domingo, 25 de setembro de 2011

Manifesto da Ciência Tropical - Miguel Nicolelis

Como este blog anda meio às moscas, aí vai um texto muito interessante que encontrei por aí. O médico neurocientista brasileiro - e cotado para o Nobel em Medicina por suas pesquisas em interação cérebro-máquina - lançou um manifesto a favor do desenvolvimento da ciência em nosso país. Como podem ver, não sou o único a defender a preservação e o estímulo ao pleno desenvolvimento do potencial humano.

Vale a pena ler!


Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil

por Miguel Nicolelis

É hora da ciência brasileira assumir definitivamente um compromisso mais central perante toda a sociedade e oferecer o seu poder criativo e capacidade de inovação para erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva.

É hora de agarrar com todas as forças a oportunidade de contribuir para a construção da nação que sonhamos um dia ter, mas que por muitas décadas pareceu escapar pelos vãos dos nossos dedos.

É hora de aproveitar este momento histórico e transformar o Brasil, por meio da prática cotidiana do sonho, da democracia e da criação científica, num exemplo de nação e sociedade, capaz de prover a felicidade de todos os seus cidadãos e contribuir para o futuro da humanidade.

No intuito de contribuir para o início desse processo de libertação da energia potencial de criação e inovação acumulada há séculos no capital humano do genoma brasileiro, eu gostaria de propor 15 metas centrais para a capacitação do Programa Brasileiro de Ciência Tropical.

A implementação delas nos permitirá acelerar exponencialmente o processo de inclusão social e crescimento econômico, que culminará, na próxima década, com o banimento da miséria, a maior revolução educacional e ambiental da nossa história e a decolagem irrevogável e irrestrita da indústria brasileira do conhecimento.

Estas 15 metas visam a desencadear a massificação e a democratização dos meios e mecanismos de geração, disseminação, consumo e comercialização de conhecimento de ponta por todo o Brasil.

1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional

O objetivo é proporcionar a 1 milhão de crianças, nos próximos 4 anos, acesso a um programa de educação científica pública, protagonista e cidadã de alto nível. Esse programa utilizará o método científico como ferramenta pedagógica essencial, combinando a filosofia de vida de dois grandes brasileiros: Paulo Freire e Alberto Santos-Dumont.

Ao unir a educação como forma de alcançar a cidadania plena com a visão de que ciência se aprende e se faz “pondo a mão na massa”, sugiro a criação do Programa Educação para Toda a Vida, do qual faria parte o Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont (veja abaixo). A porta de entrada se daria nos serviços de pré-natal para as mães dos futuros alunos do programa. Após o nascimento, essas crianças seriam atendidas no berçário e na creche, depois na escola de educação científica que os serviria dos 4-17 anos, para que esses brasileiros e brasileiras possam desenvolver toda a sua potencialidade intelectual e criativa nas duas próximas décadas de suas vidas.

O programa de educação científica seria implementado no turno oposto ao da escola pública regular, criando um regime de educação em tempo integral para crianças de 4-17 anos, por meio de parceria do governo federal com governos estaduais e municipais. Cada unidade da rede de universidades federais poderia ser responsável pela gestão de um núcleo do Programa Educação para Toda Vida, voltado para a população do entorno de cada campus.

O governo federal poderia ainda incentivar a participação da iniciativa privada, oferecendo estímulos fiscais e tributários para as empresas que estabelecessem unidades de educação científica infanto-juvenil, ao longo do território nacional. Por exemplo, o novo centro de pesquisas da Petrobras poderia criar uma das maiores unidades do Educação para Toda Vida.

2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência

A implementação do Programa Educação para Toda Vida geraria uma demanda inédita para professores especializados no ensino de ciência e tecnologia. Para supri-la, o governo federal poderia estabelecer o Programa Nacional de Educação Científica Alberto Santos -Dumont, que seria o responsável pela gestão dos centros nacionais de formação de professores de ciências, espalhados por todo território nacional. As universidades federais, os Institutos Federais de Tecnologia (antigos CEFETs) e uma futura cadeia de Institutos Brasileiros de Tecnologia (veja abaixo) poderiam estabelecer programas de formação de professores de ciências e tecnologia em todo o país.

Esses novos programas capacitariam uma nova geração de professores a ensinar conceitos fundamentais da ciência, através de aulas práticas em laboratórios especializados, tecnologia da informação e utilização de métodos, processos e novas ferramentas para investigação científica. Os alunos que se graduassem no programa Educação para Toda Vida teriam capacitação, antes mesmo do ingresso na universidade, para se integrar ao trabalho de laboratórios de pesquisa profissionais, tanto públicos como privados, através do Programa Nacional de Iniciação Científica e do Bolsa Ciência (veja abaixo).

3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais

Seria em paralelo à tradicional carreira de docente. Ela nos permitiria recrutar uma nova geração de cientistas que se dedicaria exclusivamente à pesquisa científica, com carga horária de aulas correspondente a 10% do seu esforço total. Sem essa mudança não há como esperar que pesquisadores das universidades federais possam dar o salto científico qualitativo necessário para o desenvolvimento da ciência de ponta do país.

4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país

Eles serviriam para suprir a demanda de engenheiros, tecnólogos e cientistas de alto nível e promover a inclusão social por meio do desenvolvimento da indústria brasileira do conhecimento. Atualmente o Brasil apresenta um déficit imenso desses profissionais.

Para sanar essa situação, o Brasil poderia reproduzir o modelo criado pela Índia, que, desde a década de 1950, construiu uma das melhores redes de formação de engenheiros e cientistas do mundo, constituída pela cadeia de Institutos Indianos de Tecnologia.

Para tanto, o governo federal deveria criar nos próximos oito anos uma rede de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia (IBT) e espalhá-los em bolsões de miséria do território nacional, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Cada IBT poderia admitir até 5.000 alunos por ano.

5) Criação de 16 Cidades da Ciência

Localizadas nas regiões com baixo índice de desenvolvimento humano, como o Vale do Ribeira, Jequitinhonha, interior do Nordeste, Amazônia, as Cidades da Ciência ficariam no entorno dos novos IBTs.

As Cidades da Ciência seriam, na prática, o componente final da nova cadeia de produção do conhecimento de ponta no Brasil. Acopladas aos novos IBTs e à rede de universidades federais, criariam o ambiente necessário para a transformação do conhecimento de ponta, gerado por cientistas brasileiros, em tecnologias e produtos de alto valor agregado que dariam sustentação à indústria brasileira do conhecimento.

Nas Cidades da Ciência seriam criadas e estabelecidas as grandes empresas do conhecimento nacional, onde o potencial científico do povo brasileiro poderia se transformar em novas fontes de riqueza a serem aplicadas na gênese de um sistema nacional autossustentável. Tal iniciativa permitiria a inserção do Brasil na era da economia do conhecimento que dominará o século XXI.

6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia

Esse verdadeiro cinturão de defesa, formado por um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia, seria disposto em paralelo ao chamado “Arco de Fogo”, formado em decorrência do agronegócio predatório e da indústria madeireira ilegal, responsáveis pelo desmatamento da região. Essa iniciativa visa a fincar uma linha de defesa permanente contra o avanço do desmatamento ilegal, modificando a estratégia das unidades de conservação a fim de colocá-las a serviço de um Programa Nacional de Mapeamento dos Biomas Brasileiros.

Uma série de unidades de conservação poderia ser transformada em unidades híbridas. Assim, além da conservação, poderiam incluir grandes projetos de pesquisa que possibilitem ao Brasil mapear a riqueza e a magnitude dos serviços ecológicos e climáticos encontrados nos diversos biomas nacionais.

Para incentivar a participação de populações autóctones nesse esforço, o governo federal poderia criar o programa Bolsa Ciência Cidadã. Homens, mulheres e adolescentes, que vivem na floresta amazônica e conhecem seus segredos melhor do que qualquer professor doutor, receberiam uma bolsa, similar ao bolsa família, para integrarem as equipes de pesquisadores e responsáveis pela implementação das leis ambientais na região. Esse exército de cidadãos, devotado à investigação científica e à proteção da Amazônia, mostraria ao mundo o quão determinado o Brasil está em preservar uma das maiores maravilhas biológicas do planeta.

Evidentemente tal iniciativa poderia ser replicada em outras áreas críticas, também ameaçadas pela indústria predatória, como o Pantanal, a caatinga, o cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas.

7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira

A descoberta do pré-sal demonstra claramente que uma das maiores fontes potenciais de riqueza futura da sociedade brasileira reside no vasto e diverso bioma marítimo da nossa costa.

Apesar disso, os esforços nacionais para estudo científico desse vasto ambiente são muito incipientes. Aqui também o Brasil pode inovar de forma revolucionária. Em parceria com a Petrobras, o governo federal poderia estabelecer, no limite das 350 milhas marinhas, oito plataformas voltadas para a pesquisa oceanográfica e climática, visando ao mapeamento das riquezas no mar tropical brasileiro.

Essas verdadeiras “Cidades Marítimas”, dispostas a cada mil quilômetros da costa brasileira, seriam interligadas por serviço de transporte marítimo e aéreo (helicópteros) e se valeriam de incentivos à renascente indústria naval brasileira, para o desenvolvimento, por exemplo, de veículos de exploração a grandes profundidades.

Cada “Cidade Marítima” seria autossuficiente, contando com laboratórios, equipamentos e equipe própria de pesquisadores. Tais edificações serviriam também como postos mais avançados de observação dos limites marítimos do Brasil. Com o crescente desenvolvimento da exploração do pré-sal, essa rede de “Cidades Marítimas” poderia assumir papel fundamental na defesa da nossa soberania marítima dentro das águas territoriais.

8) Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro

Embora subestimado pela sociedade e a mídia brasileiras, o fortalecimento do programa espacial brasileiro oferece outro exemplo emblemático de como o futuro do desenvolvimento científico no Brasil é questão de soberania nacional.

Dos países pertencentes ao BRIC, o Brasil é o que possui o mais tímido e subdesenvolvido programa espacial. Apesar da sua situação geográfica altamente favorável, a Base de Alcântara não tem correspondido às altas expectativas geradas com a sua construção.

Essa situação é inaceitável, uma vez que, a longo prazo, pode levar o Brasil a uma dependência irreversível no que tange a novas tecnologias e novas formas de comunicação, colocando a nossa soberania em risco. Dessa forma, urge reativar os investimentos nessa área vital, definir novas e ambiciosas metas para o programa espacial brasileiro e esclarecer o papel da sociedade civil na operação dos programas da Base de Alcântara, cujo controle deveria estar nas mãos de uma equipe civil de pesquisadores e não das forças armadas.

9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica

Com a criação do Programa Educação para Toda Vida, seria necessário implementar novas ferramentas para que os adolescentes egressos desses programas pudessem dar vazão a seus anseios de criação, invenção e inovação através da continuidade do processo de educação científica, mesmo antes do ingresso na universidade e depois dele.

Na realidade, é extremamente factível que grande número desses jovens possa começar a contribuir efetivamente para o processo de geração de conhecimento de ponta antes do ingresso na universidade.

O governo federal poderia criar um Programa Nacional de Iniciação Científica que leve ao estabelecimento de 1 milhão de Bolsas Ciência. Uma experiência preliminar desse programa já existe no CNPQ, através do recém-criado programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. Bastaria ampliá-lo e remover certas amarras burocráticas que dificultam a sua implementação neste momento. Esse programa poderia também ser usado pelo governo federal para eliminar uma porcentagem significativa (30%) da evasão do ensino médio, decorrente da necessidade dos alunos em contribuir para a renda familiar.

Jovens de talento científico reconhecido deveriam também ter a opção de seguir carreira de inventor ou pesquisador sem necessitar de doutorado ou outro curso de pós-graduação. Tal alternativa contribuiria decisivamente para a diminuição do período de treinamento necessário para que talentos científicos pudessem participar efetivamente do desenvolvimento científico do Brasil.

10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década

Tendo proposto novas ações, é fundamental que essas sejam devidamente financiadas. Para tanto e, ainda, para assegurar a ascensão da ciência brasileira aos patamares de excelência dos países líderes mundiais, o governo brasileiro teria de tomar a decisão estratégica de destinar, nas próximas décadas, algo em torno de 4-5% do PIB nacional à ciência e tecnologia.

Em vários países, como os EUA, essa conta é dividida em partes iguais entre o poder público e privado. No Brasil, todavia, não existem condições para que isso ocorra de imediato. Dessa forma, não restaria outra alternativa ao governo federal senão assumir a responsabilidade desse investimento estratégico, usando novas fontes de receita, como a gerada pela exploração do pré-sal.

11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa

Reformulação de normas de procedimento e processo para agilizar a distribuição eficiente de recursos ao pesquisador e empreendedor científico, bem como criar um novo modelo de gestão e prestação de contas.

A ciência e o cientista brasileiro não podem mais ser regidos pelas mesmas normas de 30-40 anos atrás, utilizadas na prestação de contas de recursos públicos para construção de rodovias e hidrelétricas.

Urge, portanto, reformular completamente todos os protocolos de cooperação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com outros ministérios estratégicos para execução de projetos multiministeriais.

Na lista de cooperação estratégica do MCT, incluem-se os ministérios da Educação, Saúde, Meio Ambiente, Minas e Energia, Indústria e Comércio, Agricultura, Defesa e Relações Exteriores. Normas comuns de operação dos departamentos jurídicos e dos processos de prestação de contas devem ser produzidas entre o MCT e esses ministérios, de sorte a incentivar a realização de projetos estratégicos interministerais, como o Educação para Toda Vida.

O cenário atual cria inúmeros empecilhos para ratificação de projetos estratégicos aprovados no mérito científico (o principal quesito), mas que, via de regra, passam meses e até anos prisioneiros dos desconhecidos meandros e procedimentos conflitantes com que operam os diferentes departamentos jurídicos dos diferentes ministérios.

Urge eliminar tal barreira kafkaniana e transferir o poder de decisão, atualmente nas catacumbas jurídicas dos ministérios onde volta e meia processos desaparecem, para as mãos dos gestores de ciência treinados para implementar uma visão estratégica do projeto nacional de ciência e tecnologia.

12) Criação de joint ventures para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil

É’ fundamental investir numa redução verdadeira dos trâmites burocráticos “medievais” que ainda existem para aquisição de materiais de consumo e equipamentos de pesquisa importados. Para tanto, é importante definir políticas de incentivo ao estabelecimento de empresas nacionais dispostas a suprir o mercado nacional com insumos e equipamentos científicos.

13) Criação do Banco do Cérebro

Um dos maiores gargalos para o crescimento da área de ciência e tecnologia no Brasil é a dificuldade que cientistas e empreendedores científicos enfrentam para ter acesso ao capital necessário para desenvolver novas empresas baseadas na sua propriedade intelectual.

Na maioria das vezes, esses inventores e microempreendedores científicos ficam à mercê da ação de venture capitalists, que oferecem capital em troca de boa parte do controle acionário da empresa em que desejam investir.

Para reverter esse cenário, o governo federal poderia criar o Banco do Cérebro, uma instituição financeira destinada a implementar vários mecanismos financeiros para fomento do empreendedorismo científico nacional.

Essas ferramentas financeiras incluiriam desde programa de microcrédito científico até formas de financiamento de novas empresas nacionais voltadas para produtos de alto valor agregado, fundamentais ao desenvolvimento da ciência brasileira e da economia do conhecimento.

Para isso, o governo federal deverá exigir que esses novos empreendimentos científicos sejam localizados numa das novas Cidades da Ciência. Joint ventures entre empreendedores brasileiros e estrangeiros também deverão ser estimuladas pelo Banco do Cérebro, seguindo o mesmo critério social.

14) Ampliação e incentivo a bolsas de doutorado e pós-doutorado dentro e fora do Brasil

À primeira vista pode parecer contraditório propor metas para o desenvolvimento da Ciência Tropical e, ao mesmo tempo, reivindicar aumento significativo de bolsas de doutorado e pós-doutorado para alunos brasileiros no exterior.

Novamente, a proposta da Ciência Tropical é, antes de tudo, um nova proposta para o desenvolvimento de excelência na prática da pesquisa e educação científica. Dessa forma, ela tem de incentivar todas as formas que permitam aos melhores e mais promissores cientistas brasileiros complementarem sua formação fora do território nacional.

Como bem disse a presidente-eleita Dilma Rousseff durante a campanha: “ O Brasil precisa de seus cientistas porque eles iluminam o nosso país”.

Pois que os futuros jovens cientistas brasileiros tenham a oportunidade de se transformar em genuínos embaixadores da ciência brasileira e complementar seus estudos em universidades e institutos de pesquisa estrangeiros, líderes em suas respectivas áreas.

Esse processo de intercâmbio e “oxigenação” de idéias é essencial à prática da ciência de alto nível. Mesmo os cientistas brasileiros que optarem por ficar no exterior depois desse e treinamento poderão trazer dividendos fundamentais para o desenvolvimento da Ciência Tropical.

15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil

Com a crise financeira, verdadeiros exércitos de cientistas americanos e europeus estarão procurando novas posições nos próximos anos. Cabe ao Brasil tirar vantagem dessa situação e passar a ser um importador de cérebros e não um exportador de talentos.

Historicamente, a academia brasileira tem inúmeros exemplos excepcionais de pesquisadores estrangeiros de alto nível que alavancaram grandes avanços científicos no Brasil. O Programa Brasileiro de Ciência Tropical só teria a ganhar com uma política mais abrangente, audaciosa e sistêmica de importação de talentos.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Imbecilidade

A Noruega e o mundo assistiram recentemente a uma demonstração (daquelas que estamos enjoados de ver) de que as suspeitas de Albert Einstein de que a estupidez humana é infinita têm sólido fundamento. Um imbecil norueguês, insatisfeito com a "islamização" de seu país e da Europa, e preocupado com a "perda da pureza de seu povo", realizou um atentado a bomba em Oslo e pouco tempo depois entrou armado em um evento promovido pelo Partido Trabalhista da Noruega em uma localidade próxima, abrindo fogo contra dezenas de jovens - usando munição proibida até em guerras por seus terríveis efeitos sobre o corpo. Mais de sete dezenas de pessoas morreram, somando-se os dois atos de covardia perpetrados pelo acéfalo nórdico. O mundo está de luto, chocado com mais essa demonstração de intolerância de um ser humano. Mas certamente há, principalmente na Europa, alguns que, mesmo em segredo, aplaudiram essa barbaridade.
A culpa de todo e qualquer atentado que ocorre no mundo hoje recai, inicialmente, sobre extremistas muçulmanos. Obviamente, não por acaso. Existe todo um retrospecto, desde antes de 11 de setembro, que faz deles importantes suspeitos. Mas enxergar o islã como sinônimo de terrorismo é uma estupidez, visto que diversos povos de países muçulmanos se levantaram contra os desmandos de seus líderes neste ano de 2011 em uma clara demonstração de que desejam democracia e paz, e não a destruição do Ocidente (como a minúscula e barulhenta minoria de radicais faz parecer). E agora, depois dessa barbaridade norueguesa, o mundo ocidental deve se convencer de que cristãos também cometem atrocidades da mesma baixeza das cometidas por radicais muçulmanos. Se tomarmos como base as reações da opinião pública e das lideranças ocidentais contra os muçulmanos após os recorrentes atentados cometidos por eles, será que agora as autoridades europeias e estadunidenses sairão à caça de fundamentalistas cristãos de extrema direita? Cristãos também serão perseguidos?
Obviamente, não. A Europa é cristã. O incidente da Noruega deve ser um lembrete aos mais islamófobos e radicais de que o terrorismo e o mal não têm religião definida. O fundamentalismo e o terrorismo podem vir de qualquer lado, e crucificar um povo ou uma religião inteira - como tem sido feito com os muçulmanos em diversos lugares por muita gente - é um grande erro. O fundamentalismo não tem pátria, não tem religião. Esse sim, o fundamentalismo, é um mal que deve ser combatido com todas as forças por todo o planeta, seja qual for sua fé.
O lixo humano causador dos atentados descreve a si próprio como "fundamentalista cristão de extrema direita" - o que em geral é um pleonasmo. Realizou seu covarde ato por crer "que a Europa está em perigo graças a uma invasão do islã e da esquerda", e que só a "heterogeneidade étnica, a política conservadora e nacionalista, a educação do povo, a eliminação da presença do islã e o livre mercado" são o caminho para o país oferecer o melhor ao seu povo. Embora eu concorde com a parte da educação do povo, todo o resto é ridiculamente desprezível (com exceção do livre mercado, que embora eu não defenda tenho que reconhecer que ainda é defendido por gente séria), e não difere muito do que pedem grupos xenófobos e racistas em outros países do mundo, inclusive o Brasil. A referida escória humana planejou todos os passos de sua ação, e queria que seu ato iniciasse uma "revolução" contra a presença muçulmana na Europa - permitida e incientivada, segundo ele, pelos partidos de esquerda. Ora essa, a esquerda tem uma tradição universalista que transcende suas próprias fronteiras e credos, por abraçar a ideia de que todos os povos devem cooperar mutuamente, e que não há ninguém melhor ou etnicamente superior a ninguém - embora alguns aloprados como Stálin tenham transformado a amizade e a cooperação entre os povos em cinzas, o que de forma alguma invalida a ideia original. Por ser incapazes de compreender o mundo como algo que transcende fronteiras (a abrangência daquilo que alguém toma como "povo", merecendo iguais direitos e respeito integral a sua existência, tende a ser diretamente proporcional ao tamanho de seu próprio cérebro), os ultranacionalistas - de qualquer lugar do mundo - acham que tudo aquilo que é diferente é uma ameaça à "pureza da raça" ou à "unidade da fé". Desprezam o multiculturalismo como se houvesse alguma vantagem em ser "puro", a não ser a de achar um bode expiatório sempre à mão para justificar problemas de causas bem mais profundas.
Como afirmei antes, nem todos no mundo receberam com horror as notícias dos atentados. Alguns cabeças de vento, principalmente na Europa (e talvez seus equivalentes estadunidenses) bateram palmas, ainda que em segredo. As declarações do terrorista de que, embora tenha agido sozinho, ele faz parte de uma organização maior, mostram que ele não está sozinho nessa "cruzada". E suas palavras de que ele próprio não se considera um terrorista, e de que suas ações foram um mal necessário para conter o avanço do islã, mostram o quão perigosa é essa gentinha estúpida. A crise econômica de 2008 teve como um de seus muitos efeitos colaterais o surgimento e o fortalecimento de grupos de extrema direita, tanto ultranacionalistas (incluindo neonazistas) quando fundamentalistas cristãos. Quando a crise e o medo de perder suas posses batem à porta, as pessoas deixam de lado a razão e se abrigam na xenofobia e no extremismo religioso, ideias irracionais e bastante "reconfortantes". Essa gente quase sempre anda escondida, mas de vez em quando surge fazendo atentados ou elegendo políticos ultranacionalistas. E não são poucos. Resta saber se as autoridades europeias combaterão esse tipo de extremismo com o mesmo rigor com que tratam (de maneira justa, é bom que se diga) os extremistas muçulmanos, ou esquecerão rapidamente esse evento trágico até que outro imbecil com tão pouco conteudo em seu crânio apareça.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Questão de bom senso

Enquanto estive afastado do blog por motivos acadêmicos, testemunhei alguns acontecimentos que me fizeram refletir um pouco e despejar aqui minhas opiniões. Após mais um longo e tenebroso inverno, venho até vós para falar de um tema polêmico: o tão-falado "politicamente correto". Nos últimos tempos, o assunto ganhou enorme projeção na mídia e repercussões sociais, culturais, políticas e criminais.
A ideia do politicamente correto é acabar com o preconceito em geral e evitar que grupos minoritários dentro da sociedade sejam tratados de maneira injusta. Defender os pequenos grupos em sua luta por expressão e reconhecimento. Lutar pelos direitos dos seres humanos, não importando quem eles sejam ou o que façam. Uma ideia muito bem-intencionada, mas que tem recebido um enfoque totalmente diverso daquilo que seria correto. E esse foco equivocado tem trazido efeitos opostos aos desejados, além de ter revelado como os seres humanos podem ser hipócritas, se a eles for dada a oportunidade.
A cultura do politicamente correto tem travado duras batalhas contra o conteúdo de nossos dicionários, lutando bravamente contra tirânicos adjetivos! Hoje há uma lista imensa de adjetivos pelos quais não se pode chamar uma pessoa ou referir-se a ela. Embora eu reconheça que a iniciativa tem um fundo bem-intencionado por pretender eliminar o prconceito, não posso deixar de notar o óbvio: proibir o uso de uma palavra - e nos obrigar a usar um sinônimo pretensamente neutro - não elimina, e jamais eliminará, nenhuma forma de preconceito. Em certos casos pode ser contra-produtivo, e em outros simplesmente hipocrisia. Seres humanos continuarão se ofendendo e inventando novas palavras para isso - como temos feito desde que nossa laringe permitiu que emitíssemos mais do que grunhidos. Na prática, proibir palavras só serve para restringir liberdade e para desviar as pessoas do verdadeiro foco da questão - seja ela qual for.
Proibir palavras não funciona porque o sentido de uma palavra depende basicamente do contexto em que é usada. Chamar alguém de negro ou cego, por exemplo, pode soar preconceituoso e ofensivo ou não, dependendo da ocasião. Até mesmo os eufemismos que se propõem a substituir essas palavras podem virar ofensivas, se usadas no lugar certo. Não é impedindo alguém de usar uma palavra que o preonceito será eliminado. Deixar de usar termos tidos como machistas não impedirá que mulheres sejam espancadas por seus maridos Brasil afora. Dizer "afrodescendente" em vez de "negro" não mudará nada na cabeça dos nossos racistas empedernidos com cérebro de noz, nem mudará a triste realidade que mostra que os negr... ops, afrodescendentes, são mais pobres, têm salários mais baixos e menos anos de estudo do que a média dos brasileiros. Dizer "insegurança alimentar" em vez de fome não enche a barriga de ninguém. Chamar de "portador de nanismo" a um anão não o livra de sua condição. Não poder chamar um indivíduo obeso de "gordo" não o torna magro. E assim sucessivamente... É claro que devemos sempre lutar contra a discriminação e o preconceito de qualquer tipo, mas não é assim que vamos conseguir. Muitas atitudes condenáveis deixaram de ser praticadas sem que se inventassem eufemismos. Ou a escravidão desapareceu porque se proibiu o uso da palavra "escravo"? À medida que a sociedade amadurece e se torna mais consciente, práticas como a escravidão, a segregação racial e a pena de morte são deixadas de lado, naturalmente, sem intervenções no vocabulário. É disso que precisamos: consciência e amadurecimento. E de bom senso. Um pouco de bom senso faz muito bem na hora de escolher em que momento usar as palavras. E também na hora de cogitar proibí-las.
Em muitos casos - como ocorre hoje no Brasil - o emprego de novas palavras serve ao propósito de tapar o sol com a peneira, desviar o foco do assunto principal e gerar a ilusão de que os problemas se resolvem com uma mudança de termos. Ou de confundir o público com palavras mais amenas do que a verdade merece - por que os EUA "ocupam" o Iraque em vez de "invadem"? Por que usar "comunidade carente" em vez de "favela", se a situação de seus habitantes não muda?
Há maneiras muito mais eficientes de se defender os direitos humanos no Brasil do que proibindo palavras que talvez sejam ofensivas dependendo da ocasião. Combater a prática da escravidão por dívida, ainda difundida nos rincões de nosso país, por exemplo. Ou impedir que a polícia cometa abusos em suas operações nas favelas - por mais que o objetivo seja caçar bandidos, na maioria esmagadora dos casos essas operações acabam matando ou ferindo inocentes. Ou ainda melhorar as condições sanitárias e extinguir a superlotação nas cadeias. Combater a impunidade que hoje livra os ricos de parar atrás das grades. E por último, combater as escandalosas desigualdades sociais de nosso país, que são citadas em todos os relatórios de direitos humanos da ONU. Literalmente, não precisamos de palavras (ou, no caso, de proibí-las), e sim de ações concretas!
Até mesmo clássicos da literatura - infantil incluída - sofrem cortes duros com essa ideia fraca. Cantar "atirei o pau no gato" não torna uma criança violenta e desrespeitosa com os animais. Ler Monteiro Lobato não torna ninguém racista pelos termos que ele usou para se referir a Tia Nastácia. Cantar "o cravo brigou com a rosa" não leva os meninos a bater nas mulheres quando adultos. Crianças são inocentes demais para se contaminar com esse tipo de coisa. Então por que essa barbárie toda? Preconceito nasce de raízes bem mais profundas. E se alguma obra tem conteúdo realmente preconceituoso e ofensivo, deixemos que a sociedade imponha sua própria censura - não comprando, não lendo, não assistindo. Obviamente, para isso é preciso que tenhamos uma sociedade educada e instruída. Mais uma vez, é preciso que impere o bom senso.
Os militantes do "politicamente correto" também agem em outros campos, como a defesa das minorias. Outro ponto em que há certamente boas intenções, mas ultimamente tem-se visto pouco bom-senso. Dar voz a negros, índios, mulheres (que não são minoria, mas sempre foram tratadas como se fossem), homossexuais, deficientes físicos e minorias étnicas ou religiosas reprimidas é louvável, certamente, mas a partir do momento em que se começa a bater na mesma tecla e começam a se configurar exageros, a situação muda. Recentemente assistimos a alguns acontecimentos controversos envolvendo os homossexuais - uma minoria altamente consciente e mobilizada, que obteve para si expressão política bem maior do que outros grupos. Organizam paradas gays que atraem milhões de pessoas pelo mundo e geralmente contam com representantes políticos em todos os países onde atuam como entidade organizada. Não ao preconceito aos homossexuais, concordo! Assim como digo não ao preconceito às outras minorias. Mas elaborar uma cartilha para ser distribuída nas escolas é um passo além das próprias pernas. A sociedade brasileira não está preparada para isso - e talvez nunca esteja. Iniciativas ousadas como essa costumam ser contra-produtivas, fomentando ainda mais ódio e homofobia - justamente o que se propõem a combater. Criar uma cartilha para crianças mostrando a homossexualidade como normal (ainda que seja na verdade uma variação do biologicamente normal heterossexual, inofensiva e não patológica - sendo que há diversos relatos de animais homossexuais) talvez seja confundir a cabeça dos pequenos e expor algo a que ainda não estão familiarizados. Lutar contra o preconceito e a intolerância é necessário, sim! Mas isso se conseguirá através de uma educação voltada para a tolerância e a compreensão de que a diferença, e toda forma de diferença, não é necessariamente ruim. Não será com uma mera cartilha que mostre e defenda apenas uma minoria. Por que não se faz uma cartilha defendendo a tolerância a outras minorias? A negros, índios, estrangeiros, deficientes físicos e mentais, praticantes de candomblé e de outras crenças minoritárias, etc? Será que isso tem a ver com o fato de que os homossexuais são mais organizados politicamente e contam com membros da elite econômica e intelectual? No texto que escrevi sobre saúde comentei sobre a influência dos homossexuais na luta em que se engajou a sociedade do mundo todo contra a AIDS. Criar cartilhas e fazer outras tantas campanhas batendo na mesma tecla (no caso, os homossexuais) não seria preconceito contra as outras minorias, deixadas de lado? Por que só os homossexuais?
Quando digo que iniciativas ousadas como essa acabam sendo contra-produtivas por fomentar ainda mais preconceito, falo sério. Dizer que se formos permissivos com os homossexuais, daqui a alguns anos sofreremos preconceito por ser heterossexuais ou seremos condicionados a ser homossexuais não passa de falácia. O que pode ocorrer nesse sentido é termos uma minoria privilegiada - o que não deixa de ser ruim, mas não é tanto quanto a outra opção. Quando falo em ser contra-produtivo, tenho em mente os fanáticos e homófobos, que só ganham força com esse tipo de atitude ousada do outro lado. Ou um ser tão odioso e repugnante quanto Jair Bolsonaro (queria encontrar adjetivos piores, mas não é bom postá-los aqui por respeito aos leitores) teria alguma projeção se não fosse essa cartilha estúpida? Além dele e de outros Homo aicincus, o perigo pode vir também da não menos odiosa bancada evangélica - porque toda bancada parlamentar religiosa é perigosa onde há separação entre religião e Estado. Dona de poder considerável no Congresso, ela está sempre pronta para restringir as liberdades civis e de expressão em nome daquilo que julgam "correto aos olhos de Deus". Iniciativas como essa cartilha infeliz são a oportunidade perfeita para que esses fanáticos ganhem adeptos e retirem, uma a uma, as liberdades que temos de expressar a fé que quisermos ou - no meu caso, por exemplo - não expressar nenhuma. Como todos os filhos do fanatismo - seja de que religião for - eles se julgam porta-vozes de Deus, e ai de quem discordar dEle. O poder político se alia ao econômico - quem é o poderoso dono da Record mesmo? - e um reforça o outro. Os fanáticos poderão - se começarem uma "inocente" ação moralizadora - impor sua visão estreita de mundo e tornar o Brasil similar aos EUA, com criacionismo nas escolas, falso moralismo puritano e tudo mais. Pior: poderão - se o plano der certo - acabar com a velha inimiga dos religiosos fervorosos, a democracia (onde o poder emana do povo, não de Deus), e assim pôr fim a tudo aquilo que se opõe à sua ideologia/teologia.
É por isso que tenho medo de como o "politicamente correto" vem sendo aplicado no Brasil nos últimos anos. É uma tentativa inútil e sem sentido de se acabar com o preconceito contra as minorias. Se fosse tão fácil acabar com preconceitos, outros países já teriam feito a mesma coisa, e com sucesso. O Brasil não precisa de cartilhas apologéticas, muito menos de riscar palavras de seu vocabulário. Precisa - isso sim - resolver seus problemas sociais, políticos e econômicos e oferecer bem-estar ao seu povo, e garantir educação e informação para que o povo brasileiro conviva harmoniosamente, tolere e respeite as diferenças. Quanto mais restrito ao seu próprio mundo é um indivíduo, e quanto menos conhecimento ele tem do diferente, maior é a chance de ele se tornar intolerante e preconceituoso. E não vai ser com cartilha nenhuma, nem com eufemismos, que isso vai mudar.
Quanto a nós, que não pertencemos à máquina do Estado, cabe usar o bom senso na hora de escolher as palavras e o tom ao expressá-las. Como já afirmei, o contexto é que diz quando uma palavra é ofensiva ou não. Todos nós temos o direito de ofender outras pessoas se tivermos motivo - e o dever, em certos casos! - mas devemos pagar pelo uso inapropriado das palavras, mais uma vez ditado pelo contexto. Afinal, discriminar é ofender sem motivo, e para algumas pessoas motivos não faltam. É o bom senso que diz como ofender sem discriminar, e muita gente neste país deveria exercitá-lo com mais frequência...

Nasce um país - agora falta construí-lo

O mundo viu recentemente a criação de seu 193º país, ao menos oficialmente. O Sudão do Sul conquistou sua independência do Sudão após um referendo onde 99% da população votou pela criação do novo país. Aproveitarei o retorno ao blog para comentar um pouco sobre o assunto.
Há bastante tempo o território que compreende o Sudão e seu novo vizinho ao sul tem sido instável. Como o resto da África, as fronteiras do que viria a ser o Sudão foram desenhadas a régua e caneta pelos europeus - nesse caso, os ingleses - ainda no século XIX. Dono de uma História que remonta aos tempos antigos - a outrora poderosa Núbia - o antigo Sudão compreendia um território localizado na transição entre o Saara e as regiões de clima mais úmido da África Subsaariana. Ou seja, era habitado por uma população muçulmana e culturalmente próxima do Egito e de outros povos árabes ao norte, e por diversas etnias subsaarianas que professam o cristianismo (em diversas vertentes devido ao trabalho de missionários desde o século XIX) e crenças tradicionais, animistas, ao sul. Dois grupos étnicos distintos, separados pelas areias do Saara. E, para complicar mais as coisas, o ingrediente típico da discórdia na região: petróleo. O atual Sudão do Sul tem reservas consideráveis do ouro negro. O resultado de tudo isso é que desde a independência, em 1956, o Sudão tem passado por vários períodos de guerra civil, com os árabes do norte tentando subjugar os negros do sul para manter a unidade territorial - e as reservas de petróleo.
Para acabar com décadas de conflito, o governo do Sudão e os rebeldes entraram em um acordo, que previa a realização de um referendo sobre a independência do Sudão do Sul. A maioria esmagadora dos hoje sul-sudaneses votou pela criação de um novo país, separando-se do tão diferente - e opressor - vizinho do norte.
E assim surgiu o Sudão dos Sul, que mal nasceu e já é considerado o país mais pobre do mundo. A infraestrutura de transporte é precária, com muitas áreas isoladas. O IDH é um dos mais baixos do mundo, e a imensa maioria da população é analfabeta. Fato curioso: cerca de 600 homens e mulheres da região foram criados e educados em Cuba (numa tentativa de suas famílias de fugir dos conflitos e proporcionar educação aos filhos), e é bastante provável que eles se tornem a elite intelectual do paupérrimo país africano. Economicamente, o país depende quase totalmente de matérias-primas, produtos agrícolas e, last but not least, petróleo. O Sudão do Sul tem boa parte do petróleo que era do Sudão, mas as refinarias se localizam no norte. Em resumo: criou-se formalmente um país, agora resta erguê-lo.
Mas a história do conflito na região está longe de terminar. Darfur, na região oeste do Sudão original, também é sede de intensos e violentos conflitos, com genocídios e abusos. Também lá os árabes do norte querem subjugar os negros. Mas ainda vai demorar até que o governo sudanês entre em acordo com os rebeldes de Darfur para encerrar o conflito e conceder independência ao território.
Resta esperar o fim dessa história que resume bem a História da África nos últimos 60 anos: pobreza e ausência de infraestrutura combinadas com fronteiras impostas e sangrentos conflitos dentro delas. Que o Sudão do Sul não caia no eterno ciclo de miséria e guerra civil de tantos outros países da África, e que Darfur também conquiste sua independência.

domingo, 1 de maio de 2011

Fábrica de pastéis de vento


Uma das maiores especialidades da mídia de massa do mundo inteiro é transformar algo totalmente irrelevante em algo de interesse global. Volta e meia um assunto que na prática não muda em nada a vida de ninguém se torna o centro das atenções de jornais, revistas, emissoras de TV e agências de notícias da internet em todo o mundo. Quem não se lembra de Monica Lewinski, a estagiária que teve um caso com Bill Clinton e virou notícia no mundo inteiro? Ou de Isabela Nardoni, a menina que foi arremessada da janela pelo pai e cujo caso teve tão ampla cobertura midiática no Brasil que literalmente parou o país? Embora um caso tenha envolvido o presidente da nação mais poderosa do mundo e o outro tenha sido um crime brutal, tantas outras notícias de maior relevância e importância deixaram de ser veiculadas ou de ter a atenção que mereciam porque só se falava em um assunto, não importava em que canal de TV sintonizássemos.
Muitas vezes os próprios meios de comunicação fazem a pergunta: por que tanta gente se interessa pela vida privada alheia? Ora, a resposta é muito simples! A mídia bate o tempo todo na mesma tecla, veicula o assunto X todos os dias, a todo momento, sem parar! É óbvio que isso acaba entrando por osmose nas mentes das pessoas, principalmente das mais vulneráveis - gente que não tem mais o que fazer e passa o dia todo na frente da televisão, por exemplo.
Esta semana tivemos mais um exemplo da atuação dos meios de comunicação do mundo todo para transformar um evento cafona e ultrapassado em foco das atenções de mais de um bilhão de pessoas: o casamento real entre o príncipe William da Inglaterra e a "plebeia" (bastante endinheirada, diga-se de passagem) Catherine Middleton. Durante três semanas não se falou em outra coisa, dos portais da internet às emissoras de TV, passando pelas revistas de fofoca - que sacrificaram muitas pobres árvores para imprimir em seu papel coisas inúteis como comentários acerca dos vestidos usados pelas convidadas.
Foi sem dúvida uma cerimônia bonita (não vi, mas espero que tenha sido, porque gastaram cinquenta milhões de dólares), mas definitivamente não precisava desse assédio todo. Por que se importar com o casamento de um indivíduo que não tem absolutamente nada a ver com a vida de ninguém e, embora pertença a uma das mais tradicionais famílias reais da Europa, jamais governará de fato? Não se esqueçam de que o rei e a rainha da Inglaterra têm função decorativa, assim como os jardins perto do Palácio de Buckingham.
Milhares e mais milhares de pessoas partiram de todo o mundo para assistir à cerimônia. Curiosamente, muitas dessas pessoas se declaravam "fãs" do príncipe William - como se ele tivesse algum atributo especial além de ser jovem, bonito, rico e de sangue azul e tivesse realizado algum feito digno de merecer fãs de verdade. Esse assédio teria sido tanto se a mídia não tivesse alardeado tanto e tivesse feito um marketing tão agressivo em torno do evento? Por que mais de um bilhão de pessoas assistiram a uma mera cerimônia religiosa? Por que tantas pessoas se importam com alguém tão longe e que nunca fará nada por suas vidas? Há momentos em que percebemos sem muita dificuldade como os meios de comunicação alimentam a futilidade alheia e fazem você dar tanta importância a algo, no mínimo, sem sentido. Não há nada mais brega e cafona do que um casamento real. As monarquias europeias não têm poder de fato, só existem ainda porque seus respectivos povos acham "tradicional" manter uma dinastia comendo, bebendo e gastando às custas deles sem oferecer absolutamente nada em troca. O conceito de monarquia na Europa entrou em decadência ainda no século XIX, e poucos são os que ainda enxergam sentido em ter um rei que não manda em ninguém. Menos sentido ainda existe em assistir à cerimônia pomposa de alguém que nunca vai mandar em ninguém. Mas mesmo assim muita gente assiste. Por que?
Uma das explicações é a mídia batendo sempre na mesma tecla, como já citei anteriormente. Ela faz o cidadão comum respirar casamento real, pensar casamento real, dormir casamento real... Mas só isso não explica. Hoje me deparo com uma reportagem da Deutsche Welle sobre a exploração do casamento real pela imprensa marrom alemã. Imprensa marrom é aquela sensacionalista, que transforma fatos duvidosos, mentirosos ou irrelevantes em manchetes apocalípticas - não muito diferente do que ocorre em nosso país com alguns dos meios de comunicação de maior sucesso. Pois bem, definitivamente não é só na Alemanha que desocupados querem saber da vida alheia. Por aqui também. A reportagem cita um "complexo de Cinderela", a busca dos leitores por um "conto de fadas", um mundo inacessível e perfeito, capaz de preencher as mentes e as vidas (ambas vazias de conteúdo) desses mesmos leitores.
Mas isso não acontece só com príncipes ingleses, definitivamente. O que dizer das "celebridades instantâneas" dos nossos reality shows, que fazem sucesso com suas cabeças ocas em diversas formas de mídia? Gente que não trabalha, não se esforça, nunca fez nada de bom para a Humanidade nem produziu uma obra artística que prestasse, tornando-se alvo das atenções de legiões de fãs - igualmente descerebrados - por ter feito absolutamente nada além de participar de um programa bobo e tão sem conteúdo quanto eles.
Não podemos negar que a mídia não lucre com isso. Quanto dinheiro já não foi arrecadado com revistas de fofoca sobre celebridades - que desinformam o "leitor" com "novidades" que ninguém em sã consciência gostaria de saber? Quanto já não foi arrecadado só em "guias de moda baseados no look das celebridades do casamento de Will e Kate"? Quanta audiência - transformada em dinheiro pelos anúncios comerciais - já não rendeu essa estória de casamento real? Em um país onde votar em paredão de big brother gera mais entusiasmo do que em presidente da república não poderia ser diferente. Enquanto gente mata e morre nas guerras civis na Líbia, no Iêmen e na Síria, estamos aqui querendo saber do casamento real, ou do próximo BBB. Por sorte, a cada dia que passa assisto menos televisão...

sexta-feira, 11 de março de 2011


No Brasil, se um pobre comete um crime, é criminoso, bandido. Se um rico comete um crime, não vai preso - tem "problemas psiquiátricos".

Se um rico em seu carro se depara com uma multidão de ciclistas pedalando na sua frente, não é crime acelerar e passar por cima de todo mundo. É mais provável que os ciclistas sejam punidos por "estar no lugar errado, sem autorização". É mais provável que o motorista seja absolvido porque "estava sendo ameaçado pelos ciclistas e tinha que proteger seu filho" (como as bicicletas pudessem fazer contra o carro algo além de alguns pequenos arranhões acidentais). É mais provável que algum porta-voz do motorista diga que acelerar o carro por dezenas de metros e tentar matar os ciclistas da frente "não passa de um acidente" - e que algum juiz (recebendo uma boa quantia em dinheiro) acredite na palhaçada, e absolva o bandido - que tem um histórico considerável de infrações ao volante. Ou no máximo diga que ele precisa de "tratamento psiquiátrico".

Barbárie líbia

Como previsto em meu último post, a queda de Hosni Mubarak jogou mais lenha na fogueira revolucionária do Oriente Médio. Embora também o Iêmen tenha sido sacudido por inúmeros confrontos desde então, em nenhum país a situação se tornou mais grave do que na Líbia. Enquanto no Egito e na Tunísia os ditadores Mubarak e Ben Ali (respectivamente) se trancafiaram em seus palácios para tentar conter a ira popular, Muamar Kadafi percebeu que seria o próximo e resolveu lançar mão de violência desesperada para evitar que tenha o mesmo destino dos outros ditadores derrubados.
Há um mês Mubarak caía, e desde então o povo líbio tem pressionado Kadafi a renunciar ao seu mandato de mais de quatro décadas. Entretanto, Kadafi não renuncia. Os revoltosos chegaram a dominar boa parte do leste do país, incluindo a importante cidade de Benghazi, até Muamar Kadafi lançar uma violenta e covarde ofensiva contra seu próprio povo - que ele insiste em dizer que o ama e que é cegamente manipulado por "forças externas". Bairros residenciais em Benghazi e Trípoli foram bombardeados da maneira mais bárbara e cruel. Alguns pilotos de caças enviados para os bombardeios, felizmente com algum bom-senso e coração, desertaram e pousaram seus aviões em Malta. Muitas centenas de milhares de pessoas já fugiram para a Tunísia e para o Egito, tentando ficar longe dos conflitos e do massacre que Kadafi impõe ao próprio povo. A barbárie, que tem incluído também perseguição a jornalistas estrangeiros, obviamente chama a atenção do resto do mundo. Líderes europeus pressionam cada vez mais Kadafi a deixar o poder, e os EUA - sempre em cima do muro - apoiam implicitamente a ideia, embora sem firmeza.
Kadafi nunca contou com apoio dos EUA, ao contrário de seu colega egípcio Hosni Mubarak. Durante a Guerra Fria, estava muito mais próximo da União Soviética do que dos Estados Unidos, e oficialmente o país se chama "República Árabe Popular e Socialista da Líbia". Mas não se engane, leitor: o regime de Kadafi nada tem de socialista, e nada tem de diferente do de outros regimes da região, como o Egito de Mubarak. Além disso, um dos principais parceiros de Kadafi é o excremento italiano Silvio Berlusconi. Kadafi dá ao país o nome que quiser, mas não pode mudar o fato de que ele é exatamente igual a seus pares tunisiano, egípcio, iemenita ou argelino: um regime autoritário de tom nacionalista e militarista, sustentado pelas riquezas do petróleo, e que nos últimos anos vem deixando seu povo na penúria com a pobreza, os altos índices de desemprego e a inflação dos alimentos - sem falar no autoritarismo.
Enquanto isso, desenrolam-se mais capítulos de uma sangrenta guerra civil. A ofensiva de Kadafi contra os rebeldes parece recrudescer um pouco, mas muita coisa ainda é completamente indefinida. A comunidade internacional pressiona cada dia mais para que Kadafi deixe o poder, mas o ditador parece disposto a ir até as últimas consequências para se manter como comandante da Líbia. E isso inclui sacrificar seu próprio povo. Nada que um típico criminoso de guerra não faça. Dizer se Kadafi sairá é impossível. É bem possível que ele não resista à pressão popular e internacional (e nesse caso os outros países certamente verão mais uma onda de revoltas), mas também é possível que o banho de sangue continue até que os rebeldes sejam sufocados. No final talvez restem Kadafi, alguns de seus militares, dois ou três poços de petróleo e muita areia manchada de sangue...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Duas revoluções

11 de fevereiro. Em anos diferentes, esse dia foi palco de duas revoluções no mundo muçulmano. E duas revoluções completamente distintas.
Hoje, 11 de fevereiro de 2011, caiu Hosni Mubarak. O até horas atrás ditador do Egito fugiu com a família do Cairo, levando ao êxtase os milhões de manifestantes contra seu regime de quase trinta anos. Mubarak caiu de maduro. Os manifestantes que se aglomeravam na Praça Tahrir jamais "voltariam para suas casas" (como insistiam os discursos de Mubarak, do vice Suleiman e dos chefes das Forças Armadas dia após dia) sem antes ver o ditador ir embora.
Por várias e várias vezes falou-se em renúncia imediata, mas Mubarak relutava em deixar seu confortável trono faraônico e se limitava a falar em transição gradual. Chegou a nomear um vice-presidente e a transferir gradualmente mais poder para ele, tentando dar os anéis para conservar os dedos. Mas nada disso adianta para um povo que quer decididamente se livrar de um tirano. Mubarak fez de tudo para se manter no poder até as eleições em setembro - nesse meio-tempo, planejava lavar todo o dinheiro que acumulou com corrupção e outras atividades ilícitas nas três décadas de poder, uma fortuna que soma mais de 70 milhões de dólares. Conforme os protestos cresciam e se espalhavam pelo país e a comunidade internacional pressionava, o governo Mubarak ficava mais acuado e sem ter para onde fugir. No final, mesmo tendo sido aliado fiel dos EUA durante todo o tempo, usou de nacionalismo desesperado para ganhar algum apoio dizendo que "forças externas ameaçavam a estabilidade do país" - numa clara referência aos EUA. A cada dia as coisas ficavam mais contraditórias, e as manifestações cresciam. As Forças Armadas do Egito, muito menos violentas do que a polícia e tendo uma relação muito boa com a sociedade civil, além de permitir as manifestações acabaram emitindo declarações a favor dos protestos. Seu prestígio é tanto que assumiram o poder no lugar de Mubarak e agora chefiam a transição para a democracia junto com a Suprema Corte do Egito - os militares prometem eleições em setembro, inquestionavelmente. Para nós ocidentais não soa muito boa a ideia de militares ocupando o lugar de um presidente deposto - por aqui isso é golpe militar - mas por lá as Forças Armadas costumam ser mais legalistas. Além do mais, o povo egípcio - e não o exército - é a verdadeira base do movimento, e sem obedecer aos anseios populares por democracia nenhum chefe das Forças Armadas nem mais ninguém permanecerá no poder por muito tempo.
Agora, o futuro... Mubarak já não deve ser a maior preocupação do povo egípcio - ele já fugiu do país e suas contas na Suíça parecem já ter sido bloqueadas. Mas o Egito está cheio de problemas, e a mera saída do ditador não os resolverá. Desemprego que beira os 30%, pobreza, altos preços dos alimentos, corrupção... O novo líder do país terá muitos obstáculos, e não será fácil superá-los. Seja como for, a mudança não pode ser apenas de chefe. A estrutura de poder também deve mudar. A convocação de uma Assembleia Constituinte era uma das bandeiras dos manifestantes da Revolução Egípcia (que alguns chamam de Revolução Branca), e em breve isso deve acontecer. Acabar com a estrutura autoritária de poder no país, em que altos comandantes das Forças Armadas controlam boa parte da economia, e transformar as riquezas do turismo e do petróleo em emprego e vida digna para a população, são os maiores desafios. Mas tudo fica mais fácil quando há uma sociedade civil atuante, e os milhões de manifestantes nas ruas do Cairo, de Suez, de Alexandria e de outras tantas cidades mostram ao mundo que o Egito tem sociedade civil de verdade.
Muito se especula sobre quem mandará no Egito daqui em diante. Durante todo o tempo em que Mubarak esteve no poder, seu discurso era o de estabilidade, de contenção dos extremistas islâmicos. Há algum medo de que os fundamentalistas assumam o poder após as eleições de setembro, mas a possibilidade me parece um tanto remota. Os extremistas islâmicos nunca foram uma força muito significativa no Egito. Mesmo a Irmandade Muçulmana, principal força religiosa do país, tem pouca popularidade - estima-se que mais da metade dos egípcios a rejeite como alternativa política, e não mais que 30% a apoie de alguma forma. Sua presença se mostrava mais na luta contra o imperialismo britânico e na defesa do nacionalismo egípcio nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Para todos os efeitos, o Egito moderno é e sempre foi um Estado laico, diferentemente da Arábia Saudita e do Irã.
Esta é a principal diferença da Revolução Egípcia para a outra mencionada no título deste texto. Esta outra a que me refiro é a Revolução Iraniana, do Aiatolá Rubollah Khomeini, que derrubou o governo do Xá Reza Pahlevi (que como Mubarak era autoritário, laico e apoiado pelo Ocidente) também em um 11 de fevereiro, só que em 1979. Mas as semelhanças param por aí. A Revolução Iraniana foi a primeira desde 1789 que rejeitou a tradição iluminista - tanto as revoluções burguesas quanto as socialistas tinham um pé nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade dos franceses. Os iranianos substituíram a monarquia laica e corrupta por um Estado fundamentalista. Mas os egípcios querem dar um rumo completamente diferente à revolução em seu país. Querem democracia, liberdade política e uma vida melhor, e não acham que o Corão contenha todas as respostas e soluções - no máximo ele oferece alguma força de vontade aos mais religiosos dentre os manifestantes egípcios. Por mais que Ahmadinejad diga que a revolução no Egito segue os passos da que ocorreu no Irã, as associações entre ambas são fracas e temos motivos suficientes para acreditar que essa fala é (mais) um surto megalomaníaco de Ahmadinejad. Longe de celebrar, ele deve ter mais motivos para se preocupar...
Em 2009 e 2010 uma onda de protestos varreu o Irã depois que Ahmadinejad se reelegeu - de maneira fraudulenta. O clamor de liberdade contra o governo (também autoritário e também arruinando a economia de seu país, como Mubarak) de Mahmoud Ahmadinejad não era diferente do que ecoa no Egito e em outros tantos países da região. É perfeitamente possível que a queda de Mubarak, como assinalei no texto anterior, deflagre uma reação em cadeia e outros chefões caiam de seus tronos. Ahmadinejad é um deles, mas não o único. Na Jordânia há questionamentos sobre a monarquia, mesmo após a troca do primeiro-ministro há alguns dias. No Iêmen, no Marrocos e na Argélia, protestos seguem e devem ganhar mais força. Muitos manifestantes em todo o mundo árabe saem às ruas para comemorar a queda de Mubarak, e isso leva a questionamentos inevitáveis sobre a permanência no poder dos líderes desses outros países. Por isso, muitos ditadores pretendem proibir ou reprimir manifestações pró- Revolução Egípcia. No Irã já houve proibição, e na Faixa de Gaza o Hamas também não quer manifestantes nas ruas. Mas proibição nenhuma será capaz de frear a revolta popular se ela crescer e se fortalecer o suficiente. A queda de Mubarak dá uma força muito grande aos movimentos contra outros ditadores do Oriente Médio, e talvez o ano de 2011 entre para a História como o ano da democratização do mundo árabe. Resta esperar para ver.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Cheiro de Jasmim

Há algumas ocasiões na História em que a agitação popular se alastra como uma chama no mato seco, sem obedecer a nenhuma fronteira. É essa a situação hoje no Oriente Médio e no norte da África. Ditadores no poder há duas, três ou mais décadas sentem agora a força de movimentos populares que não escondem a insatisfação com a pobreza, a corrupção, o desemprego, o autoritarismo político e a censura aos meios de comunicação. Regimes parecem prontos para cair de maduros, e de uma só vez. A última vez que algo de proporções semelhantes aconteceu foi no fim da década de 1980, quando os regimes do "socialismo real" ruíram quase ao mesmo tempo, começando pela Tchecoslováquia.
O epicentro desse verdadeiro terremoto político foi a Tunísia, país pequeno e pobre no norte da África. Desde meados de dezembro de 2010, protestos violentos e cada vez mais fortes na capital Túnis e em outras cidades forçaram a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali, no poder desde 1987. Os tunisianos estavam cheios de autoritarismo, censura, altos índices de desemprego, altos preços dos alimentos, corrupção e más condições de vida. A centelha que disparou as explosivas manifestações foi o ato de auto-imolação de Mohamed Bouazizi, que teve os alimentos que vendia nas ruas confiscados pela polícia. Outros mártires se seguiram e esquentaram mais o barril de pólvora até que ele finalmente explodiu. Milhares de pessoas protestaram nas ruas por diversos dias, apesar da violência policial, do toque de recolher que vigorava e das prisões arbitrárias de jornalistas e de personalidades que apoiavam os manifestantes. Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita em 15 de janeiro de 2011. Um governo de transição foi criado para devolver ao país estabilidade, mas tudo indica que os protestos durarão enquanto membros do antigo regime fizerem parte desse novo governo. O episódio foi batizado de Revolução Jasmim.
As chamas agora se espalham pelo mundo árabe. Na Argélia, manifestações populares violentas contra o regime de Abdelaziz Bouteflika, no poder desde 1999, já deixaram cinco mortos, dezenas de feridos e muitos outros presos. As motivações parecem ser as mesmas das que levaram aos protestos na vizinha Tunísia. No Iêmen, um dos países com IDH mais baixo de todo o mundo árabe, o presidente Ali Abdullah Saleh (no poder há 32 anos) enfrenta oposição popular e também de alguns de seus conselheiros mais próximos. O estopim foi uma tentativa de mudança na Constituição para tornar Saleh presidente vitalício. Os protestos por lá têm sido mais pacíficos e têm como principal propulsor o movimento estudantil. Outros países da região têm enfrentado protestos menores - Jordânia, Síria, Omã e a Líbia de Muamar Kadafi (o mais "veterano" de todos, no poder desde 1969).
Mas em nenhum outro lugar os protestos têm sido tão grandes quanto no Egito. Desde 25 de janeiro, Cairo, Suez, Alexandria e outras cidades têm sido palco de grandes manifestações populares contra o regime de Hosni Mubarak, no poder há 30 anos. O país tem crescido nos últimos anos, mas isso não tem-se refletido adequadamente no padrão de vida da população em geral. Some-se a isso a corrupção, a brutalidade da polícia egípcia e o autoritarismo do regime de Mubarak e o resultado é um caldeirão de insatisfação. O toque de recolher, a censura às comunicações e a violência da polícia foram incapazes de conter a vontade popular. Milhares de pessoas vão às ruas todos os dias protestar - três centenas de egípcios já perderam suas vidas nesses protestos, vítimas da polícia. Mas isso não intimida os manifestantes. No momento em que escrevo, um milhão de pessoas fazem um protesto pacífico na Praça da Liberação, no Cairo. Os militares, cuja reputação é bem mais respeitosa do que a da polícia no país, prometeram não agir com violência. Numa tentativa de acalmar os ânimos das massas e dar os anéis para conservar os dedos, Mubarak substituiu seu gabinete e criou um cargo inédito de vice-presidente. Mas em nenhum momento falou em sair. Prefere usar a estratégia José Sarney para se manter no poder - colar o traseiro na cadeira e dizer "daqui não saio, daqui ninguém me tira". Mas os manifestantes afirmam que só descansarão quando Mubarak renunciar.
Os parágrafos acima parecem soar um tanto repetitivos, não é mesmo? A situação da maioria dos países da região é muito semelhante. E isso tem motivo. Toda a região do Oriente Médio e norte da África foi alvo de imperialismo por parte dos europeus. Depois que o Império Otomano foi desmantelado, no pós-Primeira Guerra Mundial, a área foi repartida. Egito, Sudão, Palestina, Iraque e Jordânia para a Inglaterra; Síria, Líbano, Tunísia e Argélia para a França, Líbia para a Itália (desde antes da Primeira Guerra). A Arábia Saudita foi criada com apoio britânico, e se tornou um grande aliado estratégico do Ocidente na região. Todos esses países foram criados um tanto artificialmente, após a derrocada do imperialismo no pós-Segunda Guerra Mundial. E, em geral, mantiveram uma estrutura de poder autoritária e politicamente centralizada, como era nos tempos de colônia - a transição foi branda e pouca coisa se alterou. Isso é especialmente válido para os países que outrora fizeram parte do Império Britânico. Não por acaso, foi do "império onde o Sol nunca se põe" que se originou grande parte dos conflitos do mundo recente. Entre os rebentos, podemos incluir desgraças como os genocídios no Sudão, o conflito entre Israel e Palestina, o odioso regime do Apartheid na África do Sul, boa parte das guerras da África (mais de um terço do continente se submeteu aos ingleses) e o conflito entre indianos e paquistaneses na Caxemira.
Organizados numa estrutura de poder similar à que existia nos tempos coloniais, os países do Oriente Médio em geral possuem três forças políticas principais. A primeira delas é a dos radicais fundamentalistas - o "islamismo" - que almejam transformar seus respectivos países em teocracias chamadas "repúblicas islâmicas". São ultraconservadores e tendem a rejeitar toda e qualquer influência do mundo ocidental. O Irã é talvez o melhor exemplo.
Outra força importante é a dos liberais - presentes em todos esses países com mais ou menos força, mas atualmente sem estar no poder (o Líbano esteve sob um governo liberal na época de Hafik Hariri, que morreu num atentado em 2005). Dentre suas principais forças encontram-se os movimentos estudantis, partidos mais alinhados com a democracia (inclusive partidos de esquerda) e líderes políticos influentes. Os liberais tentam preservar a democracia e evitam grande interferência dos religiosos nas questões políticas. Têm uma tendência a se aproximar mais do Ocidente, mas não são necessariamente entreguistas - só almejam uma relação amistosa e que traga mais investimentos e outros benefícios.
No meio desses dois grupos, e tentando se equilibrar entre eles, estão os nacionalistas e militaristas. São a grande maioria dos ditadores que correm o risco de ser varridos do mapa pelos protestos do mundo árabe. Não são fanáticos extremistas em termos religiosos - mandam nos religiosos em vez de ser mandados por eles, como seria nas repúblicas islâmicas. Economicamente, países governados pelos nacionalistas/militaristas costumam ser mais fechados, e têm no petróleo um importante alicerce para seus regimes. O dinheiro do petróleo permite que sustentem forças armadas razoavelmente bem equipadas. Ainda que sejam nacionalistas, muitos são próximos das potências ocidentais, oferecendo petróleo em troca de algum apoio político. Além disso, o simples fato de ter um aliado em uma região turbulenta como o Oriente Médio é um motivo para uma potência do Ocidente apoiar esses governos, mesmo que estejam longe de ser democracias. É assim que elas se sustentam por décadas, garantindo a estabilidade econômica da região.
Aliás, esse é o lema dos que saem em defesa desses regimes - defender a "estabilidade"! Lembre-se, leitor. Não há nada mais estável do que um cemitério. Durante a nossa ditadura militar, era prioridade do regime garantir "estabilidade" para receber mais investimentos estrangeiros. Mas estabilidade está muito longe de significar bem-estar dos cidadãos ou democracia. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, defende a permanência de Mubarak no Egito em nome dessa mesma estabilidade, mesmo que isso vá contra o desejo popular - e Netanyahu já demonstrou em outras oportunidades que não sabe muito bem o que significa a palavra democracia. Em nome dessa mesma estabilidade, os EUA assistem de longe sem interferir. Querem um Egito mais estável (aliás, um Oriente Médio mais estável), mas a palavra "democracia" não é ouvida em seus discursos. Fala-se timidamente em "transição", mas sem transparecer se essa transição pressupõe permanência ou saída dos "presidentes perpétuos".
O maior medo de Israel, dos EUA e de boa parte do Ocidente é que os regimes militaristas nacionalistas deem lugar a teocracias como o Irã. Mas esse não parece ser o desejo das massas revoltosas. Se lutam contra o autoritarismo dos ditadores laicos, por que aceitariam a tirania dos sacerdotes? O povo do Egito, da Tunísia, da Argélia, da Jordânia e de tantos outros países da região quer democracia. Quer liberdade para escolher seus líderes e escolher o destino de seus países, quer investimentos para aliviar a pobreza, o desemprego e baixar os preços dos alimentos. Quer uma vida melhor, e parece saber que não serão extremistas religiosos os que farão essa melhora de vida.
Conforme os protestos se alastram, pode ser que até as teocracias caiam. O Irã enfrentou grandes protestos quando Ahmadinejad fraudou as eleições em 2009. Os apelos em nome da "Revolução Islâmica" têm cada vez menos eco em uma população jovem, que quer liberdade e não conheceu o aiatolá Khomeini. Os jovens, em sua maioria, rejeitam o extremismo, a não ser quando são forçados a escolher entre ele e a dominação estrangeira - o Iraque sob os EUA, a Palestina sob Israel.
O Irã não é o único reduto do "islamismo" (o fundamentalismo muçulmano) que pode estar ameaçado. O maior aliado dos EUA na região, a Arábia Saudita, também. Caso o leitor não saiba, os EUA, grandes defensores da democracia, têm como principal aliado no Oriente Médio um país que não tem nem Constituição, uma monarquia absoluta onde os direitos civis são minimamente respeitados. Mulheres não podem sair de casa sem estar acompanhadas dos pais ou maridos, não podem dirigir e mais um monte de coisas. Muito parecido com o que o Talibã fazia no Afeganistão... A grande diferença entre os sauditas e os iranianos é que os sauditas são aliados dos EUA. Seja como for, o regime deles pode cair se as manifestações - que hoje ainda são pequenas - crescerem o suficiente.
Tudo indica que, se o regime de Mubarak no Egito cair, os protestos nos outros países ganharão ainda mais força. Tal qual um efeito dominó... E considerando os acontecimentos dos últimos dias, incluindo o protesto de um milhão de egípcios hoje, se as coisas continuarem nesse ritmo, Mubarak não aguentará muito. Que seja assim! Que o cheiro de sangue e petróleo queimado dessas ditaduras dê lugar a um agradável cheiro de jasmim em todo o Oriente Médio!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Um vídeo que todos nós deveríamos ver...

Navegando sem compromisso na internet, achei este singelo vídeo aqui, de um pronunciamento feito por uma criança em plena ECO 92, no Rio de Janeiro. Ouçam atentamente o que ela diz, e pensem um pouco também no último texto que escrevi, sobre potencial e sobre como fazer com que as novas gerações tenham futuro. Pois garantir futuro e plena realização de potencial é preciso garantir antes de tudo que nosso mundo e nossa civilização permaneçam de pé.

Sobre o potencial humano - Primeira parte

Caros leitores, há algum tempo estava com vontade de escrever um texto mais extenso aqui no blog, sobre o potencial humano (e pelo menos no que diz respeito ao tamanho, acho que consegui. Preparem-se, pois acho que este é o maior texto que já postei aqui). Eu gostaria de ter abordado o assunto antes, no texto “por que o socialismo”, mas só refleti sobre o tema, e o amadureci, há alguns meses. Portanto, interpretem esse novo texto como uma (um tanto extensa) continuação do anteriormente citado.

Um dos principais motivos pelos quais sou um firme defensor de uma sociedade mais justa e menos desigual é minha convicção de que todo ser humano tem potencial – e cabe à sociedade garantir que esse potencial não se perca e seja usado da melhor maneira possível. Todo ser humano, desde sua concepção, é perfeitamente capaz de ser produtivo em pelo menos uma atividade – só excluo da conta aqueles com graves anomalias incompatíveis com a vida ou com severas deficiências cognitivas (que não devem deixar ser tratados dignamente por causa de sua condição).

Mas a partir do momento que o óvulo e o espermatozoide se fundem e dão origem a um novo indivíduo, esse potencial se altera. Ainda no ventre materno, o produto da concepção pode morrer por inúmeras causas, ou sofrer danos e malformações devido a drogas (incluo aí o álcool) ou à deficiência de vitaminas na dieta. O pouco cuidado com a saúde, como a não-realização de exames pré-natais pelas mães, também ceifa muitos talentos em potencial. E muitas outras são as influências às quais está submetido um indivíduo dentro do útero – o estilo de vida da mãe, seus hábitos, seu estado emocional, suas experiências. Tudo isso, de alguma forma, influencia aquele ser em formação e pode trazer reflexos para toda a sua vida.

Deixando o ventre materno, o indivíduo se expõe a um novo mundo, cheio de perigos, mas também cheio de oportunidades. E logo nos primeiros anos de vida pós-natal está um gargalo poderoso na definição de potencial. A primeira infância é uma etapa crucial para o desenvolvimento físico e psicológico de um indivíduo. Deficiências nutricionais nessa idade impedem a adequada maturação cerebral e podem originar sérios déficits cognitivos para o resto da vida, mesmo que no futuro a dieta se torne mais abundante. Doenças podem sequelar o indivíduo e gerar sérias deficiências dali em diante – uma meningite pode gerar surdez e retardamento mental, por exemplo. Traumas na primeira infância podem originar fobias e outros sérios transtornos mentais. Tudo isso pode minar o potencial de um ex-futuro talento.

Mas não só doenças, carências nutricionais e traumas influenciam o potencial do indivíduo. Ao lado disso tudo, outra questão crucial é: a que tipo de estímulos essa criança será submetida? Será que ela será incentivada a ler e a escrever desde cedo? Ou seus pais serão negligentes, castigarão, espancarão ou abusarão dela? Terá ela um lar estável ou será submetida aos traumas de um casamento pouco sólido e cheio de problemas? Terá ela oportunidade de frequentar uma escola ou será obrigada a trabalhar desde cedo? Considerando que quanto mais cedo mais fortes são as impressões causadas pelas experiências na personalidade e no caráter de um indivíduo, todas essas questões são importantes. Uma criança estimulada desde cedo aprende muito mais facilmente do que outra cujo cuidado foi negligenciado. A abundância de estímulos dos tempos modernos é tida como a grande responsável pela “esperteza” cada vez mais precoce das novas gerações.

Obviamente, não podemos ser fatalistas. A mente humana não funciona com a simplicidade de uma máquina. É tão complexa que ainda sabemos pouquíssima coisa sobre ela. Seres humanos criados nas piores condições ainda podem virar gênios, e pessoas criadas em condições tidas como perfeitas podem acabar por se tornar a vergonha de seus pais, de seus ancestrais até a vigésima geração passada e de toda a Humanidade. Mas isso não invalida as observações acima, que parecem funcionar para a grande maioria dos seres humanos, e não pode ser usado como desculpa. Talvez um dia tenhamos conhecimento suficiente para desvendar esses paradoxos.

Passados os tempos de infância, o ambiente continua a definir o que será daquele indivíduo que um dia foi uma só célula dentro do útero. Continuará a haver estímulo suficiente para que ele continue nos estudos? Ou a família não o encoraja, sua personalidade dificulta ou a necessidade impera e o encaminha para o trabalho mais cedo? Terá ele desenvolvido uma boa índole ou uma personalidade perversa? Essa mesma personalidade e as oportunidades do acaso conspirarão para encaminhá-lo a uma vida honesta ou ao crime? Terá ele conhecimento e discernimento para saber que cigarro e álcool fazem mal ou morrerá cedo de tanto fumar ou beber? Mais: supondo que esse indivíduo tenha nascido com um enorme talento para a música, com ouvido absoluto, destreza nas mãos e habilidade criativa, será que em algum momento de sua vida ele terá oportunidade de descobrir seu talento e aprimorá-lo, ou começará ele a trabalhar cedo como mecânico e continuará no emprego a vida toda para sustentar sua família, sem nunca ter tido a oportunidade de entrar em contato com a música?

No começo da vida adulta, o indivíduo percorreu boa parte do caminho da formação de sua personalidade, e a essa altura muitos grandes talentos podem ter sido desperdiçados. Entretanto, nem tudo está perdido. A mente humana é suficientemente flexível para ocasionar mudanças na personalidade até o fim da vida, embora sem a mesma facilidade dos anos iniciais, pois o ser humano é como uma árvore: quando ainda é pequena, seu caule verde pode ser dobrado em qualquer direção e assumir as mais variadas formas. Com o passar do tempo, ele endurece e adota uma forma definida. Se pôde crescer para o alto sem ser prejudicada, essa árvore facilmente estenderá muitos galhos e terá uma copa frondosa e bela. Se, ao contrário, a vida fez o caule entortar e se deformar, essas deformações permanecerão de uma forma ou de outra para o resto da vida, e dificilmente essa árvore será tão frondosa quanto a primeira. Entretanto, mesmo estando terrivelmente deformada, a árvore ainda pode emitir seus galhos em direção à luz, e pelo menos eles ainda podem crescer e assumir uma nova forma.

Embora essa alegoria pareça saída de algum livro de auto-ajuda, ela é bastante válida, pois assim também ocorre com muitas pessoas. Deformadas e tortas pelas intempéries do começo da vida, poderiam ter sido grandes gênios, mas não foram. Muitas vezes descobrem – e aprimoram – seu talento depois dos trinta, dos quarenta ou até mesmo depois da aposentadoria. Não poderão ser tão grandes quanto poderiam se estivessem no caminho certo a vida toda, mas é certo que podem crescer. Só que para isso ainda é preciso haver oportunidade – além de estímulo e recursos.

Infelizmente, é muito difícil que isso aconteça. Uma vez perdida a oportunidade, raramente é possível resgatá-la mesmo em parte. Conforme o indivíduo envelhece e desanima, os vícios o consomem e resgatar seu potencial se torna mais e mais difícil. Por isso é tão complicado encontrar algum potencial naqueles indivíduos que, por uma série de razões, acabaram por se perder no caminho. Se foram eles próprios que deixaram isso acontecer, se a personalidade deles os empurrou naquela direção ou se a vida simplesmente não ofereceu nada melhor, o fato é que aqueles pobres homens acabando com a própria existência, passando a vida toda nos botequins ou nas esquinas sem fazer absolutamente nada além de beber e fumar, são praticamente irrecuperáveis. Mas isso não é desculpa para abandoná-los à própria sorte. Afinal, eles podem não ter mais volta, mas o mesmo não se pode dizer dos seus filhos, se forem dadas oportunidades adequadas.

É outra conclusão infeliz a de que aquelas pessoas que não realizaram suas potencialidades dificilmente serão tão felizes quanto as que o conseguiram. Chegar ao fim da vida com a sensação de “não fiz nada do que gostaria de ter feito quando era jovem” ou “não pude realizar meus maiores sonhos” deve ser extremamente frustrante. Mas diferentemente daqueles que não o puderam fazer por total impossibilidade financeira ou oportunidade, a frustração deve ser muito maior para os que tiveram a chance e por alguma razão deixaram-na escapar. Em um mundo que prega que ter dinheiro é o único objetivo que presta e satisfação pessoal é contada pelo saldo bancário, é muito comum que as pessoas cheguem ao fim da vida com uma triste sensação de vazio em suas almas. Não digo que tenhamos todos que largar nosso dinheiro e nossos bens e virar eremitas ou monges para que sejamos felizes, mas é bom encontrar um meio-termo. Dinheiro é importante, mas apenas como meio de troca para satisfazer nossas necessidades de seres humanos e ter uma vida confortável, nunca como um fim em si.

Como podemos ver, é difícil que o potencial das pessoas seja verdadeiramente aproveitado em nossa sociedade. Muitos são os obstáculos, em todas as partes da vida. Vencem aqueles que têm as oportunidades certas e os incentivos certos. Dentre esses incentivos é preciso destacar um que vem de dentro da cabeça: o da própria personalidade. Muitos indivíduos tidos como de sucesso afirmam que o grande segredo é perseverar, não desistir facilmente. De fato, quanto mais tempo permanecemos na luta, maior é a chance de aparecer alguma oportunidade aproveitável. Mas o que faz um indivíduo tolerar a frustração e o fracasso mais do que outro? Força de vontade? Talvez. Mas o que faz uma pessoa ter mais força de vontade que outra? A maneira como a sua personalidade se desenvolveu, suas experiências e talvez um pequeno componente genético? Sabemos muito pouco sobre a personalidade humana, e por isso ninguém pode responder a essa pergunta ainda. Tentar fazê-lo é cair inevitavelmente em pré-julgamentos, principalmente se considerarmos que a personalidade é um dos fatores, e que devemos considerar os outros – as oportunidades e os obstáculos que a vida coloca. Como tudo na vida, eles não são distribuídos homogeneamente, e nem todos estão no lugar certo na hora certa. Há pessoas que mesmo com enorme força de vontade, encaram uma vida inteira de enormes dificuldades até sucumbir, e seu potencial nunca será descoberto. É por essa razão que é dever da sociedade garantir que tenhamos todos a oportunidade de descobrir e desenvolver nossas potencialidades. É claro que não há receita de bolo quando falamos de seres humanos – talvez as criaturas mais imprevisíveis da face da Terra. Fazer tudo certo não garante com 100% de certeza que surgirão pessoas talentosas, e da mesma forma fazer tudo errado não significa que tudo está perdido. Grandes talentos de diversas áreas podem surgir dos lugares mais improváveis – por exemplo, Gil Brother, um dos maiores ícones do humorismo brasileiro dos últimos tempos, era lavador de carros nas ruas de Petrópolis. O jazz, um dos estilos musicais de maior prestígio, surgiu graças a alguns negros pobres e desdentados, descendentes de escravos, no sul dos EUA. Mas isso não invalida a observação de que tentar proporcionar as condições ideais para que os talentos se desenvolvam ajuda bastante. Isso é indiscutível.

Garantir saúde e um lar estável, dar educação moral adequada, oferecer estímulos e oportunidade de educação e de aprimoramento de habilidades, permitir que essas habilidades sejam realmente postas em prática, fazer com que as crianças entrem em contato com as mais diversas atividades para identificar as possíveis aptidões, e não deixar que os reveses da vida tirem-na do caminho certo e a encaminhem para o crime, as drogas ou a outro tipo de vida miserável. Essa é a receita para explorar ao máximo o potencial humano. Difícil? Com certeza. Envolve um esforço permanente do Estado – para garantir saúde, educação, emprego, etcetera – e também um esforço dentro dos lares, para estimular e educar as crianças desde cedo – afinal de contas, é no começo da vida que boa parte de nossa personalidade se forma e, por mais que haja quem diga o contrário, educação se aprende em casa. A escola só pode aprimorar um pouco o trabalho que os pais fizeram. Isso se fizeram algum...

É aí que está a grande diferença entre os países ricos e os pobres. Crianças de todo o planeta têm o mesmo potencial de se tornar gênios ou grandes talentos nas mais diversas áreas. Só que nos países mais ricos há mais oportunidade para detectar e aprimorar desde cedo esses talentos, e eles colhem os frutos desse trabalho nos muitos prêmios Nobel e equivalentes. É claro que às vezes há um pouco de bairrismo – afinal, tivemos muitos brasileiros perfeitamente capazes de ganhar um Nobel, mas até hoje não temos nenhum. Mas excetuando esse fenômeno (que no geral não tem lá uma grande influência), a grande diferença está mesmo no modo com que os países aproveitam ou desperdiçam seus talentos. Isso derruba por terra qualquer teoria de superioridade racial que ainda possa existir por aí. Aliás, o simples fato de haver no mundo proponentes de ideias de superioridade racial mostra que débeis mentais também podem surgir em qualquer canto da Terra. Todas as pessoas, de todos os povos, têm potencial. Sejam húngaros, castelhanos, xhosa, indianos, mongóis, indonésios, quéchuas ou de que etnia for – as poucas diferenças genéticas são nulas na definição de potencial do indivíduo. A suposta superioridade intelectual dos judeus (que de fato são grande parte dos ganhadores de prêmios científicos como o Nobel), que vem inflando o ego de alguns judeus que se acham uma raça superior, também pode ser perfeitamente explicada pelo uso e pela exploração de seus talentos potenciais.

Explica-se: todo judeu, desde pequeno, é obrigado a aprender a ler e a escrever – isso é um dever religioso, para aprender a ter contato desde cedo com o Torá. Isso já faz com que o pequeno judeu já esteja muitos passos à frente de muitos outros meninos e meninas da sua idade, que não têm a mesma oportunidade nem o mesmo estímulo ao aprendizado da leitura. Além disso, a rede de contatos dos judeus (que obviamente é formada por outros judeus em outras cidades ou até mesmo outros países) propicia mais oportunidades. E por falar em judeus, existe também a ideia equivocada de que o judeu tem um talento natural para enriquecer, haja vista o grande número de judeus que são ou foram grandes empresários ou comerciantes. Isso também se explica: nos tempos em que a Igreja Católica mandava e desmandava na Europa, as terras só podiam pertencer a cristãos. Aos judeus restavam as cidades – muitas vezes os guetos. Séculos e séculos nas cidades fizeram com que os judeus se especializassem no comércio e paralelamente na gerência da economia doméstica. Quando o eixo econômico saiu do campo para a cidade, na Revolução Industrial, os judeus eram os mais capazes de tirar proveito daquele novo mundo de máquinas. Não surpreende que, vivendo tanto tempo nas cidades, eles aprenderam muito bem como montar um negócio e prosperar. Como se vê, não há nada de superioridade racial, apenas peculiaridades históricas sobre como descobrir e aprimorar habilidades.

Mas nós brasileiros, mesmo não tendo muito recursos e desperdiçando muitos talentos, sabemos muito bem descobri-los e aprimorá-los magnificamente em uma área em especial. Estou falando do futebol. Nossas crianças praticamente já nascem com a bola nos pés, e poucos são os meninos que não têm a oportunidade de disputar algumas partidas de futebol no campinho do bairro. Isso é parte da cultura dos brasileiros, e abre oportunidades – dentre esses meninos, não é raro que pelo menos dois ou três tenham razoável talento com a bola nos pés. E não é difícil encontrar lugar para eles em escolinhas de futebol, que continuam a aprimorar seu talento, como um ourives que lapida uma pedra preciosa. Outro fator que colabora é a valorização do jogador de futebol na sociedade brasileira. Que garoto, mesmo sendo o maior perna-de-pau, nunca sonhou em ser um grande esportista? Não há incentivo maior que esse. Havendo incentivo, oportunidade e aprimoramento, não é de se espantar que nossos campos revelem ano após ano uma quantidade imensa de verdadeiros artistas da bola, que acabam por fazer sucesso em todo o mundo, enchendo as redes de gols e enchendo os olhos daqueles que estão nas arquibancadas de todo o planeta. Agora imagine, leitor, se os mesmos incentivos que por aqui são dados ao futebol fossem dados à literatura, à música, à ciência e a outras tantas áreas? Quantos craques da música, dos poemas e dos desenhos não seriam revelados ano após ano?

Bom, chega de exemplos por enquanto. Voltemos a falar de potencialidade de modo geral. Tente imaginar, caro leitor, quantos grandes escritores, poetas, músicos, pintores, arquitetos, cientistas, filósofos, professores, quantos grandes talentos foram desperdiçados por pertencer a uma “raça inferior” ou a uma família que professava uma religião não aceita. Ou simplesmente por não ter “sangue nobre”. Estes eram quase sempre relegados a trabalhos braçais ou a outros serviços de menor prestígio e que não despertam talento nenhum. Numa época em que a aristocracia mandava, só tinha oportunidade de fato quem nascia no berço certo, tendo os ancestrais certos. E ainda hoje há quem diga que sente orgulho por descender de família nobre – como se o talento e a genialidade dependessem do sangue, e um medíocre de ascendência nobre fosse melhor do que um gênio de família menos tradicional.

Aqueles de sangue azul, com a cor da pele certa ou que professam a religião certa, em sociedades baseadas nesse tipo de preconceito e estratificação, largam em enorme vantagem em relação aos outros – justamente por ser a eles oferecida oportunidade desde cedo. Eles têm a chance de ir à escola, de aprender e ser cultos, de aprimorar seus talentos e, finalmente, são reconhecidos pelos seus pares. Os outros são relegados a funções menos nobres, não recebem os mesmos incentivos, têm menos oportunidades e enfrentam um caminho ainda mais difícil em direção à plena realização de suas potencialidades. E mesmo nos raros casos em que conseguem, a sociedade injusta costuma usar dois pesos e duas medidas, preferindo valorizar mais o trabalho daqueles que têm sangue azul, professam a religião certa ou a cor da pele certa. E por usar dois pesos e duas medidas, deixavam de aproveitar o imenso potencial de nove décimos de seus conterrâneos. Os nobres de outrora olhavam com total desprezo para aqueles camponeses maltrapilhos, sujos, ignorantes e miseráveis das áreas rurais, mas estou certo de que os filhos deles poderiam ter sido iguais ou melhores do que os mais célebres artistas da época, se a eles tivesse sido dada a chance. E o que me deixa mais triste é que ainda hoje pessoas que se julgam “de sangue azul” enxergam outras como pertencentes a uma camada inferior, sem nada que se aproveite.

Obviamente, por “talento” e “genialidade” não se entende apenas habilidade artística ou científica. O grande talento de um indivíduo pode ser a organização, e fazer dele um excelente administrador, por exemplo. Ou a afinidade por peças de automóvel pode fazer dele um grande mecânico. Outro pode se tornar um excelente padeiro. E aqueles que possuem esses talentos podem sim amar o que fazem, mesmo que seu ofício não seja o mais bem-visto pela sociedade. É por essa razão também que defendo que toda profissão tem seu valor, e todo profissional deve ser valorizado de maneira adequada. Se os talentos artísticos ou científicos fossem os únicos e fossem sempre desenvolvidos e explorados, não haveria quem executasse as outras funções na sociedade – e nada funcionaria. Muitos talentos do passado foram perdidos porque essas pessoas acabaram por se encaminhar ao trabalho braçal. Mas nos dias de hoje, em que as máquinas são perfeitamente capazes de substituir o braço humano nas atividades pesadas, não há motivo para que isso se repita. Quando os braços estão livres do trabalho braçal, a mente pode se ocupar de outros assuntos e questões mais nobres. Foi assim que floresceram a Filosofia, o Teatro e outras tantas maravilhas dos gregos. Com os escravos fazendo o serviço pesado, os aristocratas puderam se dedicar ao “ócio produtivo”. Poderíamos pensar: quantos desses escravos não poderiam também ter sido filósofos, dramaturgos, poetas e artistas?

É necessário fazer uma observação importante: uma pessoa pode ter diferentes potenciais, às vezes em áreas as mais diversas. Por essa razão, além de valorização de seu ofício, o indivíduo deve ter algum tempo para o lazer, para poder se dedicar a uma outra atividade, um hobby. E isso é essencial principalmente para aqueles indivíduos que trabalham em áreas que dificilmente poderiam ser chamadas de suas vocações. Mesmo que não tenham tido oportunidade de trabalhar com o que mais gostam ou o que mais podem produzir, é bom que tenham tempo livre para desenvolver pelo menos um pouco de seu potencial. O pai deste que vos escreve, por exemplo, tem um emprego um tanto enfadonho como burocrata, mas nas horas vagas se revela um fissurado em botânica. E há muitos outros bons exemplos conhecidos de pessoas cujos hobbies proporcionam mais satisfação e têm até mesmo mais produtividade do que seus próprios trabalhos. Em alguns casos, não só as próprias pessoas saem beneficiadas por seus hobbies – a ciência pode dar grandes saltos graças a eles. Várias foram as descobertas científicas e invenções feitas nas horas vagas, e cujos autores eram profissionais de atividades completamente diferentes. Se um abastado comerciante holandês de nome Anton van Leeuenhoek não tivesse o costume de preencher suas horas vagas colocando tudo quanto fosse porcaria na frente de uma lente de aumento, ele não teria descoberto o curioso e fascinante mundo dos seres microscópicos. Leeuenhoek, um amador, foi o primeiro a descrever as bactérias, e inclusive em suas anotações é possível ver que ele deu diversos detalhes como a movimentação daquelas pequenas criaturas. E se Gregor Mendel, um monge perdido em um mosteiro da Boêmia, não gostasse de fazer experiências com cultivo de ervilhas entre uma oração e outra, talvez a Genética hoje estivesse muito mais atrasada.

Por essas razões, creio que todo ser humano tem algum potencial. Embora não tenhamos todos as mesmas habilidades, e haja até mesmo algumas pessoas com mais talentos do que outras, nós todos possuímos algo que possa ser aproveitado. Faço apenas uma exceção aos psicopatas ou sociopatas, que por ser biologicamente incapazes de realizar um julgamento moral, não devem viver em sociedade – para o bem de nós outros. Mas ainda não sabemos como um indivíduo se torna psicopata, quais são as influências genéticas ou ambientais, e por isso ainda não podemos dizer se uma criança desenvolverá ou não psicopatia na vida adulta, ou se há possibilidade de recuperação.

Por falar em personalidade, volto a afirmar que todos temos potencial. Nesse caso, tanto para o bem quanto para o mal. Embora traços como a agressividade e a impulsividade tenham forte componente genético (fato que pode ser comprovado até mesmo em ninhadas de animais, em que podemos facilmente distinguir os mais dóceis dos mais agressivos), falar em bondade ou maldade é algo muito mais complexo. Nesse caso, existe um fortíssimo componente ambiental, ou seja, as experiências pelas quais a pessoa passa têm forte influência. O individualismo tem algum componente genético mas, como todo componente genético, ele limita muito mais do que determina. Ninguém nasce predestinado a ser egoísta ou altruísta – a maneira de criar e educar, os valores morais impressos (ou a permissividade e a negligência), os traumas, tudo exerce sua influência de uma maneira, como já disse, tão complexa que é impossível de prever ou controlar com exatidão. Uma família pode, por exemplo, oferecer a uma criança tudo em termos materiais, mas pode deixar de lado o mais importante – carinho e atenção. O espaço da família pode acabar ocupado pelos amigos da rua, que podem ser más companhias e colocá-lo no caminho das drogas ou do crime. Ou, ao contrário, de uma família completamente desestruturada pode sair uma Madre Teresa de Calcutá. Os seres humanos são imprevisíveis! Mas nem por isso devemos deixar de oferecer às crianças tudo aquilo que possa dar a eles mais chance de ser pessoas boas, íntegras e úteis para a sociedade – amor, carinho e atenção, uma boa educação moral, oportunidade de aprender e desenvolver suas habilidades e de ter uma vida saudável e feliz, além de estímulo para querer sempre melhorar e se aperfeiçoar. Ainda que nem sempre funcione e que por muitas vezes faltem alguns desses preciosos componentes, oferecer essa boa base aos filhos deve ser objetivo maior de todas as famílias, e proporcionar as condições para que isso aconteça deve ser prioridade de todos os governos preocupados com o futuro.

Paralelamente a isso, deve ser considerada outra importante influência em nossos dias: a televisão e a publicidade. Como afirmei no texto sobre a publicidade infantil, deixar que a TV substitua os pais ou os amigos pode ter efeitos nefastos para aquelas mentes em formação. Educar de verdade uma criança também inclui, em nossos dias, prestar atenção ao que ela aprende diante da tela da TV. Há certamente muita coisa útil, mas também muita coisa nociva e que pode formar uma personalidade problemática. Como se não bastasse a agressiva e apelativa publicidade infantil e alguns programas de muito mau gosto, há também a questão dos ídolos. As crianças não se espelham apenas nos pais ou nos exemplos mais próximos, mas também naqueles homens e naquelas mulheres de sucesso que elas vêem na televisão – jogadores de futebol, celebridades dos mais diversos tipos... E dependendo de como agem essas pessoas nas quais as crianças se espelham, os resultados naquelas pequenas mentes pode ser devastador. Por exemplo, o comportamento indisciplinado de um jogador de futebol (que muitas vezes é fruto de uma ascensão meteórica sobre uma mente que definitivamente não estava preparada para isso) ou a excentricidade de um pop star pode influenciar negativamente uma geração de crianças. Infelizmente, a supervalorização dessas celebridades não é acompanhada por uma tomada de consciência por parte delas de que elas próprias representam um papel importante nas mentes de tantos meninos e meninas.

E por falar no assunto, de que forma será que devemos tratar os nossos artistas? Nessa categoria incluo apresentadores de televisão, atores, cantores e similares. É certo tratarmos essas pessoas como se fossem semideuses, ganhando salários astronômicos e outros tantos privilégios por onde passam? Será que devem ser tão valorizados como a televisão prega? Ou será que muitos dos que estão “do lado de cá da tela” poderiam fazer igual ou até melhor se tivesse tido a oportunidade que eles tiveram? É por essa razão que creio que nenhuma daquelas celebridades deveria ser superestimada da forma que é em nossos dias. O leitor deve imaginar o desprezo que tenho pelos “artistas da moda” cuja ascensão é tão rápida quanto a queda, e cujo talento aparente é 90% devido à propaganda intensa feita em torno deles. Ou uma estirpe pior: aquelas “celebridades” que não têm absolutamente nada na cabeça nem talento nenhum para absolutamente nada, e que foram alçadas ao estrelato por mero acaso – refiro-me àqueles acéfalos conhecidos como “ex-big brothers” e similares.