem a outra. Apenas alguns exemplos: durante três décadas, do pós-Segunda Guerra até meados dos anos 1970, o Primeiro Mundo vivenciou uma verdadeira era de ouro, de crescimento e desenvolvimento econômico, redução das desigualdades sociais e elevação do padrão de vida até níveis nunca antes imaginados. E tudo isso só pode existir graças ao chamado Welfare State, ou Estado do Bem-Estar Social, uma política econômica adotada em diversos países, marcada pelo intervencionismo do Estado e pela criação, com a ajuda deste, de uma extensa rede de proteção social após a crise de 1929. Tudo isso sem perder a liberdade política! Caso o liberalismo clássico tivesse continuado a vigorar após a crise, a Europa e os EUA nunca teriam se recuperado do enorme baque econômico, e provavelmente hoje haveria uma estátua de Hitler em cada cidade da Europa. O Welfare State mostrou que é perfeitamente possível a existência de liberdade política com restrições à liberdade econômica (fortes leis ambientais e direitos trabalhistas, impostos altos, etc). Mas o contrário também vale. A ditadura que derrubou o socialista chileno Salvador Allende em 1973 e levou ao poder Augusto Pinochet mostrou que também é possível combinar liberdade política mínima com liberdade econômica máxima. O Chile foi um dos primeiros países a adotar o neoliberalismo, mesmo sob uma ditadura sangrenta. Outros países, não só na América Latina, seguiram seu exemplo. Portanto, não é porque as trágicas tentativas de construção do socialismo na URSS e em seus satélites resultaram em ausência de liberdade civil e econômica que toda forma de intervenção estatal está fadada ao mesmo destino.&lt;br /&gt;Ao contrário do que dizem os defensores do neoliberalismo, a limitação da atividade econômica é necessária para se garantir um mínimo de liberdades individuais. Lembre-se, leitor, de que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Quando há liberdade demais, sempre os fortes prevalecem sobre os fracos, os maiores engolem os menores. Uma perfeita lei da selva. Foi para evitar isso que o ser humano inventou as leis. Elas por si só limitam a liberdade humana, visando o bem-estar geral. Certamente seria impossível transitar pelas ruas se não existissem regras de trânsito definindo de que lado da rua devemos seguir, quando, onde e como devemos parar e estacionar, etc. Se existisse liberdade total no trânsito, não seria possível haver trânsito. Seria essa limitação à liberdade humana necessariamente ruim? Não, se não ferir as garantias básicas de liberdade individual (você pode ir aonde quiser e fazer o que quiser, desde que dentro da lei) e permitir uma convivência mais harmônica entre as pessoas.&lt;br /&gt;O mesmo ocorre na economia. A economia é um dos aspectos mais importantes da civilização, pois é de acordo com ela que se determina a disponibilidade de vagas de trabalho, os níveis de salário, a disponibilidade e o preço dos produtos e dos serviços e outros aspectos cruciais de nossa vida em sociedade, inclusive nossa subsistência mais básica. Sendo tão importante, por que deveríamos deixá-la sob a responsabilidade de quem coloca em primeiro plano não o bem comum, mas o lucro e as vantagens individuais? Por que não controlar e regulamentar a economia de maneira que sirva à sociedade, e não faça a sociedade servir a ela, como ocorre em nossos dias? Ou por acaso a sociedade não serve à economia sob o capitalismo? Um exemplo: não se abrem escolas e hospitais privados e de qualidade nas periferias mais carentes, por mais que tais comunidades necessitem desses serviços essenciais. Por que isso acontece? Porque simplesmente tais empresas não teriam lucro operando para uma clientela tão pobre e incapaz de pagar pelos seus serviços. Em resumo, a busca pelo lucro se sobrepõe às necessidades básicas da população. Isso não é a sociedade servindo à economia? Por sorte, existem hospitais e escolas públicas. Serviços mantidos, por sinal, por impostos, considerados pelos neoliberais uma grande ameaça à liberdade...&lt;br /&gt;Como já afirmei antes, foi a intervenção estatal na economia dos países do Primeiro Mundo, e não o livre-mercado, que permitiu o padrão de vida do qual desfrutam seus habitantes hoje. Tanto que, após as reformas neoliberais das décadas de 1970 e 1980 no Primeiro Mundo, o PIB de muitos desses países cresceu enormemente, mas não tanto quanto o fosso entre ricos e pobres e a própria pobreza absoluta. Por mais que tenha sido gerada uma quantidade enorme de riqueza, ela não foi distribuída adequadamente sob o neoliberalismo, porque ele nunca será capaz disso. Justamente porque, na ausência de regras, a competição se torna injusta e favorece os mais fortes. Esse é o motivo pelo qual o neoliberalismo é defendido pelas empresas mais fortes e por seus governos simpatizantes.&lt;br /&gt;Pode-se dizer que as empresas privadas são mais eficientes que o Estado, e o fato de agirem buscando o bem próprio tem resultados positivos. Será mesmo? Elas podem ser mais eficientes na produção de riqueza, mas não na distribuição, e de forma nenhuma o resultado da busca individual por lucro é sempre positivo para a coletividade - se fosse, por que motivo existiriuam organizações de proteção ao consumidor, como o Procon? Recentemente, tivemos uma mostra de como a liberdade irrestrita pode ser prejudicial para a coletividade. A liberdade no mercado financeiro havia o transformado em um grande cassino, onde a desonestidade e a trapaça imperavam. Golpes se sucediam, e outros esquemas ilusórios se erguiam como castelos de cartas. Tudo isso enquanto o clima era de otimismo... Depois que o negócio começou a piorar, todos esses esquemas se desmancharam, fraudes e rombos imensos foram descobertos e o mercado financeiro sofreu um baque comparável somente ao de 1929. Detalhe: não foram os especuladores, causadores do grande problema, os principais prejudicados. A crise chegou ao mundo real, causou demissões, falências e uma onda de desemprego atinge hoje o mundo. Adam Smith se revira no túmulo...&lt;br /&gt;Hoje se fala muito em proteção ao meio ambiente, desenvolvimento sustentável, etc. Todas, absolutamente todas as iniciativas que visam à conservação do meio ambiente e possuem alguma chance de sucesso passam por um ponto em comum: a defesa do controle sobre a atividade das empresas, em prol da conservação ambiental e, com menos destaque mas com a mesma importância, da justiça social. Em nossos dias, está claro que o único caminho da Humanidade que não a levará à ruína passa, inevitavelmente, pela restrição da liberdade da iniciativa privada. Em nome da salvação da Humanidade, e de seus direitos mais básicos, incluindo as liberdades individuais.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-4871749286671120664?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/4871749286671120664/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=4871749286671120664' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4871749286671120664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4871749286671120664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/04/liberdade-x-liberdade.html' title='Liberdade x Liberdade'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-7116871880088561856</id><published>2009-04-05T19:34:00.003-03:00</published><updated>2009-04-05T19:39:29.485-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ciência e Razão'/><title type='text'>Darwin e a evolução, quinze décadas depois</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Há cento e cinquenta anos, a publicação do livro “A Origem das Espécies” estremecia a Inglaterra vitoriana. As crenças mais profundas na origem divina do ser humano eram abaladas por aquela obra, que ousava tirar a espécie humana do pedestal de criatura superior e colocá-la no mesmo nível de animais e plantas, sugerindo que nada mais somos além de mais uma espécie no mundo, sujeita às mesmas leis que regem os outros seres vivos.&lt;br /&gt;Darwin não foi o primeiro a afirmar que as espécies se modificam de acordo com o ambiente. Décadas antes, Jean-Baptiste Lamarck já havia exposto uma teoria para explicar essas adaptações. Apesar de ter se mostrado falha, a teoria lamarckista influenciou as gerações futuras e abriu caminho para que outras hipóteses sobre a evolução fossem formuladas. Até que um belo dia, um jovem naturalista inglês embarca em uma viagem ao redor do mundo, a bordo de um navio da Marinha Britânica chamado Beagle. Após coletar um número enorme de amostras de seres vivos e não-vivos de todos os cantos do planeta, o Charles Darwin se debruça durante anos sobre o material que recolheu, tentando encaixar as peças do enorme quebra-cabeça que havia arranjado. Até que, em 1859, o resultado de suas conclusões veio a público, sob a forma do livro “A Origem das Espécies”. Elas mostravam que os seres vivos se adaptavam ao ambiente por meio de leis naturais e possíveis de ser descritas, tais como as leis que regem o movimento dos astros e dos objetos sobre a Terra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pode-se resumir a teoria de Darwin – tida como muitos como a ideia mais brilhante que um indivíduo já teve – da seguinte maneira: as formas de vida se reproduzem e geram descendentes; dentro de uma mesma espécie, os indivíduos possuem algumas variações, que também são passadas para as gerações futuras; caso essas variações sejam vantajosas, os indivíduos terão mais chance de sobreviver e se reproduzir – do contrário, as chances diminuem; dessa forma, nas gerações futuras a característica favorável estará mais presente e, ao longo de muitas gerações, ela pode originar espécies inteiramente novas. Assim, o ambiente é capaz de exercer a tão falada seleção natural, premiando com a vida aqueles mais adaptados ao ambiente ao seu redor. Hoje isso não é novidade para nós, que estudamos evolução no ensino médio, mas na Inglaterra de meados do século XIX essa teoria era radical.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Afirmar que as espécies vivas eram capazes de se modificar ao longo do tempo, sem nenhuma influência divina incidindo diretamente, era uma afronta à opinião pública dos fervorosos britânicos que, assim como os povos de outros países cristãos na época, acreditavam piamente que Deus havia criado o mundo em seis dias, e as espécies eram, àquela altura, exatamente iguais às que existiam nos tempos da Criação. Por isso, não seria ilógico esperar que a teoria da evolução recebesse duras críticas da sociedade da época. Dizia-se que, segundo Darwin, o ser humano descendia do macaco – e inúmeras charges eram publicadas nos jornais da época ridicularizando o naturalista. Entretanto, nas décadas seguintes, outras descobertas científicas acabaram por confirmar e aperfeiçoar a teoria da evolução de Darwin, e – com a exceção dos Estados Unidos – ela é hoje aceita pela quase unanimidade dos cientistas, deixando há muito de ser considerada controversa. A primeira dessas contribuições a confirmar a hipótese de Darwin veio ainda na época da sua elaboração, quando o também naturalista Alfred Wallace chegou a conclusões bastante semelhantes às de Darwin. Os dois trocaram correspondências e – façamos justiça – a contribuição de Wallace foi fundamental para que Darwin chegasse ao resultado publicado em 1859, apesar de seu nome ser quase sempre esquecido pelos livros de Biologia. Posteriormente, as descobertas do monge Gregor Mendel – só reconhecidas após sua morte – elucidaram os mecanismos da transmissão de características aos descendentes. Em 1953, a estrutura do DNA foi revelada, dando ainda mais sustentação às ideias de Mendel e Darwin. Hoje se sabe, por exemplo, que o fato de uma determinada bactéria adquirir resistência contra um antibiótico se deve às leis evolutivas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As consequências da teoria da evolução proposta por Darwin foram inúmeras. Em uma época na qual a ciência parecia destinada a desvendar todos os mistérios do universo, o darwinismo era tido como mais um passo do ser humano em direção ao triunfo da razão, e uma arma poderosa nas mãos daqueles que acreditavam que em breve a religião e a crença divina seriam inúteis – e não eram poucos que pensavam assim. Com a Primeira Guerra Mundial, essa ideia de que o ser humano caminhava em direção a um mundo de razão e progresso cada vez maiores e longe da influência religiosa foi perdida, e o conflito trouxe tamanha angústia que o Ocidente voltou a se refugiar na religião. A teoria de Darwin também teve seu lado nefasto: indivíduos racistas e pouco escrupulosos logo adaptaram a ideia de que “só os mais aptos sobrevivem” para a espécie humana, criando a teoria pseudo-científica do darwinismo social para justificar o extermínio passivo (esterilização) ou ativo (genocídio) de etnias ou grupos com características tidas como inferiores.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E hoje? Felizmente, a ideia de darwinismo social não encontra eco (salvo nas mentes de alguns fanáticos), mas a teoria de Darwin é muito bem aceita pela comunidade científica ao redor do mundo. Salvo em países onde fundamentalistas possuem voz significativa – e isso inclui não só alguns países do Oriente Médio, como também os EUA – a teoria da evolução é aceita de forma quase unânime. Entretanto, há quem diga que, para o ser humano, as leis evolutivas deixaram de valer. Graças ao elevado desenvolvimento tecnológico, nossa espécie tem sido capaz de driblar as leis evolutivas. Será mesmo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao longo de milhões de anos, nossa espécie esteve sujeita à cruel indiferença da lei da selva, às mesmas leis evolutivas que regem as outras espécies. Forçadas pelas pressões da seleção natural, que selecionava aqueles mais adaptados ao ambiente, algumas criaturas desenvolveram pêlos para se proteger do frio, outras se tornaram venenosas para impedir o ataque de predadores, e houve ainda aquelas que fizeram de partes de seus corpos verdadeiras armadilhas para capturar presas. Mas a evolução forçou os ancestrais do Homo sapiens a seguir um caminho diferente: nosso encéfalo cresceu enormemente ao longo de milhares de gerações, e adquirimos a capacidade de abstrair, imaginar e planejar. Não mais nos fixávamos no mundo presente – já éramos capazes de aprender com o passado e projetar um futuro. Mais do que isso, desenvolvemos a linguagem, a comunicação, e assim obtivemos melhores resultados nas caçadas. As outras espécies do gênero Homo, que enveredaram por outros caminhos, foram extintas porque não eram capazes de se adaptar como nós. Nossa capacidade de abstração permitiu que dispensássemos outras características para sobreviver em novos ambientes. Já não precisávamos de pêlos longos para sobreviver ao frio – bastava que nos vestíssemos com peles de animais e nos aquecêssemos em fogueiras. Garras afiadas e pernas velozes eram desnecessárias para nós, porque podíamos desenvolver lanças, arcos e flechas para caçar. Muitos milênios à frente, dominamos a agricultura, a pecuária e originamos o que hoje chamamos de civilização. Garantimos um suprimento quase inesgotável de alimento, aprendemos a curar doenças e a sobreviver às intempéries e aos obstáculos da natureza. Ou seja, simplesmente anulamos aquilo que chamamos de pressões evolutivas, de seleção natural. Hoje podemos garantir a sobrevivência de indivíduos com sérias deficiências, que séculos atrás certamente não sobreviveriam. Entretanto, há alguns lugares do planeta onde isso ainda não ocorre. Não por obra de Deus, mas por vergonhosa obra dos homens: em rincões esquecidos do mundo, milhões de pessoas ainda sofrem com a fome e com toda sorte de epidemias. Para essa gente infeliz, as pesadas pressões da seleção natural não foram anuladas, e ainda impera a lei da selva: sobrevivem os mais fortes, os capazes de conviver com a fome e as doenças sem sucumbir. Essa tragédia diária que afeta milhões de pessoas nos lugares mais desafortunados do globo (e que podia ser evitada!) é um lembrete de que, apesar dos avanços nos últimos milênios, nossa espécie ainda tem muito a evoluir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De fato, o futuro mostraria a inúmeros entusiastas de Darwin (que acreditavam numa evolução linear e inevitavelmente positiva) que eles estariam errados. A evolução é muito mais complexa, cheia de idas e vindas, e nem sempre gera resultados positivos. No fim do século XIX, não eram poucos os otimistas incontidos, que acreditavam piamente que a Humanidade também evoluía em direção a um futuro brilhante. Entretanto, os horrores do século XX e a possibilidade concreta de aniquilação da espécie humana não confirmaram essas previsões, e na virada para o século XXI eram poucos os que pensavam como os homens e as mulheres de cem anos antes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quinze séculos depois, o legado de Darwin é positivo. Elucidou as leis da natureza, e permitiu inúmeros avanços científicos. É verdade que alguns de seus supostos seguidores usaram suas teorias para causar mal aos semelhantes, mas não podemos responsabilizar Darwin por isso – seria como responsabilizar Jesus Cristo pelas mortes nas Cruzadas ou pelo extermínio de nativos na América. A ideia da evolução extrapolou a área onde estava inicialmente contida e se expandiu muito além, influenciando diversas outras ciências e contribuindo para inúmeras outras descobertas com resultados práticos. Mas, sem dúvida, a maior contribuição que a Teoria da Evolução nos deixou foi a ideia de que nós humanos não estamos em um pedestal acima das outras espécies – fomos gerados da mesma forma, descendemos dos mesmos seres simples e microscópicos e por isso não somos melhores do que as outras criaturas. Não é porque temos uma incrível capacidade de abstração e imaginação que temos o direito de exterminar os outros seres vivos ou usar os recursos do planeta ao nosso bel-prazer, não importando as consequências sofridas pelas outras formas de vida. Essa é uma lição que ainda não está nos livros de Biologia, e que a Humanidade parece ainda não ter aprendido.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-7116871880088561856?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/7116871880088561856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=7116871880088561856' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7116871880088561856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/7116871880088561856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/04/darwin-e-evolucao-quinze-decadas-depois.html' title='Darwin e a evolução, quinze décadas depois'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-6931141163175863686</id><published>2009-04-02T19:00:00.003-03:00</published><updated>2009-04-02T19:08:24.294-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Esquerda'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Economia'/><title type='text'>Entrevista com Hobsbawm</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;É, esse blog anda meio parado. Já me disseram isso. Mas as minhas tarefas acadêmicas ultimamente não me deixam muito tempo livre. Para quebrar um pouco esse silêncio, aí vai um link interessante, para a entrevista mais recente do eminente historiador Eric Hobsbawm. Autor de diversos livros, entre eles a quadrilogia das "eras" desde 1789 até 1994 e que culminou com seu grande sucesso A Era dos Extremos, segue lúcido e brilhante com nove décadas nas costas. O que um gênio que assistiu a quase todo o século XX tem a nos dizer sobre esse começo de século XXI?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A entrevista foi publicada originalmente no jornal Página 12, da Argentina:&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15888"&gt;http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15888&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-6931141163175863686?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/6931141163175863686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=6931141163175863686' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6931141163175863686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/6931141163175863686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/04/entrevista-com-hobsbawm.html' title='Entrevista com Hobsbawm'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-2248509985080696631</id><published>2009-02-25T21:48:00.006-03:00</published><updated>2009-02-27T10:44:46.568-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Comportamento'/><title type='text'>Do fascismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já dizia Samuel Johnson: "A pátria é o último refúgio dos canalhas". Há séculos o nacionalismo exacerbado tem sido utilizado por oportunistas e demagogos que apelam para o lado irracional do ser humano, o medo do diferente, a aversão àqueles que vêm de outras terras ou são, de alguma forma, destoantes do que seria considerado "original". Essa retórica irracional se mistura a um apego excessivo às tradições de um passado tido como glorioso, de um povo que se julga superior e predestinado a liderar (na melhor das hipóteses) ou varrer da face da Terra (na pior delas) as outras nações. A ideia da união de um povo frente aos outros, como se cada um deles vivesse em uma eterna competição onde a solidariedade internacional não existisse, combina-se com a de que esse povo precisa de um Estado forte e expansionista - onde os cidadãos nada mais são além de peças de uma grande engrenagem - para garantir os seus interesses. Ainda que para isso seja preciso passar por cima dos interesses e da dignidade de outros povos. Ao vencedor, as batatas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esse tipo de retórica demagógica, apelando para a defesa da pátria, da tradição e do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;status quo&lt;/span&gt;, costuma ressurgir em ambientes turbulentos, onde a ordem instituída está ameaçada e o futuro é visto mais com medo do que com esperança. Nessas situações, muitos buscam refúgio no passado e se agarram fortemente a quem quer que pregue a volta aos "bons tempos de glória", a união de todos aqueles que compartilham a mesma cultura e a mesma língua frente à ameaça estrangeira e à ascensão de povos rivais. Os únicos que merecem respeito e consideração são os que vivem dentro das fronteiras do Estado. Fora dele, nada mais existe além de selvagens prontos para conquistar suas terras, roubar seus empregos ou espalhar ideias "estrangeiras" e nocivas. São argumentos que não fazem sentido se os analisarmos racionalmente e com ética, mas que soam bastante atraentes aos ouvidos desesperados daqueles que temem um futuro tenebroso. Cegos pelo medo e pela desesperança, agindo como manadas de quadrúpedes assustados, agarram-se à xenofobia e ao culto às tradições. Um prato cheio para demagogos...&lt;br /&gt;Desde a queda da Bastilha, ainda no século XVIII, parecia aos olhos dos ocidentais na virada do século XIX para o XX que esse pensamento bárbaro e irracional havia sido superado pela razão e pela ciência. Para eles, o mundo estava inevitavelmente caminhando rumo a um futuro próspero e rico, baseado na racionalidade, na ciência, na tolerância e na consciência de que o mundo transcende as fronteiras nacionais. Entretanto, esse pensamento estava assentado sobre bases pouco sólidas: no início do século XX, o mundo ainda se dividia em domínios de países imperialistas, que tratavam as populações de suas colônias como seres inferiores, bárbaros,  sub-humanos. Além disso, a xenofobia e a rivalidade internacional ainda ardiam nos corações desses povos - disputas por colônias ultramarinas, rivalidades históricas, competição pelo mercado global, revanchismo... Tudo isso desembocou em uma tragédia sem paralelo até aqueles dias, e que mostrou que os "superiores e evoluídos" europeus também eram capazes das maiores barbaridades: a Primeira Guerra Mundial. Povos aplaudiam a ida de suas tropas para o grande moedor de carne dos campos de batalha. Foi só depois que se tornou claro que a guerra duraria bem mais do que os poucos meses que todos previam, e que ela faria muito mais vítimas - 15 milhões de vítimas diretas - que o estúpido fervor nacionalista deu lugar ao horror.&lt;br /&gt;Sobre as ruínas da Europa, a humilhação dos derrotados, a ânsia em apontar um culpado e o medo de uma insurreição social sem precedentes (o espectro do comunismo rondava a Europa mais uma vez, e àquela altura a revolução russa já havia triunfado) reacenderam o chauvinismo e a xenofobia, elevando-os a um novo nível. Surgia o fascismo.&lt;br /&gt;No que consiste o fascismo? Qual é o seu programa político? A que se propõe? A melhor maneira de se descobrir a que se propõe uma ideologia é conhecer como e quando ela surgiu... O fascismo é o velho apego à tradição, ao &lt;span style="font-style: italic;"&gt;status quo&lt;/span&gt; e ao Estado forte, mas com uma máscara nova. É a máscara da demagogia, dos discursos pomposos e cheios de emoção. Pois a emoção é o único recurso possível quando falta qualquer traço de razão na ideia defendida... O fascismo pode ser resumido na famosa frase de Mussolini: "tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado". O que importa é o que está dentro das próprias fronteiras, e os indivíduos existem para servir ao Estado, e não o contrário. Dessa forma, o fascismo se opõe a tudo aquilo que transcende as fronteiras estatais - do liberalismo ao comunismo, passando pelos judeus, pelos ciganos e por tudo o que tenha um apelo "internacionalista". Enganam-se aqueles que pensam que o fascismo é uma espécie de socialismo - essa ideia anômala só é defendida por liberais empedernidos que não conseguem ver a diferença entre um rinoceronte e uma caixa de fósforos. É verdade que os fascistas se opõem fortemente ao liberalismo clássico, e defendem a ideia de que o Estado deve comandar a economia. Mas os regimes fascistas não só preservaram como também favoreceram enormemente a iniciativa privada. Além disso, sua principal base de apoio era formada pela elite e pela classe média, que temiam a ascensão de regimes de esquerda que desestabilizassem o status quo e permitissem a ascensão das "massas ignorantes e estúpidas". Que tipo de socialismo é apoiado pelos grandes grupos econômicos? E mais: dizer que, por exemplo, o nazismo é uma forma de socialismo só porque é a abreviação de "nacional-socialismo" é tão ilógico quanto afirmar que a Coreia do Norte é democrática só porque se chama "República Popular Democrática da Coreia". Segundo a descrição de Norberto Bobbio, grande filósofo e cientista político italiano, a esquerda luta pela igualdade e enxerga as desigualdades sociais como uma verdadeira aberração, enquanto a direita as encara com a naturalidade da alternância entre dia e noite. E, considerando que o fascismo prega que há seres humanos superiores e inferiores - sendo os estrangeiros os inferiores - então os fascistas são exemplares típicos da direita, embora rejeitem os princípios liberais da maioria dos capitalistas. Assim como todos na direita, não têm outro interesse senão perpetuar o status quo, coroando-o com a glória da tradição. O fascismo é ferrenho opositor e perseguidor das ideias socialistas, seja porque transcendem as fronteiras nacionais, seja porque ameaçam o "status quo", seja porque promovem a luta de classes e a "desarmonia social".&lt;br /&gt;Engana-se quem pensa também que todo fascismo é sinônimo de perseguição a judeus, ciganos, homossexuais, portadores de deficiência ou etcetera. O fascismo italiano não chegou a esse extremo. Apesar de seu discurso tão demagógico quanto o de Hitler, Mussolini preferia a "harmonia" sob o Estado para trazer de volta a glória do antigo Império Romano. Foi na Alemanha que o fascismo assumiu sua versão anti-semita, e passou a se chamar nazismo. Os fascismos não foram todos iguais. Mussolini não foi igual a Hitler e este não foi igual a Franco.&lt;br /&gt;Não por acaso, a ascensão do fascismo se deu primeiro na Itália, em 1922. O país havia sido chacoalhado pela convulsão social, e os comunistas ganhavam cada vez mais espaço nas ruas. Era preciso surgir alguém para pôr fim à baderna e à ameaça vermelha, e ao mesmo tempo tirar o país da ruína e devolvê-lo à merecida glória. Mais cedo ou mais tarde, surgiu esse alguém. Chamava-se Benito Mussolini. Com a ajuda de seus paramilitares - os "camisas negras" - e com seu discurso inflamado, fanfarrão e demagógico, conquistou a popularidade da temerosa elite, da desesperada classe média e até mesmo de muitos dos desiludidos trabalhadores. Cavalgando nas ancas da xenofobia e do medo, chegou ao poder facilmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://images.uncyc.org/pt/4/4b/Mosola24.gif"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 160px; height: 123px;" src="http://images.uncyc.org/pt/4/4b/Mosola24.gif" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;MUSSOLINI EM MAIS UM DE SEUS DISCURSOS DEMAGÓGICOS E COM GESTOS UM TANTO "SUSPEITOS"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Alemanha, onde o medo da revolução socialista se misturava à humilhação imposta pelos vencedores daquela que um dia havia sido chamada de "uma guerra para pôr fim a todas as guerras", o discurso de Hitler ecoou com ainda mais força. Para aquele povo desiludido, ressentido e humilhado, nada como um demagogo para resgatar os ânimos... Hitler apontou os supostos culpados pela derrota: os fracos, os covardes, os judeus... Há muitas razões para que os judeus sejam tão odiados em tempos turbulentos (fico devendo um texto sobre isso), e a ideia de que eles haviam sido responsáveis pela derrota caía como uma luva nas mãos dos alemães.&lt;br /&gt;Com o maciço apoio das classes mais favorecidas e conquistando a simpatia das massas com seus discursos cheios de gestos extravagantes e ideias completamente irracionais, Hitler ascendeu rapidamente ao poder. Aquele austríaco de pequena estatura, bigode pequeno e que havia sido preso na década de 1920 por liderar uma tentativa de golpe de Estado agora alcançava cada vez mais poder. Conforme os comunistas ganhavam mais e mais apoio, as classes dominantes cada vez mais apostavam em Hitler comio a única maneira de conter a "ameaça vermelha". Por meio de um golpe branco, chegou ao poder em 1933 e logo se declarou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Führer&lt;/span&gt;, o líder supremo do Estado alemão. Chegando ao poder, perseguiu comunistas, ciganos, judeus, homossexuais, deficientes físicos e toda e qualquer forma de oposição. Sua megalomania impulsionou a industria bélica alemã e logo o país estava pronto para se vingar de seus algozes em mais uma guerra mundial. O resultado, todos sabemos qual foi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://images.uncyc.org/pt/4/43/Hitler_maozinha.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 180px; height: 140px;" src="http://images.uncyc.org/pt/4/43/Hitler_maozinha.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;HITLER DURANTE UM DE SEUS DISCURSOS INFLAMADOS. POSE TAMBÉM MEIO SUSPEITA...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Espanha, o fascismo veio nas mãos de Francisco Franco, também como "alternativa" ao "perigo vermelho". Desde o início da década de 1930, a Espanha vivia um período de domínio da esquerda na política. A monarquia havia dado lugar a uma república, e cada vez mais aumentava o medo dos conservadores de que a Espanha se tornasse uma nova União Soviética - e pior, de maneira democrática! Era preciso acabar com a baderna, trazer de volta a moral e os bons costumes e colocar a ralé em seu devido lugar outra vez! Apoiadas pela conservadora Igreja Católica espanhola (que não havia mudado muito desde os tempos do religioso/churrasqueiro Tomás de Torquemada), pelos monarquistas e pela elite econômica, os militares se insurgiram contra o ousado governo de esquerda eleito democraticamente - à frente dos insurgentes, estava o jovem militar Francisco Franco. Voluntários do mundo inteiro formaram brigadas internacionais para combater ao lado de liberais, comunistas e anarquistas contra os militares golpistas, e a URSS enviou armas e suprimentos para os defensores do regime democrático espanhol - ou pelo menos para os que compartilhavam da visão estreita do stalinismo. Franco, por sua vez, recebeu ajuda de seus compadres Hitler e Mussolini - a Espanha foi usada como palco para testar armas que seriam usadas pelos alemães e italianos durante o grande conflito dos anos seguintes. Enquanto isso, o resto do mundo nada fazia... Por mais legítimo que fosse o governo esquerdista espanhol, não interessava ás grandes pot~encias capitalistas europeias ter um país socialista no meio da Europa Ocidental... Logo, os crimes de Franco foram tolerados, o ditador espanhol derrotou as brigadas internacionais e as forças que lutavam pelo regime legalmente constituído e a monarquia foi restaurada. Instalou-se uma severa repressão na Espanha, e Franco governou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;de facto&lt;/span&gt; durante quatro décadas, com a família real servindo de enfeite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/equinas_Franco.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 451px; height: 300px;" src="http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/equinas_Franco.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;VALE DOS CAÍDOS, ESPANHA. FRANCO MANDOU ERGUER ESSE ENORME MONUMENTO EM HOMENAGEM AOS QUE O APOIARAM EM SEU GOLPE - EM PARTICULAR À IGREJA CATÓLICA. FOI CONSTRUÍDO COM O TRABALHO FORÇADO DE PRISIONEIROS POLÍTICOS, MUITOS DELES COMBATENTES REPUBLICANOS. NESSA CRUZ FOI CRUCIFICADO O POVO ESPANHOL.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, o fascismo é tido como uma mancha negra na História da Humanidade, uma mancha que precisa ser apagada. Mas por mais horrendos que tenham sido seus crimes, há evidências de que a ideia do fascismo não está morta. Com a ameaça da crise econômica rondando o planeta, crescem o medo e a insegurança - ingredientes importantes na receita fascista. Junte a eles um político hábil e demagogo e temos um regime fascista. A direita ganha cada vez mais espaço na Europa, e casos de xenofobia, racismo e perseguições a imigrantes se tornam cada vez mais comuns. É o medo de que aqueles que vêm de fora, que não têm sangue puro, roubem os empregos e contaminem a cultura. É o medo do outro, do diferente. E já sabemos o que esse medo pode trazer...&lt;br /&gt;Neo-nazistas, skinheads e outros debilóides crescem em número e em voz na Europa a cada dia - não se enganem pelo fato de o caso da brasileira Paula Oliveira na Suíça ter-se revelado uma farsa, porque outros tantos casos verdadeiros de violência contra imigrantes já ocorreram - e políticos de direita com discursos fortemente anti-imigração ganham cada vez mais espaço. Sarkozy, Berlusconi... O nacionalismo e a irracionalidade voltam à cena com o suposto fim das utopias ditas racionais - primeiro à esquerda, com o fim da URSS, agora à direita, com a crise econômica - e o cenário parece cada vez mais aberto a demostrações de chauvinismo.&lt;br /&gt;Há quem negue o Holocausto, ou o reduza a uma mera casualidade. Há quem faça guerras e limpezas étnicas em nome da defesa dos interesses do Estado ou de uma suposta raça superior. Mas não há paradoxo maior do que um povo que foi duramente perseguido e se tornou vítima do covarde e cruel genocídio do Holocausto agora desrespeitar outro povo usando da mesma irracionalidade. Baseados na crença fundamentalista da "Terra Prometida", judeus apelam para a unidade nacional, ainda que à sua maneira, para segregar e atacar os palestinos - que, naturalmente, revidam. A maior prova disso foi a vitória nas urnas israelenses da direita. O partido conservador empedernido Likud, que prega o uso da violência e descarta qualquer forma de negociação no manejo da chamada questão palestina, formará o novo gabinete do governo israelense. Em terceiro lugar, logo atrás do centrista Kadima, está o nefasto partido "Israel é o nosso lar", que está mais para nazista do que para judeu. A tática deu certo: a guerra reacendeu a irracionalidade nos corações dos israelenses e deslocou o espectro político para a direita. É bem improvável que haja paz no Oriente Médio nos próximos anos. Mas os fascistas sempre precisam de um inimigo para amedrontar o povo e assim fazê-lo se sujeitar aos desmandos do Estado todo-poderoso.&lt;br /&gt;Como se não bastasse a atitude desses governos cada vez mais conservadores, muitos jovens no mundo todo já começam a cultuar os líderes fascistas, principalmente Hitler. Reduzem o Holocausto a uma mentira e afirmam seu ódio contra imigrantes, pobres, homossexuais, negros e - no caso do Brasil - nordestinos. Essa gente nunca testemunhou horrores como os que o nazismo provocou, e essa é a única explicação - além da estreiteza mental e do preconceito puro e simples para com os menos favorecidos - para essa volta ao culto a bestialidades tamanhas como o nazi-fascismo. Deparo-me, não muito raramente, com pré-adolescentes ostentando suásticas em seus perfis do orkut e dizendo que Hitler era um gênio e um herói. Talvez eles pensem que a nova moda é ser imbecil. Mas essa imbecilidade pode levar a um futuro tenebroso. Precisamos nos salvar da irracionalidade. E, para isso, é melhor que os aspirantes a nazistas do século XXI façam justamente o que querem fazer: inspirar-se em seu grande líder e mártir Hitler. Fascistóides, sigam seu memorável exemplo de bravura! Repitam o ato de suprema benevolência de seu líder, aquele que será lembrado como a sua contribuição mais positiva para a Humanidade! Apontem o cano de uma arma para suas têmporas e puxem o gatilho!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-2248509985080696631?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/2248509985080696631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=2248509985080696631' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2248509985080696631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/2248509985080696631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/02/do-fascismo.html' title='Do fascismo'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-4616534640201604808</id><published>2009-02-19T22:38:00.005-03:00</published><updated>2009-02-28T17:13:46.704-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Economia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Meio Ambiente'/><title type='text'>Mais um vídeo interessante...</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Para comemorar o primeiro ano de vida desse blog, e também para celebrar seu quinquagésimo post, aí vai um interessante vídeo sobre o abismo para o qual caminha a Humanidade. Interessante para refletirmos sobre a sociedade de consumo que molda nosso comportamento e se alimenta de nosso desejo consumista e dos recursos - finitos e cada vez mais ameaçados - de nosso planeta. Contém diversas estatísticas, para aqueles que acham que tudo isso não passa de obra de um bando de teóricos da conspiração. Se uma imagem vale mais do que mil palavras, o que podemos dizer de um vídeo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k&amp;amp;feature=related"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k&amp;amp;feature=related&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-4616534640201604808?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/4616534640201604808/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=4616534640201604808' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4616534640201604808'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/4616534640201604808'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/02/mais-um-video-interessante.html' title='Mais um vídeo interessante...'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-201541451181455210</id><published>2009-02-16T09:10:00.003-03:00</published><updated>2009-02-16T09:20:40.663-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mídia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='EUA'/><title type='text'>Por falar em fanatismo...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;By the way, aproveitando o ensejo, a Globo News está apresentando uma série de programas sobre o bicentenário de Charles Darwin e os cento e cinquenta anos de seu "A Origem das Espécies" (pode parecer estranho a Globo publicar alguma coisa que presta, mas isso só confirma minhas observações anteriores sobre a programação da TV a cabo ser infinitas vezes melhor do que a da TV aberta). O terceiro programa da série mostra justamente a rejeição da teoria da evolução por parte dos protestantes fanáticos estadunidenses - só para provar que eu não estou falando abobrinha e nem que a conservapedia é uma sátira (como um amigo meu acreditou, chocado com seu conteúdo absurdo). Vale a pena conferir o vídeo, e também os outros programas da série, seja na TV a cabo ou na internet!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM964595-7823-A+TEORIA+CRIACIONISTA,00.html"&gt;http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM964595-7823-A+TEORIA+CRIACIONISTA,00.html&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4002833332978312616-201541451181455210?l=utopiaconcreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/feeds/201541451181455210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4002833332978312616&amp;postID=201541451181455210' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/201541451181455210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4002833332978312616/posts/default/201541451181455210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://utopiaconcreta.blogspot.com/2009/02/por-falar-em-fanatismo.html' title='Por falar em fanatismo...'/><author><name>Eduardo Pandini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06130648370601708287</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_EWj_jEJ5MHg/SuzAjRgI6KI/AAAAAAAAAHo/W4FI4Bmdhu4/S220/Yo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4002833332978312616.post-3264972243901092595</id><published>2009-02-07T14:40:00.004-02:00</published><updated>2009-02-07T16:52:34.967-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='EUA'/><title type='text'>A vanguarda do fanatismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando a maioria de nós pensa nos EUA, logo vem à nossa cabeça a ideia de um país próspero e rico, que está sempre entre os principais fomentadores da ciência e da tecnologia do mundo. Entretanto, há uma face dos EUA que não é tão conhecida fora de suas fronteiras, mas nem por isso deixa de ter enorme influência. Trata-se dos fundamentalistas, a porção mais conservadora dos habitantes de nosso "irmão do norte". Em sua maioria brancos, protestantes e habitantes das porções mais ao sul, são certamente os maiores bastiões da ignorância e do fanatismo nas Américas. Muitos ressentem-se até hoje pela derrota dos Confederados durante a Guerra de Secessão, e não é raro encontrar indivíduos exacerbadamente racistas entre os membros dessa "facção". Aplaudem de pé as ofensivas militares dos EUA contra outros países, são excessivamente nacionalistas e engrossam as fileiras do Partido Republicano durante as eleições.&lt;br /&gt;É óbvio que, apesar de conservador, o Partido Republicano não é composto exclusivamente por fundamentalistas. Entretanto, não se pode negar que eles exerçam uma influência decisiva, e estejam entre os grupos mais importantes na conquista de votos. Afinal, foi essa gente que ajudou a eleger e a reeleger Bush.&lt;br /&gt;Brancos, ultraconservadores, sulistas, majoritariamente protestantes, patriotas e racistas, muitos deles de classe média ou pobres (que veem com desagrado a ascensão de negros e imigrantes), ignoram o fato de que além de suas fronteiras existem pessoas diferentes e que não necessariamente estão dispostas a viver do mesmo jeito que eles próprios - na verdade, muitos deles ignoram o fato de que há seres humanos além de suas fronteiras. Enquanto o mundo inteiro se satisfaz com as fronteiras atuais do mundo, essa gente não se contenta e insiste em fazer com que os outros povos engulam o modelo estadunidense de "democracia". Acusam os fundamentalistas muçulmanos do Oriente Médio de fanáticos, mas são tão fundamentalistas e fanáticos quanto eles, embora chamem Deus de outro nome.&lt;br /&gt;Não é o fato de ser protestantes que os torna piores que os outros - de maneira nenhuma. O que importa não é a religião, e sim o que cada um faz com ela. Os fundamentalistas protestantes dos EUA não diferem em seus métodos dos seus equivalentes no Oriente Médio, ou da conduta da Igreja Católica nos tempos da Idade Média e da Inquisição. Todos eles cometeram ou cometem um grave pecado que não se encontra nos livros sagrados: impor barreiras ao pensamento humano, e combater a razão - o instrumento mais poderoso, que nos torna diferentes dos outros animais.&lt;br /&gt;Recentemente, descobri uma "obra-prima" feita por esses fundamentalistas dos EUA. Trata-se de uma enciclopédia virtual, nos moldes da Wikipedia, mas contendo só verbetes de acordo com essa visão bitolada, fanática e reacionária, tão característica dessa facção barulhenta e hostil dos ultraconservadores. O &lt;a href="http://www.conservapedia.com/"&gt;site&lt;/a&gt;, em inglês, foi originalmente criado para livrar as crianças que vivem nas comunidades fundamentalistas da "corrompida e excessivamente liberal" wikipedia, e muitos de seus verbetes foram criados como tarefas escolares das crianças - que obviamente sofrem uma moderna lavagem cerebral para acreditar nas explicações sem fundamento de como o mundo foi criado e funciona. Para o criador da referida e nonsense enciclopédia, chamada de "conservapedia, a enciclopédia confiável", os EUA precisavam de uma enciclopédia virtual que refletisse suas tendências anti-liberais. Segundo o próprio, a wikipedia é seis vezes mais liberal do que a sociedade dos EUA porque, segundo seus cálculos, enquanto nos EUA há duas vezes mais conservadores do que liberais, há na wikipedia três vezes mais verbetes liberais do que conservadores...&lt;br /&gt;De fato, apesar do grande progresso científico e tecnológico, boa parte da população dos EUA é conservadora. Prova disso é o fato de que mais da metade de seus habitantes não acredita na Teoria da Evolução - enquanto no resto do mundo ela é unanimemente aceita, nos EUA há estados que tentam barrar o seu ensino nas escolas e substituí-lo por aulas que enfatizem o criacionismo. Em pleno século XXI, quando a Humanidade já é capaz de decifrar seus genes e mandar sondas espaciais para os confins do sistema solar, há uma parcela tão significativa dos habitantes da maior potência econômica do planeta que insistem em acrditar que o ser humano veio de Adão e Eva. Outro contra-senso: em um país que se diz herdeiro da tradição Iluminista, Igreja e Estado ainda estão amarrados por fortes laços: pesquisas apontam que a maioria esmagadora da população dos EUA nunca votaria em um presidente ateu.&lt;br /&gt;Para esses fundamentalistas que escreveram a conservapedia, e para tantos outros que os apoiam, os EUA estão destinados a guiar o mundo e a levar a liberdade e a democracia a todo canto do globo, a &lt;a href="http://www.conservapedia.com/Evolution"&gt;Teoria da Evolução&lt;/a&gt; não passa de balela (contrariando todas as descobertas científicas desde o século XIX), Deus criou o mundo há uns poucos milhares de anos (e todos os fósseis e outras provas anteriores seriam mentira, invenção ou resquício "do tempo antes do dilúvio"), o &lt;a href="http://www.conservapedia.com/Homosexual"&gt;homossexualismo&lt;/a&gt; é responsável por diversas doenças (incluindo a ridícula "&lt;a href="http://www.conservapedia.com/Gay_Bowel_Syndrome"&gt;síndrome do intestino gay&lt;/a&gt;") e o &lt;a href="http://www.conservapedia.com/Global_warming"&gt;aquecimento global&lt;/a&gt; não passa de um plano malévolo dos ambientalistas para tirar dos EUA a liderança econômica do planeta. No artigo sobre a evolução, lê-se como essa gente acredita na Bíblia como única fonte possível de conhecimento: "até a década de 1970, o consenso científico estava errado sobre como os leões matavam suas presas. A Bíblia estava certa sobre como os leões matavam suas presas". O mesmo se diz logo depois sobre o comportamento das formigas. Sinceramente, fiquei surpreso quando vi que eles pelo menos acreditam que a Terra gira em torno do Sol.&lt;br /&gt;Para a Conservapedia, a visão liberal predomina não porque está respaldada na ciência, e sim porque os liberais possuem uma &lt;a href="http://www.conservapedia.com/Liberal_bias"&gt;maneira peculiar de convencer e persuadir os outros&lt;/a&gt;, o que inclui "a tendência de enganar e exagerar para conseguir atenção, uso de obscenidades, tentativa de ser consistente tratando homens e mulheres da mesma forma, e preocupação com raças e etnias no uso da imagem". Duvidam? Cliquem no link para conferir... Vergonhosa também foi a cobertura das eleições de 2008, bem como os artigos sobre Bush e outros repubicanos. No &lt;a href="http://www.conservapedia.com/George_W._Bush"&gt;artigo sobre Bush&lt;/a&gt;, pouca menção se faz das críticas que recebeu, enquanto se enfatiza seu lado religioso. O mesmo vale para Reagan e outros abomináveis. Sobre &lt;a href="http://www.conservapedia.com/Obama"&gt;Obama&lt;/a&gt;, a conservapedia faz questão de afirmar que é amigo de terroristas, antinacionalista e muçulmano.&lt;br /&gt;A visão que eles têm do mundo é a de que Deus o criou para que o ser humano desfrutasse dele, sem preocupações com o f
